doença e conjugalidade

marido doente, mulher só, conjugalidade traida

A minha surpresa foi dupla. A primeira, a de conhecer duas pessoas em relação de conjugalidade entre elas. Por outras palavras, pessoa casada com outra, também designadas consortes e esposos. Foi a minha primeira surpresa. As pessoas hoje em dia não casam, vivem juntas e ninguém critica por causa do inumerável número de amancebamentos ou namoros, sejam heterossexual, homossexual ou lésbico.

Parece-me evidente que não vou dizer como a minha mãe e as suas irmãs: que escândalo! Não te juntes a eles – sempre o masculino primeiro… O amancebamento da geração delas e parte da minha, era um escândalo. Para os seres que acreditam em divindades, o escândalo é ainda maior. Há relações de conjugalidade pré estabelecidas desde a infância para evitar o amancebamento, como entre os Hindus da Índia, a casta dos Brâmanes do mesmo país, os Curdos do Irão e do Iraque, a par de outros sítios mais afastados da nossa civilização, como os Tallensi do actual Gana, os Massim da Oceânia ou os Baruya da Nova Guiné. O matrimónio foi sempre um problema: existe ou não existe, se existe, é a meias no caso do amancebamento, em que nenhum tem os benefícios que são outorgados ao outro, como a segurança social, poupança, herança ou mesmo o nome dos descendentes que deste facto resultam. No entanto, a avalanche de amancebamentos foi tão alta na minha geração, que em 1991 Karol Wojtila, como Papa da Igreja Romana João Paulo II e os Popes das Ortodoxas Russa e Grega, tiveram que aceitar que, passado um certo número de anos, cinco entre as três referidas, as pessoas amancebadas eram consideradas casadas como em sacramento ou o ritual sagrado como define Durkheim em 1892 e em 1912. Há outras crenças que não aceitam a passagem sacramental, como os Koptos do Egipto e os Arménios do Sinai, por serem grupos pequenos que custodiam os sítios sagrados para os que têm fé, como os Koptos o que resta do templo de Salomão e os Arménios, a chamada Arca da Aliança entre Deus e Moisés, descrita na Bíblia como o objecto em que as tábuas dos Dez mandamentos teriam sido guardadas, veículo de comunicação entre Deus e o seu povo escolhido. Foi objecto de veneração entre os hebreus até ao seu desaparecimento, que segundo especulações, ocorreu na conquista de Jerusalém por Nabucodonosor. Segundo o livro de II Machabeus, o profeta Jeremias foi o responsável por escondê-la. Nos anos 50 do Século passado, foi reencontrada no Sinai e é guardada como um tesouro.

É desta Arca da aliança entre a divindade e o povo hebreu, que nasce a ideia e o ritual do casamento. O ritual é simples: são as promessas que um homem e uma mulher fazem de tomar conta um do outro, em formas diferentes, ele trabalha, ela procria, mas como o homem é também parte da procriação, a mulher é, assim, parte do trabalho, como se encontra definido no Tora, livro sagrado dos Israelitas, do qual nasceu a Bíblia. A passagem do tempo e as promessas contraídas, são obrigatórias para o casal, com ou sem sacramento. Se o marido está doente, cabe à mulher tomar conta dele, o contrário também acontece. Não há pior felonia que o abandono de uma mulher do homem que amou, por este estar doente, como foi o caso do meu amigo Hawking Stephen quando adoeceu de esclerose múltipla, mas sábio como era, soube descobrir como funcionava o firmamento daí resultando a sua teoria dos buracos negros, paralelamente criou artefactos para se exprimir e comunicar com os outros. Foi meu companheiro de mesa em Cambridge, UK, ao longo de mais de uma década. A sua enfermeira passou a ser a sua nova mulher e soube cuidá-lo, vesti-lo, alimentá-lo, cabendo-lhe, também, dadas as condições físicas de Stephen, a arrumação da sua papelada, entre outros serviços. Foi uma mulher fiel. Foi uma mulher amante. Foi uma mulher dedicada. Uso o verbo no passado para afirmar o amor e porque Steve nos deixou no ano transacto. Até esse dia, e ao longo de trinta anos, foi uma mulher devota à causa do seu marido e à sua saúde. Muito diferente do caso que me surpreendeu, o de duas pessoas que moram perto de mim: o marido no hospital, doente de AVC, a mulher não o acompanha, está…com um amigo, motivo de escândalo para mim. Situação oposta à de Stephen, a de estes namorados, a quem condeno profundamente. Sem mais palavras. Serei como um juiz ou uma divindade a proferir um veredicto? Não é essa a minha intenção, é apenas entender como a libido e não a razão, manda no corpo e na ética de cada pessoa. Essa foi a minha surpresa. Um senhor que não encontrava o homem que amava, mal viu um leito vazio de uma mulher, entre sim ou não, saltou para a cama do casal, enquanto o marido doente agoniza só na cama de um hospital.

Para acabar, essa minha surpresa dupla, é o facto de quem ama homens, procurar refúgio nos braços de uma mulher que o alimenta, o acarinha e satisfaz uma libido que virou do avesso: é a vantagem de ser alimentado e cuidado por quem devia estar com o doente, só e a morrer como está…

Este meu ensaio é duro? Bem sei que é. A ética tem os seus limites, especialmente para os que vivem de outros e não querem trabalhar para ganhar o seu sustento, o marido é enganado e abandonado, facto intolerável para mim. É assim que não consigo calar e critico. Quem nos dera mais Hawkings…

A conjugalidade parece existir apenas em tempos em que a pessoa amada está bem. Nós, doentes, ficamos abandonados, não temos utilidade social, excepto para os que reconhecem os nossos esforços e para a mulher amada…que toma conta de nós. Esta seria uma definição de conjugalidade…

Comments

  1. pedro roxo martins says:

    caro professor Raul Iturra

    encontrei por acaso o seu blog e fiquei satisfeito por anos depois saborear o seu discurso. além de seu ex-aluno sou católico e cada vez mais anti-regime actual, mas continuo a reler entre outros “a religião como teoria da reprodução social”. Desejo-lhe as melhoras e um ano de 2011 cheio de realizações.

  2. Raul Iturra says:

    Meu Caro Pedro,
    É assim! Fico contente com o seu entendimento do meu texto e a paciência para o ler. Agradeço as suas palavras, continuo muito activo como sempre e agradeço o seu apoio a minha actividade, especialmente à escrita!
    Abraço
    Raúl Iturra
    lautaro@netcabo.pt

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