Meta-se na sua vida

Na sala de espera do hospital, o homem agarrava-a pelos cabelos, sacudia-a freneticamente, lançava-a ao chão, e ficava a ver aquele corpo magro deslizar pelo pavimento recém-encerado, até embater na parede ou nas cadeiras de plástico. Depois avançava para ela, passando pelos homens que evitavam cruzar o olhar com o dele, levantava-a, sacudia-a novamente, agarrava-a pelos cabelos, e lançava-a de novo, na direcção contrária. Os homens não disseram nada, baixaram os olhos com vergonha de si mesmo, remexeram-se incomodamente na cadeira, e continuaram em silêncio. As mulheres protestaram, chamaram o segurança, que, por sua vez, chamou o polícia de serviço. O homem olhou-as com ódio, ameaçou-as, levantou a mão para uma, e continuou o seu jogo com aquele corpo semi-inerte. O polícia chegou, avaliou a situação, chamou o homem à parte e disse-lhe em voz branda. “Olhe lá, em sua casa pode fazer o que quiser, mas aqui não. Vai ter de ir lá para fora.” O homem olhou com asco para as mulheres que seguiam a cena com os rostos vermelhos de raiva e impotência, ajeitou o cinto das calças, e gritou ao corpo prostrado no chão “Espero por ti lá fora, ‘tás a ouvir?” e saiu. A rapariga, que não devia ter mais de dezoito anos, levantou-se a custo e uma das mulheres perguntou-lhe: “Por que é que você não o deixa ficar?” O cabelo desgrenhado tapava-lhe parte do rosto e o lábio inferior começava a inchar. A sua voz soou surpreendentemente forte: “Meta-se na sua vida, está bem, minha senhora?” Não quis apresentar queixa, não quis ser assistida, saiu ao fim de meia hora. Sabia que ele a esperava. Não assisti à cena que descrevo e baseio-me nos detalhes contados por quem a viveu. Passou-se na sala de espera no Hospital de São João, no Porto, no último domingo. Muito gostaria de saber quem é este agente da PSP para quem a violência, desde que praticada no espaço doméstico, é legítima.

Comments


  1. Detalhe a mais ou a menos, esta é uma situação infelizmente mais comum do que supomos. São os dramas das misérias humanos e de agentes da PSP que fazem de tudo para evitar chatices.

  2. maria monteiro says:

    È sempre difícil avaliar qual a forma humana e justa de lidar com as situações. Aqui parece que todos pecaram pela negativa… Deve-se sempre ter em conta que, muitas vezes, o “não se meta na minha vida” não é mais do que uma forma de pedir ajuda.

  3. dalby says:

    EU CHAMAVA A JUDICIÁRIA DIZENDO QUE A PSP NAO CUMPRIU O SEU TRABALHO.JÁ O FIZ UMA VEZ! MAIS UMA CANÇÃO DA ALASKA´ Ese Hombre :Ese hombre que tú ves ahíque parece tan galante,tan atento y arrogante,lo conozco como a mí.Ese hombre que tú ves ahíque aparenta ser divino,tan afable y efusivo,sólo sabe hacer sufrir…Es un gran necio,un estúpido engreído,egoísta y caprichoso,un payaso vanidoso,inconsciente y presumido,falso enano rencorosoque no tiene corazón.Lleno de celos,sin razones ni motivos,como el viento, impetuoso,pocas veces cariñoso,inseguro de sí mismo,soportable como amigo,insufrible como amor.Ese hombre que tú ves ahí,que parece tan amable,dadivoso y agradable,lo conozco como a mí.Ese hombre que tú ves ahí,que parece tan segurode pisar bien por el mundo,sólo sabe hacer sufrir. [ Ese Hombre que tu ves ahi…Alaska

  4. dalby says:

    Além de tudo, se fosse tipo «show televisivo» a passar nas tardes de julia ou igual à Alexandra..meio mundo se mexia porque não era em contexto presencial..em contexto presencial..o egoismo de cada um e o nao querer chatices é que predomina..POR ISSO TEMOS A SOCIEDADE QUE TEMOS..EU FODIA-LHE AS BENTAS AO TIPO COM O UTENSILIO MAIS CORTANTE QUE TIVESSE, mas depois dormia que nem um anjo


  5. Se não compreendo a atitude do Polícia, que devia ser alvo de um processo disciplinar, continua a não perceber a atitude de certas mulheres, que se resignam a ter aquela vida e até tratam mal quem as quer ajudar. Algumas começam a levar mesmo enquanto namoram. Outras aguentam anos de pancada, mesmo quando têm independência económica para viverem sozinhas (algumas, conheço eu, são advogadas ou juizas). Deve haver sempre um motivo, eu é que não o compreendo!

  6. luis Moreira says:

    Muitas vezes estas pessoas não têm mais ninguem, e o polícia disse o que disse porque foi um maneira cobarde de não arranjar problemas…

  7. maria monteiro says:

    É verdade que até tratam mal quem as quer ajudar. Mas muitas vezes isso deve-se ao cansaço de já terem passado por muitas pseudo ajudas. Eu colaborei num local onde se distribuía BA. Grande parte das vezes o que aquelas mulheres precisavam não eram exactamente alimentos mas um ajudar a pensar que eram capazes de dizer basta e darem um novo rumo à vida. Pois também grande parte das vezes o que lhes era dado era simplesmente o mais fácil: alimentos. Felizmente que por lá andava a Ir. Maria dos Anjos que conseguia ser o exemplo do fazer bem e juntas muito fizemos. Para ela um beijo porque está gravemente doente em VNGaia.

  8. dalby says:

    LM E MM TODOS SOMOS CULPADOS…NÃO É SOMENTE O POLÍCIA..É FÁCIL CULPAR!! QUEM É QUE JÁ AJUDOU AÍ OS VIZINHOS EM TEMPO DE CHATICE? QUEM SE METEU DAÍ ENTRE PROBLEMAS DE CIGANOS?? AI É??!! NÃO?? ENTÃO MELHOR NEM CRITICARMOS!!!

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