Verdades privadas, mentiras públicas

A cidadão Barbara Wong tem o legítimo direito de ter um filho num colégio privado sustentado pelo estado, e de estar contra as medidas do governo que a colocam perante a questão de o colocar numa escola pública. Afirmá-lo e defender os colégios privados no seu blogue também não me parece incorrecto, antes pelo contrário.

Já a jornalista Barbara Wong quando escreve no Público de hoje isto

A tutela não vai ceder às pressões  – hoje duas dezenas de escolas serão fechadas pelos pais na região de Coimbra –, e mantém que os colégios que não assinarem as adendas aos contratos não serão financiados.
Até ontem, 57 já tinham firmado. Faltam 36. Todos são financiados para oferecer educação gratuita aos alunos de determinada região, onde não existe oferta pública.

(o sublinhado é meu) sabe que está a mentir. O mapa  da rede escolar pública e privada que publiquei ontem demonstra como isso não é verdade em Coimbra cidade, e na esmagadora maioria dos colégios de Coimbra distrito, acrescento. Estas escolas concorrem com a rede pública a quem roubam descaradamente alunos, numa das piores “parcerias público-privadas” que temos. Na maior parte dos casos nunca fizeram falta: muito simplesmente responsáveis locais pela educação, onde sobressai a viúva de Mota Pinto foram privatizando o ensino, dando chorudos lucros a empresários tipicamente portugueses: à sombra do estado é que estão bem.

É indigno, e digo-o na qualidade de leitor do Público. Na qualidade de professor já nem digo nada, mas artigos como este aqui criticado vão-se entendendo melhor.

Comments


  1. A jornalista Bárbara Wong não está a mentir porque o Ministério da Educação (ME) assinou e mantém os contratos de associação com as 93 escolas, as de Coimbra incluidas, porque não existe oferta pública. É essa a génese dos contratos de associação: oferta pública em escolas particulares em regiões onde não existe escola pública. A jornalista já escreveu, há anos, sobre as queixas do SPRC/Fenprof sobre esses mesmos colégios, a que o ME nunca deu resposta. Portanto, oficialmente, para o ME essas escolas são precisas. Não é a jornalista que vai dizer que essas escolas não são precisas.
    A jornalista Bárbara Wong escreveu na edição de hoje que há colégios com contratos de associação com direcções que custam meio milhão de euros por ano; ontem escreveu que o financiamento aumentou nos últimos cinco anos e o número de turmas diminuiu. Não me parece que a jornalista esteja a fazer tão mau trabalho.
    A cidadã Bárbara Wong tem os filhos num colégio que não tem contrato de associação. Daqui a dois anos, a cidadã Bárbara Wong já poderá dizer que tem descendentes na escola pública e aí será muito melhor jornalista (se ainda houver jornalismo)! BW

  2. Ricardo Santos Pinto says:

    Por acaso a jornalista Barbara Wong mente quando diz que «todos [os contratos de associação] são financiados para oferecer educação gratuita aos alunos de determinada região, onde não existe oferta pública» – concedo que seja por desconhecimento. Dou-lhe apenas mais um exemplo que abordarei ainda hoje no Aventar: o Colégio Paulo VI, em plena cidade de Gondomar. Tem contrato de associação e, em seu redor, tem a Escola Secundária de Gondomar, a EB 2 3 de Gondomar, a EB 2 3 de Fânzeres, a EB 2 3 de S. Pedro da Cova, a Secundária de S. Pedro da Cova, a E B 2 3 de Rio Tinto, a E B 2 3 de Rio Tinto n.º 2, a SEcundária de Rio Tinto, a E B 2 3 de Baguim, a E B 2 3 de Valbom, a Secundária de Valbom, todas a menos de 1 km e todas com vagas – quer mais oferta do que esta?


  3. Facto um: em Coimbra, que é o exemplo referido por mim, as escolas públicas estão sublotadas, e as privadas são subsidiadas, e agora protestam.
    Facto dois: um artigo de Trocado da Mata no Público pode não ser oficial, mas é oficioso. Cometei-o aqui http://www.aventar.eu/2010/12/04/hoje-nasceram-galinhas-com-dentes/
    Facto três: à medida que se vai sabendo mais sobre as escolas privadas e subsidiadas em Portugal ainda se pode manter a afirmação de “onde não existe oferta pública”? Poder pode, para meia-dúzia, e para quem não queira ver as evidência.
    Hoje no Público também continua a manter esta mentira: “Segundo a OCDE, um aluno do ensino público custa 5200 euros/ano. Com base no OE para este ano, o ME diz que custa 3752 euros e que fica mais barato.” Tantas vezes já foi desmentida pelo Ministério da Educação que oficial não é de certeza absoluta.
    E saiba Barbara Wong que em tempos fui jornalista. Sucede que, entre outras coisas, percebi a minha incapacidade em ser isento e cumprir a deontologia quando escrevia sobre assuntos que me são caros. Sempre me fugia o teclado da máquina de escrever para onde não devia. É uma as razões porque prefiro ser um professorzeco.


  4. mas a OCDE não diz, com base em números dados pelo ME, que o custo por aluno é de 5200? Diz. E o ME não diz que, com base no OE para este ano o custo do aluno é de 3752? Diz. Portanto não minto. Entendam que não me cabe a mim dizer que estas escolas não oferecem um ensino público e gratuito porque o oferecem efectivamente. Somos nós que estamos a pagar essa duplicação de oferta? Sim, somos. Mas enquanto a rede não for revista, enquanto esses contratos não forem cancelados eu não posso dizer que esses colégios não oferecem ensino público e gratuito, em zonas onde não existe oferta porque é isso que está na base dos contratos. Se o fizesse não estaria a fazer jornalismo mas opinião. E eu não tenho filhos em colégios com contratos de associação, nem sobrinhos, nem afilhados, nem nada.
    E JJC, não é porque não conseguia cumprir a deontologia que mais ninguém consegue! BW

  5. Ricardo Santos Pinto says:

    Barbara Wong, gostava que respondesse ao meu comentário. Como é que pode dizer que o Colégio Paulo VI, em Gondomar, cumpre o critério de oferecer «ensino público e gratuito em zonas onde não existe oferta»?

  6. filipe mateus says:

    “Facto um: em Coimbra, que é o exemplo referido por mim, as escolas públicas estão sublotadas, e as privadas são subsidiadas, e agora protestam.” PORQUE SERÁ? está na hora de privatizar a escola pública em vez de nacionalizar a privada!


  7. Ricardo Santos, graças ao seu repto estou a escrever sobre essa escola para amanhã. Obrigada. Não posso responder porque só posso basear-me em factos e estes são que o Estado assinou um contrato com essa escola com base na necessidade de suprir faltas que haviam na região. Hoje já não há? Cabe ao Estado corrigir essa situação. Quando o fizer, eu escreverei: O Ministério da Educação cessou o contrato de associação com o colégio Paulo VI porque existem escolas públicas suficientes e com vagas para acolher todos os alunos de Gondomar. BW

  8. Bruno casimiro says:

    o caso da escola de gondomar é paradigmático. Os alunos e seus pais, quando não encontram resposta na escola com contrato de associação preferem deslocar-se para uma escola publica no porto, deixando as de gondomar às moscas.

    Porque será??

    A maneira como o ensino público com contrato de associação é aqui tratado é vergonhosa. Vergonhosa porque é sectária e ideológica, e esse sim é o problema de fundo.

    Se o problema é económico/financeiro, porque não fornece o ME os dados relativos ao custo de aluno (incluindo parque escolar,despesas para a segurança social, etc…)

    Se o problema é a qualidade olhemos para os resultados das escolas da mesma área… E não me venham com o argumento da escolha de alunos, que isso é proibido pelas regras do contrato de associação. A única escolha que se verifica é quando a procura de alunos dentro da área educativa da escola ultrapassa a a oferta, e isso também acontece no público estatal…. Já que falam tanto do caso de coimbra, seria interessante perceber porque duas escolas secundárias que distam algumas centenas de metros (dona maria e avelar brotero) têm resultados no ensino regular tão díspares.

    Com ouvi já alguém dizer, as escolas que devem fechar devem ser as más escolas, aquelas que prestam um mau serviço, aquelas em que os pais se recusam a confiar os seus filhos, independentemente de serem estatais ou privadas.


  9. Saiba Bruno que já me rendi aos vossos argumentos. Subscrevo o meu colega Ricardo Santos Pinto:

    Quero pagar para ver a nova realidade sócio-económica das escolas públicas e privadas e, se possível, num lugar de primeira fila. Onde poderei ver os putos do Bairro do Aleixo ou de Miragaia, no Porto, a entrarem pelo Colégio de Nossa Senhora do Rosário adentro, cumprimentando com educação as freiras e os padres; os miúdos do Ingote ou do Bairro da Rosa, em Coimbra, a invadirem de forma muito ordeira o Colégio Rainha Santa; a chavalada de Chelas e do Bairro da Quinta do Mocho, em Lisboa, a ocuparem os melhores lugares do Colégio de S. João de Brito.
    Mas há uma condição: as escolas privadas não poderão escolher os alunos, terão de aceitar tudo o que lhes calhar em sorte.
    Acreditem, vai ser divertido… e o melhor que podiam fazer à Escola Pública.

    http://www.aventar.eu/2011/01/29/pela-liberdade-de-escolher-a-escola-dos-nossos-filhos/

  10. Bruno casimiro says:

    mais uma vez desconhecimento. No contexto social de coimbra há um trabalho de integração fundamental das comunidades mais pobres da periferia da cidade. Não tem sentido um aluno do bairro do ingote frequentar uma escola da cidade, o que seria contrário aos requisitos da leique o enquadram na escola da sua área de referência, e surpresa das surpresas, esse papel foi confiado pela drec ao instituto lordemão, que, como é reconhecido por todos, realiza um um trabalho essencial nessa comunidade. Já para não falar nos inúmeros casos de alunos com NEE, cujos enc. de educação em conjunto com a DREC tentam colocar preferencialmente em escolas com contrato de associação. Porque será?

    Nas escolas da periferia a taxa de alunos enquadrados na ASE ultrapassa os 50%…

    É esta a realidade, longe da propaganda e das ideias pré-concebidas.


    • Desconhecimento? o seu: não faz parte dos critérios de selecção de alunos do CRSI, por exemplo e esses são públicos e já os referi no Aventar, a zona de residência. Aposto que há nos colégios do centro da cidade alunos que vivem muito mais longe que o Ingote, mas em vivendas. Além de que a lei permite a matrícula, até numa escola pública, baseada no local de trabalho dos pais, por razões discutíveis mas óbvias.
      Não há alunos do Bairro da Rosa nos colégios, mas há nos Institutos, pois há, mas não devia haver quando temos a D. Dinis às moscas. Se a DREC manda os alunos com NEE para o institutos devia era ter um quadro de professores especializados nas públicas. Entregar isso aos comerciantes do Lordemão é mais um exemplo dos favores aos privados que a DREC (a Direcção Regional com mais contratos de associação) foi fazendo desde a década de 80. Isso é que é uma vergonha, finalmente vinda ao de cima, depois de gastos milhares de euros ao longo de mais de 20 anos para enriquecimento de proprietários e directores.

  11. Bruno casimiro says:

    mas olhe, porque será que os pais preferem colocar os alunos fora dessas escola… Serão os pais estúpidos? Serão aliciados?

    E já agora, quantos alunos dos bairros sociais de coimbra frequentam o dona maria? porque será?

    eu não defendo escolas que seguem o modelo do rainha santa, mas no sistema estatal temos escolas que fazem o mesmo.

    É uma questão de fornecimento de um serviço, cujos utentes, em igualdade de circunstâncias, dão preferência a estas escolas.

    O seu argumanetário é o pior que a nossa classe tem. Há escolas boas e más em todo o lado. Há profissionais competentes em ambos os lados.
    É esta a questão de escolha. Liberdade dos EE escolherem. será que há escolas do público com medo desta escolha?


  12. Os pais escolhem as privadas porque não querem os filhos misturados com os miúdos do Ingote e do Bairro da Rosa.
    Tão simples como isto. Em Coimbra ninguém discute a qualidade do ensino, toda a gente sabe que é superior nas públicas, querem é fugir das más companhias.
    Os professores dos colégios, com 27, 28 aulas por semana podem ser muito competentes mas nem tempo têm para preparar aulas em condições.
    O que está em causa é isso: o direito de alguns pais meterem os filhos onde querem, longe dos filhos dos outros. Eu também quero os outros no privado, já que assim é. Depois vamos ver no que resulta, e se vai repetir-se o que sucedeu em França, onde a liberdade de escolha encheu as escolas bem afamadas, esvaziou as outras, e como consequência as boas passaram a más e vice-versa.

  13. Casimiro19 says:

    Mas insisto, isso acontece numa escola com contrato- rainha santa, mas também acontece na publica, no dona Maria.

    A qualidade e maior? Como podemos estabelecer essa comparação? Resultados? Acho que estamos conversados.


    • Não, não vamos aos rankings, que as escolas têm alunos muito diferentes: nenhum professor pode leccionar 27 ou 28 aulas numa semana com qualidade.
      Essa é que é essa. E se um dos grandes problemas do ensino público em Portugal é a carga excessiva de actividades lectivas dos professores portugueses, superior à média europeia, abusar do horário dos professores, truque para baixar os custos que o privado usa sem escrúpulos, claro que baixa a qualidade do ensino, e muito.
      Não é um direito laboral, embora também seja, é uma questão de produtividade, tal como turmas com mais de 20 alunos.
      Não se nota nos resultados? pois com alunos seleccionados, e explicações, claro que não se nota. Onde aceitam todos, como é o caso de Cernache, os resultados estão à vista.

  14. Casimiro19 says:

    E as outras escolas da periferia? Tem alunos muito diferentes? Pois têm, diferentes dos do dona Maria. Ai sim há uma escolha vergonhosa. Se nao fosse assim, os colegas da brotero eram todos incompetentes, dada a disparidade de resultados.

    Senna periferia queremos bons resultados, temos de ingerir muito nos nossos alunos, e depois, como e natural, colhemos os frutos desse trabalho.

    Quanto a questão do horário, nao podia concordar mais, apesar de pessoalmente nao recOnhecer essa realidade na minha escola. Nao há cOlegas com 28h lectivas nem turmas gigantes, ate pOrque temos alunos com nee.

  15. Jorge Pereira says:

    Desculpem intrometer-me mas essa coisa da escolha de alunos… Em Leiria, zona infestada de colégios com contrato de associação, há escolas públicas que fazem mais escolhas do que, por exemplo, os colégios de Fátima. A Domingos Sequeira e a Rodrigues Lobo (só com Secundário) fazem uma selecção criteriosa de alunos, de acordo com os resultados do 9º ano. E, claro, quando acabam as vagas, os piores alunos ficam à porta. Nem isso faz com que sejam as melhores do distrito, ficando, ano após ano, nos rankings, atrás de escolas como a Raul Proença, das Caldas da Rainha, ou a Secundária da Batalha.
    Quanto aos horários, é verdade que nos colégios, em geral, os professores têm mais horas lectivas, até porque o horário é de 22-25 horas (por vezes ultrapassadas…), mas não é menos verdade que nas escolas públicas o professor é cada vez mais assoberbado com tarefas burocráticas, reuniõezinhas, coisinhas que nada contribuem para o sucesso e a educação dos alunos e que os colégios, devido à autonomia de que gozam (e que era tão necessária na escola pública!…), inteligentemente evitam.
    O problema actual resulta, entre outras coisas, do regabofe que se tem vivido em Portugal nas últimas décadas. Se formos rigorosos, veremos que muitas das escolas públicas… estão ao lado de colégios e não o contrário, ou seja, os colégios já lá estavam, a suprir as necessidades, e só mais tarde foram construídas escolas públicas, provavelmente desnecessárias, ou sobredimensionadas, devido à vaidadezinha do autarca em ano de eleições, ou a outro motivo discutível. Mesmo nos tempos que correm, a Parque escolar tem aumentado a capacidade de escolas situadas junto a colégios. Em Fátima há 3 colégios e julgo que qualquer deles deve ser anterior à Secundária de Ourém. Pelo menos um deles vai fazer 50 anos… Ora, a Parque Escolar esteve a fazer obras em Ourém e aumentou a capacidade da escola… quando, além do mais, já tinham a escola da Freixianda (no mesmo concelho e relativamente recente) às moscas. Agora, claro, querem tirar alunos aos colégios de Fátima. Se isto é planeamento, vou ali e já venho. O que já me admiro é de não ver ninguém preocupado com este destino dos nossos impostos…

  16. António Fernando Nabais says:

    Caro Jorge. Nada a opor. O problema está exactamente no facto de tudo estar a ser feito por atacado e não através de um planeamento rigoroso. Seria importante, exactamente, descobrir que escolas merecem e que escolas não merecem manter o contrato de associação, tal como é importante denunciar aquilo que relata neste comentário. No fundo, faz tudo parte do mesmo problema: a corrupção.

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  1. […] e assim se vêem as mentiras que têm surgido no Público e que o João José Cardoso denuncia nestoutro post. Para além disso, uma escola com contrato de associação, por definição do próprio site que […]


  2. […] poucos, nomeadamente em blogs, vai surgindo informação detalhada (até agora pouco ou nada conhecida) sobre as escolas […]

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