Crianças vs. restaurantes

Uma escapadela de fim de semana, a criança já vai quase nos três anos e a gente começa a devanear com um tímida recuperação de uma coisa parecida com uma vida social.

Como uma ida a um restaurante decente, por exemplo. A esperança ilumina-se quando espreitando a carta descobrimos que milagrosamente, entre o creme de espargos, o carpaccio de novilho e o crocante de frutos silvestres existe um inesperado esparguete à bolonhesa. Ah, isto vai agradar-lhe. O restaurante, sendo carote e de aspecto cuidado, tem poucos clientes a esta hora. Tudo parece bem encaminhado.

Conduzem-nos a uma mesa um pouco mais afastada, como aliás é comum quando levamos crianças ainda por civilizar, o que, de resto, os pais agradecem. Uma revista do Ruca até aí escondida é o trunfo que a ferinha não esperava e que parece suficiente para entretê-la.

Há um número alarmante de copos e talheres sobre a mesa que nos fazem lembrar a última experiência num restaurante semelhante em que a ferinha, sonolenta e desesperada com a lentidão da cozinha que nunca mais lhe fazia chegar o leite creme, resolveu usar os pãezinhos de sete cereais como arma de arremesso e os copos de água como alvo. Mas isso foi há uns meses e a ferinha já não faz essas coisas.

A música ambiente é agradável, ainda que um pouco pedante, como parecem ser, aliás, os ocupantes das outras mesas. Esboço uma tentativa de dar início a um diálogo adulto e interessante, agora que a ferinha se mostra contente com a revista. O meu par aceita o desafio e conseguimos, por segundos, sustentar a aparência de que mantemos um diálogo inteligente e adulto. E então ouve-se aquela vozinha, tão melodiosa e, ainda assim, capaz de se fazer ouvir a uma distância de um quilómetro. “Mamã, o Ruca fazeu chichi nas cuecuas”.

O chefe de sala olha com horror para nós, antevendo o desastre, mas todos respiramos de alívio quando constatamos que, de facto, apenas a revista do Ruca, sobre a qual tombou o copo da água, parece ter tido um acidente.

Tem, então, início uma sucessão de desastres de magnitude vária. Talheres que caem ao chão emitindo o máximo ruído possível, guardanapos de linho mergulhados no prato da sopa, arroz saltitante e que se gruda à cobertura aveludada e aparentemente caríssima dos estofos das cadeiras, saleiros avant-garde transformados em carrinhos que se lançam em loucas perseguições pela mesa, a nossa refeição devorada às pressas e à vez para que possamos conter a espiral de destruição que está em marcha.

Finalmente, ante a visão do prato de arroz doce, as tréguas parecem chegar. A cada colherada que leva a boca a ferinha parece tranquilizar-se. Respiramos fundo, os olhares afastam-se por fim de nós. Talvez ainda nos atrevamos a pedir café. Nesse momento de paz, irrompe um som inconfundível, escandalosamente inconfundível.

“Mamã, dei um pum”.

Pedimos a conta e vamos passar a tarde ao parque. A partir de amanhã voltamos à pizzaria.

Comments


  1. Parece-me que nos próximos anos também não me atreverei a ir a um restaurante decente. Pela descrição e pela pequena amostra que já tenho lá em casa.

  2. Luis Moreira says:

    ihihi, a ferinha tem a quem sair…


  3. E eu a pensar que só a minha fazia disto. Pois entre copos partidos, pratos virados com a bolonhesa por ela abaixo e os amigos sem filhos a desaparecer do mapa, restou uma enorme alegria e orgulho a vê-la crescer.Hoje, aos quase 6 anos, já se pode ir a um restaurante decente e levar a mafalda ao Sudoeste (ela adora estas coisas).Por isso, cara Carla, é só esperar mais um pouco. Eles crescem, ehehehe.

  4. dalby says:

    Eu infelizmente sou do género que quero meter as crianças na rua, os pais na prisão e o dono do restaurante na ASAE quando os gritos sao ja insuportaveis….digam-me onde há restôs proibidos a crianças que quero ser o cliente Nª1!!!ETERNAMAENTE!

  5. maria monteiro says:

    As crianças não são o terror que os adultos pintam… é preciso é levá-las, desde pequenas, aos mais variados sítios que elas vão-se habituando e os adultos também….

  6. Snail says:

    Maravilhosa a descrição e deliciosa a história. Não há dúvida que sem crianças assim a vida seria muito mais sensaborona. Parabéns Carla, (pela ferinha e pela história).

  7. dalby says:

    INSISTO..ONDE HÁ RESTAURANTES (COMO JÁ ACONTECE EM PARIS E L.A) ONDE NÃO HÁ NEM CRIANÇAS NEM ADOLESCENTES EM CRISE? EU QUERO IR..E MILHOES COMO EU..O RESTO É CONVERSA…QUEREM FILHOS POIS TOMEM CONTA DELES…É CHATO ESTAR EM CASA E PREFEREM QUE ELES CORRAM E DÊEM LARGAS À ENERGIA..POIS EM CASA OU NA PRAIA!


  8. E restaurante onde não haja histéricas que falam ou escrevem AOS GRITOS??? TAMBÉM QUERO IR!

  9. maria monteiro says:

    então recomendo-lhe o Chez Lapin na Ribeira e o Majestic. Ontem estava cheio de turistas com criancinhas mas tudo com um “volume de som” bem aceitável..

  10. dalby says:

    Oh Maria, será que o nosso grande R’ não confundiu e não quereria ele dizer «histéricos» em vez de «Histéricas»?..Detesto aquele palavreado trixa!!!


  11. Não, queria dizer mesmo histéricas e estava a falar de quem escreve aos gritos.

  12. maria monteiro says:

    histéricas porque se refere às palavras, que embora escritas, também gritam…. é isso R?

  13. dalby says:

    Já viu Maria??!!, isto é mesmo um ARRUFO DOS GIGANTES!! A coisa é grava e está na hora das apaga-fogos …a dupla Maria-Carla….Ele é mau quando quer mesmo!!!


  14. […] pai com uma daquelas manteigas de pacote, e o pai a lembrar-se da Carla Romualdo e do seu «post» Crianças vs. Restaurantes. Salva-se a beleza natural de terras como Óbidos, Peniche ou a orla marítima de Torres Vedras, de […]

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