A professora que falava de sexo

A professora Josefina Rocha, da Escola EB 2,3 Sá Couto, em Espinho, será julgada, acusada de ter ofendido e humilhado duas alunas. Espero, em primeiro lugar, que a professora seja condenada ou considerada inocente, o que é tão óbvio que merece ser reafirmado. Estranhamente, para o leigo que sou, o juiz terá afirmado que os indícios apontam para “uma provável condenação da arguida.”

Depois, gostaria de vir a perceber a importância que a gravação da aula, realizada à revelia da professora, teve, efectivamente, no processo, sobretudo tendo em conta outras decisões tomadas pela justiça acerca de escutas. Será, também, importante saber que riscos poderá vir a correr qualquer professor cujas aulas possam ser gravadas sem o seu consentimento. Para quem estiver interessado em ouvir, é anunciado que poderá descarregar aqui um ficheiro mp3 com a célebre gravação.

Entretanto, considero absolutamente lamentáveis as escolhas dos títulos do Público (“Professora que falava de sexo nas aulas de História vai a julgamento“) e do Correio da Manhã (“Professora que falava de sexo vai ser julgada“). Não é preciso saber muita gramática para perceber que aquele imperfeito (“falava”) serve para transmitir a ideia de um hábito, de um acontecimento frequente. Ora, tanto quanto sei, a professora está a ser julgada por causa do que aconteceu numa aula e não por ter o hábito de falar de sexo em todas as aulas.

Finalmente, e dentro dos limites éticos da profissão docente, não sei como é possível ensinar História ou Literatura, por exemplo, sem falar de sexo, de política ou de religião, por exemplo. Se o politicamente correcto americanóide vier a impor-se, estou a ver muito professor a ser obrigado a engolir a cicuta.

Comments

  1. Kafka says:

    Falar de sexo ou não é apenas pormenor.
    Pelo que tenho lido e por alguns segundos de audição do ficheiro, o que se apura é que se trata de uma professora não professora, ie, trata-se de alguém com graves deficiências morais, intelectuais e profissionais, basta para tal estar atento ao tom e agressividade com que se dirige aos alunos. Aquilo não é um professor mas sim um inquisitor à boa maneira Medieval. Só por isso deveria ser proíbida de leccionar.

    • Fernando Nabais says:

      Para a comunicação social, o sexo não é pormenor ou não apareceria nos títulos e os títulos influenciam muito mais a opinião pública do que o texto propriamente dito.
      Não gostei de ouvir a professora na gravação, mas a justiça não pode ser feita com base em reacções. De qualquer modo, segundo julgo, a gravação não pode ser considerada em tribunal. O que interessa, verdadeiramente, é que esta professora, tal como qualquer cidadão, tenha direito a uma justiça rigorosa que a condene ou a declare inocente. Tudo o que fique aquém é, isso sim, parecido com a Inquisição.

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