No Dia do Animal – Os toureiros, esses valentões


São uns valentões, os nossos toureiros. Do alto do seu cavalo, entretêm-se a espetar com afiadas bandarilhas o lombo dos touros. Tonitruante, a multidão aplaude tal acto de coragem e de bravura. Entusiasmado, o toureiro leva mais longe o seu heroísmo e por vezes até chega a cortar orelhas.

É um valentão, o toureiro. É verdade que, antes de entrar na arena, o touro foi transportado sem condições durante dezenas ou centenas de quilómetros; é verdade que foi mantido na escuridão durante horas seguidas e que, ao entrar em cena, a luz fere-lhe o olhar; é verdade que os seus cornos foram cerrados; é verdade que os seus cascos foram limados; é verdade que os seus olhos foram esfregados com vaselina; é verdade que recebeu tranquilizantes.
É verdade que o touro já entra na carnificina meio morto e que só reage devido à dor e sofrimento que lhe foi infligido antes. Mas isso não diminui em nada a coragem do nosso valentão. Do nosso toureiro. Que, teatral, com o seu fato de bailarino, vai empolgando a multidão e agradecendo-lhe os aplausos. Ninguém se apercebe de que o touro já foi massacrado antes. Ninguém compreende que aquela guerra é desleal – é como «bater em mortos», é Estados Unidos contra Iraque, é adulto contra criança, é Golias contra David.
Ninguém não! Quem fez o trabalho sujo dos bastidores sabe-o muito bem! Mas, complacente, aplaude o nosso toureiro como se ele fosse realmente um herói. E o toureiro agradece, fingindo que não sabe o que o outro sabe. Quanto ao touro, é aquele que sabe melhor, mas, por razões óbvias, não o pode dizer.

Claro que, por vezes, o Golias distrai-se, por se julgar invencível; e o David, num último estertor, excede-se. Nessas alturas, é o toureiro a ser espetado, a ser corneado, por vezes em locais do corpo que devem ser bem dolorosos! E o fato de bailarino que protege tão pouco…
Nessas alturas, os touros sentem-se vingados. Estão a sofrer, vão morrer, mas por um momento foram os vencedores. Verdadeiros heróis que devemos aplaudir com todas as nossas forças. Pessoalmente, reconheço-o sem hipocrisias, fico contente quando os toureiros são corneados por trás, violados e feridos no seu orgulho de machos! E ainda por cima no sítio em que o macho nunca admite vir a ser ferido…

A penetração é dolorosa, esse tal de Pedrito que o diga, mas tem uma vantagem: o toureiro, já não tão valentão, fica a saber o que sente o pobre touro de cada vez que é atingido. Nada que o preocupe, como é óbvio. Da próxima vez, há que rectificar os prévios procedimentos: os cascos deverão ser melhor limados, a quantidade de vaselina nos olhos será substancialmente reforçada, o mesmo se fará com os tranquilizantes.

Se todos souberem cumprir o seu papel com profissionalismo, não haverá problemas. E tudo voltará a ser como dantes. Os toureiros serão de novo os nossos valentões. Os nossos heróis. E a ululante multidão, gente sem alma nem coração, irá aplaudir freneticamente. Porque não sabe, nem quer saber, que acabou de assistir a uma luta de Golias contra David; de adulto contra criança; de Estados Unidos contra Iraque. Afinal, «bater em mortos» é tão bom: é vitória assegurada.
Todos são culpados: os algozes que perpetram o crime, as empresas que os patrocinam, os aficionados que lhes pagam e os políticos que nada fazem quando tudo podiam fazer.

Publicado em «O Primeiro de Janeiro» em 9 de Novembro de 2005

Comments

  1. Pisca says:

    Isto de fazer posts sobre o que não se sabe nem sonha depois dá nistoDisparate da primeira à ultima linha, porque é que não fala do crescimento da batata doce nas encostas da Arrábida, era a mesma coisa e podia ser que escapasse


  2. Sobre a tourada não há nada a saber nem a aprender – é um hábito bárbaro e condenável. E não me venham com a aldrabice que é uma tradição nacional (a tourada à portuguesa) – é tão nacional que as lides são acompanhadas por pasodobles e saudadas com olés. E a estúpida terminologia tauromáquica é toda ela espanholada.


  3. Desminta um facto, um só, e conversamos. Antes disso escusa de nos mandar vaselina para os olhos.

  4. Adão Cruz says:

    Belo texto Ricardo para o Dia do Animal. Elucidativo, claro e irrespondível. Acabei de enviar um post para o Aventar sobre Jorge Sampaio. Não me lembrei do caso de Barrancos…que não caía mal no dia de hoje, como mais uma anedota político-cobardola.

  5. Luis Moreira says:

    Leiam os meus lábios. Eu nunca entrei numa praça de touros!


  6. […] a espetar com afiadas bandarilhas o lombo dos touros. Tonitruante, a multidão. fique por dentro clique aqui. Fonte: […]

  7. Ricardo Santos Pinto says:

    Meu caro Pisca,Passando ao lado da sua – como direi? – falta de gentileza, devo dizer-lhe que passei quase dois anos em contacto íntimo com um grupo de forcados amadores da Grande Lisboa e acompanhei-os em todos os momentos – nos inúmeros jantares bem regados, na Tertúlia, nos treinos e até, infelizmente, numa corrida. Por isso, sei bem do que falo e aquilo que denuncio foi-me confirmado diversas vezes por gente do meio. Não será uma prática generalizada (os bons toureiros não precisam), mas é muito comum. Sei bem do que falo – antes não soubesse.

  8. maria matias says:

    Espanta-me como há pessoas que acham lindo, belo, ver um animal a escorrer sangue por mero prazer,por vaidade dos intervenientes….seja um animal de grande porte ou de pequeno tamanho. Sabe-se que a generalidade dos mamíferos sentem a dor e sofrem quando são feridos.Mas por que raio o ser humano do sec xxI insiste nas práticas dos povos ou civilizações de há milénios!!

  9. Jarbas says:

    El torero debe haber pedido la virginidad de la peor manera posible … sin gelatina!

  10. PicaroGolfoPendónZalameroGuarradeOstia says:

    Tiene razón USTED…LA COMI! A LA GELATINA ..ME ENCANTA GELATINA DE TODOS LOS SABORES… COÑO! MARI TRINI DA ESQUINA

  11. ADORO TOURADAS! Viva a tourada viva! says:

    Pisca, não sei porque é que por tradição eles vão achar que você é um homem..Pode ser uma menina..que raio de conexão de que para se gostar de touradas tem de se ser exclusivamente do sexo masculino..há tanta mulher a gostar de tourada.. Pisca, não vale a pena bater no ceguinho..eles pertencem a esse estéreotipo de gente em que só funciona, quando funciona, o racional..é o triplex em todo o seu esplendor: Não à Igreja, Não aos EUA e não às Touradas,…e pedem-lhe que justifique os raciocínios lógico-mentais racionais deles e das suas razões…Pois eu…..EU NÃO TENHO PACHORRRA NENHUMA MESMO… MAS MESMO MAIS NENHUMA PARA ATURAR ESTA QUESTÃO. EU GOSTO DE TOURADAS, EU VOU CONTINUAR A IR A TOURADAS, CÁ E EM MADRID, eu acho de uma nobreza humana , animal e de uma categoria a toda a prova esta tradição e circo, os humanos em luta contra  a simbologia da fera…E ninguém me pode dizer que não sou sensível..essa é a treta e o ‘prejudice’ típico clássico vulgar deja vu … OLHE, SABE O QUE EU TENHO A DIZER AOS GRUPOS DE HISTÉRICOS QUE VÃO PARA A PORTA DAS TOURADAS GRITAR COM MAIS ÓDIO DO QUE AS FERAS QUE SE ABATEM? OLHE DIZIA-LHES QUE FOSSEM TOMAR CONTA DOS DELES, DE VISITAR AMIGOS E AMIGAS AO HOSPITAL, VER SE A MÃE OU O PAI OU O AVÔ SE ESTÁ DE BOA SÁÚDE, SE OS FILHOS, OS NETOS OU OUTROS ESTÃO BEM E NÃO PRECISAM DELES..ODEIOOOOO ESSA GENTE que vai feita histérica para a porta e para as manifs mas deixam a mãe no hospital..NÃO PASSAM DE HIPÓCRITAS! Odeio quando vejo um animal a sofrer, um cão ou outro, e sofro muito mesmo muito com isso, incomoda-me mesmo muito..os animias são sagrados, mas aqui há uma  luta entre homem e animal, e o animal é abatido depois…o animal é forte e na mesma medida que o animal morre o ser humano que o enfrenta também corre o risco..,Hemingway já o sabia, pode sofrer a morte também..podem dizer então que é um jogo bárbaro por isso, e aí entendo, um jogo em que homem e fera ou homem e fera podem morrer (e morrem ambos)mas se os toureiros e outros o querem jogar é a responsabilidade deles…..mas NÃO HÁ PACIÊNCIA PARA O TRIPLEX: «NÃO À IGREJA, NÃO AOS EUA E NÃO À TOURADA…!!» .SABE O QUE EU TENHO A ACRECENTAR AO TRIPLEX?? ISTO…NÃO À IGREJA AOS EUA E Á TOURADA E…E NÃO A ELES! DE VEZ! ZZZZZZZZZZZZZZ.. DALBY 

  12. Jarbas Brasil says:

    Dalby: en primer lugar perdón: perdón por mi mal español, pero la cultura de alguna gente siempre será ofensivo para los demás. Para mí no es nada elegante daño a los animales. Ellos son irracionales. Nosotros somos racionales (no estoy muy seguro de esto después de leer su texto). Usted dice que es una lucha por el poder. Animal x hombre. Sí, pero es una lucha que se inició de forma natural? Es a comenzar! Talvez algún día te espetarão la espalda. Esto le da tiempo a pensar mientras morían lentamente, como el toro.