história sintética da Galiza

bandeira da Galiza, ceibe e socialista

texto retirado do meu livro o crescimento das crianças, Profedições, 1998

O reino da Galiza tinha já sofrido diversas invasões. Como nas lembranças sociais de Victoria, nas de Pilar há também uma memória social que as repete. Mas, ao contrario que no caso de Victoria e os seus pares. Porque para Victoria, a Conquista é uma bênção que permite que um povo Nativo, seja primeiro um Reyno, depois um Estado e República independentes, autónomo. O que, como Pilar, a sua família e os seus pares, sabem que não é assim na Galiza. A Galiza é Celta, é Romana, é Sueva, é Visigótica, é Castelhana, é Lusa, é Espanhola, é autónoma, como Estado parte do Estado Espanhol, entre os séculos antes de Cristo e o dia de hoje. Quando a dita autonomia permite que a língua galega seja também língua oficial, em conjunto com a Castelhana. E a lei Galega, não o Estatuto de Castelão (1931) nunca aprovado na II República que o meu amigo Ramón Pinheiro defendeu até a sua morte. Uma lei directa, própria, sempre subordinada a lei geral do Estado Espanhol e às leis específicas que o Estado central, assina como Yo, el Rey. Embora saibam Victoria e Pilar, ou não saibam, que a Monarquia Espanhola é comum para os dois Reinos, o do Chile até 1818, e o da Galiza até hoje. Porque a invasão Napoleónica a Espanha, alastra ao Rei Fernando VII ao seu cativeiro de Paris, onde muito bem fica, faz-se revoltar ao Reyno de Chile que aderia á Coroa e á pessoa do Rei, e causa o seu afastamento de dita Madre Pátria, porque já não há proprietário, o Monarca. O que serve para basear a Independência na hoje América Latina, o que serve para começar os levantamentos contra os direitos

senhoriais da Galiza, contagiada pelo liberalismo francês da revolução burguesa do Séc. XVIII. E pela assinatura de uma Constituição não absolutista á volta de Fernando VII a Espanha (1812) Contagiada de tal forma, que começa, saiba Pilar ou não, a existir resistências aos direitos senhoriais que a Coroa outorga aos seus membros da Corte. Bem que no Reyno do Chile a propriedade é encomendada a um numero da famílias em conjunto com os índios, na Galiza a terra é encomendada a membros da denominada aristocracia ou de títulos que, por séculos, têm permitido gerir a terra a nome da Coroa, fosse quem fosse o detentor da mesma. E o direito foral existe, como tenho já referido antigamente em documentos que transferi a letra impressa (1977, 1979, 1988). Donde os proprietários das terras reconhecem a propriedade superior da raiz Direito, á Casa de Lemos e de Alba no século XVIII. Proprietário que têm o direito a usar a terra como deles próprios, a transferi-la, a transmiti-la, a vende-la, a acrescenta-la, sempre que estejam, ano após ano, a pagar uma importância em bens que é entregue no dia sinalado, o dia da colheita, o dia do Santo da Colheita, São Lorenzo em Vilatuxe. Foro que é a licença para usar as terras do Conde-Duque, que pela sua vez paga ao Monarca os seus Direitos por ser o Senhor desses domínios. É esse o motivo de que se fale de foro, de senhorios solarengos, de senhorios compartidos, de direitos dos senhores acabados na Galiza até o século XIV e restabelecidos pelos invasores Reis de Castela e Leão, no dito século. Para o apoio em exércitos e bens para a empresa da expansão do Reino Espanhol além-mar e além fronteiras na Europa. E dão licença para o uso da terra a senhores que usam o contrato de enfiteuses para darem licença aos trabalhadores da terra para produzirem nas mesmas os bens que ião circular pelos mercados. Foros que são contestados pelos finais do Século XVIII e que a casa de Lemos e de Alba, proprietária, tem bem cuidado de manter. E, como agora Pilar sabe, ainda que a memória social o reconhecia sem saber porque no dia de hoje, a casa senhorial envia ao seu parente Medela a tomar conta, a observar como é que o povo trabalha e paga no dia devido. E a eles, os senhores representantes dos senhores. O Iluminismo e a herança Roussoniana que está a libertar as ideias e aos países e aos indivíduos de subjugação a um senhor, faz terramotos locais que tentam serem previstos pelos proprietários cortesãos, detentores de títulos que permitem demandar reconhecimento de senhorios e produção. Joseph Medela (Genealogia 9), licenciado em Direito pela Universidade de Compostela, é enviado a Gondoriz Pequeno a gerir. Com a sua mulher Angela González, pelos começos do Século XVIII. Simplesmente, a gerir. É Mozart (1786), como membro de Iluminismo e criador da música como mercadorias é Wagner (1876) mais tarde, que colaboram á Revolução burguesa contra a aristocracia a cair. Á revolução aos direitos senhoriais que escraviza aos rurais. O que os Enciclopedistas tinham dito. Saber que não é sabido pelos vizinhos de Vilatuxe, que pagam aos Medela parte da sua produção, para eles pagarem a Lemos e Alba, que, pela sua vez, pagavam parte de produto à Coroa de Espanha. Joseph Medela, que manda aos seu filho á Compostela, para saber leis e entender os direitos de Mayorazgo, de Patruciado, de domínio directo, de domínio útil. O que Gregório Medela faz pelos 1770, já a se conhecer bem as disputas entre senhores e camponeses que Maria Jesús Baz Vicens (1996), Xosé Manuel Beiras (1972), Ramón Maiz (1997), eu próprio (1988), tenho tentado entender na nossa pesquisa e obra. Mas, nunca tão bem como os próprios. Porque Gregorio Medela faz troca matrimonial com uma proprietária do Direito útil da terra em parte de Gondoriz, Dona Maria Juana Tavoada e Rodriguez, para juntar direitos úteis e poder por sobre os produtores, ditos camponeses. E em l779 manda ao seu também filho licenciado em Direito por Compostela se comprometer em matrimónio com D. Josefa Gil de La Torre, proprietários os pais do domínio útil da vizinha Paroquia de Gresande., ou Santiago de Gresande. Ainda a tempo, quando já as Cortes de Cádiz, visto o mal que a rebelião camponesa começa a causar na produção, duvida de que o domínio senhorial seja válido para tirar bens e impostos. E manda acabar com esses direitos em 1823. Quando Benito Medela já é, em pleno, advogado que sabe gerir pessoa e bens para a Casa proprietária de Lemos. Essa Casa que ri da lei, ao trocar o pagamento de produtos, por impostos em dinheiro pelo uso do direito útil. O que os camponeses não toleram porque não têm dinheiro em moeda, e continuam, embora com revoltas e disputas, a pagarem direitos em bens. E a se revoltarem contra a guarda que cobra impostos para alem do senhorio de Lemos. Embora diezmos e primícias sejam perdoados, a Coroa, a cair em 1868, manda a cobrar um imposto sobre os bens de consumo, ditado pela filha de Fernando VII, esse que teve que assinar a liberdade dos países coloniais e varias constituições absolutistas e liberais, a seguir a liberal imperativa de 1812 – três em 15 anos -, filha Isabel II para a qual Fernando VII preparou a Lei Sálica em 1833, e abdicou. Os vizinhos de Vilatuxe só sabiam do pagamento do imposto ao consumo, que odeiam nesses dias e que a Monarquia Constitucional e eleita de 1868 substitua pelo imposto pessoal. E que é para os Medela vigiar de que seja cumprido o seu pagamento. Auxiliados pela guarda civil de 1870. Essa guarda que açude a vai no Domingo 5 de Novembro á saída da Igreja a demandar o pagamento de imposto, e são apedrejados pela vizinhança de duzentos que da Missa saía, com José Ferradas à cabeça. Esse José Ferradas, vindo da vizinha Paroquia de Barcia, aí casado em Vilatuxe, e com a sua descendência ainda viva em Vilatuxe lugar. (ver documento). José Ferradas irmão de Consuelo Ferradas, que funda a ainda existente família de Ramos, caseiros do Cura da Igreja e proprietários dos foros redimidos, dinamizado pelo Sindicato ante – foros de Lalín de 1906 (Iturra 1979), e que em 1926 o Ditador Primo de Rivera acaba por fechar, para tentar salvar a monarquia de Alfonso XIII.

O que não consegue. Benito António Medela é o último dos licenciados em Direito da família Medela e passa a sua família a ser mais uma da Paroquia, só que com bens a reaver em todos os sítios da Paróquia e além Vilatuxe também. Mesmo ao pé do monte, onde o pai de Pilar, Hermínio, faz a casa referida, perto da sua futura herança. Que hoje tem e gere e trabalha. Benito em l822, tem, com a dita Dona Josefa Gil de La Torre, uma filha, Jacoba, que acaba por dar-lhe dois netos em 1842 e 1845, frutos do amor com o seu Primo Advogado em Cânones pela Universidade de Compostela, Gregorio Medela. Esses filhos eram José António e Manuel Benito, que nascem em segredo em Gresande, a terra original da mãe de Jacoba, são aí baptizados e inscritos. Se não fosse por Jacoba Medela, o apelido desaprecia da Paróquia: é José Antío Medela quem recria a família, tinha sido levado em pequeno a Gondoriz Pequeno e a ficarem com a herança do avó e a que o pai tinha por essas bandas. O que faz de eles senhores, que, por amor, dão origem a uma raça de Medelas, proprietários de direitos utieis, logo de propriedade directa os seus filhos e netos, quando Manuel Benito casa com outra proprietária de direitos úteis, Marcelina Friol, e José António com ainda outra do mesmo direito, Teresa Ramos e, a sua morte, com a herdeira de terras de domínio útil, Benita Taín Taboada. Há uma emotividade entre iguais, estruturada pela conveniência de se apropriarem de terras a gerir com enfiteuses a serem pagas a eles, e eles á casa de Lemos. Amores de conveniência, como os de Pencahue entre primos para juntarem terras. Os Medela vão acumulando um património, como Pilar sabe por ouvir ao longo da sua vida. O neto de Jacoba, José António, casa com a herdeira de direitos forais de Lebozán, transferida á Gondoriz Pequeno, a terra da sua mãe Manuela Canda ai nascida e aí com direitos à terra também. Mas faltava dinheiro, o que faz ao José António de Medela de 1887, emigrar pelos começos do Século 20, aos Estados Unidos, para juntar dinheiro e recuperar as suas terras redimidas, as terras que ele pode agora demandar como próprias e pagar. Dinheiro faz falta e Adelaide Taín Canda, emigra também a Uruguai para juntar numerário para pagar as suas terras demandadas como próprias, sob a lei de 1926 já referida. O resultado é duro: ganham moeda, mas perdem afectividade e carinho, manipulados pelas saídas e as distâncias, as emigrações e o deixar os filhos com os avós. Não é a época dos direitos senhoriais, embora fiquem nos hábitos e costumes, o que temos observado nos Hermínio e Esperanças referidos. O que não há nos Ferradas referidos, jornaleiros, aparceiro, foreiros (Iturra 1979), a viverem do seu trabalho directo na terra. Da forma que a Família Dobarro já relatada, fez. Não havia direitos úteis a defender, havia trabalho útil a dar para a Paroquia, como José Ferradas e a sua irmã Consuelo, que casa com o parceiro do Cura, Benito Ramos, e dão uma cumprida descendência à paróquia. Mulheres escolhidas pela sua força no trabalho, pela sua capacidade de irem ao campo e de amamentarem aos seus filhos enquanto trabalham. Como Flora Taboada, neta de José Medela, fez. Como Esperanza de Celestino Ramos Ferradas, fez. Como a ascendência de Esperanza de Hermínio, fez. Como Filomena Ferradas, fez. Porque é o tempo de trabalho era a melhor companhia para a afectividade de todos eles, e o ter herdeiros do aluguer das quintas, das terras, o força de trabalho para poder pagar as medias de bens que tinham que entregar aos outros da paroquia que lhes arrendavam bens enfiteutas, ou deles próprios, mais tarde. Se os ancestrais amavam? Pergunta-se Pilar hoje. Amavam-se como eles amam hoje? Mas, como Pilar e os seus dizem, o que é que é o amor? A afectividade? O que a fraternidade, a filiação, se não o respeito as pessoas próximas, em condições de permanente revolta, como foi a Galiza submetida à Espanha, durante os séculos referidos, e o século que agora acaba? Quando Pilar não era, era a relação de sobrevivência que acabou por fazer dois conjuntos de famílias separadas pelo estatuto, os Medela e os Ferradás, um conjunto de parentes próximos, apenas afastados pelos grupos de trabalho já existentes desde que os direitos senhoriais demandavam tanto bem como mercadoria e pagamento pelo uso das suas terras. A liberdade para seduzir, construi-se dentro do trabalho, quando alguém pretendia a alguém e visitava, falava aos pais, colocava ao pé da moça uma roca para o fuso do linho, cultivo principal que foi em Vilatuxe, até que a emigração levou a mão-de-obra a outros sítios e o linho foi trocado por batatas, erva, leite, vacas, como já relatara antes, invocando a todos eles em este texto. Pilar tem uma herança, como Victoria, uma herança que diz respeito quer a terras que os seus ancestrais lutaram, quer a uma forma de afectividade, que os seus ancestrais cultivaram de forma laboral os uns, os outros de luta senhorial. E na emigração, que separou famílias por um tempo, como dizem as fotos que me ajudam a relatar esta história Essas fotos de grupos de parentes que emigram para poder juntarem dinheiro para pagarem as terras. Fotos que começam em Vilatuxe apenas nos anos 20, Quando o meu amigo e vizinho Eladio Fernández Ferradás tinha 22 anos. Um Eladio que pastava as vacas comigo, enquanto contava a historia que me narrava quando tinha memória. Uma memória que o Pedro do Cabo ou Fernández, de Filomena Ramos Ferradás, nos seus 92 anos hoje, ainda me conta, como me contara faz, também antes 26 anos. Um Pedro do Cabo capaz de identificar as pessoas das fotos, que a aldeia não reconhecia. Nem Sofia de Vicenta , filha de Eduardo Ramos Ferradás, morto a causa da emigração ( Iturra 1997), nos seus 80 anos, consegue contar. Mas conta a irmã mais nova, Manuela, cumprida e detalhadamente. Análise que faço em detalhe no texto citado mais acima. Porque o que Pilar sabe herdar, como os seus pares, é esse carinho que as famílias têm entre si. E que quando não existe, é trabalhado com a distancia da emigração ou a distancia formal do trato. Mas, o que Pilar melhor conhece, é que o trabalho e a luta pelos direitos a pela aquisição de bens, faz da emotividade um facto. Um facto útil para a reprodução. Não é o amor romântico do famoso filme A árvore dos Tamancos (1978), que é romântico no nosso ver, mas pragmático no ver de quem faz os tamancos e às crianças. Uma emotividade que era a causa da utilidade que a criança tem depois. Como na árvore dita, quando os pais vão a escola e dizem que o pequeno serve para o trabalho, não para os estudos. Ou como nesse outro filme tão semelhante Padre Padrone (1977), o filho retirado aos paus da escola para tomar conta das ovelhas. E treinado à bruta pelo pai, que sabe assim dar um carinho que será a utilidade do filho no dia de amanha, quando tenha que organizar e gerir a fazenda, no dia que ele não exista mais. E o carinho, porem, não é o beijinho, é a segurança e o apoio dado na aprendizagem do manipular da tecnologia, do saber da terra, dos animais, do entender de direitos e de polícia, de guardar o silêncio quando é melhor não falar para não divulgar o que se deve defender. Como no filme não feito da Paroquia de Vilatuxe. Donde, emigrar, é amar, donde comprar, é amar. Donde comunicar por fotos é amar. Porém a acção de um José Ferradás, é amar, causa a passagem a igualdade de classe entre antigos foratários e foreiros. É assim que entende Pilar que os ancestrais amavam. É assim que entendo eu que, em isso que parece utilidade, há emotividade, fraternidade, solidariedade, a reciprocidade maussiana, invocada antes. Trabalhar juntos, é o cultivo dos laços íntimos e da fidelidade. Carinho, a transferência das emoções simpáticas e antipáticas. Este conjunto de factos observados ao longo do tempo em estes três grupos, é a comunicação, a epistemologia, o conhecimento que mantêm a unidade e faz de essa unidade o amor que Victoria, Pilar e Anabela, p
rocuram saber de quando não eram. A base do que são. A base cognitiva do que são. A base empática do que são. Emoções, porém, que são o processo de ensino e aprendizagem ao qual tenho-me já referido em outro texto (1994). Que os ancestrais amavam, era assim que amavam. Considerando que a afectividade é conjuntural e contextualizada pelos acontecimentos políticos, históricos e culturais da sociedade global, assim como da sociedade local, quer de Vilatuxe, quer de Pencahue, quer ainda, de Vilaruiva. Tempos de saberes cronológicos que as pessoas sabem adaptar ao seu entender. Onde a confiança brilha e a infidelidade é só a não colaboração na luta que fará, do grupo, um grupo calmo, bom, próspero, leal. Como é possível ver nas fotos. O quase filme que nunca foi ainda feito de Vilatuxe. É possível ver na foto 1, de que há um grupo de homens vestidos de fato. É uma fotografia tomada em Nova Iorque, no ano de 1920. Foto que exibe o referido grupo de homens que fora a U.S.A. De pé a esquerda, está José António Medela Friol, o pai de Hermínio, avó de Pilar. Tinha emigrado para juntar o dinheiro necessário para recuperar suas terras demanda. E a raiz que ele pagava á casa de Lemos. E como já estava a redenção de foros a andar, precisava de uma importância da qual carecia, para ficar com o direito de propriedade plena. Aparece junto a um conjunto de pessoas, toadas os seus parentes, como é possível ver na genealogia que acompanha á fotografia (Genealogia 10). Entre eles, os parentes Ángel Fernández Villar, Eladio Fernández Ferradás e Guillermo Arca Canda, o primo de José António Medela. Há três de eles que desejam pagar as suas próprias terras, ou comprar as que tinham alugado como lavradores, Hermínio Dobarro, Eduardo Fenández Villar e Celestino Ramos Ferradás. Como a foto mostra, há parentesco entre vários de eles, pelas mãos a tocar o ombro do outro, como está descrito na genealogia da foto. Mas há também o facto da empatia pouco simpática, como é o caso da historia que mostram as fotos de Celestino Ramos e a sua mulher Esperanza Silva Outeiro, foto 2, no dia do seu matrimónio antes de Celestino ir a Buenos Aires em procura de dinheiro para comprar terras para acrescentar as terras arrendadas, e a foto 3, que Esperanza envia a Buenos Aires com a filha Pura, que tinha nascido depois de ele ir embora e ficar grávida. E a foto 4, que mostra aos filhos de ambos, e ao único filho homem, nascido enquanto Celestino estava nos U.S.A, de um primo da mulher. Documentos todos que revelam as relações caladas que acontecem entre todos eles, e que os adultos entendem e calam para eles. Viagem bem sucedida nos dinheiro, eis o motivo pela qual fotos são enviadas desde USA para Vilatuxe. Para apoiar e dar valor as mulheres e as famílias, para provar o sucesso que a viagem significa ou está a significar. Do valor que tem a separação quanto ao futuro reprodutivo por eles a construir e que são representados nos filhos que lá tinham ficado. Se entre os emigrantes que ficam fora cinco anos, há a fidelidade catequista de Trento, ninguém pergunta e é suposto de que assim não seja. Não há comentários, porque a ideia do sacramento matrimonial define uma ligadura para cultivar até a morte. Pelo qual Celestino nada diz do filho que encontra a sua volta e ainda faz mais outra filha com a mulher. A ideia é que é o primo quem seduz, e passa a ser o inimigo, com quem não se fala. A mulher não tem sexo, não tem desejo, da forma em que socialmente tem sido construída a sua inferioridade, como mostro em outro trabalho (1996). Assim como é em outro trabalho (1997), que construo a metodologia que a foto dos homens, me permitira fazer. Todas elas, fotos que tive que reconstruir de entre as casas onde estavam abandonadas, partidas, sem ordem nem origem. Porque são fotos afectivas, que servem para manter uma relação amorosa, de paternidade e de trabalho, valores todos que são a herança de Pilar. E a herança dos seus pares. Nem todos viveram para poder investir o seu dinheiro, como foi o caso de três que trabalharam nas minas de estanho. Mas, as suas famílias, ocuparam-se com o bom sucesso material de todos eles, sucessores. Eladio Fernández, que fora aos seus vinte anos, viveu até os seus 99, e é no dia em que escrevo estas palavras, que sei da morte do mesmo, a 11 de Abril de 1998. Pilar tem todo um exemplo para ouvir, pela sua pesquisa entre genealogias, filhos velhos de emigrantes antigos, todos parentes entre eles. Parentesco real e de conveniência, como denomino em um outro texto (1988), que faz fechar o lar doméstico, à maneira de Fortes e Goody (1958). Para criar as crianças que crescem dentro das paredes da casa. Não para afasta-las dos parentes, bem como para distinguir os níveis diversos que o parentesco tem: reprodutivo humano no lar, reprodutivo material no trabalho, reprodutivo em troca no matrimónio, tabu em certos graus de consanguinidade, estimulante para conhecer outros com os quais intercambiar pessoas, possível de juntar terras pela aliança de pessoas que estão com terras perto, pela herança consanguínea de tios. Se os ancestrais amavam, era esta a maneira de amar: pragmática, com a emotividade simpática a ser construída. A causa do contexto já mencionado, histórico, social e político, global e local.

(continua)

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