A futebolítica

Apesar de haver algumas diferenças gritantes, e veja-se que nunca se ouviu falar em políticos com salários em atraso ou partidos em falência técnica, existe um paralelismo entre o futebol e a política e uma ligação quase umbilical entre os dois.
Basta considerar a constante presença de políticos em eventos futebolístos.
Mas tal como o país político, o futebol português é pobre, eminentemente corrupto (apesar de ainda se estar a tentar provar isso), com maus dirigentes e maus jogadores. Os bons jogadores normalmente vão para países mais desenvolvidos e só cá ficam os outros à espera da sua vez. É claro que existem as camadas jovens, mas tanto numa situação como noutra, são sempre muito pouco aproveitados e recorre-se quase sempre a “quem vem de fora”.
Tal como a política, o futebol está de “rastos”. Num campeonato em que os jogos são feitos praticamente deitados no chão, parados e com tantas faltas, raramente se marca um golo na marcação de um livre. No entanto, sempre que se vai marcar um livre, os (poucos) adeptos entram em histeria como se fosse um penalti. Parece mesmo que o golo é iminente e só falta festejar. Inevitavelmente a bola lá vai para fora e toda a gente protesta, dizem que o jogador não presta, chutou para fora do estádio e que devia ter sido outro a marcar o livre. Mas o mais grave é que dois minutos depois, o árbitro marca outro livre e toda a gente volta a ficar expectante para festejar golo… mas o mau jogador chuta novamente para as nuvens! E isto continua sempre a acontecer. É um jogo inteiro assim. É um campeonato inteiro assim. E é sempre assim. Assim como na política. É só pólvora seca. Parece que vai acontecer alguma coisa, mas depois não dá em nada.
É inacreditável a parecença do futebol com a política portuguesa.  Até as eleições são feitas na mesma altura. Parece combinado. Se calhar é por isso que alguns passam de um lado para outro. Políticos que se tornam dirigentes futeboleiros e vice-versa.
E apesar de haver uma míriade de clubes, são sempre os mesmos dois a ganhar. E não querendo que mais ninguém ganhe além deles, vêm sempre dizer que a competição é muito importante para melhorar a actividade desportiva. Na política é igual, e assim que perdem, disparam em todas as direcções dizendo que a governabilidade está ameaçada se a sua hegemonia for interrompida.
Também se ouve falar muito daqueles que mudam de clube e que são “vira-casacas” e “peseteros”: passam do PCTP/MRPP para o PSD, passam do PCP para o PS… é uma questão de mudar para plantéis que permitam voos mais altos e ganhar outro tipo de troféus…

Noutra perspectiva, a política está invadida de futebol. Veja-se por exemplo, Vital Moreira a reclamar “falta” no comício em que participou juntamente com a CGTP. A CGTP veio a público dizer que foi apenas carga de ombro e que foi Vital Moreira a provocar o contacto. Aliás, esta é uma táctica muito conhecida nos meios futeboleiros. Chama-se “entrada à Soares” e consiste em “colar-se” a um adversário já com um cartão amarelo para provocar a sua expulsão.
Ainda agora, no apuramento para as “Competições Europeias”, o que mais se ouviu foi que fulano em vez de levar cartão amarelo deveria era ter levado cartão vermelho. Até as declarações são as mesmas. “O responsável por este desaire, sou obviamente eu!”, isto foi o que disse Vital Moreira e são as palavras que Carlos Queiroz já vai ensaiando.

Agora também, tal como os clubes que reclamam constantemente da arbitragem, são também os partidos a reclamarem com o Banco de Portugal e exigirem a demissão de Vitor Constâncio por não resolver os problemas noutro tipo de “arbritragem”. E tal como no futebol, uns jogadores levam com processos sumaríssimos, outros não levam com nada e saem incólumes de todas as situações.

Depois, existe também o lado obscuro das “campanhas negras” e “trabalhos de bastidores” nas duas actividades e o consequente envolvimento dos tribunais para clarificar as situações. Não há ano que passe em que não existam dirigentes envolvidos em polémicas e escândalos envolvendo compras fraudulentas de terrenos, construções ilegais, pagamentos por “baixo da mesa”, falsas ou não-entrega de declarações de rendimentos, escutas telefónicas incriminadoras, desvios de dinheiro, tentativas de corrupção activa e passiva, abuso de poder, etc, etc. Todos os dirigentes negam sempre todo e qualquer envolvimento em actividades ilegais e nos tribunais nunca se consegue provar nada, e até se consegue provar exactamente o contrário, apesar de ninguém acreditar. Ou então, os processos prescrevem.
Falando de elementos externos: uma palavra para a comunicação social. Tal como no futebol, também na política, conforme os interesses instituídos, uns optam por apoiar descaradamente uma facção, tentando prejudicar o máximo possível o outro lado, evocando sempre uma neutralidade e imparcialidade sem mácula.

Internamente, tanto uns como outros, só falam de estratégias e mudanças de equipa técnica. Sócrates, pelos vistos, escolheu mal o avançado para estas eleições. Manuela Ferreira Leite foi altamente elogiada pela escolha do possante meio-campista Paulo Rangel para o ataque à Europa. Louçã e Jerónimo continuam a fazer o papel de “Portugal” nas competições internacionais: de vez em quando até surpreendem e sobem ao pódio, mas toda a gente sabe que nunca vão ganhar nada. E Portas… bem, Portas tem a sorte de não existir uma 2.ª Divisão na política… No entanto, Sócrates já disse que não vai mudar de tácticas porque sabe que tem uma boa equipa que lhe pode permitir ainda ganhar o Campeonato. Não se pode ganhar todos os jogos e este foi um jogo à parte e não tem nada a ver com o Nacional. Eu sinceramente até acho que Sócrates daria um excelente treinador. Tem gerido e aguentado muito bem uma equipa quezilenta, que gosta de malhar em todas as direcções. Não é fácil. E no caso das Europeias, fez-me lembrar aqueles treinadores que põem em campo a pior equipa para jogar um desafio sem grande importância, salvaguardando os pesos-pesados para o que mais interessa: o Campeonato! Veremos se estou errado. Espero que Sócrates também esteja.

E finalmente, de há uns anos para cá, as duas actividades sofrem do mesmo mal: ninguém aparece para participar no espectáculo! Constantemente aparecem os dirigentes e responsáveis a pedirem uma reflexão sobre o assunto e opinadores profissionais a explicarem o porquê desta situação estranha, envolvendo duas das actividades que mais emoção geram neste país. Uns explicam e apontam a crise económica, a corrupção latente, os maus intervenientes e o descrédito generalizado no futebol para justificarem os estádios vazios; outros explicam e apontam a crise económica, a corrupção latente, os maus intervenientes e o descrédito generalizado na política para justificarem as mesas de voto vazias. E depois começa a nova época. Rola a bola e rola o discurso. E eu já me ponho a adivinhar: outro livre para fora…

Comments


  1. Vai faltando é um Pinto da Costa, para começarmos a ter resultados no país.

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