Postcards from Greece #25 & #26

Uma missa ortodoxa e um dia perdido

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o dia perdido foi hoje. A missa ortodoxa também. E não há qualquer relação, entre uma coisa e outra, mesmo porque a missa ortodoxa terá sido, provavelmente, a melhor parte do meu dia (e é uma agnóstica que vos escreve o postal).

Ontem fui dar um seminário/aula ao Alexander Technological Educational Institute of Thessaloniki, na Escola de Agricultura onde trabalha a Roula. Choveu todo o dia, tal como hoje, embora não esteja frio. O seminário correu bem, com estudantes muito interessados e participativos. O instituto é ainda mais antigo que a AUTH, ou pelo menos parece, porque tem um ar mais degradado. Ou então foi por causa da chuva que fez com tudo parecesse um pouco mais desolador e triste. Refiro-me aos edifícios e ao campus em geral, não às pessoas. No fim, quase duas horas depois, os estudantes agradeceram-me e um deles, vejam bem, ofereceu-me, assim ‘out of the blue’, uma garrafa de sangria grega. Tinha experimentado e gostado e resolveu trazer-me, ainda que não me conhecesse de lado nenhum, nem nunca me tivesse visto. A φιλοξενία (filoxenía ou amizade aos estranhos, sobre a qual já escrevi noutro postal). Outro estudante disse-me, enquanto fumávamos um cigarro no hall as escadas, dentro do edifício (‘pode-se fumar aqui, sim, e em todo o lado. Na Grécia somos democratas, se queres fumar, porque é que não hás de fazê-lo?’. Pois, nada, a mim parece-me bem) que tinha feito Erasmus em Portugal, no IP de Santarém. Sabia dizer ‘bem vindos’, ‘obrigada’ e ‘de nada’. Disse-me ainda que os portugueses também têm φιλοξενία e eu concordei. Talvez não tanto como os gregos, mas sim, somos hospitaleiros que chegue e os estranhos despertam a nossa simpatia.

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Postcards from Greece #22 to #24 (Thessaloniki)

«e uma vontade de ir, correr o mundo e partir, a vida é sempre a perder…»

 

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Este é um postal (ou três, porque não tenho tido vontade de escrever ou nada de especial para contar) de Salónica, mas podia, na verdade, ser de qualquer parte, incluindo de casa onde me tem apetecido regressar bastantes vezes nos últimos dias. Em Salónica, há um bocado, leio a notícia da morte do Zé Pedro dos Xutos e Pontapés. Devo ter gostado muito de Xutos há umas boas décadas, depois passou-me como me tem passado muita coisa nestas cinco décadas de existência. Passou-me, quer dizer, continuei a gostar, mas não, por assim dizer, ativamente. Pode ser-se velho demais para gostar de Xutos ou pode-se ser velho demais para ir deixando devagar de gostar de músicas, cidades, pessoas, coisas. Não sei qual das situações é o meu caso, mas creio que também não interessa muito, até porque as duas não são sequer contraditórias. E mesmo que fossem, é disso que somos feitos.

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Postcards from Greece #21 (Thessaloniki)

«Se um dia alguém perguntar por mim…»

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ouvi hoje, passava pouco das 10 da manhã, no café ‘Os Piratas’, aqui na esquina da rua de São Nicolau com a Rua de São Demétrio. Chovia torrencialmente e mal saí de casa fui beber um café antes de apanhar o 16, por causa da chuva, para ir para a AUTH. Lá dentro estava quentinho e o café era menos mau. A senhora ao balcão estava com cara de poucos amigos e bebericava qualquer coisa. A música estava baixa e era variada. Vi um cinzeiro em frente da senhora do balcão e pedi um para a mesa. A senhora tira o vaso das flores de dentro de um potezinho verde alface, que estava a enfeitar a mesa e diz-me para por a cinza ali.

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Postcards from Greece #20 (Metéora)

Suspended between the earth and the sky

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ou, simplesmente, no meio do céu. Eis o que quer dizer Metéora, uma área formada por rochas gigantes e nuas, uma paisagem com mais de 60 milhões de anos por acção do vento e da chuva e de diversos fenómenos geológicos e, talvez seja apropriado, pelo desejo de algum deus. Uma paisagem que deve ser única no mundo. Nunca vi nada assim e creio ser difícil que volte a ver alguma coisa assim. Metéora fica na Grécia central, 237 km a sul de Salónica, quando a planície de Tessália acaba e, provavelmente, o céu começa. A área serviu de refúgio contra os invasores, serviu de lugar de oração a muitos ermitas, nas cavernas e fissuras das rochas. A partir de meados do século XIV foi construída a maior parte dos 24 mosteiros que existem até hoje, embora alguns em ruínas. Hoje apenas 6 dos mosteiros são habitados, 4 por monges e 2 por freiras*.
 

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Postcards from Greece #19 (Thessaloniki)

Πόλη / Póli/ Cidade

 

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Há uma estátua, que eu considero muito bonita, na praça Agias Sofias, chamada Cidadãos. Ou Πολίτες/ Polítes. É do escultor Manolis Tzobanaki e mostra três pessoas que lêem o mesmo jornal. A estátua homenageia os cidadãos de Salónica, uma cidade que é grega apenas há 105 anos. Antes era turca e isso nota-se muito, nos monumentos, nos mercados, nos jardins, entre outros aspectos que por serem resultado de uma observação mais subjetiva, não vou mencionar, à exceção do estilo de vida que me parece mais descontraído do que o da generalidade das outras cidades europeias que conheço. De qualquer modo, voltando à estátua dos Cidadãos, ela ergue-se mesmo em frente ao portão da igreja de Agias Sofias, ou Santa Sofia que muitos dizem ser anterior à sua homónima de Constantinopla ou Istambul, conforme preferirem. Não conheço (ainda) esta última. A de Salónica conheci-a hoje, apesar de já a ter visto ao longe muitas vezes, quando passava na Egnatia, uma das principais avenidas da cidade. Gostei da igreja, que é, aliás, património mundial da humanidade, mas confesso que preferi a estátua aos cidadãos. Agias Sofia não é muito diferente de muitas outras (e são realmente muitas outras) igrejas de Salónica e como muitas delas tem claramente um estilo bizantino e foi convertida em mesquita, depois da conquista da cidade pelos turcos. A estátua de que gosto muito apenas existe desde 1987.

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Postcards from Greece #17 & #18 (Thessaloniki)

Salónica sob o sol e φιλοξενία (filoxenía)

 

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Salónica com sol torna-se uma cidade francamente mais bonita. A começar pela paisagem das minhas janelas, que é, como já se sabe, basicamente a lindíssima igreja de São Demétrio. Quando está sol, como tem estado nos últimos dias, a torre dos sinos, que hoje por exemplo tocaram duas vezes, por coincidência e para meu prazer, enquanto eu fumava à varanda, torna-se mais bonita ainda, sobre o céu azul. Também o fórum romano parece mais interessante, e o plátano que se ergue no centro da pitoresca praça Athonos parece mais verde, apesar de conter já todas as cores do outono. A Praça Aristóteles fica mais povoada e os navios, no golfo, logo ali, parecem preparar-se para entrar pela praça adentro, como se fosse natural. E o mercado Karpani, onde fui hoje, parece explodir ainda mais em todas as cores, nas frutas, nas flores, nas especiarias, nas roupas, em tudo o que organizadamente se vende e se compra por ali.

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Postcards from Greece #16 (Thessaloniki)

Remember that the revolution is what is important, and each one of us, alone, is worth nothing’

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traduziu-me a miúda, do grego, a partir de um cartaz feito à mão por cima da banca da KNE (Juventude do KKE) no átrio de entrada da Faculdade de Agronomia da Aristotle University of Thessaloniki (AUTH). Do outro lado da banca do KKE (Partido Comunista da Grécia) estava a banca do EAAK (Movimento Independente Unido de Esquerda), um movimento que representa a união de organizações estudantis (universitárias) de esquerda. Quando hoje entrei na faculdade deparei-me com estas duas bancas, uma de cada lado cheias de cartazes. Identifiquei, naturalmente bem o KKE, mas o EAAK nem por isso e presumi que se tratava de eleições para a associação de estudantes ou coisa assim.
 

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Postcards from Greece #15 (Thessaloniki)

Hoje ouvi os sinos da igreja de São Demétrio

aqui mesmo, da sala, ali do outro lado da janela. Eram quase 6 da tarde, devia ser a hora da missa. Um dia destes vou assistir a uma missa ortodoxa. Assisti uma vez, creio que em Bucareste, a um bocadinho de uma. Mas com a igreja de São Demétrio aqui mesmo à mão, seria um pecado não assistir a uma inteira. Nos postais da Roménia, especialmente daqueles escritos de Cluj e de Bucareste, falo da estranha dança que os fiéis ortodoxos fazem diante de deus e dos santos (ou ídolos, como lhes quiserem chamar). Aqui também a fazem. Tal como também se benzem as pessoas cada vez que passam por uma igreja. Benzem-se com gestos largos e com a mão esquerda.
 
Salónica está cheia de igrejas e igrejinhas. Há praticamente uma em cada esquina. Os quase 800 000 habitantes da cidade têm, assim, se quiserem, muitos espaços onde ir dançar diante de deus. Como escrevi no postal de ontem, o padroeiro da cidade é justamente São Demétrio, o mesmo em honra do qual se ergueu esta igreja aqui defronte da janela, de que hoje ouvi tocar os sinos eram quase seis da tarde. Foi um toque solene e curto.

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Postcards from Greece #14 (Thessaloniki)

Gazing at a World Heritage

mais exatamente esta igreja, chamada de São Demétrio que se avista da minha nova casa, de todas as janelas. Na verdade o que se vê são as traseiras da enorme igreja, mas ainda assim é digno de se ver. As janelas dão para a uma praceta grande o meio da qual se ergue, então, esta igreja que é parte dos sítios classificados como Património Mundial da Humanidade.
 
A igreja que chegou aos nossos dias decorreu da reconstrução feita no século VI. A primeira igreja existente neste local foi construída no século IV, mas sucessivos incêndios foram impondo também sucessivas remodelações e alargamentos. Já a visitei por dentro e é igualmente bonita. Até acendi umas velinhas, acho que contei num outro postal, que lhe acrescentaram beleza. Pelo menos, momentaneamente, à minha vida acrescentaram, tal como acrescenta esta vista.

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Postcards from Greece #12 & #13 (Thessaloniki)

‘I don’t know if I will ever learn how to fly, but I am sure I will never crawl’

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estava escrito numa parede na rua Egiptou, na zona de Ladadika. Foi um rapaz de um bar, em frente ao grafiti e às palavras que me traduziu do grego. Aliás foi ele que me chamou a atenção para o grafiti, depois de eu ter fotografado a fachada de um bar vizinho e de reparar que ele fazia pose.Tirei-lhe uma fotografia e depois ele disse-me que devia tirarà parede e traduziu do grego para o inglês ‘não sei se alguma vez aprenderei como voar, mas de certeza que nunca rastejarei’. Gostei da frase. Bastante. Embora o rastejar me tenha recordado os meus ‘amigos’ rastejantes que alegadamente me picaram o pescoço e (descobri depois) uma orelha, o queixo e as pernas.

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Postcards from Greece #11 (Thessaloniki)

O dia em que fui mordida por…

…percevejos ou, mais fino, bed bugs… isso mesmo… não se riam…eu, a obcecada com a limpeza e ordem e ausência de bicharada, fui pela primeira vez na vida… picada ou mordida ou o raio por bed bugs.
Depois de dois dias deitada no sofá da casa, porque estava ultra constipada, hoje acordei com umas bolhas no pescoço em cluster. Lindo, como devem imaginar. Poupo-vos às fotos do meu pescoço, cheio de borbulhas nojentas.
Foi a gota de água. Se já ia mudar segunda feira de casa, depois de ser reembolsada pela airbnb, mudei-me já hoje para um hotel, depois de dizer ao dono da casa onde estive até agora que a casa tinha bed bugs e que me tinham picado. Depois de tanta treta, digamos que mais isto (ou sobretudo isto) era inaceitável.

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Postcards from Greece #10 (Thessaloniki)

Estou há dois dias fechada em casa…

porque tenho uma grande constipação. Ainda bem que trouxe os cêgripes de Portugal. Sinto-me melhor, um bocadinho pelo menos.
 
Apesar de estar há dois dias fechada em casa, quando vou ali à varanda tenho o mundo inteiro, ou quase, à minha frente. Apesar de estreita, a rua Evripidou é movimentada, frequentada por gatos e pessoas de todos os feitios e medidas, que me entretenho a observar. Já sei quem mora ali em frente e hoje uma das rapariguinhas acenou-me. Já sei que gatos se dão melhor e quais nem se podem ver e já conheço também as preferências do senhor da loja das motas aqui defronte, no que se refere aos gatos. É sobretudo ele que os alimenta.

Postcards from Greece #8 & #9 (Thessaloníki)

Aγροτική κοινωνιολογία, política e uma grande constipação

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αγροτική κοινωνιολογία, quer dizer ‘agrotikí koinoniología’, ou seja sociologia rural. Foi a Maria que é também uma ‘agrotikós koinoniológos’ ou socióloga rural, que me ensinou a escrever isto e, mais importante, a pronunciar. É certo que poderia ter ido ao google tradutor (e acabei por ir, para copiar para o postal a expressão) mas preferi que ela me ensinasse. Rural diz-se αγροτικές ou ‘agrotikés’ e parece mesmo uma língua. Que eu e a Maria falamos. Quanto ao grego, o meu é praticamente inexistente, se descontarmos os habituais kalimera, kalispera, kalinýchta, efvaristó e parakalo. Já consigo ler relativamente bem os caracteres para me orientar num sítio qualquer, mas não vou muito além disso. Ao contrário do ‘agrotikés’, o grego é mesmo uma língua difícil.

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Postcards from Greece #7 (Thessaloniki)

Os gatos de Salónica

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Nunca vi tantos gatos em toda a parte, numa cidade, como aqui em Salónica. Os gatos parecem ser omnipresentes. Bem tratados pelos residentes, como estes aqui da rua, a quem vários vizinhos colocam comida e água, são amistosos e amáveis e deixam-se acariciar. Ou pedem mesmo carícias. Gostam de pessoas, por estranho que pareça, e querem – na maior parte das vezes – apenas mimo.
 

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Postcards from Greece #6 (Thessaloniki)

‘As you are Portuguese, we have to take good care of you’…

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foi o que disse a rapariga grega trazendo um vinho do Porto à mesa da esplanada onde eu comia a melhor tarde de chocolate do mundo, acompanhada de um café cheio. A esplanada pertence ao Portogalo*, um wine bar na rua Komninon, mesmo à beira da Praça Liberdade (Plateia Eleftherias), numa das zonas mais bonitas e movimentadas da cidade. Tinha passado lá ontem à noite, debaixo de chuva, depois do jantar no Coquille e, naturalmente, achado graça ao bar/restaurante chamado Portugalo e que exibia vinhos portugueses na montra. O vinho do Porto foi oferecido. Assim, sem mais nem menos, depois de eu ter dito que era portuguesa. ‘Se é portuguesa, temos de cuidar de si’. O Porto foi oferecido com a mesma generosidade e simpatia que se encontra em praticamente qualquer grego, já o disse um destes dias. E o Porto soube bem e ficou a promessa de voltar lá para um jantar como deve ser, quando sentir saudades de Portugal.
 

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Postcards from Greece #3 to #5 (between Athens and Thessaloniki)

‘It’s illegal by the law, but not by the people’s law’

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Disse o taxista que me transportou hoje até à White Tower (ou Tower of Blood atendendo ao seu passado como prisão), depois de eu ter perdido, porque me enganei na paragem, o autocarro 50 que faz a chamada ‘cultural route’ em Salónica, numa viagem que numa hora percorre a cidade. Custa 2 euros e leva-nos perto das várias atrações turísticas. Como o perdi e o próximo era só daí a uma hora, com partida da Torre Branca, apanhei então um táxi. Os táxis na Grécia são bastante baratos, deve dizer-se que dentro da cidade uma viagem não ficará por mais de 5 euros. O taxista quis saber de onde vinha. Portugal. Repetiu Portugal com a voz mais doce e disse que tinha um amigo português. Nisto um homem aproxima-se do táxi e diz um destino que não entendi. O taxista diz que não passa por lá. Eu pergunto se é habitual na Grécia as pessoas dividirem táxis com estranhos, já que antes tinha reparado também na mesma situação. É habitual mas não legal… ou melhor, explica, o taxista, é ‘ilegal pela lei, mas é legal pela lei das pessoas’. Esclarecidos, portanto.

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Postcards from Greece #1 & #2 (Athens)

No more waiting, no more silence…

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estou na Grécia há já uns dias. Não é a primeira vez que visito a Grécia, ou melhor, alguns lugares deste país, já que seria preciso muito tempo para visitá-los todos. Mas estive em Atenas, em Santorini e em Creta em 2011. Dessa altura lembro-me, porque tive a experiência concreta em inúmeras ocasiões, da enorme simpatia e generosidade dos gregos. Lembro-me particularmente de um dia muito quente, em Atenas, em que me faltava em moedas o que me sobrava em sede. Em dois cafés onde tentei pagar a água com uma nota de cinco (ou dez, já não me lembro bem) euros, ofereceram-me garrafas de água de meio litro, porque não tinham troco. Podiam ter-me recusado a água, mas não hesitaram em oferecer-ma. Nunca me esqueci disso, porque na altura pensei que em Portugal provavelmente ter-me-iam mandado bugiar ou trocar dinheiro, o que seria o mesmo.

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A single postcard from Krakow

«Sou muito cosmopolita…

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sinto-me o mesmo desgraçado em toda a parte», escreveu Manuel Rivas, num livro de crónicas que li há uns anos. Pensei nisto hoje quando realizei que tinha tomado o pequeno almoço em São Petersburgo, o almoço em Moscovo, o lanche em Viena e o jantar em Cracóvia, onde estou neste momento. Não que me sinta desgraçada, ou sequer cosmopolita, mas a frase de Rivas veio-me à cabeça. Por muito que andemos, por muito que vamos e regressemos a casa, somos sempre os mesmos, pelo menos no modo como sentimos as coisas, no modo como olhamos para as coisas.

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From Russia, with love #12 (Saint-Petersburg)

Faço as minhas despedidas de São Petersburgo

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já que é o último dia que passarei aqui. Não sei se voltarei aqui, ou a outro lugar qualquer da Rússia. Não que ache que São Petersburgo (e Moscovo também) me tenha tratado mal. Ao contrário, achei, como já disse noutros postais, a cidade bastante amável em vários sentidos, desde as ruas, aos monumentos, às abóbadas das igrejas, até às pessoas. Também o tempo esteve generoso e amável. Choveu pouco e por pouco tempo. O que, ao que parece, não é assim tão comum.
 
Quando saí do hotel fui à praça dos teatros, ainda não tinha visto o Mariinsky. Gostaria de ter visto um ballet no teatro onde atuaram nomes importantíssimos como Rudolf Nureyev ou Mikhail Baryshnikov (este último tive o imenso prazer de o ver numa peça no Petit Palais, em Paris, em janeiro). Mas os bilhetes eram extremamente caros para os meus bolsos e, por isso, perdi provavelmente a única oportunidade de ver alguma coisa neste teatro. Também em Moscovo não fui ao Bolshoi. O preço dos bilhetes era proibitivo, mas estava também encerrado em agosto.

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From Russia, with love #11 (Saint-Petersburg)

Os gatos de São Petersburgo

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Podia concentrar-me no cruzador Aurora ou na Fortaleza de Pedro e Paulo, mas acho que prefiro falar sobretudo dos gatos de São Petersburgo. Talvez esteja já cansada de ver coisas que devem ser vistas, quero dizer, coisas que deveria ver sem falta uma vez em São Petersburgo e, por isso, talvez prefira concentrar-me naquilo que há em toda a parte: os gatos, os pardais, as pessoas e o vento.
 
Apanhei hoje, já não era cedo, o autocarro número 1 na avenida Nevsky. Atravesso a ponte Devortsoviy para a ilha de Vasileostrovsky e depois de contornada a Birzhevaya, a ponte Birzhevoy para Petrogradsky. Saio no cruzamento da rua Pushkarskaya com a rua Lenin e um bocadinho à frente apanho o pequeno autocarro K30 para perto da ponte Sampsonievskiy. O meu destino é o cruzador Aurora, ancorado na Petrogradskaya. O barco do século XIX que faz parte do património histórico da cidade. Participou em algumas guerras, mas ficou famoso por ter lançado o tiro de canhão que foi a senha para que os bolcheviques invadissem o Palácio de Inverno (que integra o Hermitage, ver postal de ontem), antiga moradia do Czar Nicolau II. O Aurora foi um dos maiores símbolos da URSS. Hoje é um museu.

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From Russia, with love #10 (Saint-Petersburg)

… a battle field that only needs a name*

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Encontrei Anselm Kiefer hoje no Hermitage, no Palácio de Inverno e foi um encontro inesperado, já que não havia lido nada sobre as exposições. Mal subi as escadas de Jordan, cheias de dourados a reluzir e de pessoas, fui ter à sala 197 e dou com a exposição de Kiefer ‘For Velimir Khlebnikov’. Fiquei tão contente que me pus quase a dançar no meio das salas, 3, cheias de quadros enormes, lindos. De quadros em que apetece mergulhar, como sempre digo. Kiefer criou estes 30 quadros em homenagem ao poeta futurista Khlebnikov. Não costumo colocar fotografias de quadros nos postais ou onde quer que seja. Os quadros são para serem vistos ao vivo e não assim, mas hoje abro uma exceção. Afinal, este encontro inesperado merece ser registado.

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From Russia, with love #9 (Saint-Petersburg)

São Petersburgo é o lugar menos turístico do mundo,

se apanharmos, na Admiralteyskiy, o autocarro número 10 para Troitskiy pr. É aqui que fica, no cruzamento com o Izmailovskiy pr. a catedral da Trindade. A mesma que vi ontem do alto da ‘colonnade’ da Catedral de Santo Isaac, com as enormes cúpulas azuis, com estrelas douradas a destacarem-se belíssimas no horizonte. Quando saí quase em fren

 

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te da igreja, despertou-me a atenção a enorme coluna com um anjo em cima, rodeada de canhões. Parece que é uma homenagem aos soldados russos. Atrás dela a Catedral da Trindade, linda e branca, com as suas enormes cúpulas azuis e douradas. Fotografo as cúpulas de vários ângulos. Depois entro. Há senhoras a pedir à entrada da igreja. Não se vê um turista nas redondezas. A não ser eu.

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Fom Russia, with love #8 (Saint-Petersburg)

‘What’s left when everything’s gone?’

 

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Suponho que as memórias. O registo dos momentos que inexoravelmente se transformam em passado. O que é que temos a não ser esses momentos? O que é que fica quando tudo acaba, ou se vai embora, ou deixa de ser?
Hoje visitei um museu extraordinário e tive uma experiência fora do comum. O museu chama-se Erarta*, descobri-o quando pesquisei ‘museus de arte contemporânea em São Petersburgo’. Fica na ‘ilha’ Vasileostrovsky, do lado de lá do Neva, a 5,3 quilómetros do sítio onde me encontro. Apanhei o trolley nº 10 (mas também podia ser o 11 ou o 7) e lá fui eu. Em cerca de 20 minutos e por 40 rublos parei quase à porta deste belíssimo museu, o maior de arte contemporânea da Rússia.

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From Russia, with love #7 (Saint-Petersburg)

É outono em São Petersburgo e um gato apanha uma réstia de sol numa janela do Museu Russo

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Em muitas cidades tenho encontrado gatos nos museus. Gatos vivos, quero dizer, embora também alguns pintados. Estava um gato no beiral de uma janela do Museu Russo, a apanhar restos de sol, que chegaram depois da chuva torrencial. O gato estava seco, no entanto. Bati no vidro para lhe chamar a atenção, mas ignorou-me absolutamente, como se não houvesse mais nada entre ele e os raiozinhos tímidos de sol. E talvez não haja.

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From Russia, with love #6 (Moscow – Saint-Petersburg)

Cheguei a Leninegrado,

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ou Petrogrado ou São Petersburgo, como lhe queiram chamar. Eram cinco e meia da tarde quando o Sapsan, ou ‘falcão peregrino’ parou na estação Moscovo. Mal saio da estação, onde contei com a boa vontade de estranhos, como sempre, para descer as escadas com as malas, vejo um reclame no alto de um prédio: город горой Ленинрадюю. Qualquer coisa como ‘cidade heroica Leninegrado’. Pareceu-me um bom prenúncio.
 

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From Russia, with love #5 (Moscow)

‘Yo soy comunista’…

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disse-me um senhor basco que encontrei junto à estátua de Marx, esta tarde, pondo-me a mão sobre o ombro, erguendo o punho esquerdo e começando a cantar, em castelhano, a Internacional. Tive de lhe dizer que se erguia o punho direito, ‘mas em Espanha, erguemos o esquerdo’, e fez-me a vontade. Ergui eu também o punho, e fui cantando em português. A filha, uma miúda anarquista, segundo o pai, tirava fotografias e ria-se. Eu também me ri, como é evidente. Coisa mais inusitada, cantar em ‘portunhol’ a Internacional, diante da estátua de Karl Marx, ali ao lado da Praça Revolução, em Moscovo, às 5 da tarde.

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From Russia, with love #4 (Moscow)

 Visitei hoje o Camarada Lenine…

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… e encontrei-o com bom aspeto e boas cores, sobretudo para quem está morto há 93 longos anos. O Camarada Lenine repousa num feíssimo, escuro e frio mausoléu no centro da Praça Vermelha. Quero dizer, aquilo que resta do Camarada Lenine, praticamente pele e ossos, repousa no mausoléu bem no centro da Praça Vermelha. Não tem sangue, nem cérebro, nem vísceras, mas suponho que não lhe façam falta nenhuma, assim como assim. De 18 em 18 meses o corpo é retirado do mausoléu e submetido a diversas operações de conservação*. Li algures que lhe limpam e passam o fato também nessa altura e que de três em três anos lhe compram um novo. Parece que custa muito dinheiro à Federação Russa manter o corpo de Lenine.

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From Russia, with love #3 (Moscow)

Dos heróis caídos…

 

 

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assim chamam à parte do Parque-Museu das Artes, que ocupa a parte norte do Parque Gorki. Há quem lhe chame parque, mas a maior parte das pessoas refere-se-lhe como ‘cemitério dos monumentos caídos. Além de uma impressionante coleção de estátuas, nem todas dos heróis soviéticos derrubados, esta parte do grande espaço verde que é o parque Gorki, é ocupada pela Moderna Galeria Tretyakov e também pela casa dos artistas.
Antes de ir visitar o parque, fui à galeria Tetryakov, a antiga, ou a clássica, como quiserem que apresenta uma coleção magnífica de quadros de pintores russos do século 11 ao início do século 21. Se me conhecem sabem que sou pouco apreciadora de arte que não a moderna e contemporânea, mas lá fui. Acordei tarde e achei que era um bom plano. Perdi o pequeno almoço no hotel e era meio dia e meia quando bebi um sumo de laranja e um croissant e um expresso, no café da esquina. Depois, tendo aprendido a lição breve que um rapaz me deu sobre os anéis de Moscovo e as linhas de autocarro, assim como a das imensas e rapidíssimas escadas rolantes do metro de Moscovo (de que tenciono afastar-me),apenhei o M5 para Tretyakovskaya.

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From Russia, with love #2 (Moscow)

‘May God be always with you’…

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… foi o que me disse a senhora, abraçando-me suavemente para minha surpresa, à entrada da praça vermelha, junto ao ‘quilómetro zero’, o ponto a partir do qual se medem todas as distâncias desde Moscovo. Estava a admirar o que faziam as pessoas no ‘quilómetro zero’. Basicamente colocavam-se no centro e atiravam uma moeda para trás das costas. Perguntei ao rapazinho que estava ao meu lado o que era aquilo, que significava. Ele disse que não falava bem inglês, mas percebi perfeitamente quando me explicou que era o ‘quiómetro zero’. A conversa continuou de uma forma estapafúrdia. Ele falava sobretudo em russo, tal como a mãe, e eu em inglês. Seja como for entendemos-nos e eu percebi que as pessoas faziam aquilo para dar sorte.

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From Russia, with love #1 (Moscow)

‘Good luck’ disse-me o homem, enquanto fechava a porta do táxi

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… entendi aquilo como uma ameaça qualquer, não sei explicar porquê. Talvez fosse apenas por serem duas da manhã em Moscovo, mais uma que em Cracóvia, de onde chegava e mais duas que em Portugal de onde saí há sete dias. Talvez fosse apenas porque estava muito cansada de levantar voo e aterrar e esperar em aeroportos horas infinitas por aviões atrasados. Talvez fosse porque, mal aterrei, me propuseram um táxi para a cidade ao preço de 5000 rublos (75 euros) e ainda talvez fosse porque ninguém falava inglês convenientemente, mesmo no aeroporto. Talvez fosse também porque, quando saí do aeroporto, depois de ter encontrado uma companhia de táxis que me pediu 1700 rublos (25 ou 26 euros), chovia.
 
Tive de esperar, com outras pessoas, debaixo de uma chuva ainda miudinha, mas que haveria de se tornar mais copiosa, pelo táxi que demorou uns bons minutos a aparecer. O rapaz da companhia deu o endereço ao rapaz do táxi que pareceu (talvez fosse de tudo o que descrevi acima) não saber onde era. Eram duas e qualquer coisa da manhã e o aparente desnorte do condutor preocupou-me. O rapaz da companhia fecha-me a porta do táxi e atira-me ‘good luck and enjoy the streets of Moscow’. Podia ter achado simpático – provavelmente foi – mas achei apenas ameaçador.

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