Vamos ser vegetarianos?

Roda dos alimentos

Eu acho que invariavelmente vamos inverter os nossos hábitos alimentares e tornar-nos vegetarianos. Ou vegans. Ou ovolactovegetarianos. Não interessa. Vamos comer pouca ou nenhuma carne e peixe. É inevitável. Basta comparar a Roda dos Alimentos original, desenvolvida por portugueses para a Campanha de Educação Alimentar “Saber Comer é Saber Viver” em 1977, com a de hoje em dia. (Ainda gostava de saber quem foi o responsável por esta ideia excelente) Em pouco mais 30 anos, a porção do peixe e da carne diminuiu para metade. Obviamente, isto não tem efeitos imediatos, e não é por haver indicações sobre alimentação numa roda que os hábitos alimentares vão mudar rapidamente. Basta acompanhar o fenómeno da obesidade para perceber que esta mudança pode demorar décadas. Mas vão mudar, nem que seja lentamente. Convém não descurar a evolução natural do conhecimento e poder do marketing científico.
Noutra perspectiva, começa a ser perceptível que não é possível andar sempre a comer grandes bifes do vazio. Por um lado, questões directas como o facto de ser óbvio que é necessário uma quantidade enorme de vegetais e água para produzir uma pequena quantidade de carne. Porque não saltar um elo na cadeia alimentar? Depois as questões de escassez de recursos naturais, alimentação dos animais, água e energia que se despendem, começam a pesar até economicamente e irão tornar a carne e o peixe (praticamente) inviáveis. A acrescentar ainda o factor-surpresa ultimamente muito mediático:  hormonas, doenças e pandemias. Por outro lado, questões laterais como a defesa dos direitos dos animais e a crescente consciência que os animais têm uma existência própria para além da nossa esfera de interesses. Ou os animais serão apenas “comida viva”?

Para mim existe ainda um dilema moral, quando penso nas condições industrializadas em que são “produzidos” animais nos dias de hoje. Na forma como são tratados. Na forma como são mortos. Se é assim uma coisa tão boa e necessária e sem aspectos grotescos e desagradáveis, porque não dar uma voltinha até ao matadouro mais próximo? E porque não levar os filhos?

Eu não sou vegetariano. Mas de alguma forma estranha, a minha consciência começa a pesar. Por isso como muito pouca carne. O peixe que já era pouco, mantém-se. Aumentei em muito os vegetais e fruta. Espero conseguir libertar-me em breve de anos de habituação. A total ruptura de hábitos alimentares é mais complexa e difícil do que eu poderia imaginar. Em termos de dificuldade, eu classificaria a mudança de regime alimentar ao nível da ruptura no consumo do tabaco.

Muitas questões éticas e morais se têm levantado em volta dos animais e eu considero que é um fenómeno (minoritário) em rápido crescendo e não vejo como esta tendência possa mudar. Mas nos dias que correm, também já acredito em tudo.

Comments


  1. É claro que, entretanto, enquanto os hábitos mudam, também a roda dos alimentos pode mudar. Parece certo que as opções alimentares terão de mudar. Por razões de saúde e por necessidade de alimentar uma população em crescimento, enquanto o planeta continua o mesmo. Aqui nem dá para construir além da cércea permitida.

  2. carlos fonseca says:

    Até por ser doente crónico – cardíaco – também acho inevitável a caminhada em direcção a uma alimentação mais racional; mas lá que custa muito, custa. Abandonar o leitão da Bairrada, o cozido à portuguesa, os péssinhos de coentrada, e não sei mais o quê, é duro, digo eu por experiência própria.

  3. Luis Moreira says:

    O meu filho não come carne há dezassete anos e esteve aí uns doze sem comer peixe e carne.E não lhe faz falta nenhuma.Eu próprio muito raramente como carne.


  4. Eu cá sou vegetariano. Ou tento ser, porque em Cinfães é praticamente impossível.

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