a criança velha.Para um estatuto da regressão da vida

nascemos, crescemos,criamos,esquecemos e,finalmente, falecemos

Ensaio de Etnopsicologia da Infância

1 A criança em contexto.

O nosso hábito é falar de criança. É pensar que falamos duma infância que se espalha entre o nascimento e a puberdade. No melhor dos casos. Na forma modelar dos casos baseada nos Códigos Canónico e Civil. Criança, esse ser inocente e exemplo de responsabilidade penal ou civil até aos sete anos ou até aos catorze anos. Conforme a matéria de que trate o seu afazer. Criança inocente por não entender o mundo enquanto forma a sua epistemologia. Criança que não tem memória social,  não conhece o mundo, não tem contacto com a interacção social, nem conhece as hierarquias nem percebe a responsabilidade. Excepto, a sua própria que lhe é incutida pelos adultos, esses que

detêm o chamado uso da razão. A criança pequena, objecto dos meus estudos entre os Portugueses, Galegos e o clã Picunche da Nação Mapuche do Chile, que brinca e corre,  inventa jogos, cresce e cruza pelos ciclos de vida até ser um adulto com todos os desejos e a responsabilidade aprendida enquanto desenvolve o seu julgamento aprendido no brincar e na escola, na interacção com a meninada da rua, da casa ou do pátio. É o seu contexto social que lhe ensina a memória social, essencial para o convívio entre os seus e o mundo que lhe cabe viver ao longo do tempo.

2 A criança velha.

Falarei de uma meninada que não mexe, que não tem imaginário, que é triste? Como se tivesse mais anos dos que os da cronologia do tempo? Bem queria eu falar dessa, porque da criança velha que falo é a do círculo dos ciclos de vida, referidos por especialistas em geriatria com os quais tenho debatido para entender essa viragem da vida. A vida começa em bebé primário e acaba em bebé secundário, dizem-me esses especialistas e diz-me a observação participante feita em terreno europeu ou latino-americano. O ciclo bebé primário é curto e acaba quando o pequeno entra na memória social. O ciclo do bebé secundário, curto também: começa com a perda da memória social, da identidade de si, da identidade dos outros, do sítio onde mora. Não sabe onde está. Não entende as palavras. Confunde as situações. Pensa que o ser que vê é o pai ou a mãe. É um regredir à infância. É um brincar com os símbolos que um dia para ele foram sagrados. É brincar com o terço como colar. É procurar os bonecos dos seus descendentes e cantar-lhes uma canção de embalar. Uma canção sem palavras, um sussurro gentil e sem melodia. Uma alegria permanente que oculta os sentimentos anteriormente vividos, transferidos ao brinquedo que agora lhe fala. O bebé secundário quer o pequeno-almoço à noite e em biberão, o jantar no meio do dia feito papa, foge para os cantos mais obscuros da casa. Gatinha por baixo das camas e come tudo quanto fica perto do seu voraz apetite, da sua eterna fome. Inventa nomes, baptiza os novos amigos, descobre ao seu redor imagens que mais ninguém vê e fala com elas. Às tantas, essa criança velha fica cansada e adormece no chão, ou no canto da cama onde o bebé secundário foi deitado com amor e carinho, para acordar com a cabeça para baixo e os pés por cima da pessoa adulta que o acompanha. Ou, como relata um adulto que tem um bebé secundário, acorda a brincar sentado no peito do mesmo. E chama, chama, chama. Grita sons não perceptíveis para o glossário comum da memória social. Bebés secundários que usam fraldas e as tiram para satisfazer os seus desejos eróticos. Parte da memória genética que o bebé primário traz desde o dia em que nasce; parte da memória interactiva que o bebé secundário deixou ao abandonar, por causa da idade, a memória social. Esfregar genital que os adultos, no dito uso da razão, rejeitam por acreditarem numa ética pouco apropriada para tratar de crianças primárias ou secundárias. Adultos que pensam que o erotismo é pecado e se deve guardar só para a idade da interacção, sem se lembrarem quer da sua infância, quer da sua puberdade, quer ainda, da sua própria maturidade erótica, essa que adora jogar com o prazer que faz a reprodução. Prazer que faz crianças e, assim, faz história. Prazer que nasce connosco e morre quando o corpo é carcaça sem espírito.

A criança velha tem espírito. A criança velha tem ideias do tamanho da sua idade infantil. Ideias que fazem rir os que estão com ela. Esse acordar sufocado pelo peso dessa criança no peito, esse virar dos símbolos rituais do grupo social em brinquedos é um desfazer da tradição que o grupo social consciente, respeita e obedece. Brincadeira engraçada a de convidar todas as pessoas que passam perto da criança velha para beber chá ou jantar e depois dizer: caramba, há tanta gente em casa! O que se vai servir a todos, pessoas visitantes dos outros bebés secundários que compartilham o dia-a-dia da minha criança velha. Criança velha que é docemente acarinhada enquanto está quieta na cama, ou espancada se faz mal ao adulto que perde a paciência pela persistência da brincadeira do, tecnicamente denominado, adulto maior.

Denominação pouco adequada. Denominação que faz acreditar, aos adultos persistentemente referidos neste texto com uso da razão, sentir e pensar que a todo o minuto e a todo o momento esse bebé secundário quer música e alegria, cantos, bater de palmas, não mostrar sentimentos genuínos, inventar a vida. A esquecer esse grandalhão os hábitos anteriores do ciclo de vida da hoje criança bebé que gostava do silêncio, da calma, da paz, do respeito. Conceitos que não orientam à lembrança, mas que ficam nos nossos sentimentos. Porém, brincar só e quando o bebé secundário entra no delírio da sua própria alegria, para assim respeitar o afazer desse agora velho bebé, tal e qual se respeita o bebé, que o grupo social está habituado, o bebé primário.

A criança velha foi um dia um adulto como todos nós, capaz de ler estas notas de campo e de as entender, adulto feito hoje uma criança que faz não entender o seu comportamento. Comportamento que quer calma e cuidado, canções de embalar que repete nas suas próprias ininteligíveis palavras. Amorosas palavras. Adoradas palavras. Queridos sons que a criança velha é ainda capaz de dizer e mostrar que está a viver uma outra vida. Que nos diz que quer respeito para o seu próprio eu. Mesmo que nem saiba o que diz. Ou, mesmo ainda, que os seus adultos não saibam como entender e fiquem cheios de desespero. E batam mais uma vez. Ou, já resignados a ter novamente um bebé maior, saibam deitar-se ao pé dele e acariciá-lo com ternura até adormecerem de cansaço, o adulto que entende a memória social e a criança velha que o seu código genético mandou abandonar. Para tristeza de quem vê e entende. Para desespero de quem tem que estar sempre ao cuidado desse ser que regride no seu ciclo de vida, esgotadas já todas as etapas. Até, um dia, morrer. Ensejo de todos os que estão perto do denominado adulto maior, que eu quis baptizar como bebé secundário ou criança velha, à espera dum melhor entendimento antropológico da sua epistemologia. Como entre nós tinha começado a estudar a nossa querida Antropóloga Susana de Matos Viegas. Como a experiência de Vilas Boas deveria chamar-nos a pesquisar.

3 Amor, paciência, troca.

Quis pôr como título o que o leitor pode apreciar: para um estatuto. Porque todo o ser humano está a precisar, neste século – e lá vão tempos que já precisava – um entendimento do acontecer do fim da vida de todo o ser, que não é a morte imediata, bem como a regressão. O ciclo fecha na regressão à idade da infância. Parece começar em bebé e acabar em bebé e, a seguir, o falecimento.

Mas um bebé adulto acaba por ser surpreendente para todos nós. Nem estamos à espera de um comportamento de bebé na vida de um adulto, habilitado academicamente para o trabalho escolhido. À espera, sempre aprendemos a estar, de que a vida acaba com uma doença súbita, uma doença conhecida e prolongada, ou ainda, numa idade precoce da vida. Hoje em dia, as pessoas vivem muitos mais anos, mas ainda não temos os elementos para sermos capazes de manter todos esses anos com uma consciência adequada à cronologia.

Escrevi estas linhas desde o meu trabalho de campo entre os membros do clã Picunche do Chile. Clã que tem um cerimonial especial para incorporar os mais velhos entre os sábios ou em sítios destinados às almas santas que dizem ter visto seres que no decorrer cumprido do tempo tinham desaparecido, e com eles falavam e deles reproduziam palavras que faz tremer os vizinhos. Mas, classificados entre essas almas divinas, ou almas designadas pelos antropólogos como bruxas, o seu dizer é ouvido e respeitado sem ter que ser obedecido. Tal como outros analistas de grupos sociais têm observado a longevidade, o silêncio ou a raiva que o acompanha, como sinais do contributo que esse ser deu à sociedade e que, pelo cansaço acumulado ao longo de muitos anos de vida, merece respeito e bom acolhimento.

Para entender estes factos, comparei-os com pessoas do ocidente cristão, especificamente católico, que acreditam na ressurreição da alma e do corpo, ou seja, na imortalidade simbolizada no credo central das ideias. Percebi que nesse credo tinham-se juntado duas atitudes: a das pessoas que ajudam com orações, turnos de cuidado, missa, comunhão e solicitude amorosa para entreter o bebé regressiva e, no oposto, a das pessoas que vivem de tomar conta do bebé secundário da forma mais adequada a ele próprio: construir um lar, gerir esse lar, investir imenso capital para lucrar com a continuação da vida da pessoa que está a morrer um pouco cada dia, socialmente abandonada da memória dos outros. Observei pessoas a serem ressuscitadas com choques eléctricos, arrebitadas para além das suas forças, gastas no seu ciclo de criança, gastas na família, gastas para viver. O adulto que regressa a bebé, sente, sofre e manifesta a sua dor nos seus gritos. Não é casualidade, é dor, é mesmo dor dum corpo que sabe sem saber porquê. Assim, a criança velha, é mal tratada, mesmo essa mulher doce, senhora e serena que fui capaz de observar com os seus olhos enevoados, cansados, de boca aberta, incapaz já de brincar. Como brincam os seres regressivos sem darem por isso.

Fica assim, um começo para um estatuto do adulto maior, tantos como eles são hoje em dia e tantos que vamos ser em breve: a troca da dor final pelo viver mais um minuto numa vida pensada imortal. Por amor aos que tenho visto, por carinho a mim próprio, ao meu futuro e à minha vida, dedico a minha atenção de antropólogo especialista em crianças à infância que nasce, à infância velha, nas suas respectivas cronologias. Para nos salvarmos da troca comercial que de nós fazem, especialmente os descendentes aterrorizados de ver feito bebé o seu adulto maior, esse que um dia os fez e os soube criar com amor. E para entendermos o actual ciclo de vida e saibamos, em casa, tomar conta da criança velha. Especialistas em família somos nós, os que em família sabemos viver: a cronologia do grupo mudou e o seu comportamento também. Hoje há crianças bebés e crianças velhas. Saibamos agir, especialmente em lares onde há pequenada nova, para se integrarem na heterogénea realidade da vida.

Fonte: os cuidados dedicados à minha Senhora Mãe na sua cumprida agonia e aos seus companheiros de hospital detêm o chamado uso da razão.

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