Contos Proibidos – Memórias de um PS Desconhecido. O acordo com o CDS

continuação daqui

O primeiro-ministro Mário Soares nem acreditava que o general Ramalho Eanes tivesse «coragem» para lhe retirar o tapete, nem que houvesse alternativa ao seu Governo. Acreditava, sim, que Eanes lhe devia a ele o facto de ser Presidente da República e que o PSD e o PCP lhe deviam, embora por razões contrárias, a sua existência legal. Assim se explica o inacreditável «memorando» que enviaria aos partidos a 15 de Novembro, esclarecendo que «o PS não aceita entrar em nenhum Governo de coligação.
Por duas razões, fundamentalmente: — porque tal posição representa um compromisso tomado perante o eleitorado e… porque considera que um Governo de coligação, ainda que pudesse ajudar a vencer certas dificuldades no plano parlamentar, não teria operacionalidade e viria ainda agravar as tensões sociais e regionais já existentes». Alegava ainda que uma coligação não poderia resultar de uma decisão das cúpulas «devendo antes resultar de algo sentido e vivido pelas bases dos partidos interessados». Este «memorando aos partidos» continha uma proposta de plataforma que no fundo não passava da repetição da posição de arrogância em que o I Governo se colocara.
Era a repetição da tese do «PS sozinho», com a ameaça da moção de confiança pelo meio. O PSD teria que escolher entre votar favoravelmente a moção de confiança ao governo do PS, aceitando um ou vários acordos com Mário Soares «que não implique ou impliquem partilha do poder a nível do executivo » ou responsabilizar-se pela queda do governo. E se Sá Carneiro ousasse optar por votar contra, então nunca o PCP poderia votar lado a lado com o PSD, abrindo as portas à direita. E, em última análise, Eanes lá «estaria sempre, diante de si, como um aluno aplicado». Era este o raciocínio!
Não tivesse sido a superficialidade com que se tratariam os “interesses dos Portugueses e o sentimento de impunidade herdado do regime ditatorial com que os «governantes» geriam esses mesmos interesses e o Governo teria sobrevivido. Poupando custos
incalculáveis ao País e a total e desnecessária descaracterização do Partido Socialista. O PCP estava fora da área do poder. O caminho de entrada na CEE estava aberto. Em Espanha verificava-se um evolução democrática altamente positiva. Angola mostrara vontade de cooperar com Portugal e lançara um apelo ao primeiro-ministro para introduzir aquele país na esfera ocidental. O presidente dos EUA liderava um grupo de países ocidentais dispostos a ajudar Portugal financeiramente. Porquê, então, querer compartilhar a impopularidade que advinha de querer governar a sós ou lançar o País num clima de instabilidade?
Com a queda do Governo, Mário Soares rapidamente alteraria os princípios era que tanto insistira no seu «memorando» e nos seus discursos. Com a assinatura de um acordo com o CDS, a 20 de Janeiro de 1978, partilharia «do poder a nível do executivo», tomaria uma «decisão de cúpula» que não era «sentida e vivida pelas bases dos partidos interessados» e trairia o anteriormente alegado «compromisso tomado perante o eleitorado». A volubilidade do discurso político passaria a ser, a partir daí, uma característica sempre ligada à personalidade do primeiro-ministro.
Mas com o simples objectivo de concentração do poder, o secretário-geral do PS perderia para sempre a oportunidade histórica de fazer evoluir o País para o nível dos seus futuros parceiros da Europa «rica». O belo e desinteressado sonho nascido em Bad Munstereifel tinha sido definitivamente sacrificado às ambições político-sociais dos dirigentes do PS. Nos anos 70, no momento da reconstrução do País, faltara-nos um Clement Atlee, um Tage Erlander, um Kiesinger ou um De Gaulle. Não admira pois que, apesar do 25 de Abril e do 25 de Novembro, quando as grandes figuras da cena política mundial escrevem as suas memórias se não refiram a Portugal e, muito menos, aos protagonistas da política portuguesa dos últimos vinte anos.
Um atento e insuspeito observador da política internacional durante este período, o embaixador Hall Themido, refere nas suas memórias o desinteresse com que é tratado o nosso País. Margaret Thatcher só «faz uma referência breve, meramente acidental, a Portugal» no seu livro «The Downing Street Years» enquanto o ex-secretário de Estado de Ronald Reagan «põe em destaque a relativa pouca importância de Portugal na cena internacional de forma mais cruel — pelo silêncio». Refere ainda que Henry Kissinger, que tanto teve que ver com a «Revolução dos Cravos», «publicou em 1994 um livro importante de análise aos assuntos da política externa, que cobre três séculos de história desde Richelieu, intitulado Diplomacy, onde não se fala uma única vez no nosso país». E continua com mais exemplos que incluem as memórias do ex-ministro dos Negócios Estrangeiros britânico Geoffrey Howe e de Nelson Mandela que se esqueceu «dos méritos da Revolução Portuguesa no seu destino». Mesmo entre os testemunhos dos grandes líderes socialistas se passa situação idêntica. Bastará para isso ler as memórias de Brandt, de Wilson ou de Palme.

No IV aniversário do 25 de Abril, três meses após a tomada de posse do Segundo Governo, o Presidente da República distanciar-se-ia novamente com uma nova e ainda mais violenta crítica à acção governativa. Grande parte do País compreenderia então que, afinal, o «aluno aplicado», à semelhança do seu «professor», também alimentava um projecto íntimo de poder pessoal. Mas para aqueles que já em Junho de 1976, no PS e no PSD, se tinham recusado a apoiar a sua campanha, esta revelação não seria uma surpresa.
O chamado sector «moderado» que a imprensa noticiava estar em ascensão dentro do partido por ocasião do II Congresso, com destaque para Jorge Campinos, Vítor Cunha Rego, Maldonado Gonelha, Seruca Salgado e, entre outros, eu próprio, nunca apoiou a candidatura de Ramalho Eanes e sempre foi favorável a um acordo com Sá Carneiro. Ninguém lhe conhecia o pensamento e obra, para além da sua participação no 25 de Novembro, também não tinha.
Mas o apoio «unanimista» à candidatura de Ramalho Eanes comprovaria afinal, de novo, o tradicional estilo de escolha dos dirigentes portugueses. Que diga-se em boa verdade é herdado de um conceito profundamente antidemocrático, mas muito português, de promover os medíocres por receio da concorrência dos competentes.
Ao contrário do que seria de supor e o «memorando» enviado aos partidos era 1977, por ocasião do voto de confiança, justificava, o acordo com o CDS nunca foi referendado pelas bases do PS. Fazendo uso dos seus dotes oratórios e da sua capacidade de improvisação, Soares diria à Comissão Nacional do seu partido que se tornara «necessário, com muita flexibilidade e imaginação, encontrar uma fórmula governativa diferente que possibilitasse a constituição de uma maioria parlamentar estável… que não pusesse em causa o princípio, sempre afirmado pelo PS, de não fazer um ‘governo de coligação’».
As bases do PS eram esmagadoramente contra um tal acordo com o CDS e a própria Comissão Nacional esboçaria desde logo indícios de grande contestação. Mas o secretário-geral controlava o partido com mão de ferro e, salvo raras excepções, ninguém teve coragem de se arriscar a perder o lugar. Mas quem menos pretendia perder o lugar era o pouco ascético primeiro-ministro, para quem o acordo com o CDS se não tratava de uma coligação mas sim de «um acordo político cora incidência governamental».
No curto espaço de um mês, de Dezembro para Janeiro, tinham-se miraculosamente esvaído as potenciais «tensões sociais e regionais» associadas aos governos de coligação e um governo com o CDS teria «condições de durabilidade » pois «além de representar a maioria no Parlamento tinha apoios maioritários no País e nas autarquias locais». Tinha sido o próprio primeiro-ministro que aludira às tensões sociais resultantes de coligações mas, após assinatura da sua coligação com o CDS, e completamente eufórico com o novo governo, evidenciava de novo a sua grande volubilidade ao criticar os que terão pensado «que se iria abrir, no nosso país, um período conturbado e de grande agitação».
Para contrapor, usando das acusações que lhe eram feitas a ele, que «mais uma vez se pôde verificar, em concreto, quanto são superficiais certas qualificações simplistas e simplificadoras». Com grande dose de amnésia e sem um verdadeiro sentido da história em que participava, esquecera-se de que fora ele que, um mês antes, afirmara que um governo de coligação «viria ainda agravar as tensões sociais e regionais já existentes, radicalizando perigosamente a política nacional». E, de facto, foi esse o resultado da coligação com o CDS. Só que Soares nunca admitiria tratar-se de uma «coligação»!

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