para Elisa

pensei seria Elisa, por Beethoven; acabou por ser May Malen, pelos pais

Os leitores queiram desculpar, mas volto a falar de netos, como há tempos no artigo que dediquei ao meu amigo fraterno, Daniel Sampaio. O motivo é simples, a vida é um eterno retorno. Não um retorno de uma alma[i] que vai embora e torna a aparecer noutro corpo, como acreditam muitas pessoas, especialmente os Kiriwina da Nova Guiné[ii]. Para os que acreditam em almas, é evidente.

Não tenho essa sorte, pelo que sempre os meus descendentes estão perto de nós, podendo, assim, como diz o meu sábio amigo, dedicarmos-lhes um dia, pelo menos, da semana, para sermos avós a sério. Não é o caso de Elisa, irmã de Ben, que estará connosco em breve. Nascida britânica. Mas Elisa, é, também, a melhor sonata de Ludwig van Beethoven W 0 O 59, escrita para a mulher que amava, Elisa[iii] ou Für Elise. Essa rapariga que já é amada, cuidada e tratada com todo o carinho pelos seus pais e avós, todos nós, antes mesmo do seu nascimento.

É dito que comemorar antes do tempo da nascença, dá azar. Será para os que têm espírito de fé, mas não para os que amamos desde o primeiro dia em que os quatro avós e um bi

e um bisavô ficaram a saber que ia nascer, que devia nascer, uma outra pessoa descendente que nos perpetuará. Será de olhos azuis como o seu pai. De pele branca transparente, como a sua mãe. De paciência e devoção ilimitada para os outros seres humanos, como esses quatro avós. É já uma festa. Quando temos descendentes, nós, avós, respeitamos a criança e os seus afazeres. Enquanto está no seio da mãe, simultaneamente o pai toma das duas (mãe e filha), com amor e dedicação. O seu título será de Baronesa, pela sua formosura e qualidade de vida, aprendida de seus pais e de outros ascendentes, quatro gerações ainda vivas e em actividade. É, deve ser, uma rapariga em lá menor. Essa nota que dá a melodia e o cuidado do som e alegria à família toda. Já está comigo Für Elise, à sua espera, enquanto, como em todos os sítios do mundo, nós os avós, respeitamos, amamos e até adoramos apenas a ideia de outro estar a chegar. Beethoven devia ressuscitar para mudar o nome da peça de bagatela, para variações e fugas dos seus amantes pais. Para Elisa, agora May Malen, é um prazer já, porque existe e é mimada.

Com amor a esses pais que vivem uma das fases mais alegre da vida.


[i]Alma é um termo que deriva do latim anǐma; princípio que dá movimento ao que é vivo, o que é animado ou o que faz mover. De anǐma, derivam diversas palavras tais como: animal (em latim, animalia), animador…

Filosófica e religiosamente definida como um ser independente da matéria e que sobrevive à morte do corpo, podendo o seu destino ser a beatitude celestial ou o tormento eterno.

Segundo este ponto de vista, a morte é considerada como a passagem da alma para a vida eterna, no domínio espiritual.

A maioria das religiões, cristãs e não – cristãs, concorda em linhas gerais com esta definição. O conceito de uma alma imortal é muito antigo. De facto, as suas raízes remontam ao princípio da história humana.

[ii] Na vida tribal dos Kiriwinianos a magia possui uma função primordial, pois as actividades económicas, a horticultura, a pequena caça, a pesca, a construção de canoas e as condições atmosféricas estão envoltas em magia.

A magia encontra-se muito difundida entre os nativos e um exemplo dessa “natureza geral” está na magia da horta que é realizada pelo towosi (mago da horta) e consiste numa série de ritos complexos bem  elaborados cada qual acompanhado de uma fórmula. Todos os ritos constituem uma estrutura onde se insere o trabalho hortícola., como diz Malinowski no seu texto de 1911: Baloma ou o espírito nas Ilhas Trobriad de Nova Guine. Texto em:  http://carinafagiani.blogspot.com/2008/04/malinowski-baloma-os-espritos-dos.html.

[iii] A partitura original ou autografa desta bagatela para piano foi presenteada, pelo compositor, a Thérèse em 24 de Abril de 1810 e esteve durante algum tempo em seu poder. A data está na partitura autografa, mas ao certo não se sabe se teria sido Beethoven quem a colocou lá ou se teriam sido outras pessoas. Portanto, é um dado discutível. Thérèse, por pensar que Beethoven não seria o seu melhor marido (pois Beethoven era muito autoritário e desorganizado), casou, mais tarde, em 1816, com o barão von Drosdick. Com o tempo, a partitura original extraviou-se. Por outro lado, também se sabe que, em 1822, Beethoven emendou o seu rascunho preliminar, guardado nos seus arquivos, para uma possível publicação e que, devido ao seu falecimento, não chegou a realizar. Ou por erro do editor (de facto, a caligrafia caótica de Beethoven foi a causa principal de muitos erros nas primeiras edições das suas obras) ou para não se saber a quem esta peça foi dirigida e oferecida, isto é, para não se dar quaisquer pistas acerca do verdadeiro nome da senhora, ou seja, de Thérèse Malfatti, o certo é que a cópia da partitura autografa ou, se quisermos, a sua publicação póstuma (realizada pela primeira vez em 1867) tinha o nome pseudónimo alemão de «Für Elise» que, em português, é «Para Elisa». É evidente que não se trata de Elisa alguma, mas, sim, de Thérèse. Tudo indica que fosse um erro do editor.

Por outro lado, também sabemos que Maria Therese Brunsvik (1775-1861), aristocrata de origem húngara, como Elisa será na Grã – Bretanha!

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