Viver e morrer em Portugal

 

 

 

 Lenda: as terras do Luís

 

Tinha reservado o dia para comentar comentários de Aventar. Mas, uma má notícia, leva-me a protelar essas respostas para mais tarde. O filho de uma amiga deitou-se para descansar e nunca mais acordou. Deve andar pelos campos das Walküre, esse jovem engenheiro de alegre vida, cumprida cavalheira dourada enquanto a teve até aos seus trinta e poucos anos, cabelo que acabou por rapar no dia que começou a perder. Ficou….mais lindo que nunca. A sua mãe,  sem ajuda de ninguém, excepto da família, o criou como o menino preferido, o seu único filho, aliás, bom irmão da sua irmã mais velha e excelente sobrinho, primo e tio. A sua vida era diferente. Sabia imensa filosofia, lia tudo o que nas suas mãos aparecia e escrevia imensos comentários das suas longas viagens ao exterior, especialmente pelo Oriente. Essa sua vida diferente, foi aceite e apoiada por toda a família, que o guardou no seu seio, a ele e aos seus amigos e amigas. Há tanto texto escrito pelo Luís Miguel Pimentel Correia, que em duros apertos anda a mãe para editar cumpridos ensaios e publicar um livro dos seus poemas e outras histórias descritivas da família, de Tailândia, da China, do Japão e outros sítios exóticos que visitou. Teve uma vida cheia de felicidade e a sua melhor aventura, era o debate porque sim. Sabia tanto, que os debates eram sempre ganhos por ele: grande lábia, ideias esclarecidas. O seu melhor amigo guarda, na Grã-Bretanha, a papelada para entregar à família, amigo aceite pela família toda como mais um filho. Teve a morte do corpo mas não a das recordações e do conjunto imenso de pessoas que o adoravam. Porque em Portugal há 

várias formas de perecer. Há esta do Luís, que não é a pior, mas há outra que nos deixa tristes: a morte em vida. Ficamos doentes de bactéria social e as pessoas mais próximas afastam-se de nós. Não querem saber o que acontece connosco, pelo implícito temor da morte que levamos, desde a nascença até ao dia em que acontece. É a morte em vida: esse silêncio tão calado, que grita até  nos ensurdecer. Essa morte em vida que faz de nós pessoas que esquecem as palavras por não terem com quem as trocar; ou, se as trocamos, não sabemos qual é a palavra conveniente e adequada que deve ser proclamada. Acontece, especialmente, dentro das famílias em que ocorrem casos de violência doméstica. Não foi assim a vida do Luís, mas é a minha: família distante, família que não troca telefonemas com a desculpa de serem muito caros, pessoas que procuram a sua alegria de viver e tingem com sarna, na sua imaginação, o nosso corpo, esse ácaro que produz uma infecção cutânea e define certa distância entre amigos. Como a lepra, antigamente. Não foi o caso do Luís, mas é o meu. A família do Luís tem-me acolhido e cuidado: porque a minha, esqueceu-se da minha existência e culpa-me por factos nunca acontecidos. Nota-se bem que desconhecem a lei, nota-se bem a transferência do seu mal-estar para quem tem lutado imenso na vida para manter uma família isolada, unida. É como São Tomé costumava dizer: ver para crer. A vida do Luís foi uma vida calma e serena, tão calma que adormeceu de forma normal e não acordou. Mas vive nas recordações da família que sente o luto profundamente. Luto que por mim ninguém guarda por ser pessoa viva e aparentemente de boa saúde, como se as parcas não andassem por perto. Tive um amigo que me denominava, por escrito, campeão da amizade. Onde anda agora? Imenso trabalho? Todos temos, especialmente os etnopsicólogos, que analisamos e somos, também, escritores. Que escrevo mal em português? Paciência! Quem o aprendeu passados os trinta anos de idade e usa muitas outras línguas no quotidiano, é em todas elas faltoso…Viver em Portugal? Já o expliquei antes noutro texto: é andar pelas ruas da amargura e, para estar acompanhado e entretido, é preciso pagar. Sou português, faz-me falta uma família do país que me acompanhe. Triste? Estou. Inveja do acolhimento que o Luís Miguel teve? Imensa. Mas a sua família anda comigo enquanto a morte real não apareça, em silêncio. Se sou amado por outros? Sempre pensei que sim e vou continuar a pensar da mesma forma: choramingar nem acompanha, nem melhora, nem acorda o Luís do seu profundo sono. Ou a mim. Amei profundamente na minha vida, criei uma pequena família, adoro a minha descendência, mas faltam os amigos e a comunicação humana. Senhor leitor, é um desabafo que não merece ler, mas lá vai. Queria ser justo com os que me acompanham e, eventualmente, visitam. Estar doente neste país é a sarna que afasta de nós os mais queridos, excepto as senhoras que amam e amamos, sempre uma. Mania de ser fiel!

Lenda: homem feliz  que choraminga de forma injusta…

 

Comments


  1. Prof. isso é a solidão.Todos temos um pouco.Abraço


  2. Muitas vezes, quando julgamos estar sozinhos, isolados ou a clamar no deserto, estamos acompanhados por muitos amigos que compartilham a nossa solidão e o nosso isolamento. É um paradoxo, mas como acontece geralmente com os paradoxos, retrata a realidade. Não está sozinho, meu amigo. Lembre-se de que somos muitos. Receba um grande abraço.

  3. maria monteiro says:

    Na vida há sempre uma mistura de solidão e saudade que nos deixa ficar com “chuva” no olhar mas o importante é… nunca deixarmos de ver com amizade maria   http://www.youtube.com/watch?v=2YixcrWmmwg&feature=related

  4. Dal-Tónico says:

    muito bonito , muito profundo, and a bit sad… uma música para isso: Undone (desfeito, mas ….por amor..de paixão!)

    (http://www.youtube.com/watch?v=Mo6iwTRLy94) </a> Duran Duran – Come Undone (http://www.facebook.com/l.php?u=http%253A%252F%252Fwww.youtube.com%252Fwatch%253Fv%253DMo6iwTRLy94&h=45ca47363da56f0f9fcdce4a341677e5&ref=mf) http://www.youtube.com Duran Duran – Come Undone EMI UK (P) 2006 The copyright in this audiovisual recording is owned by EMI Records Ltd


  5. sei do que estás a falar, estou há 6 meses vivendo em madrid e quero voltar a terrinha!

  6. Dal-Tónico says:

    pero yo amo a madrid..de madrid al cielo…


  7. Caro Luís, agradeço as suas calmas palavras. Talvez seja capaz de apreciar que o texto tem sido mudado e reeditado. O escrevi com sentimento, sem citação nenhuma , não preciso. O saber anda comigo. Lamento o seu engano; não é solidão. São apenas as formas de gerir a intercação social dentro do neo liberalismo. Mal ficamos durante um tempo pouco accesiveis por causa de doença, o noso valos desce 150%! A economia regulamenta as relações humanas. No dia que falecia, a casa estava cheia de gente. Melhorei por teimosia e persistência:relações acabadas. Em Portugal há um espantoso medo aos doentes e aos que vão morrer. E o caso do Luís Miguel, é solidão? Porque o choram os seus pais, amigas, amigos e outros? É a nova forma de coordenar relações humanas…. Abraço, porque o estimo o meu amigo: sempre telefona….e ajuda nas minhas aventuras do Aventar! Agradece o seu comentário berve mas enganado, quem se estima o seu amigo.RI


  8. Meu Caro Carlos, sempre estamos entendidos, faz-me feliz. O meu poste é por causa da tristeza da família que perdeu um filho brilhante, família que me acompanha sempre. Morte inesperada, mas calma: no seu sono. Os pais é que ficaram sós, especialmente a mãe que o criou. Infelizmente, não é paradoxo. Quanto a mi, estou certo deve já ter lido do, para mim Gabo, ou Gabriel Garcia Márquez : Crónica de uma morte anunciada. Como a minha que, acabadas as análises, a crónica começara e este poste é parte dela. Não se engane Carlos. Não foi engano meu escrever Portugal, um país fatimizado : é uma ironia desde o começo até o fim. Um país cristão em procura de conforto pessoal, apesar de muitos irem de joelhos pela saúde dos seus seres amados . Mas, como Etmopsicólogo , entrevistei, ao longo destes anos, muitos dos crentes: ou se o filho morria a mãe ficava sem apoio, ou se o marido decidia ir com outra: utique ! Bem sei que entende latim, caso não e para outros leitores, utique e sim ou repete-se a mesma fórmula. Continuo Há uma excelente comercialização entre a divindade e os seus gestores romanos, como tenho dito a mais de dez vezes em que tenho sido convidado a dar conferências a Fátima a frades e freiras, ou vive-versa, as senhoras primeiro, dizem por ai…Não estou só, estou bem acompanhado pela Senhora que fixa os meus textos-aprendi português aos 38 e escreveo em cinco línguas, nenhuma delas lidas pela minha desd cendência, ainda menos pela minha primeiraa mulher, que fizera as 7.30 a.m. um comentário que me fez sentar, como é habitual em mim, a escrever, mas desta vez de imediato. Tinha raiva comigo por ter telefonado a quem nem devia…ser trocado çor outro…Não é a solidão. O meu Caro Carlos no liu o texto final, o David de Buonarrotti: as esculturas, desenhos e fotos falam, eis o meu cuidado de colocar tantas! Ora, se a sua simpatia é pela sua própria solidão, pense nas palavras endereçadas a mim e use-as. Se houver mwis intimaidade, tem os meus dados pessoais e falamos. Sair, não posso, falar muito, cansa-me. Sei qye vou falecer em breve, mas não me assusta, não sou homem de fé e entendo que vou descansar de atropelos. Faz dois anos tive que paar por causa de acidente cerebral vascular, que lentamente nos impossibilita. Mas se Bettelheim foi capaz, imbomilizado e todo aos seus 85 escrever a História dos contos de fada, bom, esse é o David de dim de texto, As nossas conversas são tão interesantes! Haverá mais. Quanto ao poste  Método Científigo que comentara, tinha uma intenção que atingiu o alvo. Obrigado meu Caro. RI


  9. Querida Maria, bem sabe que não sou machista, pode ler os meus postes, especialmente o de ontem e reparar que ensino as pessoas a todas por iguais. Se assim não for, eu não seria de Amnistia Internacional ou de Human Rights Watch . O problema é que as Senhoras têm sido criadas na nossa sociedade com un ser humano secundário. Estão os meus livros e no do dominicano , falecido cedo na vida, Emílio García Estebanéz , que escrevera o livro de 1992: Es cristiano ser mujer ?, Siglo XXI, Barcelona e analiza o tratamento que o patriarcado romano vós dá. Quem me dera ser mulher para lutar contra o machismo, poste que pode ler no dia de ontem ou o anterior em  Mulher a crescer, machismo a tremer. Os seus sentimentos são tão simpáticos e tantos, que lamento não ter respondido antes, mas esta doença que as vezes paraliza, o não permite estar muitas horas no computador. Aliás, nós, de certza mais velhos que Maria, fomos criados como machistas. A minha sorte é ter sido abandonado na Grã-bretabha e ser mãe e pai das nossas filhas , já crescidas, permitem-se julgar ao pai. Era a mina tristaza de hoje de masnã e a ternura, talvez por ser senhora,e eu criado de forma machista, que o seu comentário acordou em mim. Um desejo violento de não querer sofrer mais. Pode advertir que não sou homem de fé, mas quem me dera: pensaria que ia viver outra vez o podia acordar ao Luís, esse sobrinho da minha amiga especial Permita-me beijar a sua não Obbrigado. RI


  10. Meu caríssimo amigo, é muito aguda a sua observação de que, ao referir-me à sua solidão, era da minha que estava a falar. Um poema do «nosso» Pablo , da suas Odas elementales » ( Oda a la soledad »), termina com estes versos: Y esta palabra que aquí dejo en la ram suspendida, esta canción que busca ninguna soledad sino tu boca para que la repitas [Error: Irreparable invalid markup (‘<p […] <a>’) in entry. Owner must fix manually. Raw contents below.]Meu caríssimo amigo, é muito aguda a sua observação de que, ao referir-me à sua solidão, era da minha que estava a falar. Um poema do «nosso» Pablo , da suas Odas elementales » ( Oda a la soledad »), termina com estes versos: Y esta palabra que aquí dejo en la ram suspendida, esta canción que busca ninguna soledad sino tu boca para que la repitas <P class=incorrect name="incorrect" <a>la</A> escribe el aire junto a mí, las vidas</P> que antes que yo vivieron, y tú que lees mi oda contra tu soledad la has dirigido y así tus proprias manos la escribieron, sin conocerme, con las manos mías. Fernando Pessoa, o «nosso» Fernando, disse: Quando estou só reconheço Se por momentos me esqueço Que existo entre outros que são Como eu sós, salvo que estão Alheados desde o começo. E se sinto quanto estou Verdadeiramente só, Sinto-me livre mas triste. Vou livre para onde vou, Mas onde vou nada existe. Creio contudo que a vida Devidamente entendida É toda assim, toda assim. Por isso passo por mim Como por coisa esquecida. Digo-lhe palavras de poetas, porque não quero dizer-lhe palavras vãs e ocas, lugares-comuns. Não sou crente, não acredito que exista outra vida para além da que estamos a viver. Mas sempre lhe vou dizer uma palavra – esperança. A esperança não é um monopólio dos crentes. Não lhe digo para lutar, pois vejo que está a lutar – que outra coisa são os seus magníificos textos que uma forma de luta? Também tenho uma doença grave que, lentamente, me está a invadir. Desde que me foi diagnosticada, há dois anos, já apareceram novos fármacos. Como se diz nos livros policiais, «daqui ninguém sai vivo». Mas temos o direito e o dever de adiar, tanto quanto estiver ao nosso alcance, o momento da partida. Receba um forte e solidário abraço do Carlos Loures


  11. Peço-lhe desculpa, o texto parecia estar bem, mas agora aparece desconfigurado. Oxalá o consiga ler.

  12. uma mulher says:

    Vai-me desculpar o atrevimento. Como ficamos em paz? após muito sofrimento , com sorte , descobrimos que todos são tão miseráveis como nós. Ou perfeitos na sua imperfeição ( a minha preferida) . E ficamos livres para sermos exactamente como somos . Pacificamente. Mas lá que dá trabalho , dá. Livrarmo-nos das amarras da cultura do dominante e dominado , ensinada logo com o Deus criador e xpto  ? puxa , fortaleza de carácter e pais à maneira são indispensáveis. E pronto , depois ,  a gente aceita o que vier aí como qualquer coisa indispensável ao crescimento. O medo , isso é que me preocupa mais que a paz. ainda não consegui livrar-me dele.


  13. Senhora, obrigado por me ler. P seu comentário és triste. Procura a imperfeição , para que? Essa classificação de seres humanos em perfeitos ou imperfeitos, parece-me uma classificação de culpa. Os seres humanos somos e é suficiente com isso. Acabo de falar com uma amiga, viúva quase seis meses e ainda chora. O quê? A morte do marido? Ou as deslealdades do marido que também tinha outra casa com senhora nova, e ela, em procura de vingança, queria um outro homem para ela. Fui directo: não me venhas com prantos pela morte, mas sim pela lisura de ter aceite em casa um homem com outra e tu com outros. É verdade que o Concílio de Trento, Século XV, fechou aos ocidentais dentro de uma mesmo tecto dia após dia, com promessa de fidelidade. E a libido que manda em nós, como a enceramos? E o de Latrão ii, Século XII, deu-nos outras armas para nos sentirmos mal: a confissão privada, essa introspecção que nos envergonha. Não sou homem de fé, nunca fui capaz. Aliás, sou materialista histórico , mas DEVO conhecer as matérias de fé para orientara mente que se culpabiliza desnecessariamente, como é o seu caso. Também pode ser que o seu comportamento seja oculto contra as normas culturais e queira sentir-se mal para limpar o seu pensamento. O pensamento limpa-se apenas não sendo um contraventor, ou si o eu, assumindo essa contradição aos costumes. Minha senhora, a vida é um pestanejar, é apenas um dia. Ria mal acorde de manhã e sentir-se-á melhor. Não são conselhos estas as minhas palavras, são um deambular de ideias em base as suas. Com carinho RI