escritores chilenos – mi Gabriela Mistral

a poetisa a receber o Prémio Nobeldo Rei Sueco Gustavo Adolfo

Gabriela Mistral, 1954, ano em que a conheci, Valparaíso, Chile 

O título tem razão de ser, porque a conheci quando eu era pequeno e, desde logo, a admirei. Conhecia a sua poesia, romântica e combativa. Gabriela Mistral[1] era a leitura obrigatória da minha mãe, que gostava mais de ler que de comer. Essa devoção levou-me em curto espaço de tempo a ler a poetisa. Mal se conhecia a sua obra no Chile, apenas os Sonetos da Morte, escritos em 1914, poema com que ganhara os Jogos Florais de Santiago. Não se apresentou a receber o prémio. Tinha escrito esses versos em memória do seu grande amor, Romélio Ureta, homem fino, com quem namorou, abandonando o seu prometido Alfredo Videla, ambos maestros na escola La Cantera, da cidade de Vicuña. Gabriela Mistral era maestra de crianças e foi sobre elas que começou a escrever.

Não esqueço esse soneto que faz pensar, sentir e chorar, publicado originalmente no seu livro Ternura, de 1922, página 278, intitulado Piececitos:

PIECECITOS 

Piececitos de niño,  azulosos de frío,   

¡cómo os ven y no os cubren, ¡Dios mío! 

¡Piececitos heridos por los guijarros todos,

ultrajados de nieves y lodos! 

El hombre ciego ignora que por donde pasáis,

una flor de luz viva dejáis;

que allí donde ponéis la plantita sangrante,

el nardo nace más fragante.

Sed, puesto que marcháis por los caminos rectos,

heroicos como sois perfectos. 

Piececitos de niño, dos joyitas sufrientes,

¡cómo pasan sin veros las gentes! [1]                 

Embora reclamasse não ser uma mulher política, os seus poemas demonstram, rapidamente, a sua luta contra a injustiça e a desigualdade social. Assim como o seu apoio ao Partido Radical do Chile, fundado em 1858 pelos aristocratas dedicados à melhoria de vida dos mais desprezados e pobres do Chile[2].

Como sabemos, Gabriela Mistral nasce em Vicuña, Vale do Elqui, localizado no norte do Chile, contudo, em breve, passam a morar na aldeia de Botafogo, en la villa de La Unión, onde o pai ensina. Mas, irrequieto, passados três anos, abandona a família, que regressa a Vicuña e passa a viver com a avó materna. Em 1909 morre o pai vítima de excessos alcoólicos e de falta de alimentos. Gabriela, maestra em Antofagasta, soube dessa morte somente em 1911. A sua própria mãe falece em 1929 e Lucila fica entregue à sua sorte.

 Quando mais nova, corria a voz de ser retardada mental, de não saber ler nem escrever e não entender a realidade. No entanto, a sua mãe a defendia e acabou o último ano do Liceu em Vicuña acompanhada pela mãe e a sua amiga, a Directora, Dona Emelinda.

Se Lucila parecia tonta, havia um motivo de que pouco se fala, apenas Volodia, o seu biógrafo e meu amigo, refere o facto na página 22 do seu livro referido na nota 1. Lucila foi uma criança abusada, foi violada, não se sabe por quem. Da mesma forma que nunca permitia que se falasse mal do seu pai, também nunca contou esta história, excepto ao seu amigo e escritor notável, César Vallejo. Volodia encontrou, na sua pesquisa, a carta e com toda a delicadeza relata o crime tão delicado, que é preciso ler duas ou três vezes essa página 22 e saber como era a vida dos pobres e das meninas abandonadas tal como a vida rural de sítios mesquinhos como Monte Grande.

No Liceu houve um roubo, Lucila foi o bode expiatório: a escola inteira, no pátio, julgou-a e acusou-a de ladra. Anos mais tarde, já muito conhecida, perguntarem-lhe se se lembrava da Yaya, essa Directora….Com voz dura e sem um gesto, abriu a boca apenas para dizer Eu nunca esqueço nada

O seu refúgio foi os livros, desde os latino-americanos até Chekov, que muito a impressionara. Era austera, vestia sempre igual, teve o namoro com o jovem antes referido, Alfredo Videla Pineda, que sabia cantar, dançar e tocar piano, era o príncipe azul desta gata borralheira. Mas a sua pobreza não lhe permitia pagar os estudos na Escola Normal Superior e teve de ensinar como assistente numerária, muda de escola todos os anos, percorreu todo o Chile até ao dia em que encontrou dois professores que fizeram mudar a sua vida. Um, o grande amor da sua vida, Romélio Ureta, que se suicida e a deixa só. Foi em sua honra que escreveu Os Sonetos da Morte. Nada se sabe deste amor, não há provas dos seus amores, excepto um cartão com o nome no seu casaco. Conheceu-o nos tempos em que os dois eram docentes em La Cantera. Grande debate se gera em torno desta questão: foi ou não o grande e único amor da sua vida. Ela própria, passados anos, já graduada como professora, após assistir aos convites do Governo Mexicano, diz: essa história é parte da fantasia sobre a minha pessoa. Porquê, porém os versos, porquê esse nicho gelado, porquê estar classificado no seu livro Desolación, página 82, entre os versos da dor?

Há outras explicações que uma dezena de biógrafos como Alone, Anderson ou Imbert colocam. Para estes, a realidade passa por Romélio Ureta e Verdugo ser da aristocracia chilena, sobrinho neto de José Miguel Carrera y Verdugo, Libertador do Chile da Coroa Española. Lucila era pobre. É aos seus vinte e cinco anos que fica só para sempre, dedicada unicamente aos seus livros, à sua fama e à carreira de diplomata. Porque esse segundo homem que colaborara na sua vida, foi o Presidente Radical do Chile, Pedro Aguirre Cerda. Professor Primário, estudou Direito à noite e abriu um escritório na cidade de Los Andes, Centro Norte do Chile, limítrofe com a Argentina, quando a conheceu disse-lhe: Sou Senador, em breve vou ser Presidente da República, serás, pois, a minha representante no México, em Itália, em França…E assim foi. Don Pedro faleceu antes, em 1939, Gabriela procurou refúgio na cidade Brasileira de Brasília, como consulesa. Em 1945, nosso tio direito, Higínio Gonzáles Nolle, irmão do pai da mãe das minhas filhas, recebeu um telegrama anunciando à Embaixada do Chile no Brasil, que Gabriela Mistral tinha sido honrada com o prémio Nobel de Literatura. O tio, que tinha partilhado com ela a Embaixada chilena em Lisboa, sabia as medidas da poetisa: arrotou, e disse: a quem outro se não a mim? E continuou a beber a sua mistela, água com um dedo de vinho e açúcar, um dos dois vícios a que se permitia. O outro, era fumar até 4 maços de tabaco por dia.

Recebeu o prémio, ninguém sabia nada dela no Chile. O Presidente da República Carlos Ibáñez del Campo, por cortesia convidou-a ao Chile, ela aceitou e foi adiando a sua visita até 1955. Tinha eu catorze anos. Ela não falava, eu também não. O Presidente era calado, pelo que iniciei uma conversa sobre a sua obra e confessei como chorava eu com os seus Piececitos, ela sorriu e fez-me um comentário: filho, se gostas de poesia, não é apenas ler-me, é também escrever como eu faço, mas de forma diferente, à tua maneira…E parece que assim foi.

Por ser um estudante com louvores na minha classe, escola privada de padres, voltei a sair com ela e andámos os dois sós a pé pela baixa de Valparaíso. Vimos o mar, não falámos, a sua grandeza para mim era alta como para abrir a boca. Passadas as duas horas combinadas, levei-a de volta ao Paço do Governo Local, deu-me dois beijos, apertou a minha mão e esse sorriso da imagem do texto, apareceu na sua cara.

Porém a minha Gabriela Mistral.

No dia do meu aniversário, anos volvidos, fui ao cinema para comemorar os meus 16 anos e vi a Gabriela Mistral vestida a rigor, com o fato preto do prémio, esticada e sem vida, com as suas mãos cruzadas, olhos fechados, prestes a partir, como todo o chileno distinto volta ao Chile: com os pés em frente. O mistral, esse vento do Mediterrâneo ia-nos trazer de volta a Lucila Godoy Alcayaga, com os seus 69 anos bem trabalhados. Confesso que fiz luto. Calei durante uma semana…Mas, essas poucas horas, desde ser apresentado até ao passeis, ao todo 48, viverão para sempre comigo….como a sua poesia…Tala e Chile


[1] Retirado do livro Gabriela Mistral. Poesias completas, Editorial Andrés Bello, Santiago de Chile.

[2] O Partido Radical, partido chileno criado em 1863 por elementos da ala extrema do Partido Liberal, foi fundado oficialmente como partido político em 1888.  Fez parte da Alianza Liberal, da  Frente Popular, da Unidad Popular e, nos últimos anos, da Concertación de Partidos por la Democracia. Foi membro da Internacional Socialista. O seu fundador, em 1858, Manuel António Mattta, viu-se obrigado ao exílio por ser defensor das ideias de Gracchus Babeuf, autor do Manifesto dos Plebeus , escrito em 1795, impulsionador da Revolução Francesa e que deu aço para o de 1796 de Sylvain Marèchai e O Manifesto dos Iguais, dos quais a baronesa Joana von Westphalen, casada com Kart Heinrich Pembroke Marx, e Friedrich Engels, retiram ideias para o Manifesto Comunista de 1848, redigido todo ele, com pontos e vírgulas, pela baronesa prussiana. Em 1994 funde-se com o Partido Social Democracia de Chile, dando origem ao Partido Radical Social Demócrata, que se considera herdeiro da história e da tradição do radicalismo chileno.

Fonte: Sepúlveda R., Julio. 1993. Los radicales ante la história. Editorial Andrés Bello, Santiago de Chile

Comments

  1. graça dias says:

    Prof a vida de Gabriela Mistral ( que não conhecia), nao foi facil ? a sua história é igual a de muitas meninas pobres de todo o mundo, Gabriela M ainda foi amada, libertou-se, e viveu.
    Obrigada, por mais uma homenagem as mulheres.


    • Cara Graça Dias,
      a estas horas da manhã se um Domingo de madrugada – comecei a escrever às 7, a melhor hora para um escritor que precisa silêncio e que todos durmam. No vou agradecer mais as suas pacientes leituras, começam a ser naturais e se não há nada, significa que fiz mal o texto.
      Luicila Godoy Alcayaga era de uma família pobre como os ratos e muito solitária, acusada de ladra por engano, o que marcou a sua vida. Apenas os pobres sentem a vida como ela a sentiu. A mãe faleceu quando era muita nova e Lucila, pequena. O pai fugiu, como está relatado no texto, ela o resgatou mais tarde e o salvou de uma morte dura. Amou dois jovens de famílias distintas: nos povos pequenos do Chile não havia grande diferença de classe social. O amor da sua vida no foi esse prometido colega Videla, foi Romélio Ureta, docente ele também. Era uma leitora incansável: não tinha amigos e escondia-se nos livros, de autores distantes como Chejov, melhor. Era uma mulher política e defendia às mulheres, em parceria com a D. Juanita, a mulher de Pedro Aguirre Cerda, mais tarde Presidente do Chile. Foram eles as que enviaram fora do Chile: era já conhecida no México, na Itália e outros países. Há um ditado no Chile: quem torna à Pátria, na Pátria morre. Ela foi-se embora e nunca mais voltou, excepto para comemorar, dez anos mais tarde, o seu Prémio Nobel. Era arrogante, mal criada e orgulhosa. No dia que o nosso tio Higínio González Nolle, como adido cultural da Embaixada no Brasil foi-lhe anunciar o Prémio, ela nem sorriu: apenas comentou ” a quem outro, se não a mim”.Foi preciso imprimir os seus livros a correr no Chile ninguém a conhecia. Era maternal e foi professora de Neftalí Reyes, ou Pablo Neruda. Adoptou uma criança no Brasil, que como o seu idolatrado Uretra. Matou-se também na sua puberdade nunca recuperou e sempre morou só, excepto com a sua Secretária, das que se dizia que eram lésbicas. Mas no Chile fala-se de tanta cosa, e nenhuma é verdade. A lenda da imagem, ficou de uma outra imagem anterior, que mudei se me lembrar da data. Parecia-me que a sua melhor foto é da recepção do prémio. Era calada, intelectual, dura, mas com as crianças e adolescentes, era uma mãe: a prova sou eu…indigitado pela nossa família pela Presidência para a passear e falar, ela nada dizia. A quis imenso e chorei a sua perca. A seguir, acabei estudos, exerci a minha profissão desses tempos, Advogado, passei em Cambridge para Doutor em psicanálise, casei, saí eu do Chile e nunca mais voltei…graças a Deus! Saudades? Imensas. Cura: leituras, escritas, solidão, falar com os netos anglo-anglo e neerladeses

  2. graça dias says:

    prof nao tem nada que agradecer.
    leio apenas o que me agrada e com prazer.

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