O único Estado bom é um Estado morto

Pareceu-me ouvir, hoje, Miguel Relvas, a propósito da possibilidade de acabar definitivamente com os subsídios de férias e de Natal, afirmar que o “Estado não gera riqueza”, as empresas sim. Mais uma vez, confesso a minha ignorância acerca da Economia e respectiva terminologia, mas parece-me que estamos diante de uma noção absolutamente tacanha de riqueza.

A riqueza de um país não se mede apenas pelo equilíbrio das contas ou pelo recheio dos cofres do Estado, o que seria suficiente para considerarmos rico o Portugal salazarista, em que a pobreza era generalizada e escondida sob a capa da alegre casinha modesta. A riqueza de um país mede-se, também, por exemplo, pela qualidade da educação ou pelo funcionamento dos hospitais ou dos tribunais.

Ora, a clique que se apropriou do Estado tem cada vez menos pudor em admitir que governa para destruir tudo o que seja estatal, a coberto de um conjunto de argumentos simplistas: o Estado é mau gestor, o problema está na despesa do Estado e é necessário “menos Estado, melhor Estado”. Pouco falta para dizer, à semelhança dos colonos que defendiam a morte dos índios nos westerns, que tudo será melhor quando o Estado morrer.

Passos Coelho e Miguel Relvas conseguiram, com a ajuda dos seis anos de saque do PS, chegar a um ponto em que podem proferir insídias impunemente. Por um lado, o Primeiro-Ministro considera que reduzir salários e cortar subsídios é “cortar despesa”, porque nada no trabalho do funcionalismo público pode ser considerado investimento; depois, ambos preparam, descaradamente, transformar em definitivos os cortes apresentados como passageiros.

Portugal poderá vir a ser, então, um país rico cheio de gente pobre. Pobre gente!

Comments

  1. José Galhoz says:

    Depois de 25 anos de neo-liberalismo encapotado (às vezes envergonhado), aqui estamos com ele em toda a sua plenitude, curiosamente, numa fase em que os malefícios desta pseudo teoria económica já foram suficientemente demonstrados. Aliás, Portugal está aqui a seguir as piores correntes dominantes, agora por imposição externa (será o nosso fado?).
    Só uma palavra para notar que, aparentemente, os reformados deste país (do Estado e não Estado) se evaporaram subitamente, visto que só se fala dos cortes na função pública…


  2. quais reformados ?? os da CGD tipo eis ministra da Justiça Cardona ??? E o PR não se reformou de vários locais entre eles meia dúzia de anos a dar aulas – deviam ser boas – a que chamam reformados ???
    e a que chamam Funcionáriosd Públicos ??
    exliquem melhor que eu não quero ser misturada com canalhas que ganham por dia o que ganho por ano
    E esses reformadas que a CGD paga será que vai sempre ter fundo de pensões para me pagar a mim e a sr VARA ???


  3. Nem mais!! É isso mesmo.
    Quando vi o Relvas na televisão pensei o mesmo (além de pensar que ele é estúpido…). Na verdade a função produtiva ou de “criação de riqueza” (ou Valor) não se pode colocar em matéria de serviços do Estado (ou da sua função). Ao Estado compete atuar onde os cidadãos, através das suas escolhas políticas, entendem que este deve estar presente em benefício de todos. Os políticos também não criam Valor, nem produzem… E temos de os gramar…

    Outra ideia que circula muito: a de que se tem de privatizar porque o Estado gere mal. Não tem de ser assim… Há que criar condições políticas, administrativas e de gestão para que o Estado possa gerir bem… No final até tem lógica: se o “privado” gere para criar “lucros”, o Estado pode gerir para alcançar a sustentabilidade dos seus serviços (considerando também os reinvestimentos necessários…). Por esta via um serviço do Estado (lúcido e bem gerido) seria sempre “mais barato” para os cidadãos…

  4. José Galhoz says:

    É claro que há funções numa sociedade que competem, naturalmente, ao sector privado como há outras que só por demagogia se pode defender que não competem ao Estado. Por outro lado, são cometidos erros em cada um dos sectores, com maiores ou menores repercussões, não sendo isso que prova a necessidade de retirar funções de um para o outro lado. É evidente que o ruído que se produz à volta destes casos tem, muitas vezes, o único objectivo de confundir…
    Num outro plano, não percebi a que propósito se pode misturar as “reformas douradas” com a grande maioria dos reformados, nada privilegiados.


  5. Pobre gente!Pobre povo!Pobres de nós, indulgentes!Somos já raça de mendigos!Fingimos que vivemos!
    Tudo perdoamos e esquecemos!…mostra, Povo, a tua raça!

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