a utilidade das hierarquias e dos títulos

Dois factos apenas acordaram em mim este título para o presente ensaio.

Se falo de hierarquia, estou a falar de préstimo ou do que há de útil, de meritório ou de proveitoso em alguma pessoa ou coisa, vantagem; serventia, pessoa ou objecto útil. Esses dois factos que lembro, por ordem cronológica, advêm de ideias de divertimento, prestadas, sem saberem, por pessoas que se relacionaram comigo. Uma das pessoas estudava direito e, até  à obtenção da sua licenciatura, secretariava o ISCTE. Pessoa empenhada, tinha, em minha opinião, duas metades: se falava com um docente, nós, Doutores e de alta patente, em frente de pessoas da sua secretaria éramos, meu amigo. Na companhia de só um de nós tratava-nos por Senhor Doutor, mas em público,

jamais: ou esse meu amigo, ou apenas professor, ou simplesmente amigo Iturra, no meu caso.

Habituado como estava ao respeito das hierarquias pelo tipo de universidade britânica à qual ainda pertenço, nunca referi o facto a ninguém, mas também nunca o esqueci. A pessoa, já licenciada, abriu um bufete e, às tantas, encontrava-a e eu cumprimentava-a como pessoa licenciada em direito. Como, nunca vai denominar-me pelo meu grau? Desconhecia, pois, que ao denominá-la Licenciada, era já um grau. A sua arrogância cresceu, não abandonou a função pública, por pensar, com a sua característica insegurança sob a pele arrogante, que se não vingava numa profissão teria a outra como alternativa. Enquanto secretariava o antigo ISCTE, mandava e prestava favores; quando ficou só na sua profissão, ia, ao seu antigo local de trabalho, consultar-nos e era aceite pelo seu arrogante valor de estudar e de trabalhar, vivendo quase todo o dia no sítio de ensino, e nunca casou: não havia pessoa que aceitasse esse seu comportamento.

Como é natural, se me lembro destes factos, é por causa de me serem importantes títulos e hierarquias reconhecendo que gostava que os usassem comigo, apesar de nunca mostrar o anseio nem o comentar com pessoa nenhuma. Passados os anos, e o imenso trabalho que sempre tive a par das mudanças operadas em Portugal, os títulos e hierarquias foram-se embora com a imensidão do trabalho que a europeização do país trouxe consigo. Tudo o que interessa é apenas a produtividade e o saber mais da sua especialidade.

Introduzo, agora, um outro facto, relativo à história de um individuo que namora com mulher casada, cujo marido é doente paraplégico. Em frente de todos, trata-a como a Senhora X; na vida privada passa a ser tu. É a procura de ocultar os amores esvaídos, para remediar uma outra ideia que tinha da sua orientação sexual: andava em busca de homens para namorar. Não encontrou ninguém excepto as almas compassivas do matrimónio X. Dai à cama, foi apenas um salto. Ela ganhou um homem, como diz a minha mulher, enquanto ele uma mulher, os dois livres: o rapaz por não ter encontrado o homem dos seus sonhos, ela porque finalmente um homem podia satisfazer a sua libido. Como é evidente, não enganam ninguém e se enganam, como dar a impressão de serem amigos, não o conseguem, ele passa mais tempo ma casa do casal X do que na sua própria casa. Coitado de mentecapto: renuncia ao que mais é adicto, amar homens, por causas sociais. Apesar das relações homossexuais serem permitidas por lei, o povo de lei nada sabe… e os sentimentos comandam o pensamento, como é o caso que relato, a mulher que diz amar manda nele e aterroriza-o. A utilidade é semelhante: ele passa por heterossexual; ela,  alguém que com quem produzir orgasmos.

Estava habituado a ser tratado como Dr. da britânica universidade de onde provinha, porque era verdade. Mas, em Portugal, desde o 2º ano da Universidade, advogados ou deputados, são todos doutores, tenham ou não o grau: a deferência que nasce de uma cortesia nunca esquecida, desde os tempos em que havia Monarquia e Rei, com um conjunto de seres humanos que procuravam utilidades e vestiam com arrogância roupa de tecido de veludo, tweed mais tarde, mas nunca calças de ganga.

A hierarquia, para quem a tem, é um presente dos deuses se sabe servi-se bem. É uma patente de entrada para ficar perto de quem a possui na realidade. Em países com cunho de aristocracia, todos procuram a sua árvore genealógica, seja ou não verdade,  investigada por especialistas que ganham os seus honorários pesquisando a genealogia, até encontrarem um ser humano que se aproxima da hierarquia social de alta patente.

O saber, é colocado de parte, não presta para essa referida utilidade. Os verdadeiros aristocratas nunca referem as suas origens, mas sim o seu saber entregue ao povo em livros, aulas ou conferências.

Lembro-me de ter escrito um livro em Lyon, que tem um capítulo intitulado A Revolução que não conseguiu matar a divindade, Capítulo I, páginas 15 a 28, antiga Escher, hoje Fim de Século, 1991, 1ª edição.

As ideias religiosas dão hierarquia, desde o mais morno até ao mais santo ser humano, denominado beato. Beatos, não por aclamação da igreja romana, mas sim pelas reconhecidas virtudes dos vizinhos que até fazem mofa deles. No entanto, em momentos de perigo todos são beatos, subindo os degraus da santidade em procura da salvação. O capítulo referido do livro citado, na sua 2ª edição pela Fim de Século, foi-me inspirado por uma placa da entrada da Basílica Católica que diz: Graças a Deus por nos ter salvo da terrível guerra franco prussiana. Bismarck sabia o que desejava: derrubar o Imperador dos franceses e não parou em nenhum sítio, até à sua entrada a sangue e fogo em Paris; derrubado o 2º império saiu contente e feliz para a sua pátria, apropriando-se, assim, do carvão mineral para a revolução industrial na Prússia, país que após a Grã-Bretanha, tinha sido pioneiro. Ser amigo da Prússia era manter-se longe do inimigo que despoletou a 1ª Grande Guerra do Século XX. Eis outra utilidade que nos faz pensar no título deste texto, que travo nesta linha.

Dois factos apenas acordaram em mim este título para o presente ensaio.

Se falo de hierarquia, estou a falar de préstimo ou do que há de útil, de meritório ou de proveitoso em alguma pessoa ou coisa, vantagem; serventia, pessoa ou objecto útil. Esses dois factos que lembro, por ordem cronológica, advêm de ideias de divertimento, prestadas, sem saberem, por pessoas que se relacionaram comigo. Uma das pessoas estudava direito e, até à obtenção da sua licenciatura, secretariava o ISCTE. Pessoa empenhada, tinha, em minha opinião, duas metades: se falava com um docente, nós, Doutores e de alta patente, em frente de pessoas da sua secretaria éramos, meu amigo. Na companhia de só um de nós tratava-nos por Senhor Doutor, mas em público,

jamais: ou esse meu amigo, ou apenas professor, ou simplesmente amigo Iturra, no meu caso.

Habituado como estava ao respeito das hierarquias pelo tipo de universidade britânica à qual ainda pertenço, nunca referi o facto a ninguém, mas também nunca o esqueci. A pessoa, já licenciada, abriu um bufete e, às tantas, encontrava-a e eu cumprimentava-a como pessoa licenciada em direito. Como, nunca vai denominar-me pelo meu grau? Desconhecia, pois, que ao denominá-la Licenciada, era já um grau. A sua arrogância cresceu, não abandonou a função pública, por pensar, com a sua característica insegurança sob a pele arrogante, que se não vingava numa profissão teria a outra como alternativa. Enquanto secretariava o antigo ISCTE, mandava e prestava favores; quando ficou só na sua profissão, ia, ao seu antigo local de trabalho, consultar-nos e era aceite pelo seu arrogante valor de estudar e de trabalhar, vivendo quase todo o dia no sítio de ensino, e nunca casou: não havia pessoa que aceitasse esse seu comportamento.

Como é natural, se me lembro destes factos, é por causa de me serem importantes títulos e hierarquias reconhecendo que gostava que os usassem comigo, apesar de nunca mostrar o anseio nem o comentar com pessoa nenhuma. Passados os anos, e o imenso trabalho que sempre tive a par das mudanças operadas em Portugal, os títulos e hierarquias foram-se embora com a imensidão do trabalho que a europeização do país trouxe consigo. Tudo o que interessa é apenas a produtividade e o saber mais da sua especialidade.

Introduzo, agora, um outro facto, relativo à história de um individuo que namora com mulher casada, cujo marido é doente paraplégico. Em frente de todos, trata-a como a Senhora X; na vida privada passa a ser tu. É a procura de ocultar os amores esvaídos, para remediar uma outra ideia que tinha da sua orientação sexual: andava em busca de homens para namorar. Não encontrou ninguém excepto as almas compassivas do matrimónio X. Dai à cama, foi apenas um salto. Ela ganhou um homem, como diz a minha mulher, enquanto ele uma mulher, os dois livres: o rapaz por não ter encontrado o homem dos seus sonhos, ela porque finalmente um homem podia satisfazer a sua libido. Como é evidente, não enganam ninguém e se enganam, como dar a impressão de serem amigos, não o conseguem, ele passa mais tempo ma casa do casal X do que na sua própria casa. Coitado de mentecapto: renuncia ao que mais é adicto, amar homens, por causas sociais. Apesar das relações homossexuais serem permitidas por lei, o povo de lei nada sabe… e os sentimentos comandam o pensamento, como é o caso que relato, a mulher que diz amar manda nele e aterroriza-o. A utilidade é semelhante: ele passa por heterossexual; ela,  alguém que com quem produzir orgasmos.

Estava habituado a ser tratado como Dr. da britânica universidade de onde provinha, porque era verdade. Mas, em Portugal, desde o 2º ano da Universidade, advogados ou deputados, são todos doutores, tenham ou não o grau: a deferência que nasce de uma cortesia nunca esquecida, desde os tempos em que havia Monarquia e Rei, com um conjunto de seres humanos que procuravam utilidades e vestiam com arrogância roupa de tecido de veludo, tweed mais tarde, mas nunca calças de ganga.

A hierarquia, para quem a tem, é um presente dos deuses se sabe servi-se bem. É uma patente de entrada para ficar perto de quem a possui na realidade. Em países com cunho de aristocracia, todos procuram a sua árvore genealógica, seja ou não verdade,  investigada por especialistas que ganham os seus honorários pesquisando a genealogia, até encontrarem um ser humano que se aproxima da hierarquia social de alta patente.

O saber, é colocado de parte, não presta para essa referida utilidade. Os verdadeiros aristocratas nunca referem as suas origens, mas sim o seu saber entregue ao povo em livros, aulas ou conferências.

Lembro-me de ter escrito um livro em Lyon, que tem um capítulo intitulado A Revolução que não conseguiu matar a divindade, Capítulo I, páginas 15 a 28, antiga Escher, hoje Fim de Século, 1991, 1ª edição.

As ideias religiosas dão hierarquia, desde o mais morno até ao mais santo ser humano, denominado beato. Beatos, não por aclamação da igreja romana, mas sim pelas reconhecidas virtudes dos vizinhos que até fazem mofa deles. No entanto, em momentos de perigo todos são beatos, subindo os degraus da santidade em procura da salvação. O capítulo referido do livro citado, na sua 2ª edição pela Fim de Século, foi-me inspirado por uma placa da entrada da Basílica Católica que diz: Graças a Deus por nos ter salvo da terrível guerra franco prussiana. Bismarck sabia o que desejava: derrubar o Imperador dos franceses e não parou em nenhum sítio, até à sua entrada a sangue e fogo em Paris; derrubado o 2º império saiu contente e feliz para a sua pátria, apropriando-se, assim, do carvão mineral para a revolução industrial na Prússia, país que após a Grã-Bretanha, tinha sido pioneiro. Ser amigo da Prússia era manter-se longe do inimigo que despoletou a 1ª Grande Guerra do Século XX. Eis outra utilidade que nos faz pensar no título deste texto, que travo nesta linha.

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