Ser professor

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…para mi Weñe, que será professor….esse meu mais recente neto…

Por falar assim, o pontapé de saída para a educação, foi dadas pelos gregos, na época clássica. Foram eles que criaram o Liceu, um sítio só para homens e para o debate entre os mais velhos e os jovens efebos, como eram denominados os estudantes. O Liceu foi uma escola fundada por Aristóteles em 335 a.C..

A sua designação original era lyceum, provavelmente derivado de Apolo Lykeios. Hoje em dia, dá-se a designação de “liceu” a vários estabelecimentos culturais ou educativos em vários países, especialmente a determinadas escolas do ensino secundário.

O Liceu (lyceum) foi uma escola fundada por Aristóteles em 335 a.C. no bosque consagrado a Apolo Lykeios (provavelmente a origem do nome de sua escola), a leste de Atenas. Foi também conhecida por Peripatos, ou escola peripatética.

Os discursos feitos por Aristóteles eram divididos entre os esotéricos, feitos pela manhã, e os exotéricos, pela tarde. Enquanto aqueles eram direccionados a um público mais restrito já que exigiam estudos mais avançados – lógica, física, metafísica – os exotéricos eram destinados a um público em geral, e diziam respeito a temas mais acessíveis – retórica, política, literatura. Fonte: Cronologia do Ensino Secundário em Portugal.

Falar de educação e dos sítios em que se ensina, é uma istória de nuna acabar e que tenhohistória que nunca acaba. Seja como for, a actividade de transferir saber de uma a outra geração, dá direito a ser denominado professor, ou pessoa que ensina em escola, universidade ou noutro estabelecimento de ensino, denominado também docente ou pessoa que ensina. No meu ver, o professorado é a alma mater na transmissão do saber, especialmente as novas descobertas. Repetir sempre como foi criado o mundo e o país que habitamos, as suas aventuras e desventuras, corresponde ao especialista em História, seja cronológica, económica ou da ciência.

Parece-me que corresponde aos educadores organizar a historiografia da sua actividade. Há uma ciência em especial, a Pedagogia, que define formas e modos de ensinar e aprender, entendida como Ciência da educação e os seus métodos de ensinar. Todo docente tem a sua maneira de usar essa transferência de saberes. É à moda de cada um, porque todo docente, mais uma vez, é também um pedagogo. Foi assim que o aprendi com o Catedrático Richard Hoggart, na Grã-Bretanha, nascido em Leeds de família operária, a 24 de Setembro de 1918. A sua dedicação especial era ensinar de noite aos estudantes trabalhadores, para que não tivessem uma sorte como a dele, que já crescido, e trabalhador de fábricas, começou os seus estudos até fundar uma corrente de discípulos que estivessem com ele no ensino nocturno. Fui um desses, no Goldmiths’College da Universidade de Londres, como com Paulo Freire, citado por mim em vários textos, proferíamos as nossas lições após as 19 horas até as 22 da noite. Não havia contemplação: ou se estudava e aprendia, ou o curso acabava para essa pessoa: chumbavam, dizemos em Portugal, uma outra forma de pedagogia, essa de correr de manhã à noite, para ser bem sucedido. Foi o sistema que importei comigo a Portugal.

Queria transferir uma dica entregue aos meus colegas: se na Grã-Bretanha as aulas eram leituras – lectures- e em Cambridge eram tutórias: o docente com um estudante apenas na sala correspondente, mais uma ou duas aulas colectivas e públicas em cada trimestre em que o ano escolar está dividido, ao todo, três, com um mês no meio para o estudante ler. As bibliotecas estavam cheias, em Portugal e no ISCTE, tivemos que criar uma, que hoje em dia como ISCTE-IUL, é uma homenagem ao saber. Todos corremos para depositar os nossos livros: se em papel, na Biblioteca, se virtuais ou e-books, no Repositório local ou em http://repositorio.iscte.pt/   e no Internacional ou RCAAP: http://www.rcaap.pt.

As aulas do ISCTE eram um tormento para docente e discente: hora e meia de falar e, se o docente estava de humor, debater. Dividi-as assim: a primeira aula da semana, eu falava 45 minutos, passando a ser a segunda parte, tutórias. Para as tutórias, antes o estudante informava-se com o professor que estava ali o dia todo, porque o segundo tempo de aulas da semana, eram eles a falar, após entregar previamente um texto de página e meia sintético, com hipóteses provadas a partir de leituras prévias do autor ou temática da aula prévia. Os estudantes de noite eram espalhados em mesas coladas a parede para que permitissem um debate cara a cara. Eu guardava silêncio e apenas intervinha se fossem colocadas questões ou observa-se um erro crasso. O sistema passou a denominar-se iturriano, especialmente por dedicar o meu tempo livre de burocracias, com reuniões de Departamento, do Conselho Científico e despachar no meu gabinete de presidente do departamento, esses 28 anos que deram cabo de mim. Enviava a aula escrita em casa, via internet ao delegado de turma, que as repartia aos outros colegas. Apenas depois da leitura, falava eu, acrescentando o que em cinco páginas não era possível explicar.

Ser professor é um assunto sério. Que nem para férias havia tempo: escrevia o livro que seria a matéria a ensinar nesse ano. Ler, ouvir, ler outra vez, provar e proferir o aprendido, eram o meu modo.

Paulo Freire costumava dizer-me: todo o mundo, patrões ou jornaleiros, sabe tudo. O que interessa é retirar do inconsciente esse saber para ser usado com a razão.

Ser professor desde os 17 anos, como assistente, até catedrático em Cambridge e na Universidade Técnica do Estado em Portugal, foi a bênção da minha vida. Não ensinar, mata pouco a pouco…

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