Hóquei (novamente) de luto

Em 21 de Novembro de 2012, no meu blogue pessoal de então, entretanto a hibernar há anos (http://letrasecoisas.blogspot.com/2012/11/o-hoquei-em-campo-esta-de-luto.html), escrevi, aquando da morte de José Machado, um dos maiores dirigentes que conheci, “A variante indoor foi praticamente introduzida em Portugal por ele, a par de José Nora, que lhe conferiram uma nova identidade. Com eles, esta variante passou a ser respeitada como a grande hipótese que tínhamos de fazer crescer a modalidade, ainda sem campos condignos para a sua prática na variante de campo. Então, se não tínhamos condições, havia que fazer formação num piso onde os mais jovens atletas tivessem condições mais próximas dos outros, os de lá de fora. E os títulos apareceriam: José Machado tinha uma fé enorme no atleta português e nas suas características inatas, o resto teria de ser feito através de trabalho”.
Hoje, no Aventar, atrevo-me a reverenciar o alter ego, o compagnon de route, de José Machado. É que, no passado dia 21, o José Nora faleceu.
Ambos eram um tandem permanentemente aberto ao futuro, sempre prontos a ideias e projectos, perduravelmente na vanguarda. Como atletas, fosse no Vilanovense ou no FC Porto, a par de outros emblemas dos muitos que, entretanto, se perderam, ou como treinadores e dirigentes, de clube, da Associação do Porto ou da Federação Portuguesa de Hóquei, nunca foram agentes desportivos cómodos nem acomodados. A modalidade e o seu futuro mexiam com eles.
Aí por 1974/1975, havia uns encontros de jovens no desporto, os ENDO e os JUVENDO, que englobavam novas modalidades ou mexiam com as existentes, num novo paradigma que pretendia criar-se para o desporto jovem em Portugal.

Vivia-se, então, no hóquei europeu, o aparecimento do hóquei de seis, ou de sala, jogado em pavilhão, o que permitia que os vultos da modalidade nos países mais frios pudessem praticar a modalidade em ambiente indoor, a coberto dos invernos rigorosíssimos. A Alemanha tornou-se líder dessa prática, dominou-a durante décadas sem permitir que alguém se aproximasse, até que um dia, sem contar, perde o primeiro europeu para a Áustria, que, entretanto, se tinha tornado uma potência.
José Machado e José Nora lá desenvincilharam uma tradução das regras, começaram a treinar miúdos, ainda formaram um clube – o Bairro do Cedro – cuja primeira camisola e projecto de símbolo vos mostramos, ainda fizeram um jogo não oficial com o Perosinho, no rinque deste, em 1975, mas em 1976/1977 já eram os infantis do Vilanovense, começando então a competir regularmente. Dessa equipa registamos alguns futuros internacionais absolutos e várias equipas de indoor nos diversos escalões de formação, que marcaram a primeira geração de grandes equipas (todos se lembram da era Vila, da era AA Espinho, da era Sport Clube do Porto, da era AD Lousada ou do Dramático de Cascais e CS Nun’Álvares ou como se tornaram referências as equipas de formação do Lisbon Casuals, Casa Pia AC e do CF Benfica, do GD Viso, do GD Carris…). Este enumerado não obedece a qualquer rigor histórico, apenas pretendi enunciar algumas equipas que pessoalmente me marcaram: umas, por uma, duas, três épocas; outras, por verdadeiras gerações. As que não me vieram à mente e à primeira, me desculpem: o Perosinho, o FC Porto (que vi desaparecer no meu tempo de Presidente da AH Porto, levada pelo mau feitio do actual administrador para o futebol profissional, o Eng.º Luís Gonçalves), o Ramaldense, essa fortaleza hercúlea no campo durante várias gerações, que, no entanto, não resistiu ao tempo, ainda que acredite na sua ressurreição, há muita gente apostada nisso. Ou Serzedo…
Os pioneiros arriscam-se, na sua forte personalidade e por serem constante incómodo para os interesses instalados, a cair no esquecimento de muitos.
José Machado ainda teve, em 2012, direito a um comunicado, com fundo negro da FPH, da tutela da modalidade, até porque José António Machado (a quem agradeço o suporte para esta publicação em datas, factos, competições e fotografias), filho de José Machado, era à data dirigente da Federação.
José Nora já não teve essa sorte. No vórtice de comunicação federativa, um estágio da selecção nacional; a despedida de Rodrigo Castro, a mais jovem esperança-certeza como atleta para a Alemanha, onde vai jogar ao mais alto nível, treinado por um português de Cascais, Bernardo Fernandes; as férias da eminência parda do regime; as intromissões à boa maneira dos haters das redes sociais, de dirigentes em questiúnculas de má índole dos futebóis ; a distracção do Presidente da FPH, figura incontornável como atleta dos maiores que Portugal algum dia viu e como árbitro, que vi brilhar internacionalmente, mas que, ao entregar o poder que tem de ser ele a exercer, está a perder toda a credibilidade que granjeou ao longo da sua esmeradíssima carreira; tudo isso roubou a José Nora o protagonismo numa morte humilde, calada. Até porque José Nora era vilanovense de nascimento, nunca jogou no Casa Pia, para quê avivar a sua memória?!
Por isso partiu, no silêncio de quem lhe deve, ainda hoje, um nome na modalidade. Porque da sua obra emergiu a realidade que permite a alguns estarem onde estão, terem sido quem foram, terem recebido as loas que receberam.
Porque não consigo separar ambas as almas, junto aqui o José Nora ao José Machado, que por certo foi recebê-lo com um enorme abraço à porta do paraíso. Onde, acredito, repousarão as almas com mau feitio, mas com corações de oiro e todos os sonhos do mundo na palma da mão. E terão sempre a sorte de não se cruzarem, como nós ainda do lado de cá temos que suportar, com os prepotentes desta realidade tão tuga, tão pequena, tão rede social, tão “marquetizável”.

A Cadeira que tramou Salazar, o Putin português

Foi a 3 de Agosto, do ano da graça de 1968, que o nosso Putin caiu da cadeira e bateu com a cabeça no chão. Foi pena não ter acontecido mais cedo, mas ditador que é ditador é sempre difícil de derrubar, mais ainda quando têm o respaldo da NATO, toda ela liberdade e democracia. Foi preciso vir uma cadeira. A Cadeira! Para sempre grato, Cadeira.

História da Fundação dos FC Porto

Proposta de capa: Leonor Pinto


No dia 14 de Abril de 1893, um grupo de jovens da colónia inglesa, acompanhados de alguns desportistas portugueses, todos ligados ao Velo Clube do Porto, juntaram-se para jogar à bola.
Terá nascido nesse dia uma experiência efémera, que esses jovens baptizaram com o nome de FC Porto. Aínda nesse mês, foi formada uma Direcção que tinha António Nicolau de Almeida Kelly de Aguilar como presidente e Joaquim Ferreira Duarte como presidente da Assembleia Geral.
Sabemos que em Junho os associados do clube se reuniram para aprovar o Regulamento Interno. O que parecia ser um projecto com bases firmes revelou-se, afinal, um entusiasmo da juventude que pouco durou.
Em 28 de Setembro desse ano, nada aconteceu na história do FC Porto a não ser a publicação de uma notícia num jornal de Lisboa a dar conta da sua fundação.
Em Outubro, esse FC Porto terá feito uma tentativa para lançar o clube, convidando Guilherme Pinto Basto, do Club Lisbonense, para um jogo no Porto.
Mas Guilherme Pinto Basto declinou e, ao invés, fez o mesmo convite a Hugh Ponsonby, secretário do Oporto Cricket and Lawn Tennis Club, que aceitou.
O jogo acabou por realizar-se em Março do ano seguinte. Um jogo entre as cidades de Porto e Lisboa que o rei D. Carlos decidiu patrocinar.
O FC Porto de 1893 nada teve que ver com este jogo. Que decorreu no campo do Oporto Cricket, com o equipamento do Oporto Cricket e com Hugh Ponsonby como capitão de equipa. 10 dos 11 titulares jogavam no Oporto Cricket. [Read more…]

Não olhem para a Lituânia, olhem para Espanha

A Iniciativa Liberal (IL) está a seguir os passos do Ciudadanos, o que é mau prenúncio para o partido. Têm sido semanas difíceis para a agremiação. Não sei se por estar muito calor, o que dificulta o pensamento lógico, ou por estarmos em plena silly season, a verdade é que estas semanas não têm sido abonatórias… e basta olhar para Espanha (ao invés da obsessão com os antigos países do bloco soviético) para aprender a lição.

Em Espanha, o partido “liberal” Ciudadanos, uma cópia mais pequena e mais radical do Partido Popular (tal como aqui a IL é uma cópia mais radical do PSD), acabou reduzido a cinzas depois de anos a fazer figura de “anti” Estado, abrindo as portas ao VOX, partido da extrema-direita e aliado do partido português proto-fascista Chega.

Depois de tanto tiro no pé, o Ciudadanos foi colocado no caixote do lixo da História. Se a IL não começar a ser mais responsável nas suas posições e deixar de tentar igualar-se à extrema-direita para caçar votos, terá os dias contados, mesmo com a panóplia de seitas no Twitter ou de ‘memes’ espalhados pelas redes sociais.

A defesa acérrima aos lucros de empresas que expropriam o consumidor português, o intransigente preconceito ideológico que os faz defender o mercado a qualquer custo, dirigentes que, dizendo-se liberais, por mais do que uma vez têm mostrado tiques homofóbicos e xenófobos ou deputados a comparar António Costa a Viktor Órbán… nada disto beneficia a IL. Porquê? Porque já há um partido a quem os eleitores portugueses confiaram este papel: ao Chega. E porque a maioria dos que, nos últimos tempos, se reviram no partido, estão longe de se reverem nestas últimas atitudes em nada “liberais”.

Ou a IL se assume responsável e começa a ter posições políticas mais sérias, ou acabarão trucidados. É que isto de tentar desviar votos da esquerda sacando da bandeira LGBT, ao mesmo tempo que se tenta desviar votos da extrema-direita sacando da xenofobia e do populismo, vai dar merda – desculpem o meu francês, mas não sei dizer isto em lituano como vocês gostariam.

O porco e a lama

Uma das maneiras mais claras de ser desonesto consiste em fazer generalizações. Uma pessoa quer dar a sua opinião sobre um assunto, franze um sobrolho experiente e descarrega a sua generalização: os pretos, as mulheres, os ciganos, os homens, os professores, os médicos, os adolescentes, as enfermeiras, as crianças, os jovens de hoje em dia. Dessa descarga nascem injustiças, racismos vários e xenofobias laborais (porque há muita gente com certezas absolutas sobre profissões que nunca exerceu).

Macário Correia afirma que a maioria dos desempregados no Algarve não quer trabalhar. Por uma razão muito simples: Macário Correia conhece todos os desempregados algarvios, o que lhe permite chegar à conclusão de que a maioria não quer trabalhar.

Se Macário Correia não conhecesse todos os desempregados do Algarve, estaria a ser um porco que, ao refocilar na televisão, espalharia lama sobre milhares de algarvios, o que seria inaceitável. Macário Correia não quereria decerto estar ao nível de um católico como Pedro Mota Soares ou de um holandês que reduz tudo a gajas e vinho ou de um alegado jornalista.

De qualquer modo, quero que fique claro: os porcos não são todos iguais.

Segundo Marcelo Rebelo de Sousa, há professores racistas e xenófobos entre nós:

«não vale a pena negar que há, infelizmente, setores racistas e xenófobos entre nós». Pois. Efectivamente. Exactamente.