O Palácio de S. Lourenço

TEXTO DE FRANCISCO LEITE MONTEIRO

 

Em apontamento da correspondente na Madeira, o DN de 28 refere a reivindicação, pelo Presidente do Governo Regional, da entrega da velha Fortaleza, hoje Palácio de São Lourenço, à região, um diferendo que, inexplicavelmente, se arrasta há largos anos, tema sobre o qual – desde pelo menos 2001 – tenho abordado, em particular na imprensa regional madeirense. O atraso do governo central em reconhecer que à Madeira cabe decidir sobre o património regional que, obviamente, continuará parte do património nacional, é uma abstrusidade, como é também, fazer depender a decisão dos militares, espécie de bode expiatório, na velha perspectiva de que com a tropa ninguém se mete, passando como tal o novo ministro da Defesa, Augusto Santos Silva, a ser o “mau da fita”.

 

Efectivamente aos militares quase desde sempre se deve muito do que se não conseguiu fazer através dos tempos. Evocando o livro “Palácio de São Lourenço na Cidade do Funchal” (José Leite Monteiro, 1950) cabe recordar dificuldades dos velhos tempos coloniais, envolvendo a ocupação da ala nascente do palácio pelos militares que, pelo menos, por duas vezes impediu a concretização de obras de valorização. A primeira foi no final do terceiro quartel do século XIX, “porque o Comandante Militar – Coronel Macedo e Couto – a isso se opôs”. Estava em causa a unificação da fachada sul, que sessenta anos mais tarde, viria a ser de novo contemplada mas só parcialmente foi conseguida, obviamente pela incompreensão dos militares.

Os tempos hoje são outros e, como já escrevi, não pode tolerar-se que em pleno século XXI, se continue a impedir a criação de um espaço histórico-cultural, incluindo os Museus da História e das Actividades Económicas da Madeira, bem como um “Centro Cultural” e também a sala de visitas e de convívio das gentes da Madeira e de quantos a visitam e revisitam, nesse padrão memorável que é São Lourenço onde, “dentro das suas muralhas se conserva, material e espiritualmente, a continuidade da sua História”. Publicado também no «Diário de Notícias»

 

Comments

  1. maria monteiro says:

    Madeira Story Centre, na zona “velha” do Funchal, está muito bem concebido e enquadrado no relato da história e cultura da ilha desde as suas origens até aos nossos dias…

  2. Francisco Leite Monteiro says:

    Sem dúvida o Madeira Story Centre é uma notável atracção turística, um tipo de museu interactivo que proporciona uma visão geral da Madeira, mas não substitui o espaço histórico-cultural cuja criação se sugere para o Palácio de São Lourenço onde dentro das suas muralhas, por assim dizer, se escreveu e aí se conserva a sua História de mais de 500 anos.


  3. E o mais engraçado, é que na visita oficial de João Carlos I e de Sofia da Grécia à Madeira, tiveram que ser recebidos num… hotel!

  4. maria monteiro says:

    mas que a fortaleza-palácio de S.Lourenço não se transforme em mais um hotel…. o forte de Santiago, também na zona “velha”, alberga o Museu de Arte Contemporânea e tem um restaurante com vista espectacular….

  5. Francisco Leite Monteiro says:

    Do texto do apontamento em referência, não pode minimamente inferir-se que a alternativa de hotel alguma vez tenha sido equacionada. Quanto ao Museu de Arte Contemporânea que tem, como é óbvio, o seu lugar e a sua razão de existir, é distinto, independente e em nada prejudicando a criação do tal espaço histórico-cultural que se sugere e deverá ser reservado para o Palácio de São Lourenço.