Ensino privado e de como o barato sai caro

O João Miranda veio aqui ler umas coisas (é sempre um prazer receber um liberal nesta casa) e tirou as suas conclusões. Por exemplo a de que o privado é mais barato que o público, constatação acertada tendo em conta os números que aqui publiquei.

É verdade, pelos vistos conseguem ser mais baratos e também, por isso têm lucro. Verdade se diga são números que acima de tudo denunciam como o estado tem sido assaltado através dos contratos de associação e dos favores de algumas direcções regionais, que pagam muito acima do custo do serviço prestado, em concorrência directa com o estado.

Como é possível fazer tão barato? Pagando menos (embora as carreiras docentes sejam vagamente equiparadas, há truques para isso), mas sobretudo fazendo trabalhar mais. Ora se a carga lectiva (não confundir com horário de trabalho) dos professores portugueses em geral já é superior às médias europeias, 27 ou 28 tempos lectivos não abona nada à qualidade de ensino. Como tenho dito não é uma questão de direitos do trabalhador (embora também seja), é um direito dos alunos terem professores com um máximo de 22 horas lectivas por semana. Quem experimentou (já me calharam 25h em tempos muito idos), sabe bem que é humanamente impossível trabalhar com qualidade nessas condições, a que acrescem turmas no limite máximo legal da sua lotação.

Mas porque mesmo assim têm tanto sucesso algumas escolas privadas que concorrem directamente com as públicas? Por duas razões: primeiro porque os pais sabem que nessas escolas os seus filhos não correm grandes riscos de terem “más companhias”, já que essas escolas mesmo com contrato de associação seleccionam os seus alunos, garantindo que os problemáticos não entram. Tivessem as portas abertas, ou seja, fosse a liberdade de escolha para todos, e já não seria assim. E segundo porque seleccionando os alunos obtêm melhores resultados nos rankings, as papas e bolos com que se enganam os tolos.

Não ponho em causa a competência dos meus colegas do privado, onde como no público haverá de tudo: sei é por experiência que trabalham com horários deploráveis o que não lhe permite leccionar com a qualidade que certamente desejariam.

O barato sai caro e não há almoços grátis. A qualidade de ensino destes colégios mais baratos sai cara, isso sai, o que se paga por exemplo em explicações mas sobretudo com os lucros chorudos oferecidos pelo estado à iniciativa privada.

Adenda – quanto à proposta da Helena Matos assino por baixo, mas com uma clarificação, onde está:

b) À família de cada aluno é dado a escolher se no ano lectivo 2012/2013 querem ter os seus filhos em escolas administradas como agora acontece no ensino público ou em escolas com gestão privada

que fique:

b) À família de cada aluno, mas mesmo de todos os alunos, é dado a escolher se no ano lectivo 2012/2013 querem ter os seus filhos em escolas administradas como agora acontece no ensino público ou em escolas com gestão privada, sendo estas obrigadas a receber todos os alunos, procedendo a um sorteio público como único critério de selecção.

Durante um ano ou dois ia ser uma festa nas escolas privadas. Depois fugiam todos. O cheiro a pobre é muito desagradável.

Comments

  1. Rodrigo Costa says:

    … Como muito gente sabe, devido à necessidade de estatísticas que favoreçam a imagem do país, na União Europeia, o fracilitismo passou a fazer parte, também, das escolas do Estado; e os professores —os realmente interessados e capazes— passaram a ter dificuldades para acções técnicas e/ou disciplinares.

    Os meninos passaram a poder decidir de acordo com a sua vontade, e podem, perfeitamente, sabotar as aulas e contar com o apoio do encarregado de educação que, mesmo sem bases, pode pertencer à comissão de pais e exercer a respectiva pressão; porque, no fundo e em regra, os pais são como os adeptos de qualquer clube: querem que o clube ganhe, mesmo que os golos possam ser metidos com a mão —não vale a pena escamotear. O argumento é: —o que importa é formares-te, porque, depois, a vida faz o resto… Quem sabe, até, dando-te o diploma num Domingo!.

    Antes desta atmosfera, o ensino público dava mais garantias, porque não havia a necessidade de facturação. Podiam ser aceites os maus e os bons, mas, no fim, havia muito mau que ficava pelo caminho; sabendo nós, naturalmente, que também havia casos de favorecimento —o poder ou poderes sempre se fizeram e farão sentir; a norma, no entanto, era passar quem sabia, quem era capaz de demonstrar que ali estava para aprender alguma coisa.

    No ensino privado a situação sempre foi diferente. Imaginem uma escola de condução apetrechada de grandes rigores; com chumbos atrás de chumbos, porque o grau de exigência era elevado… Que acham que acontecia? Ia à falência, porque a rapaziada se desviaria para onde houvesse mais garantias de sucesso, sendo tudo questão de discutir o preço —como sabem, também, é mais fácil ser rigoroso com quem é pobre; havendo clientes que não se pode perder. Se alguém disser que isto é mentira… eu digo que mente.

    Aliás, quando é o caso, é necessário garantir que os irmãos mais novos, chegado o seu tempo, também entrem —se houver muita dureza, uma ameaça ou duas, e a escola cede. Qual é o banco que, por dá cá aquela palha, arrisca perder uma conta “decente”?

    Que há escolas particulares de grande seriedade?… Claro que há. Cuja seriedade tem que ter início na exigência dos pais para com os filhos, sem pressionar a escola; mantendo-se, embora, vigilantes, porque, quando se paga “feio” para educar um filho, não se deve querer formá-lo por favor; é preciso que o investimento tenha, como reflexo, alguma coisa séria.

    Ora, meus amigos, a questão é que mesmo o que deveria ser estritamente virtude tem preço, porque o Mundo se tornou num hipermercado de negócios. Não vale a pena, nesta altura, as pessoas se desgastarem a contabilizar as diferenças. Elas existem, é claro, mas pouco se distinguem, na essência. Toda a gente quer “viajar” cómodo e chegar rápido; e o cliente, segundo a norma, tem sempre razão —a razão que dá jeito…

    Público ou privado?… Nesta altura e com o país neste estado… metam as bolas no saco.

    • o DA says:

      Eu até “puxo” pelos meus alunos. Têm-se saído bem nos exames nacionais. Mas não alimento o “demagogia” à volta das reprovações. Como Director de Turma já propus a subida de nota a muitos alunos, para o bem de todos: para livrar a escola de alunos problemáticos, para evitar que outra turma fique estragada, para os alunos irem à vida deles… para a liberdade… livrá-los da escola OBRIGATÓRIA.

  2. Rodrigo Costa says:

    Ora cá está uma opinião sábia!

    Porque há-de, alguém que não quer ou não gosta de estudar, ser OBRIGADO a frequentar a escola? A única coisa que se consegue é que dificultem a concentração e a evolução dos que, de facto, querem aprender —para além, obviamente, de dar cabo da cabeça aos professores; aos que gostam de ser professores, pelo menos.

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