Davos serve-se fria e o Magreb a ferver

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Davos, estância de neve suíça, é outra vez cenário do Fórum Económico Mundial. O acesso de contestatários às proximidades do local é interdito. Um militar de arma alçada é a força dissuasora. Há que proteger banqueiros, empresários e políticos. O ambiente de serena reflexão é imprescindível. Permite a crueldade da continuidade e, de resto, Davos serve-se fria.

Os homens das finanças e dos negócios, em Davos, não dispensam a  participação de políticos. Além de outros, compareceram Merkel, a proprietária do euro, Sarkozy, o presidente mais cabotino da história republicana francesa, e Cameron, um PM britânico gentil e sorridente, ainda que longínquo da capacidade de Blair, no número de sorrisos por segundo. De realçar que Merkel, Sarkozy e Cameron comungam de ideais do neoliberalismo e do nefasto modelo de globalização que arrasa a vida a milhões de seres humanos.  Porém, existe outro fenómeno comum entre eles,  o desemprego; Alemanha, França e Grã-Bretanha orbitam à volta de idêntico número de desempregados:  4.000.000 em cada país. Ainda agora, Sarkozy viu agravar-se a taxa do desemprego. É a Europa no fulgor da desgraça.

Um pouco mais abaixo, atravessando o Mediterrânio, o frio de Davos dá lugar a um Magreb a ferver. A Tunísia deu o mote e o ex-presidente, agora rebaptizado de Ben Ali(Baba) e os quarenta ladrões, teve de fugir, para a Arábia Saudita, das hordas em fúria. Entretanto, deixou para trás 100 mortos, a vida política e social tunisina em turbulência e complexas contas por saldar. No vizinho do lado, a Argélia, o povo também se agita e ocorreram imolações. O partido dominante há anos, a FLN, e o tirano presidente Bouteflika, com recurso a poderosa máquina militar e policial, têm logrado mitigar as manifestações contra o desemprego e a miséria entre a juventude; até quando? Em Marrocos, conquanto sem notícias de grandes convulsões, o Rei tem sofrido de sonos desassossegados.

Deixámos propositadamente para destaque o cenário de maiores manifestações magrebinas do momento, o Egipto. O presidente de há trinta anos, Hosni Mubarak, conforme a imagem acima documenta, já deu ordens para a polícia e equipamentos avançarem com força para o terreno, no Suez, no Cairo e em Alexandria. Todavia, as massas populares prosseguem a luta, contando-se já 4 mortos, perto de uma centena de feridos e cerca de 500 detidos. Provavelmente, Mubarak será forçado a abrigar-se no ninho que acolheu o congénere tunisino.

Davos, uma localidade, e o Magreb, uma vasta área geográfica, sempre viveram sob temperaturas climatéricas díspares. No tocante ao clima social e político, os factores de diferenciação são ainda mais acentuados – e não fiquemos apenas por capítulos de ordem religiosa. Em contraste com uma Europa envelhecida, todo o Magreb se caracteriza demograficamente pela existência de população jovem numerosa (mais de 30% em certos países). As suas energias de protesto contra a desigualdade social libertam-se quase à velocidade da luz. É o que sucede naquelas paragens, enquanto a Europa, velhinha e triste, cá vai caminhando com uns intermitentes safanões gregos.  

Comments


  1. Os oligarcas egípcios já suspeitavam destas comoções, em 21 de Janeiro:

    [Tradução automática do Árabe de muito má quanlidade!] The workers were shipping on the plane heading to Amsterdam, the Netherlands were surprised to tear bags under the 59 parcels containing large quantities of gold and foreign currencies worth tens of millions were reported to officials.

    Mas também nos devemos perguntar, porque motivos estão todos estes países a revoltar-se, justamente agora? – Será que tiveram ao mesmo tempo um desejo assolapado de liberdade? Ou há um factor comum catalisador de tudo isto?

    Ao que tudo indica, a resposta é-nos dada pela insuspeita FAO, que alerta para os preços elevados da comida (sim comida!) a nível mundial. – Aquele problema que houve com o açúcar há uns tempos talvez não tenha sido coincidência.

    Muitas das revoltas no Magreb e não só (lembrar da Albânia, por exemplo) são devidas exactamente à situação insustentável que as populações atravessam. O dinheiro dado de borla ao sistema financeiro afinal parece que está a ter efeitos inflacionistas, ou seja está a encontrar o seu caminho até às economias e está a fazer estragos. Isto aliado às quebras de produção do ano passado, dá este resultado.

    Ou seja, as políticas de salvar todos os corruptos bancos estão a arrasar o mercado das commodities e estão a matar pessoas. Nada que tire o sono ao Sr. Jean-Claude Trichet ou ao Sr. Ben “Helicopter” Bernanke. Isto mostra claramente que não vamos sair deste buraco imprimindo dinheiro, como muitos querem fazer crer.

    Edição: A data do artigo citado mais acima estava errada.

  2. Verdoca says:

    «..Porém, existe outro fenómeno comum entre eles, o desemprego; Alemanha, França e Grã-Bretanha orbitam à volta de idêntico número de desempregados: 4.000.000 em cada país.»

    Nº de Deempregados (Dez 2010)
    Allemagne (incluant l’ancienne RDA à partir de 1991) 2.873.000
    France 2.839.000
    Royaume-Uni 2.457.000

    (source: Eurostat)

    Há que ser rigorosos!

    • carlos fonseca says:

      Helder, absolutamente de acordo. Apenas me permitiria acrescentar que os países emergentes, em particular a China, servem à medida o modelo bolsista de transacções espectulativas do petróleo e de “commodities” como trigo, soja, arroz, açucar, milho e outras – além de mp’s, como o cobre e outros metais. O incremento dos níveis de procura provocou fortes aumentos de preços.
      As sociedades do Magreb, à semelhança de Portugal no Estado Novo, têm seguido políticas de subvenção dos bens essenciais que, nas condições actuais, são difíceis de manter. Por sua vez, as oligarquias que as dirigem são constítuídas por famílias de corruptos, com fortunas alojadas em bancos estrangeiros. Tudo isto, associado à dimensão demográfica de uma juventude sem trabalho, nem esperança, e em alguns casos com fome, explica em grande parte também as convulsões sociais no Magreb.

    • carlos fonseca says:

      Tem a certeza de que os números da Eurostat cobrem todos os desempregados?
      A maior parte do desemprego jovem na Grã-Bretanha, 1.000.000, não está incluído nas estatísticas que cita. Como, de resto, anunciava The Guardian no início desta semana. O mesmo sucede relativamente a França e a Alemanha. Poderá ler-se o Le Monde de ontem e fazer uma pesquisa sobre o aumento de 85.000 desempregos na Alemanha em Dezembro de 2010.
      O Eurostat reproduz os números que entidades nacionais de cada país lhe indica. No caso português, a fonte é o INE. Acha que existem apenas o n.º de desempregados que este último divulga? E os jovens à procura do 1.º emprego?
      A direita neoliberal, causadora da crise, aceita com muita dificuldade a realidade, quando estão em causa os políticos da sua área. Investigue-se, por exemplo, o nível de pobreza na Grã-Bretanha, já agravados pelo Sr. David Cameron. Nunca fora tão baixo desde os anos 60 do século passado. E, no entanto, continuam a salvar a banca.

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