A Alemanha, a Europa, o Nosso Cantinho e a Xenofobia

Mantendo intacta a amizade, não partilho o tom e a radicalidade do último poste do Carlos  Fonseca, como não partilho  o tom de alguns comentários, um pouco como se fosse delírio ou mentira absoluta o que o poste diz. A Europa está cada vez mais xenófoba.(Como sempre?)

Num mundo desiquilibrado os extremos procuram-se. Geograficamente, os pobres dirigem-se para os ricos e os ricos abastecem-se de matérias primas nos pobres. Mas, num mundo desiquilibrado, os ricos não se abastecem de forma justa e ditam a lei quem tem contra quem não tem para imporem os seus negócios, como sempre foi. E abastecem-se ao preço que determinam daquilo mais precisam. É natural, dirão uns, é imoral, dizem outros.

Acontece (as razões aduzidas e ditas justificativas têm sempre perspectivas diferentes e em oposição) que o mapa da riqueza e da pobreza se encontra muito claramente delineado, apesar de zonas intermédias, e em alguns países ganha-se num ano o que noutros se ganha numa vida.

Ninguém é culpado de ter nascido onde nasceu. Ninguém é obrigado à fatalidade da pobreza extrema. Se, no meu meio, eu não puder proporcionar sobrevivência (já para não falar de vida digna) aos meus, tenho o dever de mudar o meio, de mudar de meio, de fazer o possível. E o possível, muitas vezes, é emigrar, tentar onde o meio pareça mais propício, onde existam mais oportunidades, mesmo sem certezas, nem papéis, nem sucesso.

Já os países ricos, por outro lado, têm o direito de se proteger, é compreensível e pode parecer natural, não fossem os desiquilíbrios por eles introduzidos serem perpetuadores deste status-quo.

A Europa talvez não possa acolher todos os milhões que atrai mas, quando precisa, atrai milhões. Tem o dever de os integrar e respeitar, assim como aos seus hábitos e culturas. O contrário, naturalmente, é igualmente verdade.

Acontece, porém, que neste caso a Europa não existe. A Europa não existe, a Alemanha não existe, a França não existe, Portugal não existe. Existem, isso sim, muitas europas, muitas alemanhas, muitos portugais.  E muitos povos, muitos regionalismos, muitas intolerâncias, muitos racismos. E existe o voto popular, do qual a espinha dorsal dos políticos é quase sempre vítima e que em alturas de insatisfação popular os faz reféns, porque na europa atual os cidadãos não se batem por princípios, mas por conforto.

Os de  este estão contra os de leste, os do norte contra os do sul, os flamengos contra os francófonos, os catalães contra os espanhóis, os católicos contra os protestantes, os da região A contra os da região B, os empregados contra os desempregados e vice-versa. Sempre ouvi algarvios a falarem mal dos transmontanos (como coletivo), lisboetas a desprezarem os portuenses, nortenhos a desancar nos sulistas. E, claro, também o oposto.

Um destes dias, entrei num blogue cujo subtítulo dizia mais ou menos ” os sulistas são chulos, arrivistas e fascistas”. Imagino que haja no sul um blogue que diga o mesmo, mas em sentido contrário. Um nojo, uma tristeza, uma merda. O meu vizinho, branco-moreno, provavelmente descendente de árabes, expulsou a filha de casa porque namora com um preto. Um homem que eu conheço, do Bangladesh, ganha metade e trabalha o dobro do que os colegas, portugueses. A duzentos metros de minha casa há um nigth-club, fala-se em tráfico de mulheres, escravatura, o diabo a sete, os homens, o patrão e os clientes são portugueses.

A xenofobia existe e tem aumentado na Europa, ao contrário do que insinuam alguns comentários . As votações em vários países atestam-no. Convivo com muitos europeus de diversas proveniências e confirmam-mo. A intolerância face ao outro, face à cultura do outro, à cor do outro, ao seu sotaque, ao seu aspeto, tem-se propagado e ganha adeptos.

Num mundo desiquilibrado, isto tem tendência para piorar. Os países fortes são-no cada vez mais, continuando a subjugar os mais fracos (sim, também sei da corrupção, das autocracias, do nepotismo, dos amiguismos, etc.) e a impôr os seus preços e interesses.  Os emigrantes têm tendência para aumentar, assim como as taxas de rejeição. O fosso entre ricos e pobres agiganta-se a cada dia, tal como as diferenças de oportunidades e o desenvolvimento. Enquanto se mantiverem as atuais políticas internacionais não haverá grandes melhorias. É um bom caldo para a xenofobia.

Comments

  1. António Soares says:

    Muito bem dissecada a tua ideia,pena é não termos mais milhões a ver igual…porque o mundo já vai fervendo, no tal caldo que meteram ao lume.

  2. carlos fonseca says:

    Prezado amigo Pedro (não é formalismo, mas incondicionalmente sincero):
    O que tu escreves, no que respeita ao meu ‘post’, entendo-o como crítica salutar e objectiva. O conteúdo do ‘post’ é o alvo e não o autor que, noutras apreciações, é qualificado numa escala de demente até ignorante.
    Bem vistas as coisas, nem estamos tão afastados em termos ideias. Aceito que, por estilo pessoal que me é próprio, sou aquilo a que se convencionou classificar de ‘politicamente incorrecto’. O que, no fundo, nos separa é o estilo e não os conceitos básicos. Ambos, julgo, estamos do lado da fraternidade, da igualdade e da liberdade como objectivos supremos do progressso da civilização humana. Utopia? Provavelmente; mas também a convicção de que vale a pena lutar por um mundo mais justo, em que a tolerância prevaleça sobre a intransigência, a discriminação e a violência em relação a quem é diferente.
    Um forte abraço,

  3. A. Pedro says:

    Nem mais, Carlos.

  4. Nuno Castelo-Branco says:

    Será isto uma “invenção”? É que a imprensa está cheia de “boas novas” destas.

    http://www.telegraph.co.uk/news/uknews/law-and-order/8068839/PICS-AND-PUBLISH-Tower-Hamlets-extremist-vote-poses-Eds-first-big-election-test.html

    … e que tal viver sob este tipo de ordenamento jurídico?
    http://en.wikipedia.org/wiki/Dhimmi

    para melhor compreensão, ora leiam aqui:
    http://wikiislam.net/wiki/Dhimmi

    e isto, também é normal? Querem?
    http://www.thelocal.de/society/20101009-30383.html

    e esta noticiazinha? Olha, olha, pensava que eram só os demónios de Roma!
    http://www.dailymail.co.uk/news/article-1314611/Leading-Libyan-imam-exposed-12-year-old-girl-Bristol-park.html

    Ficamos por aqui. Não me apetece nada levar com uma “fatwa” ditada por um bondoso tipo qualquer.

  5. A. Pedro says:

    Nuno,
    Nada permite concluir que eu apoie o que denuncias. O que eu digo, pelo que exponho é que
    “Os emigrantes têm tendência para aumentar, assim como as taxas de rejeição. ”
    Digo assim, objectivamente, porque não há forma de inverter o processo continuando tudo como está.

    Eu penso – não creio ser utópico ou “lírico” – que a humanidade está condenada (num futuro menos distante do que longínquo) a conviver e respeitar-se mutuamente, até porque só vivemos neste planeta. Não tenho grande ilusão sobre a natureza humana, longe disso, mas, ou exterminamos o adversário ou vivemos com ele, num mundo cada vez mais pequeno e próximo.
    A mesma lei para todos (num país)? Claro, absolutamente, sem hesitações. Respeito pelos costumes locais? Sem dúvida. Respeito pela diferença? O mais possível.

    Não quero entrar na lenga-lenga da vitimização e do coitadinho, mas nós, Europa; andámos 500 anos a europeizar o outro, a fazer com que a “França” do outro ficasse menos “francesa”. Éramos nós lá e não eles cá. O fenómeno inverteu-se, vai para vinte trinta anos (e não 500), mas num mundo bem diferente. Agora já não somos nós lá (tantos de nós) mas continuam a não ser dos de lá as matérias primas e as políticas económicas, com as consequências que se conhecem.

    Esperavas algum resultado diferente do actual?


  6. A. Pedro, pelo que me parece, estamos de acordo. Nada de vitimizações mútuas, pois “nós” também já tivemos os romanos, os visigodos, os mouros, os cruzados do norte, etc. É precisamente por isso, para sempre terminado o ciclo de colonialismos mútuos, que esse mundo pequeno onde temos de viver da melhor maneira que nos for possível, não pode haver lugar para imposições. Há uns séculos, houve quem pretendesse catequizar o Japão, por exemplo. O resultado foi o fechar do país até ao século XIX e o forjar de um permanente sentimento de desconfiança em relação aos outros. O mesmo se aplica a numerosos países africanos, asiáticos, etc.
    O que queria dizer, consiste numa trivialidade: aquilo que durante décadas se combateu na África do Sul – o famoso Aprtheid -, não pode de forma alguma ser reeditado na Europa, ou em qualquer outro lugar. Já bem bastam as leis que diferenciam as gentes na Índia ou nos países ditos árabes, por exemplo. A criação de normas específicas a aplicar a cada credo, são um absurdo e pior ainda, uma porta aberta à total subversão daquilo que entendemos por Europa. Essa Europa que invocamos nos sindicatos, confederações várias, alianças económicas e militares – com a correspondente vertente política das liberdades que nos permitem estar aqui a escrever “tontices” , exposições culturais onde surgem mulheres e homens nus entendidos como arte, etc.
    Simplesmente, não podemos recomeçar com a argumentação retroactiva do “vocês desembarcaram em Ceuta, , depois no Cacheu, depois no Congo e ainda no Cabo, Inhambane, Quíloa, Goa, Malaca” e por aí fora, numa quase inacreditável façanha. É que antes de “nós”, já outros aí tinham entrado precisamente no Cairo, Cartago, Ceuta, Granada e por aí acima. E antes deles outros fizeram o mesmo. Portanto, não se pode aceitar o argumento de agora ser “a nossa vez”. Não. Atingimos um patamar tal, onde apesar de todos os nossos defeitos, arrogância, liberalidade (?) de costumes – o que é isso, senão a livre escolha quanto ao eu? -, igualdade de género e tantos outros aspectos que entram normalmente no nosso quotidiano. A verdade é que o discurso audível de certos grupos que à partida pensávamos ter aqui chegado para usufruir do acima disposto, leva a maioria dos “europeus” – muçulmanos moderados incluídos -, a pensar que afinal, há quem procure estabelecer uma política de de “ilotização” dos autóctones desta grande península – pretensiosamente chamada de continente – que é a Europa. Apenas advirto que a reacção ser´fatal. Fatal para nós, aqueles que prezamos as liberdades e pior ainda, para os instigadores do ultraje. Infelizmente sabemos bem como acabam este tipo de epopeias de conquista, para mais ainda, quando os “europeus” deixaram de crer em destinos pré-determinados por um Além que nada mais é, senão isso: além-qualquer-coisa.

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