Os Índios da Meia Praia

A determinada altura tentou-se uma espécie de “reabilitação” do Zeca, que não seria apenas um cantor de intervenção, que as suas canções de amor, por exemplo, seriam recicláveis, uma ladainha que esquecia o facto de estarmos em presença de um poeta maior, e sobretudo de alguém capaz de transformar qualquer estória numa grande canção.

Mesmo a mais “datada” das suas cantigas vale por si, em qualquer dia da semana, em qualquer ano de um século, em qualquer década de um milénio.

Os Índios da Meia Praia, escrita para o filme de Cunha Teles, onde se narra como o povo fez de um quase deserto um sítio para viver, antes de dela fazerem o actual supermercado para turista curtir, é o melhor exemplo disso.

Nela pegaram as Vozes da Rádio e também Dulce Pontes, popularizando uma cantiga que verdade se diga quando foi lançada nem teve um sucesso assinalável.

Claro que se trata de uma cantiga de amor. De amor à humanidade e à justiça. E “quem diz o contrário é tolo“.

Segue a letra completa, parcialmente cantada na versão original em disco, e duas dessas versões.

Aldeia da Meia-Praia

Ali mesmo ao pé de Lagos

Vou fazer-te uma cantiga

Da melhor que sei e faço

De Monte-Gordo vieram

Alguns por seu próprio pé

Um chegou de bicicleta

Outro foi de marcha a ré

Houve até quem estendesse

A mão a mãe caridade

Para comprar um bilhete

De paragem para a cidade

Oh mar que tanto forcejas

Pescador de peixe ingrato

Trabalhaste noite e dia

Para ganhares um pataco

Quando os teus olhos tropeçam

No voo duma gaivota

Em vez de peixe vê peças

De ouro caindo na lota

Quem aqui vier morar

Não traga mesa nem cama

Com sete palmos de terra

Se constrói uma cabana

Uma cabana de colmo

E viva a comunidade

Quando a gente está unida

Tudo se faz de vontade Tudo se faz de vontade

Mas não chega a nossa voz

Só do mar tem o proveito

Quem se aproveita de nós

Tu trabalhas todo o ano

Na lota deixam-te mudo

Chupam-te até ao tutano

Chupam-te o couro cab’ludo

Quem dera que a gente tenha

De Agostinho a valentia

Para alimentar a sanha

De esganar a burguesia

Diz o amigo no aperto

Pouco ganho, muita léria

Hei-de fazer uma casa

Feita de pau e de pedra

Adeus disse a Monte-Gordo

(Nada o prende ao mal passado)

Mas nada o prende ao presente

Se só ele é o enganado

Foram “ficando ficando”

Quando um dia um cidadão

Não sei nem como nem quando

Veio à baila a habitação

Mas quem tem calos no rabo

– E isto não é segredo –

É sempre desconfiado

Põe-se atrás do arvoredo

Oito mil horas contadas

Laboraram a preceito

Até que veio o primeiro

Documento autenticado

Veio um cheque pelo correio

E alguns pedreiros amigos

Disse o pescador consigo

Só quem trabalha é honrado

Quem aqui vier morar

Não traga mesa nem cama

Com sete palmos de terra

Se constrói uma cabana

Eram mulheres e crianças

Cada um c’o seu tijolo

“Isto aqui era uma orquestra”

Quem diz o contrário é tolo

E toda a gente interessada

Colaborou a preceito

– Vamos trabalhar a eito

Dizia a rapaziada

Não basta pregar um prego

Para ter um bairro novo

Só “unidos venceremos”

Reza um ditado do Povo

E se a má lingua não cessa

Eu daqui vivo não saia

Pois nada apaga a nobreza

Dos índios da Meia-Praia

Foi sempre a tua figura

Tubarão de mil aparas

Deixar tudo à dependura

Quando na presa reparas

Das eleições acabadas

Do resultado previsto

Saiu o que tendes visto

Muitas obras embargadas

Quem vê na praia o turista

Para jogar na roleta

Vestir a casaca preta

Do malfrão capitalista

Mas não por vontade própria

Porque a luta continua

Pois é dele a sua história

E o povo saiu à rua

Mandadores de alta finança

Fazem tudo andar pra trás

Dizem que o mundo só anda

Tendo à frente um capataz

E toca de papelada

No vaivém dos ministérios

Mas hão-de fugir aos berros

Inda a banda vai na estrada

Eram mulheres e crianças

Cada um c’o seu tijolo

“Isto aqui era uma orquestra”

Quem diz o contrário é tolo

Comments

  1. Belina Moura says:

    Que saudades, Zeca!

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