O ensino privado não é melhor que o público: selecciona os alunos, e claro que tem melhores resultados

Na discussão sobre os ensino privado alimentado pelos nossos impostos volta sempre o velho mito da suposta qualidade dos colégios. Aparentemente os pais escolheriam os colégios porque estes teriam melhores resultados.

Para começar esquece-se uma evidência: se fosse concedido aos pais escolherem a escola para os seus filhos e todos optassem pelo privado, além de o público ficar às moscas, gostava de ver a proclamada qualidade do privado que não pudesse seleccionar os alunos. Porque essa é a questão: quem escolhe alunos (como aqui provei que se escolhe, tendo em conta “o percurso escolar do aluno”) fica com os melhores e estes obtêm melhores resultados. É óbvio. Tão óbvio como este velho texto do Pedro Sales, que mantem a sua actualidade ranking após ranking:

O colégio São João de Brito é da Companhia de Jesus, a qual tem mais duas escolas com ensino secundário. O Instituto Nun´Álvares, em Santo Tirso, e o Colégio da Imaculada Conceição, em Cernache – Coimbra. Como acontece com quase todas as escolas privadas no interior, têm um contrato de associação com o Estado. Ao contrário do São João de Brito, recebem alunos de todas as classes sociais. A Companhia de Jesus afirma que os métodos de ensino, contratação e formação de professores são idênticos. Quais são, então, os resultados? O Nun´Álvares ficou em 177.º, a Imaculada Conceição em 91.º. Há quatro anos, ficaram em 164.º e 249.º, respectivamente. O São João de Brito, com os mesmos métodos pedagógicos e de ensino, ficou este ano em 3.º no ranking e, há quatro anos, foi a”melhor” escola…
Questionado, na altura, pelo “Público” sobre essa brutal disparidade entre uma escola que recruta os seus alunos entre a elite da elite e dois colégios privados com todo o tipo de estudantes, o responsável pelo São João de Brito diz que “o Colégio de Coimbra fica num meio paupérrimo”. “é um meio rural, com fraco nível cultural. Teríamos outra posição no ranking se estivéssemos mais perto de Coimbra”. Pois é, teria a Companhia de Jesus e a escola secundária de Alpiarça ou a de Campo Maior. Mas não têm, o que não as impede de ver na comunicação social que as escolas privadas são melhores do que as públicas. Uma leitura redutora que, como se vê, tem os seus dias. Ou melhor, os seus sítios e classes sociais.

Comments

  1. Paula Moreira says:

    Os colégios privados escolhem os alunos? Não sei, talvez…
    Os colégios com contrato de associação NÃO escolhem os alunos tal como as escolas públicas, porque também somos escola pública.
    POR FAVOR não metam no mesmo saco Colégios privados com Colégios com contratos de associação.


  2. Sim, colégios com contrato de associação escolhem alunos. E segundo o seu próprio regulamento interno. Só tem de clicar em “o percurso escolar do aluno”, e seguir a ligação.

  3. Ricardo Santos Pinto says:
  4. Paula Moreira says:

    Na minha escola os alunos não são seleccionados segundo o seu percurso escolar.
    Na minha escola são admitidos os alunos residentes na zona geográfica do colégio independentemente das suas convicções religiosas, origens, condições sócio-económicas, nacionalidade ou outras condicionantes como alunos com necessidades educativas especiais…(da admissão do aluno, Regulamento Interno)
    Na minha escola os alunos são pessoas, não números…
    Não generalizemos!
    Orgulho-me da minha escola…


  5. Pronto, já entendemos: a sua escola não é nenhuma das referidas. Embora me fiquem dúvidas: é que tanto no privado como no público, onde há várias ofertas e mais pedidos de matrícula do que vagas, sempre houve selecção dos alunos. E nem sempre com critérios claros.


  6. Eu não quero ser chata mas é só para dizer que a primeira pessoa que fez a comparação entre os colégios da Companhia de Jesus, nos rankings, fui eu. O texto do Sales tem por base essa porta que abri há uns nove anos, se não logo no primeiro ano de rankings (o i fê-lo também o ano passado). E porque é que eu fiz esse trabalho, naquela altura? Precisamente para tentar provar que os alunos fazem a diferença. Assim como fiz outro onde comparava os resultados das antigas escolas técnicas e os antigos liceus, em Lisboa e no Porto, e também aí as diferenças de resultados eram grandes. E porquê? Porque os alunos são diferentes. BW


    • E fez muito bem Barbara (lembrava-me vagamente desse pioneirismo do Público, embora não recordando quem escreveu o artigo).
      Nisto de ser chato, eu reconheço que por vezes me passo dos carretos, e pode parecer que generalizo críticas que são meramente pontuais.

  7. Carlos Machado says:

    Já que fala na selecção de alunos, seria interessante tentar saber como é que 52 alunos da Escola Secundária Infanta D. Maria têm a mesma residência. Se calhar estão todos em beliches.
    Já agora não se esqueça que o Colégio Rainha Santa tem o ensino secundário totalmente privado, como tal seria de considerar a possibilidade dos critérios de admissão reportarem a esses alunos. Mas como este espaço também não pretende ser isento, não faz sentido procurar a verdade.


  8. Mas toda a gente sabe que nas cidades se dá a morada do emprego, e truques afins, para colocar os alunos onde os pais pensam (normalmente mal) que os filhos estão melhor. Não sendo um problema de fácil solução, é claro que estou contra essa chico-espertice.
    Quanto ao CRSI os critérios reportam-se ao básico e ao secundário, é o que lá está escrito.
    Este espaço não é isento? Pois não, é um espaço onde se opina. Mas as opiniões são plurais: o Dario deve ter feito uma dúzia de posts em defesa da sua escola, um externato com contrato de associação.

  9. carlos fonseca says:

    O financiamento público do ensino privado, em determinados casos, não se esgota apenas nas subvenções do Ministério da Educação.
    O Colégio de S. João de Brito, de Jesuítas, cobra as “módicas” mensalidades indicadas no “site” respectivo:
    http://www.csjb.pt/COLEGIO/ADMISSAOALUNOS/Paginas/Mensalidades.aspx~
    A grande maioria das famílias portugueses não tem rendimentos para suportar despesas de ensino dos valores indicados. Mas contribuem de forma indirecta.
    Em complemento das verbas do ME, há rídiculos valores de arrendamento cobrados por entidades públicas pelos espaços ocupados por escolas privadas; caso, por exemplo, dos irrisórios 50 cêntimos mensais que, ainda em 2008, o S.João de Brito pagava à Câmara Municipal de Lisboa. Veja-se o 3.º parágrafo da seguinte notícia:
    http://www.cmjornal.xl.pt/noticia.aspx?contentid=6602FE23-9A30-42C6-B754-C070EE5DD896&channelid=00000228-0000-0000-0000-000000000228
    Seria interessante saber se a referida renda ainda se mantém ou, se não, qual é o valor actual.
    Dinheiros públicos para o ensino privado têm, pois, origem em várias fontes – o ME ou autarquias, por exemplo.

  10. António João says:

    Anda mal informado. A notícia em questão foi desmentida inclusive pela Câmara Municipal.
    Às vezes acontece. Mas só às vezes. Quando acontece muito, só pode ser distracção.


  11. Em Inglaterra, a maioria da elite política (e económica) é proveniente de escolas privadas (colégios internos) de ‘grande prestígio’ e altamente elitistas, as chamadas “public schools” (Eton & etc. seguidas de Oxbridge, of course) ( http://whoknowswho.channel4.com/people/George_Osborne/stories/More_than_half_the_Tory_cabinet_went_to_private_school ). Pergunto-me que percentagem de governantes portugueses virão de tais escolas (como por exemplo. o colégio Jesuita acima referido) – será que o João José sabe, e me poderá apontar “direcções”…?


    • Dos actuais governantes, falando dos realmente ministros, muito poucos, coisa geracional. Os jovens conselheiros, sim, gente já feita em casas mais Opus que jesuíta, malta que entretanto virou muito à esquerda.

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  1. […] rankings do costume. Convinha ler algumas letras, desde um estudo que demonstra o contrário, ao velho exemplo que arrasa os ditos cujos, já para não lembrar o óbvio, quem selecciona alunos obtém melhores […]


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