Vicissitudes da escola pública

Também tenho algo a dizer nesta questão das escolas públicas e privadas. Começo  por afirmar que não pretendo assumir posição em defesa das escolas privadas com contrato associativo, para mim são empresários ou instituições encostados à sombra do Estado, que como está bom de ver, decidiu mais uma vez em proveito próprio, alterar as regras do jogo. No fundo temos aqui a mesma lógica da segurança social que era suposto ser tendencialmente gratuita, da idade da reforma, do aumento de impostos ou redução das deduções fiscais. O problema é mesmo o poder que os cidadãos aceitam atribuir ao Estado, não percebendo que se tornam meros numerários, quando delegam a outros a liberdade de escolha.

Mas voltemos à escola, será despropositado um pai pretender  educar um filho de acordo com os seus valores? Deveria obviamente em meu entender respeitar a personalidade do filho, não raras vezes essas questões estão na génese de questões familiares, mas felizmente, apesar de tudo o omnipresente Estado ainda não chegou aí, embora ande lá perto. Se o leitor pretender colocar o seu filho numa escola que privilegie valores religiosos, ateus, musicais ou desportivos, que fique próximo do seu local de habitação ou de trabalho, ou do trabalho da sua esposa, pergunto, que tem o Estado a ver com isso?

Mas infelizmente o leitor, salvo se for rico, está à mercê do Estado, que lhe retira qualquer possibilidade de influenciar a educação que pretende para os seus descendentes, começando na escolaridade obrigatória, mesmo que não a deseje, obrigando a que a matrícula seja feita próximo da sua área de residência, ficando à mercê da turma que lhe couber em sorte ou preencher os critérios por vezes pouco claros de um qualquer burocrata de secretaria, também aí existem compadrios de pequena monta ou critérios mesquinhos. Nem sequer a escola tem liberdade para escolher o seu próprio corpo docente, à boa maneira dos defensores da economia planificada e centralizada. Claro que toda esta máquina burocrática tem custos, mas nela se alimentam muitos boys colocados em Direcções Regionais e Ministério, sindicalistas que sendo professores não dão aulas há mais de uma década, todos pagos com o dinheiro do contribuinte.

Se Portugal fosse um país livre, ou tivéssemos pessoas que aspirassem viver em Liberdade, da esquerda à direita só encontro políticos que apresentam propostas que fazem crescer o Estado, mesmo quando afirmam o contrário, estaríamos a exigir uma política de educação pública, mas não escola pública, porque esta provou durante mais de três décadas servir para alfabetizar, mas nivelou por baixo, diminuindo exigência em nome da inclusão. Os professores que digam os passos necessários para reprovar um aluno. Caso as escolas fossem privadas, sujeitas obviamente a regras claras de funcionamento, pagas pelos alunos, com diminuição de IRS, atribuição de apoios sociais aos carenciados, por forma a garantir oportunidade de acesso universal, teríamos certamente um melhor sistema de ensino, pessoas mais qualificadas a entrar no mercado de trabalho após conclusão dos estudos. Os próprios professores teriam algo a ganhar, porque os melhores seriam certamente disputados, com repercussões no seu vencimento.  A contrapartida seria termos menos malta partidária colocada directa ou indirectamente através do ME, que se alimenta na lógica burocrática de funcionamento do eduques. Só em estudos e pareceres, muitos deles absolutamente inúteis, consultem a verba gasta anualmente, para melhor se perceber esta lógica perversa em que vivemos e nada de bom traz ao país.

Comments


  1. Na globalidade concordo com a sua perspectiva.
    Porém, devo acrescentar que todos nós, cidadãos portugueses somos os verdadeiros culpados deste caos, porque nos temos contentado há décadas (antes e pós 25/4) com o facto de que há SEMPRE alguém que decide por nós e quando não há, passivamente aguardaremos que apareça, ou mantemos o mesmo, independentemente das suas qualidades e interesses.
    O importante é que não somos nós a decidir seja o que for e isso facilita-nos tremendamente a nossa vidinha de irresponsáveis e ignorantes cidadãos não participativos que teimam em não assumir, ou pelo menos finge-se que não assumimos, porque é o nosso “fado”, a nossa “sina”… enfim, somos essencialmente um país envelhecido, acomodado, individualista e egoísta que não questiona quem deve e que frequentemente vitimiza quem não deve.
    Gostamos que nos guiem (mal ou bem) porque nos falta ambição, empreendorismo, amor próprio e o que se está a passar no ensino nacional não é mais do que a consequência do que somos e do que temos consentido – uma tremenda desorganização no próprio Estado (nós!) porque convém, porque não sabe o que quer, nem para onde vai. Daí que nenhum líder até hoje tenha tido a “ousadia” de apostar forte em verdadeiras reformas no ensino – desde o básico ao superior – não apenas em termos economicistas, mas em termos de objectivos para os próprios jovens e para o país:
    – Para que servem 12 anos, obrigatórios, na escola se na prática essa mesma escola não prepara os jovens para uma vida profissional futura? (esqueçam as “novas oportunidades”)
    – Nem tão pouco os prepara para terem espírito crítico e serem cidadãos participantes na vida da comunidade?!
    – De que servem 12 anos na escola, se a única meta – para todos os jovens, quer gostem ou não da escola – é um curso superior? Onde está o papel do ME ou do MMCTES – Ministério da Ciência, Tecnologia e Ensino Superior ao manter inúmeros cursos/ofertas “Licenciaturas/Mestrados/Doutoramentos” que na sua maioria não são necessários ao país?! 1 Ex: Direito
    – Para quando uma verdadeira ORIENTAÇÃO por parte das tutelas no sentido de se preparar e formar jovens para uma vida activa com futuro (novos diplomados; técnicos; profissionais) e que REALMENTE sejam necessários ao país e não aos interesses instalados, ou condenados ao desemprego após longos anos na escola?!

    Aos pais caberão todas estas perguntas e muitas mais…
    Aos pais e aos professores deste país cabe exigir aos responsáveis que elegemos (ou não) que nos dêem respostas e nos satisfaçam as nossas vontades, quer tenham elas a ver com o local onde pretendemos que os nossos filhos estudem, ou para onde vai o nosso dinheiro!

  2. Paulo Tomé says:

    Realmente, caro António Almeida, há coerência no seu discurso. Para além da coerência, existe uma linha de pensamento, intelectualmente honesta, que não infectada por preconceitos demagógicos e desactualizados!
    Mais do questionar a escola que pretendemos, deveríamos, primeiro, perguntar que país queremos? Um país mergulhado na espuma das ondas, nas marés e ressacas contínuas, ou um país a navegar em alto mar, com rumo e com isntrumentos de orientação válidos e consequentes?
    A escola, perde-se em discussões inócuas, como a de ontém, no programa “prós e contras”! Continua-se a contar espingardas, a legislação tranforma-se em questões pessoais, ficando de lado a política e colocando em primeiro plano a(s) pessoa(s)! As que fazem carreira política(Isabel Alçada), as que querem (Torcato da Mata) fazer! Mas política no seu sentido mais porco, náuseabundo e imundo! No sentido actual! Nos modelos que pupulam nos governos sucessivos. O Secretário de Estado Mata, boy do PS, não quer saber o que é Educação, nem tem filosofia para o sistema, qualquer professor sabe mais do que ele. O que ele quer, tão ao gosto do guru Socrates é governar, mandar, arrogante e impávido e sereno!É o modeo do jovem boy político deste governo!

    Que país este!!! Triste pátria que tão disditosos filhos tens!!!!!


  3. não percebi. Se o sistema deveria ser privado, então porque razão as escolas privadas querem que o Estado as subsidie?

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