A máquina do tempo: Parabéns Saramago!

 

 José Saramago faz hoje 87 anos e continua a escrever. A escrever bem. Não gostei do seu «Caim», mas gostei muito do «Levantado do Chão», do «Memorial do Convento», de «O Ano da Morte de Ricardo Reis», do «Ensaio sobre a Cegueira»… E de outros de que gostei mais moderadamente, além de outros ainda dos quais gostei pouco ou não gostei nada. Sou só um leitor entre os milhões de leitores que tem espalhados pelo mundo. E não sou admirador incondicional de nenhum escritor . Os autores sabem que cada livro é sujeito a julgamento e cada leitor é um juiz.. Ter escrito tantos livros, entre os quais três ou quatro obras-primas, não é para todos. Diga-se o que se disser, goste-se dele ou não, Saramago é um grande escritor. Como juiz, este é o meu veredicto.

O que é pena é o cidadão José Saramago às vezes dizer coisas que não ficam bem ao escritor José Saramago. E não me estou a referir a esta questão da Bíblia, uma boa acção de marketing por parte do escritor e uma tontice por parte da Igreja. Refiro-me, por exemplo, à defesa da absorção de Portugal pelo estado espanhol, que é, como se costuma dizer, uma ideia de cabo de esquadra!  Mas hoje é dia de festa, cantam as nossas almas, como diz a estúpida letra brasileira da imbecil canção ianque, e antecedi este texto de uma declaração de Saramago que subscrevo inteiramente. Uma definição exemplar, na minha opinião, evidentemente, da falsa democracia em que vivemos. Em poucas palavras, disse aquilo que eu andei aqui semanas a tentar transmitir. Deste vez, o cidadão foi digno do escritor. E vou contar uma história.

Corria o ano de graça de 1966, mais precisamente o dia 24 de Novembro. Por esses anos, semanalmente, quando a censura não cortava tudo, publicava uma crítica de poesia no «Suplemento Literário» do Jornal de Notícias. José Saramago que, nessa altura era um nome apenas conhecido no meio editorial, publicara um livro na colecção Poetas de Hoje da Portugália Editora – “Os Poemas Possíveis” – e teve a amabilidade de mo mandar com uma simpática dedicatória.

Ao contrário do que na maior parte das vezes acontecia, gostei da colectânea e escrevi um texto muito favorável que terminava assim: «Em conclusão. “Os Poemas Possíveis” é um livro bem escrito, onde se evidencia um meritoso trabalho de oficina, sem concessões à proverbial «inspiração» poética. Apenas nesta medida, apenas quem não pretenda pedir outras razões a José Saramago que as de um trabalho bem feito, este livro agradará plenamente.» Como já tenho dito, por aqueles tempos discutia-se muito a prevalência, ou não, do conteúdo sobre a forma. O poemário de Saramago ia ao encontro do que eu defendia semanalmente naquela pequena tribuna.

Até aqui, tudo estava a correr bem. Acontece que quem fazia a paginação do suplemento se enganou e no título, em grandes letras, a seguir ao nome da obra escreveu JOSÉ SERRANO. Guardei para sempre a cópia dactilografada para, em caso de dúvida, poder provar que a culpa não foi minha. Escrevi repetidamente ao director do suplemento (Nuno Teixeira Neves) pedindo-lhe que escrevesse ao autor, em nome do jornal, pedindo desculpa. O que, segundo me disseram, ele não fez. Por isso, espero que Saramago não se lembre do obscuro crítico literário que há mais de quarenta anos ficou sob suspeita de lhe ter trocado o nome.  

Há catorze ou quinze anos, estava no Aeroporto da Portela com o editor Lyon de Castro. Íamos, salvo erro, para Francoforte, para a feira anual dos editores, e de repente quem pára junto a nós – o José Saramago que cumprimentou o Francisco Lyon de Castro. (Saramago, num dos seus Cadernos de Lanzarote faz-lhe uma curiosa alusão; num sonho, o editor vem abrir-lhe um portão).

Estávamos perto do free shop e logo me afastei a ver com atenção excessiva uma qualquer mercadoria que ali se vendia. O Lyon de Castro ainda olhou para mim, com evidente vontade de me apresentar (ele adorava brilhar, e o Saramago ainda não ganhara o Nobel, mas já era um escritor muito conhecido). Pelo canto do olho observei as movimentações e debrucei-me ainda mais sobre qualquer artigo. Não fosse o Saramago lembrar-se do dia em que fui suspeito de lhe ter trocado o nome…Talvez tenha feito mal, pois era uma boa altura para lhe ter pedido desculpa por esse erro que não cometi. O que faço hoje com 43 anos de atraso.

Parabéns, José Saramago!

 

 

Comments

  1. maria monteiro says:

    e porque é dia de festa… Parabéns, SaramagoNota: Manuel Freire tem o disco As Canções Possíveis onde canta Os Poemas Possíveis de Saramago


  2. Não conhecia. Obrigado pela informação, Maria Monteiro.


  3. Amigo Carlos Loures Li com muito agrado o teu texto, como, aliás, tenho lido todos os outros. Vale a pena pertencer ao Aventar, para ter a sorte de ler coisas tão interessantes como as tuas e de outros amigos. Dou-te razão, no essencial, naquilo que dizes de Saramago. É um escritor de primeira linha, inegualável em muitos livros (penso que escrever “Ensaio sobre a cegueira” é uma tarefa que se me afigura extremamente difícil para qualquer escritor). Ao contrário de ti, gostei de “Caim”, pensando que não iria gostar. Considero-a, não propriamente uma alegoria, mas uma obra literária profundamente inspirada de um espírito alegórico, dificil, muito difícil de conceptualizarda forma como ele o faz. Eu costumo dizer, sem que me considere nehum destacado escritor ou artista, que há duas coisas essenciais que me fazem admirar uma obra de arte: 1- eu não ser capaz de a fazer. 2- Sentir necessidade de a ela voltar, para continuar a leitura ou a contemplação. Independentemente de concordar ou não com a doutrina exposta ou com o sentido artístico que dá corpo à obra. Quanto ao cidadão Saramago, ou melhor dizendo, quanto às declaraçãoes públicas de Saramago, há aquelas que adoro, como as do video que apresentas, bem como as declarações sobre a abominável política de Israel, e sobre e outras, e aquelas de que não gosto, ou melhor, aquelas que me incutem um sentimento de contradição  do espírito de uma pessoa  que não pode contradizer-se. O que não é o mesmo que emendar-se ou emendar o seu pensamento, alinhando-o de outras formas que não impliqurm contradição. Um abraço, amigo Carlos Loures. Os teus poemas também me deixam suspenso.


  4. Obrigado , Adão. Quanto ao José Saramago, independentemente de gostaramos mais ou menos de um ou outro livro dele, estamos em sintonia. Como escritor, atingiu uma dimensão raramente alcançada entre nós. Como cidadão, tem as suas contradições (como todos nós). Um abraço.

  5. maria monteiro says:

    As Canções Possíveis Manuel Freire canta José Saramago (poemas extraídos de Os Poemas Possíveis e Provavelmente Alegria)Circo – Nem sempre a mesma rima – Tenho a alma queimada – Ouvindo Beethoven – Retrato do poeta quando jovem – Jogo do lenço – Tenho um irmão siamês – «Dispostos em cruz» – Fala do Velho do Restelo ao Astronauta – A ponte – Dia não – É tão fundo o silêncio


  6. Vou tentar arranjar na FNAC. Obrigado, mais uma vez, Maria. Um grande abraço.

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