O porta bandeira

Um dia, no velho estádio da Luz, fiquei no terceiro anel no meio da rapaziada do Porto. Gente porreira, o terceiro anel era alto como tudo, rapidamente arranjei por ali umas amizades que isto de gente do norte é tudo mais fácil quando se trata de camaradagem.

 

Como é de bom tom, o grupo de adeptos que tinha descido à capital reunia à volta de uma enorme bandeira do Futebol Clube do Porto, empunhada por um  chefe de família que dava toda a ideia de ser o gajo que nos jogos de futebol de rua jogava onde não havia mais ninguém. E a bandeira era muito  grande, pela conversa era filha da emoção e do entusiasmo do porta-bandeira e com ela nas mãos ninguém via o jogo.

 

Estava pois entregue a bandeira a quem de direito, e vá de gritar alto e cantar que o jogo está a começar. E cá o "mangas" ali estava a equilibrar a alegria, o entusiasmo e as manifestações, pelo que me ía sobrando tempo para apreciar o que se desenrolava ali bem perto de mim, com manifesto interesse para a "postura" (como não se dizia na altura) do nosso porta-bandeira.

 

O homem, mal começado o jogo, começou a dar mostras de não aguentar a bandeira, a princípio ainda pensei que fosse do peso, com o vento a dar-lhe pesava um bocado, mas a situação degradava-se rapidamente, a bandeira cada vez descia mais, e o pobre do homem começou a pedir ajuda aos companheiros, que não, que a não trouxesse, bem o avisaram que transportar uma bandeira daquelas era um frete de não poder mais, e era tão grande que não cabia em lugar nenhum.

 

E o homem cada vez mais aflito, que o árbitro era um ladrão, já sabia que ia ser assim, e os outros a dizerem-lhe, não olhes, se não és capaz não olhes e o homem cada vez mais de esguelha para o jogo, começou a pedir-me para lhe relatar o jogo, onde é que a bola andava, perto da "nossa" área?, com uma ansiedade cada vez maior, e eu a não saber o que fazer, ninguem se mexia, tal era a multidão, não havia por onde fugir, nem lugar havia para deitar a bandeira, queriam lá saber da ansiedade do porta bandeira, que agora já estava segura a quatro mãos, e eu sem saber se seria melhor tornar-me um garboso porta-bandeira ou não conseguir ver o jogo.

 

Optei por ver o jogo, e saber por experiência própria quanto de amor clubístico é preciso para aguentar noventa minutos com uma grande bandeira desfraldada ao vento!

 

PS: Ao Carlos Loures, grande benfiquista, e ao Fernando M Sá, grande portista, um e outro do melhor que há.

Comments


  1. Obrigado, Luís. Não sou um grande benfiquista – pelo menos o BI só regista 1,65.


  2. O BI está enganado, a ser assim o granade benfiquista seria eu, coisa que não sou em nenhum aspecto…


  3. Então, já não és sportinguista? Temos um amigo comum que entre o Benfica e o Sporting, adopta o que de momento estiver mais à frente. Não me digas que segues o exemplo do nosso amigo motard? 

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