Santana Castilho – O estado do país e do ensino

1. Ouvi recentemente Jorge Sampaio apelar e defender uma tese recorrente no discurso de políticos informados e sensatos. Segundo eles e a respectiva tese, em momentos críticos temos que nos concentrar no “essencial”. Este é o vocábulo assassino: “essencial”. No caso em apreço, tratar-se-ia de responder com vigor “à especulação financeira”, que assestou baterias contra a frágil economia portuguesa. No mesmo sentido, sucederam-se comentários e declarações, de plurais procedências, invocativas da “compreensão” e do “bom senso”dos partidos políticos, dos cidadãos e das organizações sindicais. O poder branqueador do que se sugere ser “essencial” (num ambiente carregado de dramatismo como é um cenário de bancarrota) propõe às vítimas de anos longos de erros e tropelias que se aliem incondicionalmente aos respectivos responsáveis porque, “agora”, é “essencial” salvar o povo da bancarrota. É pobre como desígnio nacional. É triste que em 36 anos ainda não tenhamos saído daqui.

2. Li no site oficial da FENPROF:

“… Só por ignorância ou má fé alguém pode afirmar que os sindicatos e, em particular, a FENPROF, não têm feito tudo o que está ao seu alcance para impedir que a avaliação de desempenho seja considerada para efeitos de concurso.

… Na história da democracia portuguesa … têm sido muitos os momentos em que as organizações que lutam pelo futuro e pelos direitos dos cidadãos sofrem os mais variados ataques movidos por pessoas e entidades instrumentalizadas pelo poder político e pelos interesses estabelecidos”.

E li na imprensa esta declaração de Mário Nogueira:

“Vamos deixar de falar com os anjos e falar com Deus … “

Assumamos que os alvos óbvios dos dois primeiros nacos da prosa citada são os críticos do “acordo de princípios”. Substitua-se Deus por Cavaco Silva e imaginemos Isabel e Ventura de asinhas brancas. Obtemos uma certa versão do “essencial” para o ensino. É pobre como desígnio sindical. É triste que, 5 anos volvidos sobre Sócrates, estejamos aqui.

Os sindicatos são constitucionalmente os inquestionáveis representantes dos professores. Têm um papel fundamental e um histórico de luta respeitável. Existem para dar voz aos representados. Sucumbem se procurarem unanimidades burras.

No quadro actual do ensino há visões diferentes sobre as estratégias adequadas à solução dos problemas. É salutar discuti-las. Mas não adianta varrer o óbvio: as seguidas para nos opormos a 5 anos de sistemático ataque aos professores e à escola pública não deram resultados. Tudo o que era essencial mudar, persiste. E os trocos ganhos deixaram o ambiente carregado de facções e o caminho juncado de vítimas. O último concurso tão-só engrossou o cortejo.

Voltamos aos tribunais e lá vamos gritar à porta de Sócrates na segunda-feira, enquanto esperamos que Cavaco (apoiante de Lurdes Rodrigues promovido a Deus) nomeie o assessor que vai registar as queixas contra os anjos.

Era bem melhor atentarmos a que a ditadura caiu quando os subordinados decidiram não obedecer.  

Santana Castilho, in «Escola Informação», do SPGL

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