Damião Romualdo, o portista absoluto

Descendo de uma longa linha de portistas e, como sabem, tanto quanto a genética, pode o costume. Na minha fase de rebeldia, nos tímidos ensaios que fiz de possíveis afrontas ao meu pai, a mais terrível foi dizer que, se calhar, ainda me fazia sportinguista.

Creio que ele percebeu que o tom não seria muito convicente e nunca chegou a demonstrar o choque que eu esperava. É claro que eu não acreditava no que dizia, e apenas consegui dizer “sportinguista” porque a imagem de proferir o pronome “eu” e o adjectivo “benfiquista” na mesma frase parecia-me não só assustadora como fisiologicamente impossível de concretizar.

O meu pai tem sido sempre a imagem do portista absoluto. Na primeira vez que lhe substituíram uma válvula cardíaca, acordou na sala de cuidados intensivos, percebeu, para seu alívio, que tinha sobrevivido, e fez, a custo, três perguntas que resumiam a sua mundividência: “A minha mulher? A minha filha? Como é que ficou o Porto?” O portismo do meu pai tem sido, desde que me conheço, uma das poucas verdades absolutas deste mundo. E como todas as outras, também esta recebeu um embate.

O meu pai leva vários dias hospitalizado. Como sempre aconteceu nas anteriores estadas no hospital, tornou-se o doente favorito de enfermeiros e auxiliares (nunca dos médicos, porque faz demasiadas perguntas), porque colabora em tudo o que pode e faz piadas a toda a hora. Tanto quanto percebi, havia uma espantosa amizade – tendo em conta o pouco tempo de convívio – com um dos auxiliares, que corria para dar resposta a cada um dos seus pedidos, com uma celeridade e uma bonomia que me fizeram pensar que a tão falada humanização dos hospitais públicos é já uma realidade.

No último fim de semana, o meu pai mudou de serviço e despediu-se do seu amigo. Pôde então contar-me o seu segredo. Perante a insistência daquele auxiliar, que era uma figura fulcral, de cujo dinamismo parecia depender a eficácia do serviço, o meu pai aceitou dizer aquilo que o outro queria ouvir, e assentiu que era benfiquista.

Sentei-me. Sentia-me zonza. Olhei para o meu pai à espera de ver o ar trocista de quem tinha acabado de pregar uma partida, mas, ao invés, deparei-me com um meio sorriso envergonhado.

– Ele estava sempre disposto a ajudar… Se eu lhe pedia um copo de água, ele ia a correr buscar. Se queria sentar-me ele vinha logo subir a cama. Quando eu não conseguia comer o almoço que traziam ele ia buscar um iogurte ou uma peça de fruta… E eu só tinha de dizer com ele…

Eu entendia, claro, mas… como integrar esta faceta do meu pai?

– Mas tu dizias-lhe que és… que és… benfiquista?!

– Mais ou menos. Dizia “esses andrades ganham tudo, não deixam ficar nada para nós!”

O meu pobre pai, tão pouco convincente, tentava fazer-se benfiquista elogiando o adversário.

– Ele falava mal do Pinto da Costa e aí eu já não me queria meter. A única coisa que lhe disse foi que também não acreditava que alguma vez o prendessem. “Sabe porquê que nunca o vão prender? Porque, se o fizessem, no ano seguinte o Custóias subia à primeira divisão!”

Respirei de alivio. Nenhuma daqueles afirmações de benfiquismo era credível e ocorreu-me que talvez o auxiliar nunca tivesse acreditado. Talvez, como eu, se comovesse com a figura daquele homem a quem a doença fragilizara, e que, a troco de uns gestos de companheirismo, aceitara negar a paixão de toda a vida e o admitia, agora, com vergonha, à espera da absolvição.

Comments

  1. Luis Moreira says:

    Que lindo texto, Carla!

  2. Luis Moreira says:

    Carla, o meu pai foi um portista dos três costados.Quando estava zangado comigo.Dizia-me ,deste-me um grande descosto em seres benfiquista. Até ao próximo abraço

  3. dalby says:

    oNE SMALL KID AMONG THE MONSTERS, TRYING TO SURVIVE FROM THAT STORM …FOR THE LAST 4 DECADES! ..baby!

  4. maria monteiro says:

    É a forma que o seu pai encontrou para se adaptar às circunstâncias….

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