Relvas e Passos: maquiavélicos

Salários Médios Anuais na OCDE

USD Euros
1 EUA 37.351 26.519
2 Luxemburgo 35.365 25.109
3 Suíça 35.365 25.109
4 Irlanda 34.617 24.578
5 Holanda 32.426 23.022
6 Noruega 31.356 22.263
7 Reino Unido 31.246 22.185
8 OCDE 31.192 22.146
9 Dinamarca 30.665 21.772
10 Bélgica 30.546 21.688
11 Austrália 30.211 21.450
12 Áustria 29.824 21.175
13 Canadá 29.792 21.152
14 França 27.068 19.218
15 Suécia 26.146 18.564
16 Finlândia 25.352 18.000
17 Japão 24.069 17.089
18 Espanha 23.896 16.966
19 Coreia do Sul 23.587 16.747
20 Itália 23.186 16.462
21 Eslovénia 22.939 16.287
22 Grécia 19.514 13.855
23 Portugal 16.463 11.689
24 Rep. Checa 14.617 10.378
25 Eslováquia 13.290 9.436
26 Hungria 13.254 9.410
27 Polónia 13.050 9.266
28 Estónia 12.173 8.643

Em complemento e sintonia com outros ‘posts’ publicados no Aventar, aqui e aqui, parece-me oportuno reproduzir o Quadro de Salários Médios na OCDE, divulgado ontem no ‘Público’ (página 2).

Miguel Relvas, hábil e demagogo, pretende convencer-nos de que o pagamento de salários anuais em 14 mensalidades – subsídios de Natal e de férias incluídos – é uma prática própria de países de 3.ª classe. Portugal, Espanha e Itália têm a tradição de pagar 14 salários por ano, argumentou. Ao invés, Holanda, Noruega e Inglaterra – ou Reino Unido, Sr. Relvas? – sociedades imaculadas pagam 12 remunerações anuais aos trabalhadores, rematou.

Há que esclarecer o Sr. Relvas sobre vários equívocos, autênticos ou simulados, de que se reveste o seu discurso:

  • No Reino Unido, que o omnipresente ministro reduz a Inglaterra, existem muitas empresas a liquidar 52 salários por ano. Não se assuste Sr. Relvas! Tratam-se de 52 salários semanais – de resto, é norma naquele país dividir o exercício económico em 13 períodos de 4 semanas cada, o que, de facto, se torna mais racional, porque, em termos de controlo de gestão, permite avaliar períodos da mesma extensão temporal, em vez de, por exemplo, se confrontar a actividade de Março (31 dias) com Fevereiro (28 dias), uma diferença de cerca de 10%.
  • O problema essencial é, sobretudo, quanto se paga e não quando e como se paga – os trabalhadores portugueses, ao receber os subsídios de Natal e de férias que são parte integrante do salário anual, estão a conceder à entidade empregadora diferimentos de prazos de pagamento até antes das férias e do Natal. O PMP (prazo médio de pagamento) aos trabalhadores, em 2/14 do salário anual, é dilatado de meses.
  • A comparação de quanto se paga de salários em Portugal e em outros países é uma avaliação propositadamente evitada pelo poder que nos (des)governa. Com efeito, e segundo o quadro anterior, entre 28 países da OCDE,  ocupamos o 23.º lugar, acima apenas da República Checa, Eslováquia, Hungria, Polónia e Estónia. O salário médio anual dos portugueses, 11.689 euros, corresponde a 52,78%, pouco mais de metade do salário médio da OCDE (11.689/22.146×100%).

Despachado o Sr. Relvas, passemos ao “insigne estadista” Passos. Nas deambulações pelo Brasil, segundo esta notícia, afirmou em entrevista à TV Globo que o aperto do cinto vai perdurar mais uns anos. Os funcionários públicos, os aposentados da f.p. e os pensionistas do regime privado já começaram a perceber que o governo está preparado para retirar definitivamente os Subsídios de Natal e de Férias. E alguns até sabem onde o Governo de PPC se baseará. É justamente na Declaração da Cimeira do Euro de 26 de Outubro de 2011, cujo ponto 8, no último período, sentencia o seguinte:

Convidamos ambos os países – Irlanda e Portugal, acrescentamos nós –  a manterem os esforços, a cumprirem os objectivos acordados e a estarem prontos a tomar quaisquer medidas adicionais necessárias para garantirem o cumprimento.

Pura teoria de Maquiavel. A maldade, à semelhança da interesseira bondade, nunca se distribui de uma única vez ao povo. E Relvas e Passos, dormindo com o ‘Príncipe’ à cabeceira e sem escrúpulos, são verdadeiramente maquiavélicos.

Comments


  1. Não sei se são maquiavélicos ou simplesmente obtusos e estúpidos. Mas de uma coisa estou certo: nada os limita, nada os contém… Já mostraram antes e depois das eleições – até pela portentosa magnitude da campanha de “mentira” que construíram – que podemos contar com eles no que se refere à mais completa falta de escrúpulos…

  2. MAGRIÇO says:

    Já restam poucas dúvidas: é uma reposição, revista e “piorada”, do Maio de 1926.

  3. Carlos Fonseca says:

    Luís Ferr00,
    Maquiavélicos, no sentido das teorias do exercício do poder definidas por Maquiavel, em minha opinião são de facto. Estúpidos duvido, porque esses somos nós.
    Magriço,
    Ao contrário da teoria de que “a história nunca se repete”, penso haver episódios similares que se revivem. Os protagonistas e as condições é que podem ser novas, em consonância com a evolução de processos políticos, sociais e comunicacionais dos novos tempos. Baseado nas circunstãncias actuais, o Maio de 1926 é provavelmente um parâmetro comparativo pertinente.

    • MAGRIÇO says:

      Caro Carlos, concordo consigo e acho o axioma falível. A experiência mostra que muitas vezes a história se repete: A humanidade é que não aprende com ela.


  4. Oliveira says:

    Ora.

    Sejamos honestos.

    O povo merece tudo o que lhe possa acontecer.

    Até à crise de 2008, reconhecidamente provocada pelos excessos da desregulação neoliberal que impera a nível mundial desde Reagan e Tatcher, ainda podíamos dar uma desculpa.

    Ah, o povo, coitado, é burro e ignorante, vota neles porque não sabe mais, coitado só pensa em novelas e futebol, não pode perceber nada de política.

    Pois bem, desde 2009 para ignorar as responsabilidades das forças de direita na crise actual não pode ser só burro e ignorante, tem de ser estúpido e masoquista também.

    Acreditar mas tretas incríveis que o Passos, Relvas e Cavaco nos impingiram na campanha eleitoral de que não existia crise mundial, que a crise da Grècia não nos afectava nada, que as agéncias de notação eram muito respeitáveis, que o PSD, que governou 20 anos em Portugal, dez deles com maioria absoluta não tem quaisquer responsabilidades no estado do país, fingir que as políticas do PS não são também de direita etc etc etc…

    Para aceitar todas estas imbecilidades é preciso que o povo seja uma autêntica CAVALGADURA, e não é só aqui. Em todo o mundo desenvolvido o povo em geral e a classe média em particular vota entusiasticamente nos neoliberais responsáveis pela crise e que apresentam sempre como solução para “sair” da crise que eles próprios provocaram medidas tendentes a destruir a classe média que vota neles…

    Admitamos, o povo é uma besta. As vacas, se soubessem que iam para o matadouro, tentavam fugir.

    O povo não, vai a sorrir a mugir de contentamento para o matadouro e ainda vota nos talhantes que o vão matar.

    Eu só tenho pena de levar por tabela, porque estes animais MERECEM.

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