Aquele raro momento em que a crise financeira serve de pretexto para alguém se safar

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Portugal foi assolado por uma violenta crise que, tendo tido a sua origem num cocktail de especulação financeira, terrorismo de mercado e décadas de governação criminosa, criou as condições perfeitas para um processo de sequestro democrático que o bloco central amavelmente aceitou, ou não fosse Portugal um protectorado pobre da burocratocracia de Bruxelas.

Tomados por um poderoso surto de síndrome de Estocolmo, os dirigentes do PS e, posteriormente, os de PSD e CDS-PP, comportaram-se como bons alunos, o equivalente moral, neste tipo de cenário, a dizer que se comportaram como um cão com um dono violento, que por muito que apanhe continua a abanar o rabo e a pedir festas. Seguiram-se meses de venda de património estatal ao desbarato, cortes salariais, em pensões e em prestações sociais, desinvestimento no Estado Social, desregulamentação laboral, brutais aumentos de impostos e milhares de portugueses em fuga para o estrangeiro. Os ricos ficaram mais ricos, os pobres ficaram mais pobres, a classe média entrou em vias de extinção e o fosso transformou-se num buraco negro.

Perante o apocalipse social que por aqui se vivia, e apesar da predisposição do governo PSD/CDS-PP para aceitar todas as imposições sem pestanejar, os portugueses suspiravam por algum desafogo que lhes permitisse respirar. A Troika, implacável, não permitia margem de manobra. O FMI, autoritário, não aceitava desculpas. Éramos uma cambada de gastadores, havíamos vivido anos de opulência e agora era chegada a hora de pagar a pesada factura pelos nossos excessos, com os quais, de resto, a esmagadora maioria não tinha nada que ver. Não é que o Passos, o Sócrates e restantes carrascos anteriores a estes dois nos tenham pedido opinião na hora de dar cabo das contas públicas. A nossa culpa reside, no essencial, em escolher ou permitir que tipos destes cheguem ao poder.

Ora, é a líder desse mesmo FMI, autoritário e implacável, que agora vê a sua negligência ser perdoada pelas mesmas razões que nos foram vedadas no momento em que mendigamos por um pouco mais de dignidade e pão na mesa. Segundo a juíza Martine Madoux, “O contexto da crise financeira global no qual a senhora Lagarde se encontrava deve ser tido em conta“, pelo que a moldura penal de um ano de prisão e 15 mil euros de multa não foi aplicada a Christine Lagarde, apesar de ter sido condenada, pela mesma juíza, pelo crime de negligência.

Como se toda esta imunidade, a que acresce a ausência de registo criminal pelas ofensas praticadas, não fosse já suficiente, a juíza Madoux referiu ainda que a boa reputação e a posição internacional de Lagarde foram tidas em conta na hora de oficializar esta condenação estéril. Isto é a basicamente o mesmo que dizer que o poder da senhora a torna imune à justiça. Boa reputação? Boa reputação temos nós, portugueses, que recebemos bem, fazemos boa comida e somos simpáticos que dói. E nem por isso nos fizeram fretes. Querem comparar a nossa reputação à desta criminosa, que num dia diz que é preciso mais austeridade para no outro dizer que estamos a abusar dela ou que a dose inicial de austeridade foi contraproducente e causou mais mal que bem?

Foto: Christophe Petit Tesson/EPA@The Telegraph

Comments

  1. Rui Naldinho says:
  2. cportuga says:

    Depois admiram-se que haja terrorismo

  3. Manuel Rocha says:

    A senhora estava de frente na foto. Se estivesse de perfil, já toda a gente percebia sem margem para dúvidas, porque não tinha sido condenada.

  4. Ricardo Almeida says:

    Na última vez que este de situações se tornaram corriqueiras, se bem me lembro daquele livro do Dickens e das aulas de história no liceu, a coisa acabou com cabeças a rolar para dentro de cestos de vime. Será que está na altura de começar a afiar a guilhotina?


    • Não acredito que seja solução. Se a justiça funcionasse e as prisões fossem para todos, não havia necessidade de suspirar por guilhotinas…

      • Ricardo Almeida says:

        Claro. Estava a ser irónico como é óbvio. Nem se podem comparar os contextos sociais e históricos sequer. Simplesmente achei demasiadas coincidências, com a França sempre tão propícia a revoluções e afins. Para um país que grita “igualdade” como lema, não deixa de ser caricata uma situação destas.
        Até porque nos dias de hoje, em vez de foices e archotes acho que teríamos multidões munidas de iPhones e Selfie-sticks, o que era mais cómico que outra coisa…

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