A violação fora do Código Penal?

padre

Há qualquer coisa de estranho a passar-se na hierarquia da Igreja Católica de Espanha. Há três dias, o Cardeal António Cañizares disse, em declarações ao canal de televisão TV3 da Catalunha, que os abusos sexuais nas escolas católicas da Irlanda são menos graves que o aborto.

Para se perceber algo mais sobre esta extraordinária, quanto absurda, declaração, há que ter em conta que o Governo de Espanha aprovou recentemente um projecto de liberalização da lei de aborto, que autorizará a interrupção da gravidez até a 14ª semana. A Igreja não gostou.

Ora, chamado a comentar o relatório sobre os crimes de abusos a menores praticados entre os anos 50 e 80 nas escolas católicas irlandesas, crimes que ficarão sem castigo, porque ninguém foi acusado, o cardeal afirmou que esses crimes são menos grave que as “milhões de vidas destruídas” pela prática do aborto.

O Cardeal Cañizares não é um homem qualquer e não é também um ministro católico comum. É padre há mais de 30 anos, bispo há mais de 17 e cardeal há mais de três anos. Um currículo invejável dentro da estrutura religiosa. Em Dezembro passado foi designado Prefeito da Congregação para o Culto Divino e a Disciplina dos Sacramentos, pelo Vaticano. Por norma, declarações com este peso provenientes do topo da hierarquia da Igreja Católica não acontecem por acaso.

Luís Moreira aventava que este raciocínio, que classificou de “perigoso”, é um “benzer o comportamento de sacerdotes que abusam sexualmente de crianças! Relativiza a pedofilia para branquear um comportamento frequente entre o clero, ao mesmo tempo que o aborto (que o clero nunca vai poder fazer) é remetido para a classe dos ‘pecados mortais’!”. Pode muito bem ser.

Acontece que no meio de todo o ruído que o caso provocou no país vizinho surgiu outra questão proveniente da Igreja que me deixou ainda mais intrigado. No mesmo dia, o jornal espanhol “Público” contava que uma revista (distribuída com o jornal ABC) do arcebispado de Madrid, presidido pelo Cardeal António Varela, sugeria que a violação poderia não ser um crime. Num texto assinado pelo redactor-chefe da publicação, Ricardo de la Vega pergunta se “reduzido o sexo a simples entretenimento que sentido faz manter a violação no Código Penal?”. O homem garante que não tem intenções de tratar o assunto com ligeireza mas questiona se não deveria “equiparar-se a outras formas de agressão, como, por exemplo, obrigarmos alguém a divertir-se por uns minutos”. Não contente por esta linha brilhante de pensamento, apenas ao alcance de um crocodilo, o indivíduo continua resplandecente: “Quando se banaliza o sexo, se dissocia da procriação e se desvincula do matrimónio, deixa de ter sentido considerar a violação como um delito penal”.

A besta que escreveu estas linhas não me merece muitos comentários. O seu bestial argumentário muito menos. A minha dúvida é se a hierarquia católica do país vizinho conhecia o teor do artigo. Se não conhecia, o senhor Ricardo de la Vega foi mais papista que o Papa e terá ultrapassado os limites da decência. Se conhecia e o sancionou, a coisa é ainda mais grave.

O poder da Igreja espanhola é enorme e é histórico. Por norma, as altas esferas da Igreja Católica não dão ponto sem nó. É assim em Portugal, será muito mais em Espanha. Por isso, as minhas dúvidas. O que raio se anda a passar no país vizinho?

Comments

  1. Luis Moreira says:

    Espanha atravessa um momento muito crítico, entre uma sociedade que se quer libertar e uma Igreja com um poder imenso.Há duas Espanhas, nesse particular.

  2. dalby says:

    Luís, como conhecedor profundo da sociedade espanhola, pela 1ª vez concordo a 100% contigo..Espanha não é um país mas uma «sociedade de nações SA»!!! O PODER DA IGREJA ESPANHOLA É IMENSO…A NOSSA É UM ANJINHO COMPARADA COM AQUELA!


  3. Há muitas Espanhas. Bem-vistas as coisas o país surge-nos como uma manta de retalhos.

  4. Luis Moreira says:

    A questão é a tentativa de relativizar crimes. Uma violação é um acto de violência não só fisica mas tambem atentatória da dignidade de uma pessoa. Insere-se na mesma lógica da pedófilia versus aborto. Estamos perante a posição que a Igreja sempre quiz para si, ser o juiz da culpa .Foi, aliás, a Igreja católica que introduziu o conceito de culpa.

  5. dalby says:

    E tu luisinho, já experimentaste a culpa de seres tão cruel na questão do casório gay??!!!

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