José Soares: BPN, SLN e Sua Excelência, o Presidente da República… a propósito de um artigo do Mário Crespo

Isto passou um bocado despercebido mas ainda há quem volte ao tema, embora com o tratamento cerimonioso de “Sua Excelência o Presidente da República” e sem que os  jornais não façam primeiras páginas com isto, nem a TVI se interesse.

Se fosse o Sócrates, lá estariam eles todos a berrar com a Manuela Moura “Bocas” Guedes à cabeça….enfim….critérios puramente jornalísticos, bem entendido.

E qualquer dia temos aí também a história da outra Manuela que agora é contra tudo o que antes defendeu com unhas e garras. Isto é para onde sopra melhor o vento.

Após publicação do artigo do Mário Crespo, no JN de 8 de Junho de 2009, (que abaixo se transcreve) penso dever ser minha retribuição cidadã lembrar a esse propósito que em 2003, data da mais valia da familia Silva, um seu destacado membro iniciava o guloso caminho financeiro para as Presidenciais, nas quais talvez fosse preciso algum dinheiro para alavancar o início da aventura… mas nós talvez pudéssemos fazer de conta que não é preciso dinheiro para ser candidato a Presidente da República, talvez pudéssemos fazer de conta que o mandatário financeiro dessa operação não foi Manuel Dias Loureiro, até poderíamos talvez supor que a familia Silva, verdadeiramente, nunca comprou acções de coisa nenhuma, tendo  talvez  apenas feito de conta que assinaram uns papéis a dizer que sim que não se importariam de comprar acções e uns meses depois a dizer que sim que estavam interessados em vendê-las… continuemos a fazer de conta…

 

Continuemos a fazer de conta, por Mário Crespo

Façamos de conta que e o que passou no BPN e na SLN não é mesmo uma enorme "roubalheira". Façamos de conta que há outro termo para descrever correctamente o saque de dois mil milhões de dinheiro dos portugueses.

Façamos de conta que a mais-valia de 147 por cento do investimento de Aníbal Cavaco Silva e família não aparece nos dois mil milhões de prejuízos do BPN nacionalizado. Façamos de conta que não é o contribuinte português quem está a pagar esses dois mil milhões. Façamos de conta que é normal conseguir valorizar um investimento 147,5 por cento em menos de dois anos. Tudo isto fora do controlo das entidades fiscalizadoras e reguladoras do mercado de capitais. Façamos de conta que um conglomerado de bancos e offshores que compra coisas por dezenas de milhão, que vende depois por um dólar, e que rende mais do que a Dona Branca, é normal. Façamos de conta que um negócio gerido assim faz algum sentido no mercado. Façamos de conta que é acessível ao cidadão comum um negócio destes. Façamos de conta que sabemos todas as circunstâncias da compra e da recompra das acções de tão prodigiosa mais valia, que a família Silva detinha no projecto de Dias Loureiro e Oliveira e Costa. Façamos de conta que a SLN não tem nada a ver com o BPN. Façamos de conta que o BPN e a SLN não têm um número invulgar de gente do PSD envolvido nas suas actividades. Façamos de conta que Aníbal Cavaco Silva não é a personalidade de mais influência no PSD. Façamos de conta que os termos SLN, Sociedade Lusa de Negócios ou SLN Valor aparecem no comunicado da Presidência da República de 23 de Novembro de 2008. Façamos de conta que, nesta fase de dúvidas, é aceitável uma declaração como a emitida pelo Palácio de Belém sem referências ao valioso investimento familiar no mais controverso dos projectos financeiros da história de Portugal. Quando é só esse investimento que está causa. Por ser uma aplicação num projecto de licitude duvidosa. Façamos de conta que o Chefe Executivo desse projecto não tinha sido um íntimo colaborador de Aníbal Cavaco Silva responsável por finanças públicas. Façamos de conta que entre 2001 e 2003 os negócios do BPN e da SLN decorriam de forma irrepreensível e no cumprimento integral da lei da República. Façamos de conta que não foi por escolha pessoal do Presidente da República que Dias Loureiro foi nomeado Conselheiro de Estado. Façamos de conta que, como o Presidente disse, estar Dias Loureiro no Conselho de Estado era a mesma coisa que estar António Ramalho Eanes ou Mário Soares ou Jorge Sampaio. Façamos de conta que o Presidente relatou tudo o que devia ter relatado ao País sobre os seus activos passados nos projectos de Oliveira e Costa e Dias Loureiro. Façamos de conta que não há gente presa por causa do BPN. Façamos de conta que não vai haver mais gente presa. Façamos de conta que o que se passou no BPN e na SLN não é mesmo uma enorme "roubalheira". Façamos de conta que há outro termo para descrever correctamente um saque de dois mil milhões de dinheiro dos portugueses. Façamos de conta que não conseguimos imaginar quantas escolas, quantos hospitais, quantas contas de farmácia, quantas pensões mínimas, quantas refeições decentes se podem comprar com esse dinheiro. Façamos de conta que basta, apenas, cumprir rigorosamente a Lei e ignorar o que a Lei não diz, para se ser inquestionavelmente impoluto. Façamos de conta que não sabemos o que se está a passar à nossa volta. Até onde aguenta o País continuarmos a fazer de conta que não vemos?