José Ferraz Alves – Empreendedorismo Social no Porto (conclusão)

Outro exemplo de aplicação do empreendedorismo social, já sugerido a propósito da questão da gestão autónoma do aeroporto do Porto, publicado no Semanário Sol em 2009.01.26:

“A Associação de Cidadãos do Porto (ACdP) defendeu hoje que não basta autonomizar a gestão do Aeroporto Sá Carneiro, sendo necessário que as mais-valias obtidas se injectem directamente no tecido económico da região. José Ferraz Alves, economista e membro da ACdP, disse à Lusa que o objectivo é concretizável através de «parceria público-privada auto-regulada», seguindo as teorias de Muhammad Yunus para os negócios sociais. Muhammad Yunus é economista e banqueiro do Bangladesh, fundador do Banco Grameen, impulsionador do micro-crédito e Nobel da Paz em 2006.

De acordo com o modelo proposto, a propriedade e gestão do aeroporto seria privada e das autarquias, mas o seu objecto social não seria a maximização dos seus lucros, antes o desenvolvimento da região, medido por indicadores económicos concretos. Após a recuperação do capital investido pelos accionistas, o aeroporto passaria a ser «a verdadeira fonte de rendimentos para as acções de desenvolvimento da região». José Ferraz Alves disse que o modelo é «perfeitamente exequível» e acrescentou que «o próprio caderno de encargos pode prever que se premeie quem opte por essas soluções inovadoras».

A ACdP entende que estruturas de importância estratégica não podem ser geridas para visar o lucro, mas para injectar as mais-valias obtidas directamente no tecido económico da região. Em gestão autónoma, o aeroporto geraria receitas adicionais na ordem dos 400 milhões de euros, aumentando a competitividade das empresas exportadoras e a criação de 25.000 empregos, segundo estudos de uma empresa de consultoria. «Aplicando os princípios que defendemos, esses valores seriam superiores», acredita a ACdP, para quem o Aeroporto Sá Carneiro deve ser um instrumento estruturante ao serviço do Noroeste Peninsular e de duas das regiões mais deprimidas da Europa». «Não é suposto que seja apenas parte de um negócio lucrativo para quem o explorar a partir de Alcochete», acrescenta.

Junta Metropolitana do Porto, o Conselho Empresarial do Norte e outros agentes do Norte têm reivindicado a separação do Aeroporto Sá Carneiro daANA – Aeroportos e Navegação Aérea, que será alvo de privatização, autonomizando o seu destino do futuro aeroporto de Lisboa e permitindo a sua utilização para potenciar o desenvolvimento da região. – Lusa/SOL”

Enquanto o Empreendedorismo é individual, produz bens e serviços, tem o foco no mercado, a sua medida de desempenho é o lucro e visa satisfazer necessidades dos clientes e ampliar as potencialidades do negócio, o empreendedorismo social é colectivo, produz bens e serviços à comunidade, tem o foco na busca de soluções para os problemas sociais, a sua medida de desempenho é o impacto social e visa respeitar e resgatar as pessoas de situação de risco social e a promovê-las em gerar capital social, inclusão e emancipação social. No médio e longo prazos, esta postura irá influenciar radicalmente a elaboração e execução de projectos sociais, que deverão, cada vez mais, apresentar, como nos negócios empresariais, propostas que demonstrem efectividade, eficiência e eficácia quanto à aplicação dos recursos solicitados, além de apresentar maneiras de aferir os resultados de forma clara e transparente. Que lições se podem extrair?

  • 1. Em primeiro lugar, os empreendedores sociais precisam de criar legitimidade para as suas ideias e abordagens, dado que é preciso uma enorme quantidade de energia para convencer os outros de que as suas propostas transformarão sistemas e práticas injustos e ineficazes.
  • 2. Em segundo lugar, esses empreendedores devem encontrar formas de acesso a líderes políticos, corporativos e filosóficos que abraçarão essas abordagens inovadoras e depois alavancarão os seus contactos de forma a fomentar uma implementação mais ampla.
  • 3. Em terceiro lugar, esses empreendedores também terão de descobrir como atrair capital financeiro, humano e social para apoiar os seus projectos.

Pelo que sugiro a criação a nível autárquico de um Pelouro para o Empreendedorismo Social e de um Fundo de Capital para o Empreendedorismo Social, que junte as fontes de financiamento possíveis (Fundações, Estado, Parcerias Empresariais, Capital de Risco, Business Angels, Doações em dinheiro, em espécie, donativos do IRS e Receitas Próprias dos vários projectos), que responda e seja facilitadora dos projectos isolados e em conjunto que existem e existirão na cidade. Que desenvolva parcerias técnicas com Fundações Internacionais com know-how neste domínio, para fazer o que Bill Drayton e a sua Fundação procuram:

  • – Encontrar os projectos que procuram de forma inovadora resolver problemas sociais e reconhecer o seu mérito.
  • – Em seguida, promover as suas iniciativas, organizando conferências e encontros que juntavam esses empreendedores sociais, ajudando-os a aprender com as experiências mútuas, apoiando-os com pequenas doações, apresentando-os aos doadores, documentando as suas actividades e divulgando os tipos de trabalho desempenhados e respectivas filosofias.
  • – Apoiar a melhor estruturação do seu financiamento e funcionamento sustentável.

Porque não integrar a dimensão social na teoria económica? A generalidade das pessoas preocupa-se com o mundo e com os outros. Os seres humanos têm o desejo instintivo e natural de melhorar a vida dos outros, caso tenham oportunidade. Se pudessem escolher, prefeririam viver num mundo sem pobreza e doença, livre da ignorância e do sofrimento desnecessário. Porque não construir empresas que tenham por objectivo pagar decentemente aos assalariados e melhorar a sua situação social, em vez de fazer com que dirigentes e accionistas se encham de lucros? John Kenneth Galbraith, a propósito da crise de 1928, colocou a desigualdade na distribuição de rendimentos como sendo a sua principal causa. O problema não era o consumo, mas existirem poucos consumidores, o que tornou a economia dependente de um alto nível de investimento ou de um elevado nível de consumo de bens de luxo, ou de uma composição de ambos. O capitalismo moderno tentou resolver o problema através do crédito. Mas, a solução passa necessariamente pela correcção real das desigualdades na distribuição de rendimentos. Numa sociedade onde a riqueza é melhor distribuída, esta circula melhor. Mais vale entregar migalhas a milhões, do que muito a poucos. Para concluir a introdução deste tema, remeto para o texto de Sílvia Mota, no seu Leitura Partilhada e para os comentários aí feitos, do qual transcrevo a seguinte passagem de “As Vinhas da Ira”, de John Steinbeck (1939), Editora Livros do Brasil, tradução de Virgínia Motta:

– Não nos esquecemos de nada? Fizemos, com certeza, tudo o que era possível?
– Aquele tipo lá da cadeia dizia assim: “De qualquer maneira, a gente faz o que pode.” E acrescentava: “A única coisa que nos deve importar é dar sempre um passo em frente, por mais pequeno que ele seja. Se depois, a coisa fizer marcha-atrás, nunca recuará tanto como andou para a frente. É uma coisa que se pode provar, e é por isso que vale a pena agir. Está provado que nada é inútil, mesmo que o pareça.”