Novas Oportunidades: a avaliação externa impossível

Hoje PS e PSD andam a brincar às Novas Oportunidades. É assunto que já me ocupou o teclado: as fraudes sistemáticas, as mentiras de Luis Capoulas, e a razão porque o logro é endémico:

As fraudes só passam porque as equipas deixam. E as equipas deixam porque têm metas para cumprir, pairando sempre sobre a sua cabeça a ameaça de encerramento do CNO. Estamos a falar de pessoal maioritariamente contratado (agora menos a recibo verde, é certo) ou sem componente lectiva na escola onde está colocado, e do ou cumpres ou ficas desempregado.

Passo a explicar a Passos Coelho porque não vale a pena fazer auditorias externas. Primeiro porque já foram feitas, com o objectivo de não servirem para nada, mas feitas. Segundo porque embora todas as equipas tenham ordens para certificar qualquer analfabeto que se preste a um processo de certificação de competências isso não está escrito em lado nenhum: existem metas que não dizem claramente validem, fingem dizer outra coisa, tipo despachem, cumpram, inscrevam. Coisa fantástica, na ANQ as instruções superiores passam sempre para a base da hierarquia via formação: é que numa reunião não se escreve, só se diz, não ficam provas. Quando as coisas chegam às equipas são factos orais consumados.

E por último porque José Manuel Canavarro, autor do programa do PSD para a Educação, no intervalo de outros negócios privados e de uma carreira académica muito turbo, também dá uma perninha à ANQ: [Read more…]

Luís Capucha, das Novas Oportunidades, enfrenta Passos Coelho, dos oportunismos habituais

Já se sabe: com a campanha eleitoral, Passos Coelho está transformado numa espécie de Zelig. De manhã, é africano, à tarde, é pescador, e, à noite, diz o que os professores gostam de ouvir e não me admiraria que viesse a dizer que é o mais docente dos candidatos.

Hoje, o presidente do PSD criticou, com argumentos justos, o embuste chamado Novas Oportunidades. Imediatamente, Luís Capucha, saltando em defesa do seu latifúndio, ligou o mp3 e fez ouvir os dois mandamentos acéfalos do costume:

     1. atacar as NO é atacar os profissionais que aí trabalham e os alunos que por ali passam;

     2. as pessoas que atacam as NO são uns elitistas que pensam que a Educação não deve chegar a todos.

Quanto à primeira ideia, a verdade é que é possível descobrir facilitismo (ou é impossível não descobrir) nas NO, sem que isso signifique criticar as pessoas: os professores são obrigados a cumprir o que lhes é imposto, mesmo que não concordem (o que também acontece fora das NO), e os alunos mais ingénuos são enganados, acabando por confundir a posse de um diploma com a aquisição de conhecimentos. Os alunos menos ingénuos limitam-se a aproveitar a ocasião, o que é humanamente compreensível.

A acusação de elitismo, por outro lado, não passa de um inábil princípio de intenções. Na verdade, criticar o facilitismo das NO é outra maneira de afirmar que os alunos merecem melhor. Facilitar-lhes a vida, na verdade, é só desrespeitá-los. A expressão “processo educativo” é, no fundo, muito feliz, se tivermos em conta o substantivo ‘processo’: aprender não é obra de um momento, é um percurso com passos que devem ser seguros.

Capucha é o verdadeiro homo socraticus: limita-se a soltar duas ou três ideias e não se afasta daí um milímetro, não vá dar-se o caso de ter de argumentar verdadeiramente.

Curso de político

Face às Novas Oportunidades que se adivinham, nada como estar preparado. Afinal de contas a qualificação é esencial para o nosso futuro.

Novas Oportunidades – depressa e bem afinal há quem

Estudo defende que Novas Oportunidades estão a trazer mais saber para as famílias

Numa sociedade que se pretende solidária, considero absolutamente justo que se procure dar sempre novas oportunidades a quem as não teve. Quem, por alguma razão, não pôde ou não quis estudar deve ser sempre incentivado a regressar, deve ter outras oportunidades de compensar o que não conseguiu alcançar. Tudo isso deve ser feito com base em, pelo menos, três pressupostos: deve ser um processo rigoroso, deve basear-se na vontade de aprender e deve ser facilitado pela legislação laboral. Qualquer diploma comprovativo de habilitações só terá significado real se for uma consequência disso.

Recentemente, foi apresentado um estudo em que se chega a várias conclusões acerca do programa Novas Oportunidades. A coordenadora estudo é Lucília Salgado, professora da Escola Superior de Educação de Coimbra. A autora já havia participado no Fórum Novas Fronteiras, organizado pelo PS, para além de ter estado presente no “Seminário Iniciativa Novas Oportunidades: Primeiros Estudos da Avaliação Externa”. [Read more…]

Uma casinha caiada

casinha

Era uma vez uma casinha, trabalhadora mas com a pintura desbotada pela intempérie. Levantava-se quase às nove, já em plena hora de ponta da rotunda de Massamá, apesar do despertador diariamente fazer tiriri-tiriri-tiriri com uma antecedência suficiente para evitar correrias. Mas o Malato, depois o Espírito indomável e por fim o CSI empurram a leitura da Margarida Rebelo Pinto para tão tarde que as manhãs se colam às costas da noite.

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Nihil Obstat

Tiririca, o Palhaço, provou ao Brasil e a todo o imenso Portugal analfabeto e iletrado que, sim, ele sabe ler, ele sabe escrever. Nada o impede, por isso, de ser deputado e prestar grandes serviços à pátria, nada o impede. Sim, votarei sempre em gente honesta

As mentiras de Luis Capucha

Luis Capucha é o actual responsável pela Agência Nacional para a Qualificação, e deu uma entrevista ao Público de hoje. Começa por afirmar:

Surgem críticas, mentiras e afirmações de quem não quer mentir mas fala do que não sabe. Surgem críticas, mentiras e afirmações de quem não quer mentir mas fala do que não sabe.
Trabalhei 3 anos nas Iniciativas Novas Oportunidades (INO). Vamos lá então ver quem mente, quem fala e quem sabe.
Uma das críticas é que os adultos não aprendem disciplinas formais.
Desminto. Há regras a cumprir que têm a ver com o cumprimento dos procedimentos necessários.
Desminto o desmentido. Os referenciais de competências estão organizados em torno de 3 áreas que abarcam as várias disciplinas de uma forma muito vaga. A título de exemplo História, no secundário,  pertence a Sociedade, Tecnologia e Ciência, a única área onde os formadores de História estão impedidos de trabalhar (como as competências  exigidas estão ao nível do 9º ano, compreende-se).

Há quem receba subsídios para estar na INO?
Só os adultos que frequentam cursos de educação formação profissionais.

Mentira. Tantos os EFAS como os processos de RVCC incluem subsídio de transporte e alimentação.

Não são os desempregados?
O problema é que para frequentar esses cursos, implica estar desempregado.

Mentira. Para frequentar um EFA e ser subsidiado basta ter mais de 18 anos. Há EFAS intensivos em horário laboral e para desempregados, com outros subsídios. Mas o transporte e alimentação são comuns a todos. [Read more…]

Ter olho compensa

 ter olho compensa

«Melhor» aluno entrou na universidade sem acabar o liceu

Média de 20 valores foi conseguida com apenas um exame. Jovem conseguiu equivalência ao 12.º através das Novas Oportunidades e admite que beneficiou de uma injustiça [tvi24]

Checklist

  • Trabalho diário, ano após ano, para terminar o secundário com a melhor nota possível – Inscrever-se nas Novas Oportunidades
  • Fazer vários exames – Fazer apenas o(s) exame(s) exigido(s) como prova(s) de ingresso no curso que se queira
  • Trabalho extra nas disciplinas para as quais se tenha maior dificuldade – Desistir e ir para as Novas Oportunidades

Em suma

Quem queria ver, já há muito sabia que as assolapadas paixões educativas que assaltaram vários governos mais não eram do que fogo de artifício para brilhar enquanto a fasquia da exigência ia sendo descida. Mas agora não conseguirei evitar rir com escárnio de cada vez que os do costume vierem falar em qualificação, exigência e aposta na educação. Mau feitio meu, só pode.

Novas Oportunidades para o Brasil, já!

Na sequência do meu post sobre os mineiros do Chile (subterrados, como diria a nossa RTP), um nosso leitor, brasileiro, que certamente chegou aqui ao engano, deixou o seguinte comentário:

auguem pode me fazer um artigo escrito para mim copiar e entregar para minha profi sobre os mineiros do chile?

Não, não pode. Trabalha, malandro. E se possível com um dicionário à frente. E uma gramática.

A fraude é outra, é a oportunidade de emprego

Conta-se no Ionline que existem fraudes nos processos RVCC, ditos de Novas  Oportunidades.

A D. Filipa Martins, que escreve na referida publicação descobriu a pólvora:

Quatrocentos euros.

Valor pedido por Paula Duarte, num curto contacto telefónico, por um Portefólio Reflexivo de Aprendizagem que dará acesso ao 12.o ano. “Mas tudo é negociável”, garante ao jornalista do i – que se identificou como possível comprador – e acrescenta, “no ano passado, pedia 500 euros, mas agora com a crise…”. Paula Duarte, à semelhança de várias dezenas de pessoas, pôs na internet um anúncio de venda de portefólios para as Novas Oportunidades.

Vamos por partes: a pólvora também não foi invenção minha, mas bastava ter lido este texto sobre as fraudes mais comuns nos processos de RVCC, aqui publicado em Julho do ano passado, e já faziam os foguetes.

Há contudo uma pequena novidade, na peça do I: a de que a ANQ teria dado uma orientação no sentido de se ter cuidado nos CNO’s (Centros Novas Oportunidades) com os plágios e afins. Trabalhei durante 3 longos, custosos e penosos anos na nobre missão de certificar analfabetos funcionais (e não só, convenhamos) com o 12º ano de escolaridade, e nunca ouvi falar de tal nota. Claro que em formação todos os membros das equipas pedagógicas aprendem que o copy/past só certifica a competência de seleccionar informação, e nem sempre, mas isso é de senso comum.

O problema não está aí. As fraudes só passam porque as equipas deixam. E as equipas deixam porque têm metas para cumprir, pairando sempre sobre a sua cabeça a ameaça de encerramento do CNO. Estamos a falar de pessoal maioritariamente contratado (agora menos a recibo verde, é certo) ou sem componente lectiva na escola onde está colocado, e do ou cumpres ou ficas desempregado.

A fraude é essa. O resto, em americano, são amendoins.

Novas oportunidades ou novos oportunismos?

Vejam se é possível alguma vez chegar a um país melhor com esta gente que nos governa, lendo a opinião de dois eminentes pedagogos:

Luis Capucha: A iniciativa Novas Oportunidades criou uma nova paisagem no país. Foi pena não ter havido a capacidade nem a visão  para a implementar décadas antes!…o sucesso e a adesão que concitou. Em quatro anos inscreveram-se nas diversas medidas disponíveis para adultos cerca de 1 200 000 pessoas, das quais mais de 400 000 já obtiveram um diploma…..neste domínio estamos no pelotão da frente da Europa! E é este domínio que nos pode impulsionar como país. (Presidente da Agência nacional para a Qualificação)

Rui Baptista : …que colocaram Portugal em 54º lugar, apenas à frente da Grécia, da Turquia e do México….no programa Novas Oportunidades, destinado a indivíduos maiores de 18 anos que deixaram de frequentar a escola por reprovações sucessivas, os resultados transformaram-se em êxitos estatísticos oficiais de uma desastrada política educativa.

“Estes frequentadores da escola aparecem nas aulas sem trazer uma esferográfica ou uma folha de papel. Trazem o boné, o telemóvel, os headphones e uma vontade íncrivel de não aprender e não deixar aprender.” …continuando a consentir que se formem ignorantes às pazadas a educação portuguesa corre o risco de ruir ao peso das Novas Oportunidades.” Ex- docente da Universidade de Coimbra.

Como se vê , ou não estão a falar da mesma coisa, ou estando, estão ambos a mentir, porque nada pode ser tão mau ou tão bom.Talvez, e é o mais certo, seja tratar-se de exemplos daqueles senhores que à vez nos foram levando para o atoleiro em que estamos e que agora, vão continuando a fazer pela vida, atirando desculpas de mau pagador para cima de tudo e de todos, por maneira a manter os “tachos”  que sempre ocuparam dando-se a “fretes” destes.

A vida é dificil para todos e é bem verdade!

O Ministério da Educação e a limpeza…

O Ministério da Educação está a transformar-se no Ministério do Ambiente escolar, limpa tudo o que for preciso para melhorar as estatísticas. O chumbo, esse material perigoso se não utilisado com parcimónia, está a ser varrido das escolas.

Aluno com chumbo a mais deixa de ser considerado nas contas do ensino regular e é desviado para as vias profissionalizantes, reforma assaz profunda e séria introduzida por David Justino do PSD e aprofundada por Maria de Lurdes Rodrigues do PS. Claro que nada disto tem a ver com uma real melhoria na qualidade do ensino ou dos alunos. Os alunos com dificuldades podem continuar os seus estudos sem avaliação e sem exames, não contando para as taxas de retenção e de transição.

Há um aumento dos alunos nos cursos profissionais e uma retracção nos cursos regulares, a que há a juntar os alunos dos cursos das Novas Oportunidades o que representa cerca de 60% da população que o ME apresenta agora como estando no ensino secundário e que não precisam de realizar exames nacionais para concluir o 12º ano ou equivalente!

O Ministério do Ambiente e da Educação talvez seja mais apropriado embora um bocado comprido…

Novas Oportunidades para a publicidade

O José Simões foi à página da transparência na Administração Pública,  escreveu “novas oportunidades” e saíram-lhe 3.956.176,33 €. Ou melhor: saíram do Orçamento do Estado quase 4 milhões de Euros gastos em publicidade. É fantástico não é?

O esforço de oferecer o 12º ano a toda a gente (e não apenas a quem merecia que lhe fossem reconhecidas competências adquiridas ao longo da vida) não alcançou nem de perto os resultados estatísticos pretendidos: segundo um estudo do Banco de Portugal continuamos a estar na cauda dos países com menos escolaridade da OCDE. O estudo diz que a culpa é transgeracional

Os filhos “têm um trajecto escolar fortemente influenciado pela experiência educativa dos pais. Portugal é um dos países da OCDE em que esta transmissão intergeracional é particularmente marcada”,

ou da

“qualidade do ensino e da formação de professores.”

Nesta última causa é evidente que após o 25 de Abril houve uma entrada massiva na profissão de gente sem qualificações para tal, e não podia ser de outra forma, tal como a baixíssima frequência escolar até aquela data tem um preço que ainda hoje estamos a pagar (qualquer professor sabe que o desinteresse de muitos alunos passa por terem ultrapassado a escolaridade dos progenitores, e acharem que já chega).

As Novas Oportunidades não deixam de ter aspectos positivos, mais que não seja porque garantiram emprego a muitos candidatos à docência, e criaram a economia paralela da fraude em trabalhos de RVCC.

Espero que os Ministérios da Educação e do Trabalho poupem aqui, antes que se volte ao tempo em que os professores pagavam fotocópias do seu bolso, mas devo esperar sentado: tal como o e-escolas, estas foram oportunidades de caçar votos a torto e a direito. E comprar votos compensa, acham eles.

Novas Oportunidades: aprender compensa, a fraude também

Os processos de Reconhecimento, Validação e Certificação de Competências (RVCC) constam, na prática, na produção pelo candidato de um Portefólio Reflexivo de Aprendizagens (PRA), onde irá reunir trabalhos sobre algumas dezenas de temas (isto para obter um diploma do ensino secundário).

Esses trabalhos são “orientados” por uma equipa técnico pedagógica, mas feitos em casa.

Só numa página de anúncios classificados a pesquisa por RVCC devolve-nos 137 resultados, desde o “Posso ajudar-te a realizar os teus trabalhos manda mail.” ao “RVCC e EFA com qualidade e a baixo preço! Contacte-me!

Há de tudo, ou estavam à espera de quê com tanto candidato a professor no desemprego, incluindo bastantes que acabaram o contrato no CNO onde aprenderam o ofício?

Não sei se isto é exactamente ilegal. O anúncio acima remete-nos para a página de uma psicóloga devidamente identificada, mas na maior parte dos casos os trabalhos são enviados por mail, a troco de uma transferência bancária. E sei que as autoridades competentes sabem, limitando-se a responsabilizar as equipas dos Centros Novas Oportunidades pela autenticidade dos trabalhos apresentados.

Dessas equipas já sei outras coisas, das metas que estão obrigadas a cumprir,ao tempo que têm para o fazer. Mas essa conversa fica para uma próxima. Deixo-vos  com esta pérola ministerial:

Respondendo às críticas de facilitismo do Novas Oportunidades, a ministra assinalou que “o testemunho” dos beneficiários, dos técnicos e dos avaliadores externos “rejeita essa hipótese”.