God Bless América


Rui Naldinho

O carater vitorioso de uma candidatura é determinado, mais pelo conjunto de interesses que ela consegue aglutinar à sua volta, do que pelas ideias propostas ao eleitorado.

O candidato republicano elegeu mais delegados para o Colégio Eleitoral, porque ganhou em mais Estados Federais. O argumento do número superior de eleitores democratas, uma vez que Hilary Clinton teve mais votos, não serve. Já com Al Gore se passou o mesmo. As regras estão estabelecidas à partida, para todos. Logo, se não concordam mudem-nas, mas antes do jogo começar.

Devemos a Trump um espírito aberto e a hipótese de liderar” [Hillary Clinton]

O eleitorado mais conservador dos Estados Unidos da América é muito pragmático. Para eles, os escândalos sexuais, a fuga ao fisco, o racismo, a xenofobia, homofobia, a islamofobia, e todas as fobias que aqui quiserem colocar, se for o seu candidato a infringi-las, são desvalorizadas. Clint Eastwood deu o mote, numa das suas aparições a favor de Trump.

Os seus reais interesses são o seu poder económico e a sua própria segurança, seja física, seja psicológica. Estando esses requisitos salvaguardados por alguém, as suas preocupações reduzem-se a muito pouco. O que os une é o poder do dinheiro. E isso é um cimento muito forte. Até parece que no mundo ocidental, a esmagadora maioria das pessoas se pudesse pagar menos impostos, mesmo fugindo ao fisco, não o faria? Muitos só não o fazem, porque não podem, ou não conseguem, caso contrário fariam o mesmo que Trump e que  grande parte dos americanos.

O cidadão americano mais liberal, seja o da esquerda moderada ou o do centro direita, que normalmente vota no Partido Democrata, tem uma multiplicidade de interesses sociais e económicos que, muitas vezes, são pouco conciliáveis entre si. Dificilmente haverá um candidato desta área politica que agrade a todos em simultâneo. Obama foi uma exceção, até pelo facto de ser negro. O Partido Democrata tem um espetro eleitoral bastante grande e tentar fazer a espargata dá muitas vezes nisto. Senão vejamos:

  • A agenda programática de Bernie Sanders era bastante diferente da protagonizada por Hilary Clinton, pelo menos no início. Mas ambos eram democratas. Houve democratas que se recusaram a votar em Clinton.
  • A candidata ecologista Jill Stein com quase 1,5 milhões de votos, e o candidato libertário Gary Johnson com 4 milhões de eleitores, ainda vieram dividir mais os votos do universo eleitoral democrata, muito mais sensível às questões ambientais, a questões de género ou ideológicas. Bastariam esses votos a Hilary, mais cinco milhões de eleitores, para ela provavelmente vencer a corrida eleitoral.

No caso dos republicanos as suas divisões assentavam mais na forma como Trump se expunha. A inexperiência do candidato, fortemente abalada pelo tipo discurso polémico e incendiário. Ele deixava muitos altos dirigentes do Tea Party com os cabelos em pé. Desde o apelo encapotado à xenofobia, à antiglobalização e ao fim dos acordos sobre a proteção do clima, tudo serviu ao republicano para conquistar votos. Mas nas questões de fundo nada havia a obstar entre os republicanos.

Para muitos americanos, mesmo pobres, Trump é um candidato perfeitamente elegível, com uma vantagem à partida. Ele é um homem rico, multimilionário. Já tem tudo na vida. Não vai ser a política que o fará enriquecer mais do que aquilo que ele já o é. Talvez até se passe o contrário. Ele poderá vir a perder alguns negócios, fruto de alguns anticorpos que irá criar. Daí ter particamente passado tudo para os filhos.

Esta é também uma das razões deste desfecho eleitoral. Hoje, o eleitor vê o político como um carreirista. Um profissional que entra na função teso e sai de lá rico. Na América não faltam por lá exemplos com os de Durão Barroso, Jean Claude Juncker, Tony Blair e Gerhard Schröder. Ora, para muitos americanos, Trump foge a esse estereótipo. O do politico que quer servir-se da política, mais do que servir a política.

A globalização é um fenómeno que,  na História das sociedades, se pode comparar a um comboio de alta velocidade. Muita gente não o sente, porque vai dentro do comboio, mas há quem tenha ficado de fora e sido atirado para a valeta, sem que alguém repare nos danos que lhe foram causados.

Trump apenas aproveitou a revolta dos que passaram ao lado dessa globalização, e ao que parece são muitos, somando a estes o eleitorado tradicional republicano.

Não acredito que a impreparação e a imprevisibilidade de Trump o levem ao ponto de criar uma situação irreversível num conflito armado com o exterior. O período da Guerra Fria teve muito mais riscos.

Também não acredito que Trump cumpra grande parte das promessas que fez, mesmo algumas das mais polémicas. Há gente no partido republicano para o “colocar nos eixos”, mesmo que, por vezes, o discurso tenha um registo agressivo e xenófobo.

Depois desta Trump(alhada) toda, só nos resta esperar que nós mesmos estejamos enganados a seu respeito.

O Mundo agradece.

Comments

  1. Muito boa análise de facto, muito melhor do que alguns “peritos” escrevem. Como bem escreve, as regras de sistema indireto de eleição do presidente, favorecem a quem consegue aglutinar os votos.

    A chamada “esquerda” americana está muito dividida, e a candidata Hillary Clinton não foi consensual o suficiente para conseguir obter os votos que fugiram do seu campo.

    A derrota democrata foi tão esmagadora, que os republicanos conseguiram manter o controle sobre o Senado e a Câmara dos Representantes.

    Com mais tempo dado ao tempo, saberemos também que Barack Obama foi também uma das causas da derrota eleitoral do partido democrata. Sobre isso, tenho opiniões que dariam um artigo. Como não posso escrever artigos aqui, não poderei expor o factor Obama, na derrota dos democratas.

  2. anónimo says:

    Quem escolhe os candidatos e quem os promove é o capital, com financiamento e com campanhas maciças nos media.
    O procedimento eleitoral está preparado para eliminar quem não interessa ao sistema.
    Na fase final, depois de despacharem o Sanders, tanto faz quem é eleito.
    O eleitor é mentalizado, para acreditar que os EUA são o que há de melhor no mundo, que os EUA são vítimas dos ataques de todo o mundo, e que quando atacam e invadem, o fazem em legítima defesa.

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