Isabel Allende Llona, afamada escritora chilena

para que os meus netos britânicos e neerlandeses saibam a nossa origem por parte da mãe

Isabel Allende Llona (Lima, 2 de Agosto de 1942) é uma jornalista e escritora chilena (apesar de ter nascido em Lima, sua família logo voltou para o Chile, sua terra natal) actualmente radicada nos Estados Unidos da América.

Filha de Tomás Allende, funcionário diplomático e primo irmão de Salvador Allende, e de Francisca Llona. Isabel é considerada uma das principais revelações da literatura latino-americana da década de 1980. Sua obra é marcada pela ditadura no Chile, implantada com o golpe militar que em 1973 derrubou o governo do primo de seu pai, o presidente Salvador Allende (1908-1973).

Não é por ser Allende que refiro esta escritora, nem por ser chilena, essas nacionalidades de ser ou não ser. Como a minha: tenho acumulado tantas, como os países que tenho vivido. Como é evidente, não há ponto de comparação. Eu sou escritor, mas escrevo livros científicos, que vou amenizando com histórias de vida dos meus analisados. Isabel faz ao contrário: organiza a trama do seu romance e, a seguir, procura as provas. Como fez com o seu primeiro livro. Foi escrito en terras estrangeiras, no Peru. Em nesse livro, ou no meu

imaginário, narra esta ideia:  La pequeña y modesta flor “no me olvides” tiene cinco pétalos y su centro pareciera un pentagrama resplandeciente de colores blanco y amarillo; generalmente es azul claro o blanco y crece en grupos, dado que sus semillas pequeñitas son dispersadas por el viento en los terrenos grandes. En el significado de las flores, la flor No Me Olvides, simboliza a la amistad y al amante eterno. É em verdade, uma flor para não esquecer nem permitir o esquecimento da sua origem. Tenho guardado a citação em Castelhano, por me ter sido relatada em Castelhano. É a flor que Isabel Allende usa para ornamentar, com palavras, os seus livros. Especialmente esse primeiro, que a catapultou à realidade, a uma realidade desconhecida, por não ter morado no Peru, mas desta vez de forma diferente: não era a filha de um diplomata, era uma exilada como centenas de nós. Exilados com médios de subsistência, mas exilados, com todo, proibidos de pisar a nossa terra e ver a nossa família, que eram do bando do nosso Presidente, seu tio, Salvador Allende.

Isabel Allende, como muitos de nós, teve que confrontar uma vida cheia de surpresas, formas diferentes de falar com histórias comuns nos países de América Latina, antigas colónias da monarquia espanhola, histórias tão semelhantes, que era-nos impossível morar no Novo Continente: todo igual, mas, ao mesmo tempo, todo diferente, como relata no seu livro de 2006, editado por Difel, Barcelona, livro intitulado Inés del Alma Mia. Folga dizer que há uma versão portuguesa, também da Difel, mesmo ano, diferente título por causa das traduções: Inês da Minha Alma. Livro que narra as formas brutais e selvagens como o Chile foi conquistado, exterminados os seus nativos, encarcerados, feitos escravos dos pouco espanhóis que colonizaram à, hoje, República do Chile.

É impossível negar que os livros de Isabel Allende não sejam livros de história. De história documentada e provada com documentos de historiadores que ela costuma ler e consultar, como em Inés del Alma Mia, um curta mais eloquente forma de agradecer aos especialistas que lhe ajudaram a saber histórias, nesse tempo, pouco conhecidas por ela, como é o caso da História dos Mapuche, muito nomeados mas jamais pesquisados, excepto por poucos. É Malú Sierra quem ajuda à Historia da Nação Mapuche, mal conhecida por Isabel Allende. Acrescenta que para escrever este livro, foi-lhe preciso quatro anos de investigação e de leituras. Com os dados na mão, urde a trama do romance, que acaba por ser um livro que, ainda de imensas páginas, quase 400, uma pessoa não consegue parar de ler com um entusiasmo que, após dois dias, sentimos tristeza pela narrativa ter sido acabada. Especialmente, por se tratar da história de uma mulher aguerrida que aprende a ler e escrever e aprende com o seu marido, o assistente de Pedro de Valdivia, Francisco Rodrigo de Quiroga. Se não fosse pela colaboração do seu aristocrata marido, estas crónicas não teriam sido escritas. Para o seu exercício, escrevia todos os dias num diário de vida, que é a fonte de muitos historiadores e da escritora, para saber dias e datas certa da colonização do Chile. Manuscrito guardado na Biblioteca Nacional do Chile.

Mas não é apenas do Chile que fala. Referir Isabel Allende é uma batalha por causa de ser imensa a literatura por ela produzida, quer como resultado de investigação, quer como resultado do seu imaginário, como os livros sobre Eva Luna de 1987 e 1989, mesma editora. A sua causa é as mulheres, as defende como as heroínas que são na vida, sejam prostitutas, como Eva Luna e Inés de Suárez, e Eva Sommers em Hija de la Fortuna, 1999, sejam Senhoras, como no seu primeiro livro, La Casa de los Espíritus, 1982, Plaza y Janés, como todos os seus livros, excepto Mi País Inventado de 2003, Arreté, Barcelona. Se a sua causa é as mulheres, é evidente que toma a defesa de todas elas, como é o caso da sua filha Paula, em 1994. Escreve o livro Paula enquanto a sua filha morre de doença de porfiria, inconsciente como estava, mas com essa esperança de mãe de ver a sua filha de jovens vinte anos, casada recentemente, em estado inconsciente e vai-lhe falando enquanto ela morre. Os apontamentos que fizera enquanto estava ao pé da sua filha a morrer, pensava ela que seriam os apontamentos de um livro para lhe oferecer. Infelizmente, a filha não resiste à doença e o livro tem este fim: “Adiós, Paula, Mujer. Bienvenida, Paula, Espíritu”. Faz do livro uma história de família e sem tristeza nem vergonha nenhuma o publica em 1994.

A sua causa, referia antes, é as mulheres. Pelas atrocidades cometidas no Chile, escreve um livro de esperança: De Amor y de Sombras, 1984, texto no qual narra as atrocidades cometidas no Chile nos anos de ditadura, como é encontrado por jornalistas uma cova onde há prisioneiros desaparecidos mortos, descoberta feita pelos transes que tinha Evangelina Ranquileo, quem no seu delírio, delata aos assassinos, todo Santiago aparece en Paine, sítio dos acontecimentos, 150 quilómetros ao Sul de Santiago. Mal sabem os filhos de um casal espanhol, exilados da guerra civil de Espanha, deste achado, eles, que escondiam e protegiam aos perseguidos pela feroz justiça do ditador, correm ao sítio, alertam à imprensa e a população e o milagre acontece: havia mais sítios para enterrar aos contrários à ditadura. O fim é triste, é uma acusação de Isabel Allende ao poder que a exilo, livro que é uma defesa de todos nós, A heroína da história é Irene Beltrán, quem, nas suas pesquisas, conhece a Francisco Leal, um dos filhos dos espanhóis, namoram-se, são perseguidos para serem mortos, mas conseguem escapar. Casam e com passaporte falsos obtidos pelo irmão sacerdote, José Leal que, como o seu irmão Francisco, tinham ajudado a fugir a imensos perseguidos.

É um livro directo a esse plano infinito, frase que retiro do título de outro livro de Isabel Allende: El Plan Infinito de 1991, outro dos poucos livros não editados por Plaza e Janés, mas sim pela Editorial Sudamericana, Buenos Aires e dedicado ao seu marido William C Gordon, quem toma conta do seu necessário silêncio para escrever. Este livro trata das aventuras de Gregory Reeves na guerra do Vietname, do racismo e do mundo competitivo que lhe coube viver. Guardo este texto como um tesouro por ter sido dedicado a mim, com a assinatura de Isabel.

Parece que não, mas Isabel Allende abre uma luta encarniçada contra a Ditadura do Chile.

O seu primeiro livro de 1982: La casa de los espíritus, é uma luta sem quartel contra os assassínios do Chile. É reflectido na batalha de uma família da aristocracia chilena, dividida, como todas, entre um pró Allende e um pró ditadura. O livro, comentado por mim em outros textos neste sítio de debate, reflecte o convencimento de que no Chile se mata e persegue quando o Senador do Partido Conservador, partido de direita, pai de família, vê desaparecerem aos seus rebentos, todos eles, por serem adictos aos socialistas e ao Presidente. O seu desespero de Trueba chega ao cúmulo e vai mando-o quando a sua única neta é sequestrada, violada, torturada, e ele tem que a resgatar usando a ajuda de uma antiga prostituta que anos antes ele visitava, e que tinha tanto dinheiro e hierarquia social, após de muitos anos passados, que não tem outra alternativa que solicitar a sua colaboração, a neta é encontrada, casa com o guerrilheiro que ama, e com a colaboração do Senador Trueba, convertido já às ideias de que no Chile se mata e se assassina, se rouba e se exila, dá todos os meios possíveis para que Alba Trueba a sua amada neta, possa fugir do país com o seu amante o guerrilheiro Miguel. O livro está relatado por Alba, com a ajuda do seu Avô que até o dia da sua morte, aos noventa anos, foi capaz de guardar a memória intacta.

Restabelecida a democracia no Chile, Alba e Miguel tornam ao Chile e Alba escreve este livro.

É evidente que o sonho de todo exilado é o do retorno. No foi o caso. Isabel sonhou com essa volta, no livro que acabo de comentar. Entre história, fantasia muito castiça do Chile e a realidade, como essa dos homens baterem nas mulheres, Isabel Allende tem reconstruído um Chile especial que nem dormir permite a nós, exilados ainda, nos assalta. Isabel Allende, estou certo, serás a próxima Prémio Nobel do Chile. A sua forma de narrativa cativa ao leitor, impingindo em ele um saber da República, que nunca antes se tinha pensado…

(continua com outro escritor chileno)

Comments

  1. graça dias says:

    uma escritora, que promete ser lida.

    • Raul Iturra says:

      Cara Graça Dias, agradeço a sua simpatia e paciência para ler os meus textos. Recomendo começar ou pela Casa dos Espíritos ou por Inês da Minha Alma. Obrigado. Um bom ano para si
      Raul Iturra
      lautaro@netcabo.pt

  2. graça dias says:

    Nao é paciênca. Só se lê o que é agradavel. obrigada pela recomendação da leitura. Bom Ano

  3. william says:

    Sempre ouvi falar muito s/ Isabel Allende, como forte divulgadora da cultura e dificuldades do Chile. Em julho de 2010 fique uma semana em Santiago, conhecendo vários lugares em os quais o “Palacio de La Moneda”, apesar do centro cultura do palácio estar fechado p/ o público em virtude dos terremotos no início daquele ano, presenciei a troca da guarda. Me parece que a obra “La casa de los espíritus” relata bem a sofrida história do Chile e a familia Allende, gostaria de um dia ler a obra “Paula”. Viva a nossa cultura latina.

  4. Lêda Borges says:

    A mais completa e envolvente esritora latino americana do momento. Grandiosa, envolvente, emocionante e sempre forte. Alianhavando sempre seus personagens com a escuridão da ditadura militar nessa parte tão linda do planeta azul, Isabel Allende provoca todas as emoções que possamos ter.
    Tanto em “Casa dos Espíritos”, “Paula”, “Ines de Minha Alma”, e por último, ” O Caderno de Maya”. Sempre a mesma paixão.
    Gostaria muito de fazer contato com a própria escritora, se possível.

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