Postcards from Canada #3
Postcards from Canada #2
More than enough
Postcards from Canada #1
A room with a view on the 11th floor, in downtown Toronto
Cheguei ao Canadá há cerca de 3 horas e ainda vi pouco ou nada e fotografei menos ainda. Estou a pé há 18 horas, viajei não sei quantas mais, fumei poucos cigarros, perdi 5 horas a caminho, conheci uma açoreana – agora cidadã do Canadá – que me ajudou muito a passar o longo voo até aqui e a esquecer a nicotina, entre frases semeadas de inglês e pastilhas elásticas de morango… e a quem não perguntei sequer o nome (nem ela a mim, diga-se).
#esefosseeu ?
Se calhar, não tenho bem a certeza, porque percebo bem a dificuldade que é sairmos de nós mesmos, esta campanha da RTP – #esefosseeu -até era bem intencionada. Isso mesmo, se calhar tinha apenas a intenção de convidar as pessoas para esse exercício difícil que é colocar-se no ‘lugar do outro’ e chamar a atenção para a questão dos refugiados.
Ao ver este vídeo (e outros, como por exemplo o do Sérgio Godinho, o do Nuno Markl, o do Marcelo Rebelo de Sousa, mas sobretudo este da Joana Vasconcelos) percebemos quão difícil é esse exercício, quão difícil é sair da superficialidade com que atulhamos o quotidiano, quão difícil é imaginar que, de repente, temos de sair de casa e levar apenas o essencial. É um bocado deprimente pensar que o essencial da Joana (como o de muitos outros ‘entrevistados’) é absolutamente acessório e fútil. As ‘jóias’ diz a Joana, como se atravessar o mar, as fronteiras, deixar para trás uma vida inteira em nome do grande desconhecido, enfrentar processos absolutamente desumanos e injustos, numa situação de extraordinária vulnerabilidade, fosse o mesmo que ir a um jantar dançante ou a uma soirée no Palácio da Ajuda.
#esefosseeu até podia ter sido (se calhar em alguns sítios foi) uma boa campanha de sensibilização. Com estes exemplos, é só mais uma palhaçada.
Já agora #esefosseeu, eu mesma, quero dizer, levava-me a mim. O resto talvez se encontrasse depois. Não é o que se leva que importa, mas o que se encontra. E o que muitos dos refugiados encontram é a desumanidade e a humilhação. A espera interminável pelo futuro. E algumas vezes, como sabemos, o regresso ao sítio de onde fugiram.
O resto são futilidades.
«Science: it’s a girl thing!»… será mesmo?*
Em 2012 a União Europeia lançou uma campanha de três anos com o título ‘Science: it’s a girl thing!’**. Só a circunstância de existir uma campanha específica que pretendia demonstrar que o trabalho científico pode ser, e é, também realizado no feminino, demonstra que estamos longe, neste domínio como em muitos outros, tanto na esfera profissional como na esfera pessoal, da igualdade de oportunidades, consagrada na legislação de muitos países, incluindo Portugal. De facto, em 2012, as mulheres representavam 46% dos doutorados na União Europeia. No entanto, apenas 33% das mulheres trabalhavam como investigadoras e só 20% se encontravam em cargos de topo da carreira académica. Apenas uma em cada 10 universidades da União Europeia tinha tido alguma vez uma mulher como reitora. Ou seja, apesar de as mulheres serem tão qualificadas como os homens elas continuavam (e continuam, três anos passados) a estar amplamente sub-representadas na investigação, na academia e muito particularmente nos lugares de topo das carreiras académicas e nos órgãos de poder e decisão das instituições de investigação e ensino superior. [Read more…]
Postal de Wageningen #3
Os aeroportos são os sítios mais estranhos do mundo
disseste-me muitas vezes que não voavas. deslocares-te era uma maçada, até há relativamente pouco tempo. sei que nos últimos tempos mudaste um bocadinho nisso. ainda assim, não voavas. uma vez pensei em ir à islândia e falei-te vagamente nisso. disseste que era um sítio onde gostarias de ir. desafiei-te. que não elisa. que disparate. não se leva areia para a praia. disseste. e o assunto ficou por ali. ainda não fui à islândia e olha talvez nunca lá vá.
não sei porquê, lembrei-me disto no aeroporto de schiphol. O avião estava atrasado. temos que ocupar o tempo. lembrei-me disto. não se leva areia para a praia. disseste. mas eu já não era areia. e nunca passei de um grão.
é estranho pensar em areia e praia e na islândia no aeroporto de schiphol. os aeroportos são, quase sempre, os lugares mais estranhos do mundo. sempre preferi estações de comboios. acho que tu, tenho a certeza que tu, que não voavas, também.
os aeroportos são lugares estranhos, simultaneamente cheios de gente tão diferente, carregando as suas próprias dores e malas, tão cheios de humanas coisas e tão artificiais.
gosto de olhar para as pessoas nos aeroportos (como em quase toda a parte) e encho-me de humanidade, apesar de tudo. grãos de areia. na verdade. não reparei se algum voo saía à mesma hora para a islândia. mas pensei grãos de areia. pensei até que agora mesmo carrego grãos de areia para uma praia aparentemente nova. há qualquer coisa de estranho num gajo começar a apaixonar-se quando um amigo tão grande começa e acaba de morrer. tão estranho como os aeroportos. se calhar não passa também de um artifício. há merdas destas.
estou agora na minha varanda a fumar, a mesma onde fumámos tantas vezes juntos, e a pensar nos grãos de areia que ando a transportar. às vezes magoam-me. nunca tive jeito para isto, como sabes. há estrelas no céu aqui na varanda. a porra do céu está cheia do brilho das estrelas mortas. não se leva areia para a praia. e sabes? não se deviam levar mais estrelas para este céu.
Postal de Wageningen #2
não quero que te preocupes
uma vez disseste-me que se tivesses uma memória como a minha suicidavas-te. parei o copo de cerveja, mesmo antes dos lábios. era aveiro. era noite. o verão despedia-se e nós conheciamos-nos pouco a pouco, a um ritmo intermitente que combinava a minha impulsividade com o teu mau feitio. entre outras coisas, incluindo os tais desencontros de horários. éramos ambos, por razões diferentes, uma trapalhada ambulante. tínhamos bagagens muito pesadas que arrastávamos para todo o lado e só raramente largavámos das mãos e dos olhos. disseste aquilo muito seguro do que acabavas de dizer, mas como se não te lembrasses do peso do que acabavas de dizer. eu não disse nada, o copo suspenso antes da boca mas pensei que parvo. dizer-me esta merda a mim e sacudi a cabeça e bebi finalmente.
mas foi evidente que tinhas razão. uma memória enorme, a minha e pesada como o raio, que não me larga as mãos e os olhos. uma memória brutal. no entanto, ainda não me matei e tenho, sinceramente como sempre tive, dúvidas que alguma vez me suicide. dava trabalho e, na verdade, agora que morreste, restam poucas pessoas de quem goste o suficiente para lhes deixar as malas. suponho que me entendas. passaram muitas estações e acabámos por nos conhecer tanto quanto podem as pessoas conhecer-se. já sei, é sempre quase nada.
Postal de Wageningen #1
as coisas ficaram sem ordem, pensei eu por cima das nuvens
escrevi-te um livro inteiro dentro do avião. os olhos fechados. e tu a falares para dentro de ti mesmo, como sempre fazias para minha irritação. escrevi um livro inteiro sobre ti. acho que fomos tudo o que duas pessoas podem ser uma com a outra. menos inimigos. isso nunca. continuo a achar que és um tipo estranho como na primeira vez em que te vi no café da praça onde desemboca a rua onde moravas. gostava de poder ser capaz de escrever realmente esse livro que escrevi hoje dentro da minha cabeça, por cima das nuvens, sem ordem nenhuma. gostava de estar outra vez contigo, em silêncio, no sofá da minha sala, cada um deitado para uma ponta. em silêncio. até que dizias qualquer coisa devagar. e eu nada dizia. depois dizia eu outra coisa qualquer. e é verdade que passámos muito tempo assim. os silêncios largos. [Read more…]
adeus, João. dorme, meu menino.
o ‘nosso’ Tózé, levou duas flores, João. a branca era dele, a amarela era minha. não havia girassóis, mas esta gerbera amarela que o António levou por mim, porque eras ‘nosso’ é muito melhor que todos os campos de girassóis do mundo. não digo mais nada. obrigada só. e a certeza destas redes de ternura.
(a foto é do Paulo Abrantes. as mãos do ‘nosso Tózé’. o amor, de todos)
deixa-me ser lamechas mais um bocadinho…. tem paciência…. a luz apagou-se nas janelas e eu ‘meto-me para dentro e fecho-as e dou-te as boas noites. para sempre. dorme, meu menino.
uma vez escreveste-me um poema e o que é um deserto?
uma vez escreveste-me um poema. não foi só uma vez. mas dessa vez. escreveste-me um poema. éramos, dizias, entre outras coisas, um desencontro de horários. o que era, ainda é, hoje mais que nunca, absolutamente verdade. mas nesse desencontro de horários que nós fomos, encontrámos sempre o tempo para nos encontrarmos. naquilo que importa. entendeste-me como, acho, até hoje e depois de uma certa morte, mais do que qualquer outra pessoa. sabias quem eu era. sabias. e eu sabia quem tu eras. nunca andámos longe, apesar dos horários. estive muitas vezes contigo, ao longo desta década e meia, desde que nos encontrámos, num horário coincidente, às vezes acontecia, tinha acabado de me acontecer uma coisa que só voltou a acontecer-me agora, contigo. ainda guardo o papelinho onde desenhaste o desencontro, num livrinho que anda sempre comigo. entre outros papeis e desenhos e pétalas e um monte de coisas, joão, com que me fui sempre agarrando à vida. andávamos sempre a dever jantares um ao outro. que pagámos sempre. acho que era a tua vez agora. disseste-me isso, a última vez que falámos ao telefone. mas eu deixo que não me pagues esse jantar. contrariada. mas deixo. será apenas mais um desencontro de horários. a última vez que estivemos juntos, fisicamente, foi dentro de um comboio. menos de uma hora, eu saí em aveiro e tu continuaste até coimbra. menos de uma hora e tu contaste-me coisas que me contavas só a mim e que eu, hoje e antes, guardei sempre. às vezes zangavas-te comigo, porque eu dizia coisas sem pensar. há uns tempos escreveste a ralhar-me. mas eu não me importei. importei e andei a chatear-te para que me desculpasses. sei que tinhas razão. e sei que foi um segundo até dizeres que sou tua amiga. um segundo a sério até dizeres que sou a tua amiga. a quem contavas as coisas. leio por aí que tinhas mau feitio. sei que é verdade. embora comigo, mesmo quando nos zangávamos, tenhas sido sempre ternura. uma vez escreveste-me um poema. não foi só dessa vez. mas dessa vez escreveste-me um poema. éramos, dizias, um desencontro de horários. mas as horas foram sempre certas, menos esta. os copos, os risos, as conversas, os jantares que nos devíamos sempre mutuamente, os ralhetes, as escadas da tua casa, as escadas do quebra costas, a minha varanda, os abraços, as confidências, o sermos – e sabermos isso um do outro – profundamente parvos. as horas foram sempre certas. somos um desencontro de horários. e desta vez é a sério. merda. e não há poesia bastante que apague este desencontro. nem a que (me) escrevias. nem aquele poema que não escreveste para mim, mas que eu adorava. o que é um deserto?
‘O mar ainda acredita nas ondas as areias
desdenham-nas. Amo-te: não diz o homem à
mulher. Acredito, não responde a mulher ao
homem. O mar fica rodeado de maçãs e pergunta:
o que é um deserto?
(João José Cardoso, ‘o que é um deserto?’)
A palavra morte, João, é só uma palavra…
…e foste tu que me disseste há um tempo largo. e havia música. e a palavra morte, João, nunca existiu. é só ir embora por um bocado maior do que o costume.
Postal para ti, João
Foi-se embora o meu Amigo e eu estou sozinha sem ele. Sozinha daquela solidão desamparada e infinita que vem da falta que inesperadamente nos faz o abraço. Até a pele. As noites sem dormir a conversar há muito tempo. Foi-se embora o meu amigo e eu nao sou capaz de acreditar que uma das pessoas que mais me conhecia os cantos nunca mais vai abraçar-me, ralhar comigo, cantar longamente cantar… Casar os livros dele com os meus. Respirar o mesmo ar. Até a pele. Quem vai agora dizer-me foda-se Elisa és sempre a mesma coisa? Quem vai agora dizer-me que as gajas inteligentes são mesmo muito estúpidas? Quem vai agora dizer-me que a minha memória é a de um suicida? Quem vai agora contar-me as notícias boas? Quem vai agora dizer-me que gostas daquela porque, vê la tu, escreve melhor que eu? Quem vai agora pedir-me que traduza poemas e cenas? Quem vai agora ler-me O Amor em Visita? Quem vai agora amar-me de uma certa maneira, amar-me como se amam os que se reconhecem? Foi-se embora o meu amigo e eu não sei se não lhe diga foda-se João ainda tinha coisas para te dizer. Uma agora mesmo. Ou nao sei se me ponha a chorar. Gosto muito de ti João. Acho que te disse muitas vezes. E estás em mim como a flor na ideia e o livro no espaço triste.
(Ao João José Cardoso, que se precipitou claramente)
(O texto tem frases de O Amor em Visita, de Herberto Helder. Eu e o João sabemos porquê)
Escândalo! (ou do inadmissível… ou ainda dessa ‘integração’ chamada Praxe)
Este papelinho foi posto a circular no ‘campus’ da Universidade de Aveiro onde, como alguns saberão, tenho o enorme gosto de desenvolver as minhas atividades profissionais de docência e investigação.
Este papelinho ilustra muito bem o que são a praxe e os ‘valores’ dos praxistas, assim como a sua elevada noção de “justiça” e de “integração”.
Os autores do papelinho usam como título a palavra ‘Escândalo’. Eu considero que é um escândalo, sim, mas não pelas razões que o papelinho expõe. O escândalo reside, entre outras coisas, no facto de alguém por isto a circular dentro do ‘campus’ universitário, utilizando o símbolo institucional da Universidade de Aveiro (de forma absolutamente indevida). O escândalo reforçar-se-á se esta instituição não responsabilizar e punir disciplinarmente estes ‘justiceiros’ do ridículo, para dizer o mínimo*. O escândalo reside ainda na promoção da discriminação de alguém com base na sua orientação sexual e nas suas escolhas pessoais. O escândalo reside na ofensa que este papelinho representa para todos os membros da comunidade académica, eu incluída.
Cartoline de Roma #5
Questa cartolina è dedicata ai miei genitori
ou seja, este postal é dedicado aos meus pais. Duvido que alguma vez o leiam. E não vou exatamente escrever sobre eles ou para eles. Mas hoje vi, com o Stefano (finalmente, depois de tantos adiamentos) um filme. Um documentário melhor dizendo, chamado exatamente ‘Genitori’** e aquilo que é relatado (de uma bela forma, diga-se desde já, muito sociológica e objetiva, sem cair na lamechice fácil) são as histórias dos pais que têm filhos ‘diferentes’. Deveria dizer, muito mais adequadamente, das mães. São elas as protagonistas. Também há homens, mas muito poucos. As ‘cuidadoras’, já o sabemos e há muitos estudos sociológicos que nos mostram isso, são as mulheres. O documentário ‘Genitori’ é de Alberto Fasulo e foi apresentado fora de competição no Festival de Locarno deste ano. Por estes dias (de 15 a 22 de setembro) Roma enche-se com os filmes (em várias salas da cidade) dos Festivais de Veneza e Locarno. Tenho pena de não poder ficar aqui mais tempo, para aproveitar esta coisa maravilhosa. Sei que a maior parte (quase todos) os filmes aqui apresentados jamais estrearão em Portugal (e quando digo Portugal, estou a dizer Lisboa, bem entendido).
Mas voltando aos pais com filhos ‘diferentes’ e ao filme-documentário e aos meus próprios pais. Não é que eu seja muito ‘diferente’, mas nasci um bocadinho ‘diferente’ e há 48 anos, em Portugal, dentro da longa noite que vivíamos, isso era motivo suficiente para que os meus pais tivessem sofrido bastante com a minha ‘diferença’. No entanto, tal como muitos pais que aparecem em ‘Genitori’, os meus pais foram fortes e andaram sempre para a frente, fazendo o que podia ser feito e o que não podia ser feito, empurrando-me sempre também para a frente. Muita da minha independência e alguma da minha ‘força’ vem deles e desse modo como souberam sempre (mesmo se nem sempre de forma muito consciente, lidar com a essa minha, mesmo se pequena, ‘diferença’. Os pais e as mães do documentário narram as suas histórias e dificuldades. Os seus receios. A sua dor. Por duas ou três vezes estive ali à beira das lágrimas. Acho que o Stefano não notou. Mas tive um nó na garganta. Não sei se há amor maior no mundo do que o dos pais pelos seus filhos. Eu não tenho filhos. Mas conheço o amor dos meus pais.
Cartoline di Roma #4
‘Roma è un tesoro e noi siamo tutti capitani’***
Este postal é mais curto que os anteriores. Levantei-me às sete e meia, depois de ter dormido quatro horas e já são três da manhã. Apesar de ter acordado muito cedo, chego à Faculdade de Economia de Roma Tre um bocadinho depois das nove. Pouquíssima gente na sessão que será a última do meu grupo de trabalho. Estou ainda meia a dormir, apesar do duplo espresso que tomei. Quando acabamos, vamos (eu e o A.) beber mais café. O Diogo também chegou entretanto e ficamos na conversa. Peço ao primeiro que conte ao segundo a sua história hilariante com um monge budista de visita a Florença. A mesma primeira estória que me contou em Wageningen, tínhamos acabado de nos conhecer. Em 2007. Rimos-nos muito, outra vez, a estória é realmente hilariante, pode ser que um dia conte… e chega a hora de voltarmos, eu para uma sessão sobre vendedores de rua (street food, vá), porque me apetece, o Diogo já não sei para que grupo e o A. para casa, em Florença.
Toda a gente sabe que as despedidas me enervam. Mas algumas deixam um vazio tão imenso, um buraco tão fundo, que não sei o que fazer. O A. abraça-me. Diz-me coisas que só eu devo ouvir e saber. E eu fico triste enquanto o deixo para trás, na cadeira, à espera do amigo que o há-de levar a Termini. E entro triste na sala da sessão sobre street food. Há casos de NYC, França, Chad. Gosto especialmente do último. E do senhor que o apresenta. Ou é do vazio que sinto ainda ou é do esforço notável que o senhor faz para falar inglês, mas só me apetece agradecer-lhe. Almoço com o Diogo e quase no fim aparecem duas mulheres e uma delas, loira e de olhos azuis pergunta-me ‘are you Mrs. Figoeredo?’ ou qualquer coisa do género. Respondo que sou eu sim, mais i menos e, mais u, menos o. E ela diz que irá à conferência de Aveiro daqui a duas semanas e apresenta-se. Reconheço o nome, da lista de participantes. É grega. São as duas gregas, aliás. Ficamos para ali a conversar. Elas conhecem os outros gregos de quem tanto gosto. E, na verdade, gosto delas também, assim de repente.
Cartoline di Roma #3
‘Tutta la merda dell’universo succede a me’, murmurou ele…
Hoje não tenho muitas fotografias. Há pouco que fotografar num congresso e mesmo que fotografe os colegas não vou, ainda que às vezes o faça, publicar aqui as fotografias… não vão eles aborrecer-se comigo.
O dia começa cedo. Mas assim mesmo eu e o Diogo não vamos à Sessão de Abertura. Chegamos a tempo da primeira Sessão Plenária, depois de apanharmos o metro na Piazza Bologna, em direção a Laurentina e de sairmos na estação da Basilica de S. Paolo e caminharmos uns bons 15 minutos até à Faculdade de Economia da Universidade de Roma Tre. A sala da sessão está bastante composta e vejo algumas caras conhecidas. No entanto, este congresso não é exatamente a minha ‘praia’, por assim dizer, já que é sobre agricultura e eu percebo pouco de agricultura propriamente dita. Mas o G. um dos organizadores convidou-me a mim e ao A. para fazermos um Grupo de Trabalho sobre Turismo e Agricultura. Aceitámos. Recebemos propostas de comunicação em número mais que suficiente e, portanto, aqui estou eu. O A. há-de chegar apenas depois de almoço, mas ainda a tempo da primeira sessão do dito grupo de trabalho.
Cartoline di Roma #2
La pioggia su Roma ed essere a metà strada*
Não é preciso dizer-vos que perdi o pequeno almoço. Já é um clássico, onde quer que vá. Levantei-me ja passava das 11h. Dormi pouco e mal. tomo banho e visto-me e saio para a rua rapidamente. A Piazza Bologna está praticamente deserta. Está calor como ontem, mas o céu anuncia que a chuva virá. Lembro-me que não trouxe chapéu de chuva. Mas penso que tanto faz e que se for preciso compro um algures. Antes tinha visto uma mensagem no facebook do Stefano que me dizia bom dia e que ia fazer isto e aquilo e que talvez por volta das nove estivesse livre. Respondo-lhe que então, falaremos depois. No bar da esquina, aqui mesmo em frente ao hotel, bebo um sumo de laranja, um espresso e como um croissant com doce. Desço as escadas do metropolitano. O jardim está deserto, mas alguém deixou uma garrafa em cima da fonte com uma rosa vermelha. Considero aquilo um bom sinal. Não sei que sinal, nem sei por que o considero bom. Mas desço as escadas a pensar em coisas boas.
Tomo o metro em direção a Termini, claro. Aqui tomo outro para a Piazza de Spagna. Não tenho um plano bem definido para hoje. Não tenho um plano, ponto. Mas há lugares onde quero regressar. Não ao Vaticano, seguramente. Uma vez é suficiente. E já o visitei antes. Não é sítio onde queira voltar. Demasiada pompa e demasiado embaraço diante de tanta ostentação. Lembro-me que quando visitei o Vaticano estava um calor abrasador e desagradável. Lembro-me que dentro da Capela Sistina nos trataram como se fossemos gado, sempre a mandar-nos avançar. Não, o Vaticano não é definitivamente, um lugar a que queira regressar. Uma vez na vida creio que será suficiente. Tão pouco penso em regressar ao Coliseu. Ainda ontem lá passei à noite. Está no mesmo sítio e deve continuar bonito como dele me recordo. Mas não está nos meus planos hoje ficar em filas infindáveis para ver o que já foi visto. No entanto, há lugares onde gostaria de regressar e é esse o meu plano, dentro do plano que, afinal, não tenho.
Cartoline di Roma #1
‘Il passato è un fiume’ o ‘Giuro che me sembrava francese’
Voltar a Roma depois de sete anos (embora entretanto aqui tenha passado de comboio para outras paragens algumas vezes, sem, no entanto, parar) é regressar a um sítio muito familiar. Voltar a Itália depois de dois anos é, definitivamente, regressar a uma casa que é nossa, mesmo se a visitamos apenas de vez em quando. Uma casa onde se conhecem os cantos, mesmo no escuro. Onde nos movemos bem, mesmo de olhos fechados. Uma casa que se entende, mesmo sem acender a luz.
Saio de Lisboa quase às 3 da tarde. Estou com os meus pais apenas umas horas, algumas das quais passamos a dormir. Decidem ambos ir levar-me ao aeroporto, apesar da minha insistência em contrário. Apanho um táxi, repito, para não dar trabalho. Mas o meu pai, apesar dos seus 77 anos, é um homem que não se deixa vencer assim tão facilmente. Se já consegui que não me vá buscar à estação ou ao aeroporto quando chego de noite, não consegui ainda (e espero que o não consiga por mais alguns – muitos – anos fazê-lo desistir do prazer que tem em ir buscar e levar as filhas (faz o mesmo com a minha irmã) a qualquer lado. Às vezes, quando não trago – como agora – o carro para Lisboa, leva-me ao cinema ou onde for preciso, mesmo que eu lhe diga que não é necessário, que vou de transportes públicos. É também o meu pai quem frequentemente se levanta, seja que horas for, mesmo muito de madrugada, para me fazer o pequeno almoço muitas vezes que estou em Lisboa de passagem para algum lugar. É também o meu pai que me faz o café depois das refeições, mesmo que eu lhe diga que não se levante. Há estes rituais de mimo de que gosto tanto e que quero aproveitar sempre, muito e por mais tempo.
Cartolina prima di tornare in Italia
Ora vado e non so se torno
Esta fotografia foi tirada há muitos anos – sete – em Roma. Piazza Navona, creio. Sete anos não são quase nada e, no entanto, podem ser tanto, na verdade. Em 2008 eu era feliz em Roma. Como sempre fui, aliás, feliz, em Itália (ou deverei dizer em toda a parte onde estive e estou). Não daquela felicidade absoluta e inquestionável, mas daquela que vem de um bem-estar quase permanente. Suponho que seja uma maneira de ser. E sei que a fui aprendendo, com o tempo, muito antes desta fotografia, muito antes de muitas coisas importantes que me aconteceram por viver e estar viva. Não é exatamente a mesma coisa, creio que sabem isso tão bem como eu o sei.
Postal já não sei de onde
Please proceed to departure gates
Este postal não tem fotografias. Porque apenas tirei duas hoje, uma delas selfie, enquanto fumava no aeroporto de Heathrow. Afinal este postal tem duas fotografias. Acordei um bocadinho depois das oito em Edimburgo. São quatro da manhã e estou praticamente a dormir, no sofá de minha casa, sentindo uma espécie de vazio, que o sono, de certeza, apagará. O voo de Edimburgo para Londres atrasou-se uma hora. O aeroporto de Edinburgo é muito organizado e moderno. Pela primeira vez entrei numa máquina que me fez um ‘body scan’. Não sei o que encontrou, se pode radiografar o princípio do vazio que sinto agora dentro. Seja como for, deixaram-me seguir para as portas de embarque. Estamos sempre a partir de qualquer lado, a atravessar portas, pessoas, dimensões e a derrubar barreiras, quando viajamos.
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Postcards from Scotland #12 (Edinburgh)
‘Wanna be lonely with me?’* or ‘There will be no miracles here’**
Edimburgo é agora a cidade mais bonita do mundo. Agora que mal a conheci e me despeço já dela. Edimburgo tem recantos que me comovem e se acontecer que me perguntem a razão, na verdade não saberei dizer porquê. Mas Edimburgo só é a cidade mais bonita do mundo quando consigo abstrair-me das multidões que de manhã à noite percorrem, por estes dias do Fringe, as suas ruas. É um exercício difícil, mas aprende-se também a abstração como, na realidade, se aprende tudo. Até a gostar da cor cinzenta e fria que tinge os prédios, do sol intermitente, dos pingos de chuva que nos atingem, grossos e pesados, quando menos esperamos. Das quatro estações numa hora.
Acordei tarde porque ontem fiquei até às tantas na conversa com o Estevan (e não Estebán, como havia escrito no último postal) e com o Manu. Hoje de manhã ainda não eram 9 horas toca a campainha insistentemente e ouço vozes a falar muito alto. As vozes calam-se e eu volto a dormir por mais duas horas. Saio de casa antes do meio dia e tomo um pequeno almoço de fruta e café no Costa aqui na esquina. A seguir vou tentar perceber onde é a paragem do autocarro (41 ou 13) para a Galeria de Arte Moderna. Caminho por isso pela South Bridge, depois pela North Bridge e por quase toda a Princes Street até encontrar a paragem dos autocarros que me interessa. Acordei com as grossas pingas de chuva a cair na janela por cima da minha cabeça. Passado um bocado já brilhava o sol e o céu estava azul. Quando saio de casa chove novamente, mas pouco depois está calor até. Em menos de uma hora as quatro estações, como já disse. Nas ruas que referi a multidão é imensa. As pessoas caminham como se não vissem as outras, como se fossem cegas e andassem sempre em frente, aos encontrões se necessário. Na realidade é mesmo assim. Como se fossem cegas, aos encontrões. Faz-me muita impressão esta gente toda e tento abstrair-me tanto quanto possível, respirando fundo e olhando para cima, para os prédios altos e tão bonitos, para as nuvens, para as copas das árvores.
Postcards from Scotland #11 (Edinburgh)
‘Todo está al revés’ ou ‘the life I could have lived, if only…’
Janto num sítio bestial, Stac Polly, um restaurantezinho simpático e bonito, com comida fabulosa (e eu tenho andado há semanas a comer comida de pub), na St. Mary Street. Bebo uma pint de Raven Ale a acompanhar a maravilhosa refeição, uma cerveja que, tenho quase a certeza, o Diogo haveria de gostar. Percorro, depois do café bastante aceitável, o resto da rua até à Royal Mile, no cruzamento com a High Street, onde caminho até à esquina com a South Bridge. Aí encontro a Cowgate e viro logo à direita para a Guthrie Street, não sem antes hesitar se entro no Jazz Bar aqui mesmo ao lado. Hesito mas não entro, portanto, porque quero perguntar primeiro ao Manu que tal é o bar. Entro em casa devem ser pouco mais de 22h e o Manu está acompanhado do Estebán, metade equatoriano, metade espanhol, que é homem-estátua e pintor e cuja fotografia apareceu há uns dias no Times. Uma fotografia belíssima, diga-se, quando a encontrar online logo a mostrarei. O Estebán está a pintar uma parede no quarto do Manu. Duas figuras bem bonitas, já vos digo. Mas quando meto a chave à porta estão os dois a beber cubas-livre. Oferecem-me mas rejeito porque não gosto de rum, mas ali fico a conversar com os dois.
Falamos principalmente de política e a certa altura o Estebán exclama a propósito das diferenças entre os ricos e os pobres e entre os países do norte e do sul que tudo está ao contrário. ‘Todo está al revés’. Concordamos todos na maior parte das coisas, embora eu me sinta obrigada a ser mais otimista que eles e nem sei bem porquê. Mas nos últimos anos, tenho para mim que se não somos ou tentamos ser otimistas – ainda outro dia o disse noutro postal, a respeito de uma conversa sobre a Grécia havida em Aberdeen – acabaremos por nos suicidar todos. Sim, o Gonçalo M. Tavares já o escreveu muito melhor do que alguma vez eu o farei… qualquer coisa como ‘o que é surpreendente é que não existam mais pessoas que todos os dias se atirem de prédios altos’. Não era assim, era apenas parecido, mas é esta a ideia. E por isso, a necessidade de otimismo. A certa altura o Estebán vai pintar a parede e eu continuo a fumar com o Manu. Ele fala muito alto sobre as razões pelas quais se atirou de Espanha para fora. Espanha, diz, não é um país decente. Um país que deixa que aconteça às pessoas o que está a acontecer não pode ser, diz ele, um país decente. Digo-lhe que o meu país também não é decente, que a Grécia também não o é, mas que as coisas começam a mudar aos poucos, ou, pelo menos, eu tenho essa esperança.
Postcards from Scotland # 10 (between Inverness and Edinburgh)
«It’s the fucking great outdoors»*
(and it is the fucking great city of Edinburgh)
Em Inverness acordo cedo, mas assim mesmo não a horas de tomar o pequeno almoço. Há décadas que não ficava num Bed & Breakfast e, aqui entre nós, tenho intenção de passar mais algumas décadas sem repetir a experiência. Apesar de muito central, a rigidez do homem quanto ao horário do pequeno almoço, mesmo diante da minha insistência de que eram umas horas absurdas… das 8h às 9h… quer dizer… não cedeu um segundo que fosse. Quando hoje acordei e desci com as malas para pagar e me por a andar dali, tive outra surpresa desagradável. Não podia pagar com cartão e não tinha comigo dinheiro suficiente. Desagradou-me que o homem insistisse que estava escrito no Booking.com que não aceitava cartões. Quando, na verdade, eu tinha comigo o email da reserva e nada constava nesse sentido. Chateada desci os Market Steps até ao centro e levantei dinheiro. Voltei a subir os muitos degraus, ainda aborrecida e quando cheguei ao nº 15 da Ardconnel Street paguei e pedi ao homem que me chamasse um taxi. Estava quase na hora de me encontrar com a Txus no Mercado em frente à estação. O homem antes perguntou-me ‘para onde vai agora?’ e eu, ainda esquinada com ele e com falta de cafeína, respondi-lhe se tinha alguma coisa a ver com isso.
No Mercado, de mau humor, tomo o pequeno almoço e logo chega a Txus com as suas próprias malas. Alegro-me um pouco ao ver girassois na florista. Mas ao tirar uma fotografia, a dona da loja vem lá de dentro, com cara de cão de fila e exclama que não posso tirar fotografias. Eu e a Txus entreolhamo-nos pasmadas… não se podem tirar fotografias a flores, porque? De qualquer modo, já tinha tirado a fotografia. Adiante. Despeço-me da Txus com um abraço certa que nos voltaremos a ver daqui a pouco mais de um mês, em Aveiro. E logo depois, certamente, em Madrid em Dezembro. É uma ideia agradável, revê-la daqui a uns tempos. Os reencontros com os amigos são sempre bons e lembram-nos que não vale a pena aborrecermos-nos por coisas parvas como o facto de o homem do B&B nem sequer me ter dado um recibo. E é esta gente, depois, que acusa os do sul da Europa de fugir aos impostos! Enfim, já tinha dito adiante, adiante seja.
Postcards from Scotland #9 (Inverness)
‘quando viajas com alguém, tudo te é estranho’*
Tenho a companhia da Txus, já o disse ontem, nesta breve estadia em Inverness. Cito muitas vezes, nestes postais que vou escrevendo daqui e dali, uma frase de Enrique Vila-Matas: ‘quando viajas com alguém, tudo te é estranho. Quando viajas só, o estranho és sempre tu’. Esta frase dá sentido a este postal e também às viagens que habituamente faço sozinha. Não é que não goste de companhia, e gosto particularmente da companhia da Txus, porque gosto dela, mas gosto – talvez sobretudo – de ser eu a estranha nos lugares e não de sentir que estes são estranhos. De qualquer maneira ontem, hoje e uma pequena parte de amanhã, são dedicados a tudo me ser estranho e não a ser eu a estranha em tudo.
Acordo no Bed&Breakfast da Ardconnel Street às 10h, passada já a hora do pequeno almoço que neste sítio se faz apenas até às 9h. Tomo banho, visto-me e saio. Desço os Market Brae Steps até à High Street onde tomo um café e um croissant numa esplanada. Combinei encontrar-me com a Txus às 11 menos 5 na estação dos autocarros. Pouco depois da hora combinada aí estou. Apanhamos o autocarro que pára em Drumnadrochit e a seguir em Urquhart Castle, nas margens do Loch Ness. Vamos falando em castelhano (a Txus é basca e eu não falo, lamentavelmente, basco) e admirando a paisagem tão tipicamente escocesa. Mais verde, colinas, montanhas, ovelhas, vacas, cavalos, cercas, bosques e o rio Ness que, dali a um instante se há-de converter no espantoso e gigantesco Loch Ness.
Postcards from Scotland #7 & 8 (Aberdeen and Inverness)
Being inside a David Lodge’s book for a while* or… not so much, after all
O postal de ontem (que só publiquei no facebook) foi curto, basicamente dizia que havia muito para contar, mas o cansaço era extremo (ainda é) e que um grupo de europeus do sul, entre os quais me encontrava eu, tinha ‘coletivizado’ a caixa de bolachas que a comissão organizadora do congresso ofereceu ao Apostolos por integrar a comissão científica. Sendo todos de esquerda, a coletivização das bolachas pareceu-nos bem, uma vez que o Apostolos não estava presente no jantar. As bolachinhas foram comidas, assim, por mim, por uma espanhola e três ou quatro gregos. Eram bem boas.
Fiz as minhas duas comunicações ontem mesmo, na sessão das nove da manhã. Correram bem, suponho. A seguir assisti a outra sessão, almocei, mais duas sessões e bebidas ao fim da tarde, no centro, entre o antigo e o novo comité executivo, para que fui eleita no dia 19. A seguir, o jantar do congresso e a noite acabou, passava das duas da manhã, num pub local, com música ao vivo e danças escocesas que também se dançaram no jantar. Dancei uma em cada sítio e é violento ou então estou velha. É capaz de ser mais isso.
Postcards from Scotland #6 (Aberdeen)
The grey city between Don and Dee*
Aberdeen não é uma cidade particularmente bonita. É a capital europeia do petróleo. Tem um porto muito grande e cheio de atividade e as gaivotas parecem gatos. As gaivotas têm acompanhado a minha viagem desde Liverpool, com os seus lamentos. Em Glasgow havia menos no centro da cidade, mas aqui, parecem, como disse, gatos. Estão por toda a parte, pousam no meio das ruas indiferentes aos carros, em cima dos caixotes de lixo e das paragens de autocarro. Há bocado enquanto esperava pelo autocarro, com o Renato, para regressarmos dos centro aos nossos hoteis, havia tantas gaivotas a voar tão baixo que parecia que estávamos no filme ‘Birds’, do Hitchcock. Antes de vir para o Reino Unido passou-me pelos olhos uma notícia sobre o País de Gales que falava, justamente, de gaivotas. De gaivotas que mordiam as pessoas e os cães. Um pouco assustador, portanto, estar ao princípio da noite na Union Street com tantas gaivotas a voar tão baixo. E a ouvir os seus lamentos.
Postcards from Scotland #5 (Aberdeen)
We, the great people of the South…
Este postal vai escrito sem muito cuidado. Estou cansada. Passei o dia praticamente todo fechada em salas a ouvir os colegas, moderei uma sessão, falei com muitas pessoas em várias línguas, sobretudo em inglês, é certo, mas com pessoas com sotaques muito diferentes. E amanhã tenho de acordar cedíssimo para mais um dia (uma parte dele, pelo menos) fechada em salas a ouvir pessoas falar em inglês com diferentes sotaques. Não é que não goste, que gosto, acho que se percebe que uma das coisas que mais me dá prazer na vida é o meu trabalho, mas, reparem, um congresso no meio das férias, mesmo que reencontremos amigos, não é exatamente a melhor das ideias. E depois os congressos são sempre muito cansativos, a começar pelos horários estapafúrdios, e a acabar na sobrecarga de sessões e na quantidade de gente com quem se fala. Claro que há a outra parte, a mais agradável de todas, jantar com os amigos que vemos apenas de vez em quando, beber umas cervejas com eles, falar de política, dizer piadas, rir.
O dia começou relativamente cedo e chovia quando acordei. A custo levantei-me da cama antes das oito e meia. Ontem fiquei até bastante tarde a ler mais do fabuloso ‘The First Bad Man’, da Miranda July. Já vos contei como estou fascinada com a escrita dela e completamente rendida à história que nos conta neste romance. Quando acordei chovia, como já disse. Era suposto que eu visse o mar da janela do meu quarto, mas quando abro as cortinas só vejo água e névoa. O tempo escocês, ao que dizem. Suponho que até agora tive sorte na minha viagem. Só ontem e hoje de manhã choveu verdadeiramente. Mas hoje, depois de almoço, o sol brilhava outra vez e estava até ligeiramente quente. Para a Escócia, quero dizer.













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