Falha Felipe? (ou o Rei que sabia que não o queria ser)

No âmbito de uma apresentação oral (que está marcada para o final do semestre) para história moderna fui obrigada a acelerar os meus estudos em relação a Felipe II de Espanha e deixei para trás o Thomas More, com grande pena minha porque o tempo não dá para tudo.

Descobri então que a pergunta “política” mais óbvia que se faz em relação a Felipe, e que a mim sinceramente não me tinha passado pela cabeça, é: “Felipe é um falhanço? Falha nos seus objectivos? Falha para com o Império Espanhol?” Para responder a isto é necessário ter em conta certos factores.

Convencionou-se dizer-se na cultura “mainstream” ou seja, a cultura dos filmes históricos, romances e, como eu lhes chamo, nos “Wolf Halls na nossa vida”, (o Wolf Hall é um livro quase propagandístico na medida em que as interpretações da senhora não têm qualquer base histórica mas toda a gente acha que aquilo é verdade) que o Império Espanhol começa o seu declínio com Felipe II e que o Império Inglês começa a sua ascensão com Elizabeth, a Good Queen Bess.

Como a História diz-se, é escrita pelos vencidos, não há dúvida que Elizabeth ganha a Felipe, nem que seja porque soube projectar uma imagem de si muito mais positiva, infinitamente mais positiva, do que Felipe que, estupidamente, nunca se preocupou com isso, mesmo sabendo que metade da Europa o difamava com mentiras e exageros.

Mas as coisas são mais complicadas que isto porque infelizmente para a cultura de Hollywood as coisas nunca são simples e é talvez por isso que Oliver Stone não goste de historiadores. Nós raramente damos uma resposta “sim” ou “não” e eu imagino que isso irrite muita gente (irrita-me a mim sobretudo).

Em primeiro lugar, não é do meu ponto de vista correcto falar em declínio ou ascensão de Impérios. Não há perda significativa de território, sem contar com os Paises Baixos do Norte, e apesar da forte concorrência que se vai sentir no século XVII, Espanha continua a comercializar produtos das Américas. Muito pelo contrário. Felipe junta à figura de monarca a coroa portuguesa, portanto a figura real aumenta o seu império. Felipe, o seu filho e o seu neto, governaram dois impérios: O Português e o Espanhol. Não me parece que se possa falar em declínios de Império, posto isto. Por seu lado, até que ponto é que as tentativas de colonialismo de Elizabeth se podem apelidar de Império? São claro, um começo importantíssimo do colonialismo inglês. Mas em que medida se pode apelidar de Império, é muito discutível. Na minha opinião, só é exequível falarmos em Império inglês nos meados do século XVII e mesmo assim nem todos os historiadores concordariam com isto.

É muito mais correcto falarmos de “hegemonias de poder.” E neste sentido, há um claro declínio da hegemonia espanhola e uma ascensão das hegemonias holandesa e inglesa. Até que ponto é que os respectivos monarcas podem ou não ser directamente responsáveis por isto? Um dia a minha tese irá, entre outras coisas, comparar Felipe e Elizabeth mas por agora não estou interessada na comparação. Falemos então só de Felipe.

Felipe foi sem dúvida nenhuma o rei mais poderoso do seu tempo. Ninguém disputa isto. Espanha foi A potência do século XVI tanto como Inglaterra o foi no século XIX e como os Estados Unidos no século XX. E ao contrário do seu pai, Felipe torna Espanha o centro do Império. Mais precisamente, Castela.

O reinado de Felipe vai conhecer bons momentos, muito bons momentos, como Lepanto, a coroa portuguesa, a política mediterrânea, a consolidação da centralidade do estado e das colónias. Teve outros muito maus. E aqui, os últimos 10 anos do reinado foram desastrosos. Para além da Armada, do declínio das políticas de Parma na Flandres, e uma guerra desastrosa com França, devemos ainda contar com as epidemias e más colheitas e temos morte e fome, o apanágio do Antigo Regime. O reinado acaba com um sentimento enorme de desilusão e de desgaste. O próprio Felipe o sentia e expressou-o diversas vezes. É claro que em retrospectiva, isto parece quase parte de um processo natural. O poder espanhol atingiu o seu zénite com Felipe. E depois foi-se desgastando. Ao ser o poder hegemónico na Europa era constantemente o alvo principal de ataque e muitas vezes o primeiro a atacar. Nenhum poder consegue manter-se intocável e no auge durante muito tempo muito menos há 500 anos atrás. Partilho a opinião que Felipe não gostava especialmente de guerra mas era óbvio que elas eram necessárias. Isto não lhe retira as culpas. Acredito que a guerra na Flandres se deve em grande parte à sua incompreensão e tolerância. A guerra com Inglaterra era justificada mas a maneira como foi planeada, foi no mínimo, ridícula.

O desgaste do regime é normal. Felipe tem responsabilidade aos olhos de muitos porque atirou Espanha para guerras desnecessárias mas claro que nem sempre foi assim. Quando ele percebe que Henrique IV de Navarra, protestante, se torna rei de França, é evidente e justificado o seu medo. O desgaste é na realidade consequência directa do poder hegemónico espanhol que exigia muito do povo, do rei, do governo, das finanças, de todos os sectores da sociedade. Para além de que manter um império tão grande que governava sobre gentes tão diferentes entre si, trás também um enorme desgaste.

É claro que isto não retira a responsabilidade a Felipe nem eu o quero fazer. Felipe preocupava-se demasiado com pormenores e é muito provável que perdesse muitas vezes a perspectiva daquilo a que hoje chamamos a “bigger Picture”. À medida que envelhece, nos tais últimos 10 anos, vai assimilando a ideia de que só ele tem razão, como tantas vezes acontece. Felipe esteve no poder demasiado tempo e deixou de compreender, como tantos, que havia necessidade de reforma, de mudança de política. Não tenho dúvidas nenhumas que houve imensas vezes que ele quis abdicar. Mas aqui punha-se o problema da sucessão. Felipe nunca abdicou porque não tinha confiança no seu herdeiro. Confiava mais na filha, que nunca poderia ser Rainha, do que no primogénito que se vem a tornar rei.

O declínio de uma qualquer hegemonia ou de um qualquer império faz parte de um processo. E os processos são longos, podem durar anos, por vezes séculos. E é inútil tentar simplificar as razões porque elas nunca são simples e nunca são poucas. Para percebermos este declínio teríamos que recuar até a acontecimentos que se deram antes do reinado de Felipe, teríamos que ter em conta aquilo que acontece durante o seu reinado e especialmente, o que acontece depois. Mesmo considerando que há um sentimento de alívio depois da morte de Felipe II e uma grande esperança num futuro melhor, a verdade é que as administrações espanholas posteriores não vão ser capazes de reverter a situação, muito por sua própria incompetência. Isabel e Fernando, Carlos e Felipe tiveram personalidades fortes. Os reis posteriores até talvez Carlos III não as vão ter.

Fernand Braudel dizia em relação a Felipe que ele estava “aprisionado a um destino sobre o qual pouca influência tinha”. É verdade que Felipe tem imensa responsabilidade no declínio hegemónico de Espanha pelos erros que comete. Mas não é dele toda a responsabilidade. Havia outros factores, inúmeros, que a explicam. Factores que vêm de trás, factores que transcendem Felipe, que o ultrapassam. Factores sobre os quais ele pouco controlo tinha. A História não é feita de “ses” mas no caso de Felipe, talvez seja sensível perguntar até que ponto é que as coisas podiam ter sido diferentes? Até que ponto é ele, pessoalmente, podia ter evitado o curso da História? A ideia central aqui é o rei, só o rei, se excluirmos tudo o resto, qual a conclusão a que chegamos? Se excluirmos tudo o resto, talvez possamos uma noção das suas verdadeiras responsabilidades.  Só que esta exclusão não é fácil porque nada na História é fácil e porque as coisas estão quase sempre ligadas entre si.

Quando fui a Madrid e comprei a biografia de Felipe do Geoffrey Parker verifiquei com espanto que ela já estava na quarta edição. Este é um livro que tem menos um ano e que tem cerca de 1500 páginas se contarmos com as notas. Isto poderá talvez dar-nos uma ideia da popularidade de Felipe. Acredito firmemente que os Espanhóis gostam de Felipe e que gostaram dele desde muito cedo apesar da reacção negativa depois da sua morte.  Mais do que o falhanço possivelmente Felipe simboliza o zénite. E só através disso, podemos perceber porque ele falha, quando falha e se falha.

Comments

  1. Carla says:

    Gostam tanto dele que têm 30.000 referências por toda a cidade ao seu reinado, à sua família, às batalhas que travou. E sim, tendo em conta que o livro do Parker é o que se chama em português corrente “um calhamaço” o facto de ir já na quarta edição é surpreendente. É uma pena que os “Wolf Halls” desta vida (que são como os cogumelos, crescem por todos os lados) vendam muito mais do que qualquer livro de História, por muito bom que este seja.

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