José Ferraz Alves – Empreendedorismo Social no Porto (parte I)

A Prof.ª Elisa Ferreira promoveu no dia 25.06.09 uma tertúlia dedicada ao tema do Micro-crédito e do Empreendedorismo Social. Dado que este último conceito é novo, proponho-me aqui deixar alguns elementos para sua melhor caracterização.

O conceito de empreendedorismo social foi criado por Bill Drayton da Fundação Ashoka a partir da sua constatação de que o pensamento inovador e criativo podia ser aplicado na solução de problemas sociais aparentemente irresolúveis. Além da Ashoka, existem várias outras fundações que se dedicam a promover o empreendedorismo social, incluindo a Fundação Skoll fundada por Jeff Skoll (CEO do e-Bay) e a Fundação Schwab para o empreendedorismo social, criada por Klaus Schwab, fundador do Fórum Económico Mundial. Tornou-se até, em 1995, numa disciplina académica em Harvard, e é hoje leccionada em cerca de 30 escolas de gestão nos EUA. Em Portugal, ao nível do ensino superior, existem cursos na Universidade de Évora, Escola Superior de Educação da Guarda, Universidade da Beira Interior e acompanhamentos em papers pela Universidade do Porto e Nova de Lisboa.

Começo por uma pequena história:

“Cristóbal Colón é um psiquiatra catalão que trabalha num hospital psiquiátrico em Girona. Nas décadas de 70 e 80, o tratamento preferido nos estabelecimentos psiquiátricos era a terapia ocupacional. O Dr. Colón foi encarregado de um programa que consistia em estipular tarefas aos pacientes para os manter ocupados, como fazer cinzeiros de cerâmica, marcadores de livros e outras pequenezas que as crianças de 5 anos levam para casa como frutos das aulas de artes ou colónias de férias. Não há mercado para esses bens e, na verdade, apenas as mães lhes dão valor.

Enquanto a maioria das pessoas teria concordado com essa abordagem, como a forma adequada de tratamento de pessoas com deficiências mentais, Colón ficava cada vez mais frustrado com a actividade inexpressiva dos pacientes. Percebeu que a única coisa que lhes ofereceria sentido de um propósito às suas vidas seria um trabalho a sério numa empresa real que produzisse algo que os consumidores quisessem realmente comprar. Em 1982 decidiu criar uma empresa de lacticínios. Mas precisava de capital e por isso visitou um banco para pedir um empréstimo. Agora, imagine-se o que terá pensado o gerente de balcão de um banco, em que um médico psiquiatra aparece a pedir dinheiro emprestado para iniciar uma empresa que lacticínios que empregaria, em grande parte, doentes mentais…

Sem se deixar desanimar, conseguiu o que queria. Actualmente:

  • – A sua quinta e fábrica, La Fageda, são negócios prósperos que ocupam o terceiro lugar em termos de participação no mercado de iogurtes da Catalunha, perdendo apenas para a Danone e Nestlé.
  • – É uma empresa auto-sustentável, dependente de si própria que paga bem aos seus funcionários que podem optar por viver na própria fábrica, o que muitos acabam fazendo.
  • – Trabalha junto ao sector público, que envia pacientes psiquiátricos para a Empresa para receberem formação, estágio e emprego e, eventualmente, reincorporação na sociedade.
  • – Tem uma equipa de profissionais de saúde mental, oferecendo apoio constante aos seus trabalhadores.
  • – Está certificada pelo Ministério de Agricultura Espanha como quinta de lacticínios.

As pessoas compram os produtos da La Fageda porque são realmente saborosos, não por caridade. A maioria dos seus clientes tem total desconhecimento de que os doentes mentais são responsáveis pela fabricação dos produtos que consomem. Enquanto isso, os doentes mentais não são mais vistos como pacientes, ganham a vida contribuindo para uma das principais empresas de lacticínios do seu país e sentem orgulho por isso.

A La Fageda é uma empresa com fins lucrativos, mas não é um negócio que maximize os lucros. O seu objectivo é a transformação social e o seu lucro é usado como um meio para atingir esse fim. Trabalhar com doentes mentais é o principal negócio da La Fageda. Não é uma ideia tardia de relações públicas ou parte das actividades de responsabilidade social da Empresa. Embora ofereça um serviço de saúde pública ao apoiar doentes mentais – uma tarefa geralmente delegada ao Governo – não é uma organização governamental e não é uma instituição de caridade, o que a tornaria dependente de doações e da filantropia.”

Antes de dizer o que é empreendedorismo social, vou, inicialmente, explicar o que não é empreendedorismo social:

  • – O empreendedorismo social não é responsabilidade social empresarial, pois esta supõe um conjunto organizado e devidamente planeado de acções internas e externas, e uma definição centrada na missão e actividade da empresa, antes de atender às necessidades da comunidade.
  • – Não é uma profissão, pois não é legalmente constituída, não havendo formação universitária ou técnica, nem conselho regulador e código de ética profissional legalizado.
  • – Não é também uma organização social que produz e gera receitas, a partir da venda de produtos e serviços.
  • – E, muito menos, é representado por um empresário que investe no campo social, o que está mais próximo da responsabilidade empresarial, ou, quando muito, da filantropia e da caridade empresarial, que já se mostraram inadequadas, não somente para os ajudados, mas também para os negócios e para a sociedade, pois a solidariedade produz um tipo de ajuda que é assistencialista.

Então, em palavras simples, o que é o empreendedorismo social? Trata-se, antes de tudo, de uma acção inovad
or
a voltada para o campo social, cujo processo se inicia com a observação de determinada situação-problema local, para a qual se procura, em seguida, elaborar uma alternativa para o enfrentar. Observa-se, também que essa ideia tem de apresentar algumas características fundamentais, tais como:

  • 1.º) ser inovadora;
  • 2.º) ser realizável;
  • 3.º) ser auto-sustentável;
  • 4.º) envolver várias pessoas e segmentos da sociedade, principalmente a população atendida;
  • 5.º) provocar impacto social e permitir que seus resultados possam ser avaliados.

Os passos seguintes são:

  • 1.º) colocar essa ideia em prática,
  • 2.º) institucionalizar e gerar um momento de maturação até que seja possível a sua multiplicação por outras localidades, criando, assim, um processo de rede de atendimento ou de franquia social, até se tornar política pública.

Comments


  1. Não conhecia esta história e muito pouco do empreendedorismo social. Serviu para ficar mais atento.