história sintética da República do Chile

símbolo de uma República certa e serena, que sabe o que quer e debate como deve ser

 

…retirado do capítulo 4 do meu livro o crescimento das crianças…

As crianças crescem á medida que a memória social impinge a memória individual, isto é, a criança é o resultado do saber acumulado cronologicamente no tempo. No tempo em que a criança vive e no que os ancestrais andaram a viver, perto ou longe do tempo da criança. O saber é contínuo, embora conjuntural nas suas mudanças. O processo educativo que resulta da interacção de um mesmo povo, através da História, ou com outros povos através, também, da Historia, é o que faz o que eu sou.

A racionalidade da criança, indivíduo com uma epistemologia acumulada, é diferente da racionalidade cognitiva do adulto. O entendimento é diferente. As várias gerações que vivem dentro do mesmo tempo, têm experiências diversificadas, quer pelo ciclo, quer pelo tempo que a pessoa leva na História do seu ser social. Experiências que são emotivas, mas orientadas pela razão, porque a criança observa para calcular, e calcula.

Comparar três povos de diferentes línguas e experiências, não é simples, mas é um desafio interessante para quem trabalha os dados do quotidiano. Um quotidiano,

para mim, muito prolongado pois os Picunche conheço-os de sempre, os de Vilatuxe faz trinta e seis anos, e os de Vila Ruiva, vinte e dois. Somos poucos a estudar a criança como entidade humana que entende e aprende e não é um problema a resolver. Os adultos procuram que a criança seja adulta em pequena, como Ariés tão claramente diz (1964) e Lahire (1993) e Pierre Bourdieu (1993)[1] estudam. Como Eugène O’Neill (1956) faz no Longa viagem do dia á noite, onde a criança aparece no corpo e comportamento de cada adulto. Porque a interacção do lar, acaba por ter atalhos de adulto, atalhos de criança, atalhos da emotividade, atalhos da razão. Atalhos, que são a realidade que vivemos. A criança não tem atalhos de adulto para o adulto, tem sempre comportamentos irreflectidos e espontâneos, que os pedopsiquiatras gostam de estudar. E que a população do quotidiano gosta de beijar. Até que uma criança a crescer, rejeita tanto apalpar. Uma criança a crescer, pode, para prazer do adulto, imitar comportamentos. Como aquela que conheci de perto e que pedia ao seu avô para fazer um cavalheiro, e ele cruzava as pernas, uma por sobre o joelho da outra, as mãos agarradas por sobre o joelho livre, mirava em frente e a serio. Até se cansar. Uma maneira de atrair a atenção do avô e dos adultos. Se depois não comia, era o grito, não a sedução. A sedução acaba aí onde começa a ideia de que é o adulto quem sabe, quem manda, quem disciplina, quem grita e pune, atitude, para esse adulto, equivalente a ensinar. Desconhecendo que corrigir com paciência, é ensinar; que deixar fazer, é ensinar; que mandar ler, é ensinar até privar a criança de brincar com os seus pares, é ensinar. Marcado estou pela minha reflexão sobre o processo de aprendizagem, retirado da minha experiência na análise de grupos domésticos e da sua interacção. E é, precisamente aí que vejo o que é a heterogeneidade da vida da criança. Resultado que o seu professor desconhece e que Luís Souta (1995), Telmo Caria (1997) e Ricardo Vieira (1997) estudaram, tal como Henrique Luís Costa Gomes de Araújo (1998), variando, no entanto, de classe social. Estas referências, são para ajudar a referir o que pretendemos saber: o crescimento das crianças de forma espontânea, etnográfica – a criança que é. Pequenada da qual tomamos conta até ela tomar conta de nós e nos apercebermos que afinal calcula, como o demostra Filipe Reis (1989-1991-1997), nas suas pesquisas efectuadas na Beira Alta. Cálculo, resultado da vida quotidiana que a pequenada tem, longe dos adultos. Ou com adultos, quando é ritual. Porque a pequenada, como todo o ser, tem uma vida diferenciada entre vários assuntos que bem sabe distinguir.

A-   Victoria

Entre os Picunche, os pequenos são queridos e cuidados. Como toda a criança mapudungum do Chili pré hispânico. Gabriela Mistral[2], poetisa chilena, que ganhou o prémio Nobel de 1945, reclamava-se índia do Norte do Chile – onde ainda habitam os Aimara, escreveu: Piececitos de niño, azulosos de frio, como os vem e no os cubrem, Dios mío (1922), num dos vários poemas dedicados aos mais novos. Gabriela Mistral, foi professora primária do pequeno Pablo Neruda[3] ( nascido em Parral, a 12 de julho de 1904), que cresceu e nunca mais se lembrou de ser pequeno. Como era na vida real. Histórias que Victoria nunca estudou porque em casa não sabiam e porque na escola não sabiam e porque na sua infância Neruda estava banido e Mistral ignorada. E porque Victoria e os seus congéneres estudam os mitos que a educação oficial quer ensinar, a macro história e a fisiologia sem desenhos. Ou com o livro cosido nos sítios perigosos, os do corpo. Victoria aprendeu em casa todo o perigo da vida, nas disputas da mãe e do pai, disputas a que não tinha direito a aceder, porque não as entendia. Mas a tradição Picunche tomava conta dela (os irmãos, tios e primos)

Com Alexandra, sua amiga, brincava aos animais, às bonecas, às corridas de cavalos até ao trabalhar da terra. Victoria amava e era amada. O período turbulento em que cresceu, ignorou-o, como todo o ser que queira ter um mínimo de paz pessoal, e dar essa paz aos descendentes. Cada casa de vizinho, era a sua casa, na qual podia entrar sem bater à porta. Brincadeira reiterada era tecer no tear, trabalho Picunche que persiste ao longo dos séculos (não é pois de estranhar, tal como eu observei, que muitas pequenas colaborem com as mães nos trabalhos de preparação e transformação das lãs); tal como as escondidas ou ao capelão, de nome luche (macaca em português), partilhadas na rua ou na escola. Infância e adolescência percorridas com a calma que a proximidade da mãe traz. E com os namoros falados, entre elas, sob a forma de recados. Espontaneamente, a imitar os adultos na sua expressão de carinho e de amor pelos outros.

Victoria, como vários outros, iam à catequese, ritualmente faziam a primeira comunhão e a confirmação. E a missa obrigatória aos Domingos. Doutrina que aprendeu, incutiu e foi a base da vida do seu crescimento, até à morte da sua mãe, ocorrida quando tinha vinte e dois anos de idade. Depois foi levada pelos primos Cárcamo, para a casa da cidade de Talca, onde tinha morado aquando dos estudos secundário e superiores. Victoria foi um raro exemplo Picunche: foi uma das poucas pessoas do sítio, que estudou para fazer o seu futuro. Como criança, teve apoios solícitos de todos os irmãos, que juntaram a sua emotividade em torno da mais nova. Pequena que assim criada, acaba por ser doce e serena, e estar em paz consigo própria, donde em paz com os demais. A sua geração cresceu a observar que havia adultos que desapareciam e adultos que não falavam. E cresceu a aprender nos textos que por cima de qualquer outro valor, estava o do bem comum. Porque todos eram iguais. Uma contradição que entendeu no real. No entanto, foi capaz de ser igual com todos os seus, da sua classe e do seu povo. Disciplinada para os estudos, disciplina que aprendeu do trabalho da mãe e dos horários de trabalho dos irmãos mais velhos. Entendida no campo, que percorreu metro a metro nas propriedades da família. Namoros, nenhum, por medo que os homens fossem iguais ao seu pai ou ao seu cunhado. A história oral Picunche coloca a mulher em segundo lugar e com o papel social de ter filhos, criar, lavar, alimentar e tratar do pai deles. Victoria foi capaz de guardar a afectividade para todos, que se soubesse, sem ninguém em particular. Victoria é resultado do seu tempo. Um tempo conturbado ao nível global, calmo ao nível local, definido ao nível íntimo. Solitário, no emocional. No emocional pessoal. Porque há o costume de namorar, pololear como aí é dito. E Victoria estudava. O estudo retirava-a do conjunto de assuntos de que não queria ouvir falar. A rapariga que eu conheci, era amável, é amável; era atenciosa, é atenciosa; era divertida, e é. A rir, a festejar, a gostar de ir aos rodeios ou festas onde os homens correm a cavalo, empurram os animais novos, fazem-nos suar para, assim, perderem o pelo da pele nova, ficarem mais mansos, mais domesticados, subjugados aos homens. Assunto já não tão divertido e, no entanto, parte da festa do rodeio. Victoria via, ouvia e calava, mas festejava com os que corriam. Uma corrida masculina, que achou sempre injusta. Porque é que o masculino e o feminino não são iguais? Porque é que as mulheres têm de se subordinar aos homens? Sempre? Teorizava como José e Jesus eram subordinados à Nossa Senhora. O mito hispânico a funcionar. Porque o mito Picunche só coloca a mulher shamã, essa que sabe mais, por cima das outras pessoas, o universo feminino é sempre inferior. O tempo de Victoria, esses anos setenta, oitenta e noventa, anos em que masculino e feminino trabalhavam igualmente, com ordenados que permitiam a independência de todos. Anos que aumentaram o trabalho da mulher. Público e doméstico Em consequência, a possibilidade de uma proximidade emotiva simples, de transferência amorosa, fraterna e leal não estava facilitada. Aos vinte e cinco anos, já a mulher era casada ou com filhos. Ou tinha uma profissão. Nos seus vinte e cinco anos de idade, guarda o tempo para a sua profissão e trabalho. Da pequena reguila a correr pelas ruas, passa a ser a mulher noiva que todos consultam e respeitam, a quem confiam os seus pequenos, caso seja preciso, e comentam os seus assuntos que ela ouve com a sabedoria que o quotidiano lhe dá. Quinhentos anos antes, teria sido já uma mulher mãe, ao pé das outras mulheres mães do mesmo cacique ou chefe de família. Quinhentos anos depois, é a católica consultada e conhecedora das casas, das pessoas e das coisas. Com os costumes Picunche perto dela, que aceita sem perguntar e trata sem hierarquizar. No restaurante de Alexandra, onde comíamos, ela ia à cozinha para tratar da minha comida, assim como nas pesquisas em arquivos, silenciosamente, com o tempo, construiu matematicamente a genealogia que orientou a minha escrita. São assim hoje todas as mulheres Picunche – inquilinas, proprietárias ou tecedeiras? Diria que bem longe disso. A sua geração vestia o que a televisão exibia, penteava-se como os artistas, seduzia os rapazes que gostavam da brincadeira. É notável ver como no sítio de três mil habitantes dispersos, que constituem Pencahue, o passeio é ir ao largo municipal e namorar aos abraços, em público. A descendência nova, esfrega-se, beija-se, fuma e namora ao mesmo tempo, senta-se nos bancos do largo, elas no colo deles, as conversas são sobre as outras pessoas; a chegada a casa é tarde e em silêncio, ouvidos surdos ao que os pais possam dizer. É um esplendor na relva universal e público, com intimidades e abortos não permitidos por lei, como com bebés não permitidos, embora criados pelos pais. Uma alta percentagem de raparigas, acabam como empregadas domésticas na cidade de Talca, ou vão engrossar a fila de habitantes da Capital da República, Santiago. Enquanto eles, servem de motoristas, mecânicos, empregados de supermercados. E eles e elas, de prostitutos nocturnos na vizinha cidade, nos sítios privados que pagam os ricos, para se divertirem com jovens do seu mesmo sexo, ao proprietário do local em importâncias que dava para uma família pobre viver vários meses. A população urbana do sítio de Pencahue, é consumidora de drogas, de álcool, de divertimentos que não permitem ao eu falar com um eu. Depois de falar com vários, apercebo-me que o que se procura, rapidamente, pelo meio mais curto possível, é dinheiro. Num País que ficou sem trabalho para uma larga percentagem da população oriunda de fora dos centros urbanos interessantes para os investidores, Pencahue, essa terra Picunche, com os traços Picunche feitos europeus nos hábitos e sem meios para os materializar, oferece uma indústria de madeiras, e duas em Talca: para manufacturar porcinos, e uma fundição, a da família Cruz; trabalho de jornaleiro no campo e cuidados paternos e domésticos até tarde na vida, deram origem a correntes migratórias. A maior parte da população que não vive do campo, recebe salários de empregos estatais. Pencahue é o sitio que incrementa anualmente o internacional Produto Geográfico Bruto, de 3% sustido, porque não há força de trabalho ocupada e autónoma. Contrário à doutrina espalhada nos últimos 24 anos, a plena ocupação ou o pleno emprego é baixo, os postos de trabalho escassos e os sítios para trabalhar, longínquos. Como as indústrias de processamento de madeira de Constituição, o porto marítimo do mesmo sitio, e a transferência para os sítios de trabalho, em carros ou carrinhas partilhadas. É desta forma que o País tem incrementado as riquezas dos centros urbanos centrais, quer dizer, de Santiago e de cidades de lazer, como Viña del Mar. Pencahue é pobre, porque o país é pobre. Um ordenado de jornaleiro acaba por ser de mil pesos (moeda nacional) por dia, o equivalente a 1.50€ por dia. O salário mínimo mensal é de 40000 pesos (15.000€), sem imposições. As famílias precisam habitar sob o mesmo teto para compartir o que ganha, porque a política de preços é alta. Um quilo de pão, três ou quatro unidades, é de quase 500 pesos. É por isso que a população vive de chá e pão, ou sopa de abóbora, a penca que dá  nome a Pencahue. Um lugar de trabalhadores manuais, obrigatoriamente formados na escola e no secundário até à idade de 15 anos. Escolas dependentes das municipalidades, que podem conceder bolsas, caso o Ministério da Educação assim o estimar conveniente.

O alegar de que nós é que amamos, é uma ironia minha, retirada da realidade de um País que dava emprego no exército à maior parte da população, e à que não dava, expulsava-a, obrigando-a a sair do país, fazendo-a desaparecer, no limite matava culpando vizinhos inocentes. O que antigamente foi a saída para muitos homens, o exército, é hoje obrigatório para homens e mulheres. Muitos dos quais têm feito parte da guarda pessoal de famílias determinadas, como essa que se apropriara do vale de Pencahue, da antiga Hacienda Quepo e Los Almendros e Lo Figueroa. Terras todas entregues, ao longo de 18 anos, a familiares do ex-proprietário do Chile, o Ditador que era dessa zona. O exército conta com 300.000 mil efectivos, dentro de uma população de 12 milhões de habitantes no País, com 60% de menores de 18 anos. Uma população nova, sem futuro. Muitos dos efectivos, habitam na área de Talca, Regimento de triste memória por ter servido de prisão a um grande número de pessoas. Regimento que bem conheço por dentro. O amor é resultado da política económica. Ainda que em Antropologia exista um debate sobre o assunto, e se pense que não há relação entre economia e afectividade, Dalton (1971), Polanyi (1957), e, mais recentemente, Humphrey e Hugh-Jones (1992), que recorrem à etnografia de sítios nativos, como se nesses sítios não houvesse também um capital que manda. Como é demonstrado pelas guerras africanas de hoje como na Guiné-Bissau, Zaire, Ruanda ou Sudão, por exemplo, ou no Peru, na Indonésia, no Iraque, entre outros paises. Ainda que quem é hoje, guarda os valores da memória social dos ancestrais, como tenho debatido, mas tem novos elementos que lhe permite transformar essas memórias que, embora guardadas, ficam para um momento de melhor estabilidade. Não vi em Pencahue lar nenhum que fosse calmo no seu interior. Excepto o das pessoas das áreas rurais. A concorrência nas grandes cidades é grande, é ilegítima, é à Henry de Montchretienne (1616), que no século XVII, já advertia no seu Traitée d’ Economie Politique, ser o capital para lutas entre pessoas (irmãos que matam irmãos, amigos que matam amigos). É verdade que tenho escolhido Victoria como elo, porque na sua família há zangas e mágoas provenientes não só de problemas emotivos. Clodomiro o pai, chegava a casa bêbado e sem dinheiro, motivo que levou a mãe à separação. A economia acabava por assentar nela e em Rebeca, a irmã mais velha, que também expulsou o seu homem, por causa do dinheiro compartido com outra. E é entre mulheres que a casa anda. E é entre mulheres que os afectos andam. Para um País em transição, onde nunca se sabe se haverá mais perturbações.

Sim, nós é que amamos, mas assim. Sim, é o que eu sou, mas assim. Eis que Victoria escolhe o seu caminho, deixa o lar, estuda, trabalha, mora fora da casa doméstica. Como a maior parte do povo faz. Como vi, trinta e três anos antes, em sítios de bairros de lata. Como não me deixaram ver, no dia que fui oficialmente convidado a voltar ao Chile, levando-me pela estrada de circunvalação da capital, a pobreza da cidade. Período em que sempre, estrategicamente, alguém tomou conta das minhas conferências, para que eu não falasse do que pudesse ser pouco conveniente ao sistema. Ou que eu não quis ouvir. Como não oiço agora que escrevo o que sou, e persisto em escrever o que sou. A passagem pelo campo de concentração, que Victoria nunca viu e do qual eu nunca falei. Como o tempo na Galiza antiga e que deixou marcas que sararam. Como as do Chile, que um dia talvez, venham a melhorar. Como aos poucos, melhoram. Com as Victorias que sabem comportar-se, porque viveram um sistema durante estes vinte e cinco anos. Uma Victoria que, como tantos outros, prefere ignorar para viver em paz. Porque o que eles são, são dignos de saber ignorar, de não ouvir, de não ver, de calar. De ver, ouvir e calar. Como na Galiza necessariamente já não é. Foi. Mas foi esquecido. No Chile, é ignorado. Entre os Picunche, é outro tipo de assuntos, mais pessoais, que os envolve, e nos quais se deixam envolver localmente para se afastarem da sociedade global, que ainda não mudou como se quer e se luta para mudar como mudara, tão rapidamente, a Galiza que é, hoje em dia, a Holanda da Península Ibérica. Orientada pela sociedade global. Ideias que debaterei noutro poste


[1] La misére du monde, livro que trata,em diálogo, a interacção dos seres humanos.

[2] Pseudónimo de Lucila Godoy Alcallaga

[3] Pseudónimo de Ricardo Eliécer Neftalí Reyes Basoalto

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