Disseminação de boatos…

1959bressonpickpocket

Existe um tipo de “notícias” que deixam no ar a dúvida se são boatos, pura invenção para ocupar aquele espaço vago na paginação do jornal ou porque não havia nada para dizer e tem que se dizer alguma coisa:

Correio da Manhã – 26 Maio 2009 – 15h23
Supostamente responsável pelo sector de comunicação internacional da rede terrorista
– Polícia brasileira detém líder da Al-Qaida

A Polícia Federal brasileira informou esta terça-feira a detenção de um alegado membro da alta hierarquia da rede terrorista Al-Qaida, supostamente responsável pelo sector de comunicação internacional da organização terrorista, em São Paulo.
Ainda não foram avançados detalhes da operação sigilosa, resultado de uma acção iniciada há cinco dias, com a participação de agentes do FBI dos Estados Unidos. A Polícia não avançou se o suspeito detido planeava acções terroristas no Brasil.”

Eu interpreto assim: Um desconhecido, alegadamente ligado à Al-qaeda, supostamente um dos líderes, provavelmente responsável pela comunicação do grupo, que não se sabe se ia fazer alguma coisa, foi preso no Brasil com ajuda do FBI, mas não se sabe como. Palmas para o Correio da Manhã. Palmas para as não-notícias. Não entendo isto. Provavelmente esta “notícia” morre aqui, à nascença. Com alguma sorte, daqui por seis meses, corre o boato que o FBI tem o Bin-Laden preso em segredo no Brasil! E nunca ninguém irá perceber como nasceu.

Os boatos sempre me intrigaram. Segundo o Dicionário Koogan Larousse, boato é uma notícia falsa ou uma notícia não confirmada sem origem conhecida que cai em domínio público. Num mundo notoriamente evolucionista que pôs de parte as teorias da geração espontânea, o boato é assim um facto inexplicável. Até certo ponto, diga-se, porque em alguns casos a origem da disseminação de um boato torna-se conhecida. Notei isso há pouco tempo, quando li que o conselheiro de Gordon Brown para a imprensa, se demitiu devido à disseminação de boatos. O ilustre desconhecido Damien McBride fabricou uma série de notícias com sexo, drogas e vídeos, envolvendo o líder dos Conservadores, David Cameron, que teria a imprensa como destino final. Segundo o Expresso, a coisa correu mal, porque o blog Guido Fawkes denunciou a situação quando interceptou os e-mails com os boatos anexados. Os blogs como up-grade ao 4.º Poder! O boato sempre conseguiu ver a luz do dia, mas foi para o sítio errado! Afinal, está sempre alguém atento… é o outro lado do Big Brother…
Admira-me a nossa comunicação social não ter dado grande cobertura a uma situação destas, visto hoje em dia se falar tanto em “campanhas negras” criadas com intuitos políticos, denúncias anónimas, fabrico e manipulação de informação, atraso ou retenção de notícias e afins. O próprio Gabinete da Propaganda do Governo poderia ter aproveitado a oportunidade para vir a público dizer: “Estão a ver? A nós fizeram-nos o mesmo! Eles inventam coisas e mentem sobre o Freeport e outras calúnias, só para nos prejudicarem, mas é tudo falso! É uma cabala montada contra nós!” Bem, já perderam a oportunidade para isso! Deviam estar mais atentos. Ou então não é mesmo nenhuma “campanha negra”! Agora estamos em eleições, por isso há que ser sério e não se deve falar destas coisas. É a chamada altura de tréguas e respeito eleitoral no que respeita a boatos.

Se bem que Vital Moreira criou o boato da criação de um Imposto Europeu. Em que moldes? Vamos pagar mais? Sim? Não? Como é que vai ser? Não se sabe. Quando ele souber, avisa-nos. E Almeida Santos vai até ao Imposto Mundial. Será que já está a ser “criado” um Imposto Mundial? Um Imposto Europeu? Será que isto são só boatos? Gostava era que não existissem tantos boatos…

Os boatos preocupam-me porque são o resultado de más intenções embrulhadas na mais pura falta de informação. A força de um boato resiste precisamente na combinação destes dois factores: (muita) intenção e (pouca) informação. Não contando com o boato de fim-de-rua, que se gera por vezes sem intencionalidade, os boatos “grandes”, os políticos, os da alta-finança ou os empresariais são fabricados obviamente com objectiva intenção de servir um qualquer propósito. Os boatos são o fumo de escape de um motor de manipulação em movimento. A comunicação social como principal meio divulgador da informação tem um papel importantíssimo neste processo. Dando-lhe força, ou enterrando logo ali o assunto. Arrisco afirmar que a quantidade de boatos que circulam na opinião pública são um barómetro para avaliação da qualidade da comunicaçao social e num aspecto mais geral, da própria sociedade. Hoje em dia, tudo se sabe, mas com contornos muito pouco definidos, ou seja, sabe-se muito pouco ou nada. Neste momento, correm imensos boatos em Portugal, a todos os níveis da sociedade, o que me parece ser um sinal muito mau do estado geral do País…

Mas fica a grande dúvida: será mais positivo termos pouca e imprecisa informação ou nenhuma informação?

Comments


  1. É uma excelente questão que fecha uma análise interessante da importância dos boatos na informação (ou contra-informação). Se é certo que na maior parte das vezes os boatos são perniciosos, houve, no passado, situações em que foram importantes para se chegar à notícia. Aliás, os boatos sempre existiram, sempre foram relevantes, mesmo desde o período, por exemplos, dos ‘jornais de parede’.

  2. Luis Moreira says:

    Nos idos dias de brasa do 25 de Abril, boatos fervilhavam. No cerco ao Ralis era que a 7ª esquadra USA estava à porta do tejo…

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