Portugal, República em permanente transição

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No começo do Século XX, em Portugal sopravam ventos de mudança. Desde 1139, o denominado Condado Portucalense era pensado como Monarquia. Os historiadores sabem mais do que nós, que amamos o país e lutamos por ele. Lutamos por ele, porque desde o dia da sua fundação a Nação tem mantido ventos de mudanças permanentes. Entre 1139 e o dia de hoje, após a luta do 27 de Setembro para escolher uma Assembleia Legislativa, a imprensa não acaba de debater quem devia ter ganho, de envergonhar os que perderam, de calcular o que teria sido se um dos partidos não tiver sido roubado. Legislativas nas quais todo o mundo ganhou e também, em conjunto com as perdas que todo o mundo sofreu. Vários outros perderam, ou o seu sítio no Parlamento, ou a simpatia das massas, ou têm adquirido pela primeira vez um assento na Assembleia que nos governa.
A nossa democracia é sempre comparada com a de Atenas: assembleias públicas, debate na praça, autarcas filósofos, liberdade de votar. Mas, isso já passou. Hoje em dia os candidatos correm para ganhar um lugar na Assembleia. Cada grupo político alinha-se por bancadas, distribuídas as mais cumpridas para os partidos com mais membros eleitos. As bancadas têm sido uma tradição em Portugal desde o dia do seu primeiro parlamento autónomo. Esse Parlamento autónomo dura até 1910, após da morte do Rei D. Carlos de Bragança e do Príncipe da Coroa, Dom Luís Filipe. Por causa da morte do rei em 1908 e do herdeiro da coroa, foi proclamado Rei o filho mais novo, D. Manuel de Bragança.
Mas a Carbonária, instrumento organizador do assassinato, continuou com as suas actividades de revolucionar as tropas contra o sistema de Governo Monárquico, até conseguir que a família real fugisse de Portugal no iate real, do pequeno porto da aldeia de Ericeira, rumo a Grã-bretanha, onde são acolhidos pelos seus parentes Gotha, sendo Rei Eduardo VII. Acabada a monarquia por causa da revolução de Outubro, o problema para os republicanos era como formar um governo.
Após a Proclamação da República portuguesa em 5 de Outubro de 1910, foi nomeado um Governo Provisório que deveria dirigir superiormente a Nação até que fosse aprovada uma nova Lei fundamental.
Presidiu a esse Governo, inteiramente formado por elementos do Partido Republicano Português (o grande obreiro da revolução), o velho e respeitado Teófilo Braga; o governo contava ainda com as figuras de:
• António José de Almeida (na pasta do Interior, antigo ministério do Reino);
• Afonso Costa (na Justiça e Cultos); José de Mascarenhas Relvas (nas Finanças);
• Bernardino Machado (nos Estrangeiros); António Luís Gomes (no Fomento);
• Coronel António Xavier Correia Barreto (na Guerra); Comandante Amaro Justiniano de Azevedo Gomes (na Marinha).
A constituição do Governo Provisório sofreu alguma contestação, sendo esta principalmente dirigida a Afonso Costa e a Basílio Teles – um dos históricos do partido. Tal contestação deu lugar a remodelações no seio do Governo.
Assim, em 12 de Outubro de 1910, Basílio Teles foi substituído no ministério das Finanças por José Relvas. António Luís Gomes, outro dos nomeados, foi entretanto ocupar o lugar de Ministro de Portugal no Rio de Janeiro, encarregando-se Brito Camacho do Ministério do Fomento (22 de Novembro de 1910).
O Governo Provisório manteve-se em funções até à aprovação da nova constituição (a Constituição de 1911), em 24 de Agosto de 1911, dando por encerrados os seus trabalhos e auto-dissolvendo-se a 4Setembro, quando deu lugar ao primeiro Governo Constitucional, chefiado por João Pinheiro Chagas.
Portugal teve uma transição atrasada: em 1928 começara a ditadura do denominado Estado Novo, que tivera quase de 47 anos
A Iª República de Portugal foi efémera por causa dos Presidentes e a divisão de Partidos.
Quem soube resgatar Portugal da Ditadura e se retirar da sua arrogância colonial, foi o Movimento das Forças Armadas, a 25 de Abril de 1974, um ano depois da morte do nosso Presidente Socialista histórico, Salvador Allende. Assassinato que deu força ao Exército Português para se libertar das dependências.
Mas, será que a transição acabou? Em 35 anos de liberdade, esta parece ser usada e abusada. O nosso primeiro Rei, Afonso Henriques, começou com as lutas, como se pode ler em palavras que não são minhas e dizem:

1109: Provável ano de nascimento, em Coimbra, do infante Afonso Henriques, filho do conde Henrique de Borgonha e de dona Teresa, bastarda do rei Afonso VI de Castela e Leão. No mesmo ano morre Afonso VI. Início da disputa entre dona Urraca, a herdeira legítima, dona Teresa e vários outros pretendentes ao trono. A briga pelo poder dura anos. – 1122: Afonso Henriques antecipa em sete séculos um gesto de Napoleão Bonaparte. Ignorando o cardeal que presidia a cerimônia, arma-se cavaleiro na catedral de Zamora. – 1128: Afonso Henriques luta contra a mãe, dona Teresa, e seu aliado, o conde galego Fernão Peres de Trava. As tropas de Afonso Henriques e dona Teresa se enfrentam no campo de São Mamede, junto ao castelo de Guimarães. O exército galego é derrotado. Esta vitória leva dona Teresa a desistir da idéia de anexar a região portucalense ao reino da Galícia. – 1129: No dia 6 de abril, Afonso Henriques dita uma carta em que se proclama soberano das cidades portuguesas. – 1135: Afonso VII, filho de dona Urraca, é coroado “imperador de toda a Espanha” na catedral de Leão. Afonso Henriques se recusa a prestar vassalagem ao primo. – 1137: Paz de Tui. Após lutar com Afonso VII no Alto Minho, Afonso Henriques promete ao imperador “fidelidade, segurança e auxílio contra os inimigos”. – 1139: Batalha de Ourique. Afonso Henriques vence cinco reis mouros. – 1140: Afonso Henriques começa a usar o título de Rei. – 1143: Provável Tratado de Zamora no qual estabelece a paz com o primo Afonso VII. Primeiro passo para a independência portuguesa. Afonso Henriques escreve ao Papa Inocêncio II e se declara – e a todos os descendentes – “censual” da Igreja de Roma. A palavra “censual” significa que Afonso Henriques é obrigado a prestar obediência apenas ao Papa. Na região que governa, portanto, nenhum outro poder é maior que o dele. – 1147: Afonso Henriques expulsa os mouros de Lisboa e várias outras cidades portuguesas. – 1169: Afonso Henriques é feito prisioneiro pelo rei de Leão, Fernando II. – 1179: A Igreja Católica reconhece, formalmente, a realeza de Afonso Henriques. – 1180: Final dos conflitos com Fernando II, de Leão, pela posse de terras na região da fronteira e costa da Andaluzia. – 1185: Afonso Henriques morre na cidade em que nasceu. Sua herança, além de imensa fortuna, é o Condado Portucalense, primeiro território europeu que estabelece sua identidade nacional.
Transição? Dois factos: o projecto Constitucional de 1976 e em 1988, falam no Artigo 2 da Constituição da República de assegurar a transição para o socialismo mediante a criação de condições para o exercicio democrático do poder pelas classes trabalhadoras
Artigo e ideologia substituído pelos seguintes artigos em 2006:

Artigo 2.º
Estado de direito democrático
A República Portuguesa é um Estado de direito democrático, baseado na soberania popular, no pluralismo de expressão e organização política democráticas, no respeito e na garantia de efectivação dos direitos e liberdades fundamentais e na separação e interdependência de poderes, visando a realização da democracia económica, social e cultural e o aprofundamento da democracia participativa.

Artigo 3.º
Soberania e legalidade
1. A soberania, una e indivisível, reside no povo, que a exerce segundo as formas previstas na Constituição.
2. O Estado subordina-se
à
Constituição e funda-se na legalidade democrática.
3. A validade das leis e dos demais actos do Estado, das regiões autónomas, do poder local e de quaisquer outras entidades públicas depende da sua conformidade com a Constituição.
Esta é a lei e a ideologia que orientou as nossas eleições legislativas de 27 de Setembro de este ano.
Afonso Henriques foi uma premonição. As nossas recentes eleições ainda são debatidas: todos ganharam, todos perderam O quê? O tribunal constitucional deve falar e o Senhor Presidente da República, ouvir, ver e calar até as próximas autárquicas de 9 de Outubro, mostrem quem tem mais sabedoria para governar, ser eleito e discursar. Mostrar esse requinte do saber gerir, sem estar a lutar por assentos nos Concelhos, como acontecera nas Legislativas
País em transição, mas com simpatia e amizade, sem se ignorar uns e outros, se pactos e convénios em beneficio dos partidos, mas com respeito a soberania popular que ai os coloca….ou não.
A Soberania não pode ter descontentamentos: é do povo, feita pelo povo e para o povo. Longe de Afonso Henriques e a sua compra da coroa de Portugal, ao Vaticano, credor nosso de uma saca de 100 quilos de moedas de ouro que Dom Afonso nunca quis pagar.

Amarante a cheirar a merda

Filme bem elucidativo: ver aqui

“Hoje que é domingo (27/09) e dia de eleições legislativas de 2009, em pleno centro histórico de Amarante, exactamente em frente à porta do Santo, o esgoto cumpriu mais uma vez, pronta e plenamente, o serviço de evacuação emergente no rio Tâmega. Tanto monta que a m-e-r-d-a siga o percurso na insuficiente e debilitada rede de saneamento ou seja aliviada sob o olhar incrédulo de quem passa e visita a cidade, seja qual for o dia da semana ou o mês do ano, se o destino do eflúvio em trânsito seria sempre o mesmo, quando na passagem só sobrecarregaria a ‘nova’ e já esgotada ETAR de Amarante.
Eram pelas 16H00. Enquanto a descarga eleitoral se mostrava nas urnas pouco concorrida o esgoto no centro urbano de Amarante fazia o seu abundante escrutínio. Com o superior enquadramento de dois monumentos nacionais (Ponte e Convento), no Largo de São Gonçalo (Praça da República), saído em jorro do alto da parede granítica a espelhar no rio Tâmega, o cenário do esgoto não podia registar melhor (pior) sinal da sua republicana existência. O som da descarga caída livremente sobre o metálico passeio pedonal e batida na pedraria granítica das rochas que fixam a margem sobranceira à Igreja do convento, conjugando os odores pestilentos que contaminavam a sombra onde se vendia o pão e o doce e apertavam a respiração dos transeuntes desde a Alameda Teixeira de Pascoaes, não enganava quanto à origem da fonte.
Não!… Aquele caudal lamacento e churro não provinha do endereço sombrio que acolhe a Câmara Municipal de Amarante nas costas de Pascoaes. Mas, logo ali, desde a Alameda ao Largo, se confronta a demagogia e o gongorismo da política local que fecha os olhos e o nariz a tanta imundice, nessa ‘bica’ nojenta de m-e-r-d-a urbana onde se reflecte o resultado da «seriedade» e do «rigor» que a autarquia de Amarante não consegue esconder aos olhos e nariz da cidade.”

José Emanuel Queirós, in Plena Cidadania, via Anabela Magalhães

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Amarante é um concelho liderado por Armindo Abreu, eleito pelo PS e que concorre a novo mandato. O seu principal adversário é José Luís Gaspar, candidato do PSD. Jerónimo Ferreira (CDU), Hugo Silva (Bloco) e Moura e Silva (CDS) são os restantes candidatos.

Poemas com história: Ar condicionado


António de Oliveira Salazar! Estávamos obcecados pelo ódio a um ditador que, ainda por cima, medíocre e tacanho, não parecia ser digno dessa obsessão. Nuns versos que a polícia apreendeu em minha casa, designava-o o por o cão. Ao contrário do que eu pensava o «poema», salvo erro um soneto, não me custou espancamentos nem acréscimo de tortura. Apenas um inspector, um torcionário famoso pela sua ferocidade, andou à minha volta a declamar os versos com ar grandiloquente e comentando para o estagiário que me guardava: – «Qual Camões, qual carapuça – isto é que é poesia!». Embora olhando para a janela e simulando não estar a ouvir, fui sempre esperando que ele chamasse o piquete que estava no corredor e me desabasse uma tormenta de cassetetes em cima. Mas não, leu, declamou e depois rasgou o papel. Sinal de que não queria utilizar aquilo como prova. O estagiário, um ex-seminarista, quando o inspector saiu só me disse: «o senhor inspector estava muito irritado, que eu bem o conheço – e acrescentou, abanando a cabeça reprovadoramente «- Também o senhor, chamar cão ao senhor Professor. Déspota, ainda vá, mas cão?» Mal saí do presídio, repus o stock e escrevi estes versos menos directos, um pouco mais subtis. Não voltei a ser preso e em 1970, quando publiquei A Poesia deve ser Feita Por Todos, já Salazar tinha sido substituído por Caetano, incluí este poema. O livro foi apreendido, mas não terá sido só por causa do Ar condicionado que aqui vos deixo:

Ódio, mesquinhez, mediocridade,
num rosto de branca estearina,
em mãos de apodrecida crueldade,
o futuro imediato se destina
moldado em velhos fósseis do passado.
Alquimia do medo, chantagem do terror,
ácido queimando as raízes do amor,
eis o segredo
em redomas de silêncio conservado.

O gesto humano se consome e se corrói
no cadinho da fome e da ignorância.
Suprema elegância entretanto faz
do teatro lusitano a triste fama
cantada na soberba do cartaz
– nos seus desertos corredores circula
A última palavra em ar condicionado.

A máquina do tempo: brandos costumes (os interrogatórios na PIDE)

Saiu há quase dois anos um livro de Irene Flunser Pimentel – «A História da PIDE». Sem dúvida que é o trabalho mais exaustivo que se escreveu sobre a sinistra organização e aquele que em termos históricos mais elementos nos proporciona sobre o que realmente aconteceu, para lá dos mitos e das lendas criadas em torno dela. E quando digo «sinistra organização» já estou a fugir à objectividade com que a autora aborda o tema, fugindo dos adjectivos que, como todos sabemos, são inimigos da ciência, porque se perguntarem a um zoólogo se uma zebra-.de- montanha é «grande» ou «pequena» ele responderá que, em média, o conjunto da cabeça e do tronco mede 220 cm. Face aos números encontrados, ficamos com a ideia de que a PIDE (com a sua antecessora PVDE e com a sucessora DGS) não foi tão criminosa como o foram a Gestapo e a sua congénere italiana a OVRA, por exemplo. O que, a quem por lá passou, não serve de grande consolação.

Em todo o caso, só no campo de concentração do Tarrafal morreram, até 1945, 31 presos confirmados, embora muitos outros cujos nomes não ficaram para a posteridade tenham morrido ou adoecido durante o cativeiro. Alguns eram libertados nas vésperas de morrerem e, portanto, morriam «em liberdade» em suas casas ou nos hospitais, não contando em termos estatísticos para o rol dos assassinados – digamos, para sintetizar, que as polícias políticas do Estado Novo mataram uns milhares de concidadãos nossos, cujo único crime, na maioria dos casos, era o de não estarem de acordo com a política do regime. Se são do conhecimento geral nomes como o de Humberto Delgado, Dias Coelho, Militão Ribeiro, é preciso não esquecer que houve muitos outros, como o caso do médico António Ferreira Soares, morto a tiro em 4 de Julho de 1942 em frente de uma irmã e de uma criada, do José Moreira que, em 1950, «caiu» do terceiro andar da sede da PIDE, do Raul Alves que em 1957 também «caiu», dos dois presos mortos na delegação do Porto em 1957 – Joaquim Lemos Oliveira e Manuel da Silva Júnior… centenas de nomes.

Oficialmente, as mortes deviam-se sempre a suicídios ou a quedas acidentais, a doenças cardíacas, etc. Em todo o caso, a historiadora não nos fornece um número total de vítimas. Não é possível encontrar esse número. Suponhamos que à lista dos assassinados em Portugal, queremos adicionar os que foram mortos nas ex-colónias – portugueses e, sobretudo, africanos? – Tudo se complica.

Os livros como este são muito necessários, pois constituem instrumentos realizados com todo o rigor possível. Buscar a verdade com este rigor é a função da ciência histórica. No entanto, aconselhando a leitura deste livro a quantos queiram saber o que se passou, dada a objectividade com que o tema é abordado ele não nos transmitirá a sensação de horror, de impotência, que se sentia quando se era apanhado nas malhas daquela polícia. Talvez porque tentar transmitir essa sensação, é função da literatura e não da ciência histórica. No entanto, sendo a autora uma historiadora da escola de Fernando Rosas, penso que o escrúpulo com que o trabalho foi elaborado não deve ser posto em causa. É uma obra de consulta onde só figura a verdade apurada.

*

Relativamente a um poema feito há mais de 40 anos sobre o meu encarceramento num «curro» do Aljube – na cela 10 – houve companheiros do Aventar que tiveram a amabilidade de me agradecer. Disse na altura em comentário de resposta, que não tinha sido um herói, nem (infelizmente) um caso raro ou dos mais graves. Na minha primeira prisão, em 1965, fui submetido no interrogatório a 13 dias de «tortura do sono», com alguns espancamentos pelo meio. Depois de sete dias, comecei a desmaiar com frequência, e o médico que me ia ver mais do que uma vez por dia, na noite em que completei sete dias aconselhou o inspector , do meu caso (José Américo da Silva Carvalho) a deixar-me dormir. O que ele fez. Puseram-me uma cama desmontável no «gabinete de investigação» – assim eram chamadas as salas de tortura – e dormi ininterruptamente dez ou onze horas até que me acordaram e a tortura prosseguiu por mais seis dias. Penso que a polícia julgava ter apanhado um quadro importante e daí o tratamento violento que outros, com maiores responsabilidades, não sofreram.

Ora bem, isto parecendo muito duro a quem nunca se viu nestas andanças, não foi nada de especial. Muitos milhares de outros antifascistas tiveram um tratamento muitíssimo pior do que o meu. Muitos chegaram a perder a vida e daí o cuidado que a polícia passou a ter, com médicos a vigiar, dia a dia, os efeitos da tortura. As mortes não eram convenientes, davam mau aspecto e, se possível, pioravam a reputação da polícia. Embora nunca se dissesse que as pessoas morriam devido ao que lhes faziam – como já vimos, eram geralmente «suicídios», «acidentes» e «doenças súbitas». Quando os familiares tinham acesso aos corpos, não podiam vê-los. Porque seria?

Antes da «tortura do sono», que, como o nome indica, consistia em deixar o paciente sem dormir até «confessar», houve a «estátua» que, à insónia forçada, juntava a imobilidade também forçada. Os «cientistas» policiais parecem ter descoberto que a imobilidade produzia um desgaste físico acelerado e que na nova modalidade, podendo mover-se, os presos aguentavam mais enquanto, privado do sono durante mais tempo, o cérebro se cansava e a capacidade mental de resistir também. Afinal tratava-se do velho «tormentum insoniae», o suplício da insónia, tão usado pela Inquisição. Por falar de vítimas maiores desta tortura, lembro um estudante de Agronomia que esteve 21 dias sem dormir e que sendo deficiente motor (poliomielite) foi obrigado pelos agentes a dançar a Kalinka… Mesmo assim, não terá sido um recorde.

Além das mortes, das famílias destruídas pelas prisões prolongadas, com diversos anos de pena a que se acrescentavam as tais medidas de excepção que as podiam prolongar indefinidamente, era vulgar os presos verem-se despedidos dos empregos. Quando saíam da prisão – fossem operários, professores, médicos ou escriturários, não podiam trabalhar. Nem emigrar, pois não tinham direito a passaporte. Aqui devo prestar homenagem à Fundação Gulbenkian e à memória de Branquinho da Fonseca, meu director – após as duas prisões, o meu lugar esperava-me. E não deixaram de me pagar o vencimento durante os meses de prisão. E o que devem ter sido pressionados para me pôr na rua! Branquinho da Fonseca explicou-me que resistiu a essas pressões, vindas também do interior da instituição, com um argumento muito simples: «- Ele foi condenado? Não foi. E se está inocente? Se for condenado, falamos então nessa hipótese do despedimento…»

De facto, nunca conseguiram matéria incriminatória para me enviar a tribunal. Da primeira vez presumiam (erradamente) que eu era um quadro importante. Da segunda, com muitas suposições à mistura, de concreto e ao fim de uma semana de «sono», tinham um livro com vinte e tal poemas, alguns pouco ou nada poéticos, muito panfletários. Seria, no mínimo, um julgamento incómodo. Saíram notícias em jornais franceses (algum emigrante que me conhecia). Era mais útil para o regime pôr-me na rua. Depois de uma semana de «sono», deram-me uma dose cavalar (seis meses) de isolamento contínuo e vim à minha vida. O que eu queria explicar é que isto nada tem de heróico. Se pudesse, não teria sofrido nada daquilo. Nasci no tempo e no país errado. Muitos milhares de antifascistas passaram pelo mesmo e por muito pior. Não tínhamos saída: ou aceitávamos os pressupostos da situação e não levantávamos ondas ou não os aceitávamos e aconteciam essas coisas – era-se preso, torturado, vexado, morto, perdia-se o emprego, ficava-se preso durante anos.

A propósito de vexame, as mulheres eram mais vulneráveis – embora vigiadas, torturadas e espancadas por
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entes femininos, houve casos de abusos sexuais praticados por inspectores, chefes de brigada ou agentes masculinos. Uma tortura adicional era, se a «estátua» ou a «tortura do sono» coincidiam com o período menstrual, não as deixavam pôr ou mudar pensos, tomar medidas higiénicas, criando uma humilhação extra com os comentários sarcásticos que os agentes, homem ou mulher, faziam sempre que entravam no «gabinete». Fala-se de uma presa, uma estudante, que, já nos anos 60, enlouqueceu. Não pude confirmar.

Nestas crónicas já falei demasiado das minhas duas prisões. Perdoar-me-ão, mas foram experiências traumáticas e que me tornaram numa pessoa diferente. A minha visão (e a de outros) e a de Irene Flunser Pimentel sobre a PIDE são diferentes – por isso mesmo, aconselho vivamente a leitura do livro dela, porque não é com testemunhos vividos que se conseguirá compreender com objectividade o que foi aquele sinistro covil. Procurarei não insistir. E se o tenho feito é porque talvez assim os mais jovens, os que já não viveram aqueles tempos, compreendam, por exemplo, a razão por que o poeta Pedro Oom, no dia 25 de Abril de 1974, quando ao lado do António José Forte no Largo de Camões, viu os agentes da secreta a fugirem saltando de telhado em telhado, como ratazanas acossadas, se sentiu mal e teve de ser transportado, creio que ao Hospital de São José, acabando por morrer de paragem cardíaca. Morreu de emoção e de alegria.

E compreenderão também a grandeza de alguns que tendo o poder nas mãos e tendo sofrido, no mínimo, o mesmo que eu, tiveram a generosidade de não proceder à execução sumária daquela escumalha. Cito o exemplo, um entre muitos, do Professor Luís de Albuquerque que, a seguir à Revolução, sendo Governador Civil de Coimbra e vice-reitor da Universidade, defendeu situacionistas perseguidos, saneados – alguns dos quais tinham contribuído para lhe tornar a vida negra durante a ditadura. E não foi por caridade cristã, pois ele era ateu e marxista. É nestas atitudes que os homens se diferenciam dos ratos.

A vingança seria condenável, mas a História acabaria por absolvê-los de uma tão compreensível desforra. Como afinal perdoou aos torcionários. Alguns já morreram. Outros andam por aí com as suas pensões da Função Pública e até recebem condecorações das mãos do presidente da República. Tudo isto, numa altura em que a casa em que Salgueiro Maia nasceu corre o risco de ser vendida e demolida.

Brandos Costumes?

O SOCIALISMO CIENTÍFICO. CODA FINAL


Este blogue Aventar é a democracia aberta, como da Grécia Antiga. Em poucos dias, os debates vistos e revistos dentro das linhas publicadas e os comentário recebidos fizeram-me lembrar que, sem uma tribuna aberta, não era capaz de aceitar ser governado por quem não tenha a ética, o estatuto moral de saber defender aos seres humanos, a natureza, advertir que as indústrias dão cabo da nossa vida, tal como a falta de salário.
Qual a alternativa, se sem indústria não há trabalho? E se, sem trabalho, o ordenado desaparece? Porquê pagar pelas medicinas necessárias para continuar uma vida serena e sadia? Será que a concorrência é a base de toda a relação social, do tratamento da natureza hominídea, vegetal e animal? Será que Babeuf se enganara em 1775 ao redigir o seu manifesto sobra a igualdade? O Marechal em 1775 e os seus textos sobre a igualdade? Ou Karl e Jenny Marx, com ideias de Engels, no seu Manifesto Comunista, traído vezes sem fim pelas utopias?
Os socialismos utópicos acabaram com Sait-Simon ao começo do Século XIX, esses sonhos de sermos todos iguais dentro de uma sociedade de classes? Será que Ludwig Gall, professor de Karl Heinrich desviara a sua atenção para sonhos imateriais? A Baronesa von Westphalen, ou Jenni Marx, foi capaz de escrever as palavras mais preciosas em prol dos assalariados. Esses assalariados, homens de fé, que trabalhavam e acreditavam na sua salvação, como Max Weber estudara na sua obra de 1905: A ética protestante e o espírito do capitalismo, um socialista científico mal conhecido por não ter, dizem por ai, não ter lido O Capital. Grande engano, provado como está no seu livro póstumo de 1923: Economia e Sociedade. Ou vários de nós, que juntos temos trabalhado pela educação essa falta de ópio do povo para ser igual aos seus patrões, como com Maurice Godelier, Pierre Bourdieu, Stephen Stoer em Portugal, Mouzinho da Silveira que deu conta do morgadio em Portugal, ou Alfonso Rodriguez Castelão na Galiza, a formar sindicatos rurais e declarar o país socialista.
Porquê socialismo? É simples: quem orienta a vida social é a economia, uma materialidade que trabalha com mais valia que acaba por matar a capacidade de criação de quem fabrica o objecto, esse operariado definido pelo socialista português David Ricardo ao definir o valor do trabalho pelas horas investidas na confecção de um bem, no seu texto de 1817: The principles of political economy and taxation, Everyman´s Library, Londres – versão portuguesa Gulbenkian, Lisboa, 1983, base dos texto de 1862 e 1863, Marx: Theories of surplus value, versão inglesa que uso da Clarendon Press, Oxford. Bem que vai ao mercado e que devia render parte do lucro ao operário fabricante, como fizeram Saint-Simon e George Owen e os seus sindicatos de operários na Grã-bretanha do Século XIX. Socialismo que nasce de casual reunião do operariado do mundo em Londres, por graciosa permissão das Suas Majestades Rainha Vitória e o Imperados Luís Napoleão Bonaparte. Esse 1861 que dá vantagem a Marx de formar a União dos Trabalhadores e organizar a denominada Primeira Internacional. Socialismo que procura a igual repartição das riquezas, a abolição da propriedade privada, que não tem saída. Não tem via livre, esse sonho dourado de uma sociedade igual por causa da burguesia dominar a Banca, a Bolsa, as manufacturas, serem eleitos como membros de Assembleias ou parlamentos que emitem leis para fixar ordenados, salários, horas de trabalho. Parlamentos burgueses que têm prebendas especiais e poder para as mandar cumprirem. O trabalho do socialismo passou a ser entender a economia para se salvar da alienação, não apenas da perca de bens, como das ideias criadas pelo trabalhador e inscritas no registo de inventos e direitos de autor, pelo patrão.
O socialismo, até onde eu lembre, existiu uma vez e por curtos anos de vida, como referi ao falar de Salvador Allende. Socialismo de nome, mas não de acção, ao ser retirada da constituição essa frase de ser o pais um caminho de transição para uma república socialista.
A burguesia ganha as guerras todas de propriedade e de lucro, de eleições e Presidências. Classe que no Século XVIII fez uma revolução em 1798, e se instalara em ela em ela até o dia de hoje. Razão tem Marx quando apela a unidade dos proletários do mundo, que são milhares. No mundo não existe apenas a União Europeia: A Índia, a África, o Continente da Revolução em liberdade ou América Latina, Indonésia e Austrália e as suas inúmeras etnias. Todas elas com o auxílio do velho continente e dos EUA.
O quê se elege este 27? Parece-me a mim que apenas o Estatuto Moral de governar.
Alternativas? O povo dirá, com esse cuidado e essa delicadeza para evitar a imagem acima sempre presente na minha cabeça.

Democracia e fascismo

  
Queria-me parecer que estas duas palavras eram diferentes. Por acaso, visitei o meu espaço no Aventar e, com surpresa, li um texto de um dos gestores do blogue, pessoa da minha estima e simpatia, Ricardo Santos Pinto, a escrever sobre o Chile de Pinochet e a educação no Chile e em Portugal.
Falou de educação, como pode entender-se ao ler o texto. Mas, também, da política que orientava esses governos: o Chile, social-democrata, punido pelos Republicanos dos EUA ao mandar assassinar ao seu Presidente Constitucional por ser de ideologia materialista histórica. E fez-me pensar e lembrar e sentei-me de imediato em frente ao computador para colmatar essas lembranças.
Tenho referido em outros textos deste blogue que por acaso me encontrava no Chile de Allende, enviado pela minha Universidade Britânica: o meu Catedrático faz 31 anos, Sir Jack Goody, queria saber como era o socialismo livre, votado nas urnas pela maior parte da população. Votos que foram incrementados até aos 70% dos sufrágios numa eleição municipal de 1972. 72% para os socialistas democratas e materialistas levantou de imediato o terror entre os mais cristãos cidadãos da Nação. A falta de saber o que é o socialismo causou um terramoto social. Ninguém pensou que a redistribuição da riqueza entre todos por igual, era a mais santa acção que um governo podia fazer. Que retirava lucros aos mais poderosos? É evidente: uma democracia, definida por Aristóteles no Sé IV antes da nossa era, é o governo da cidade pelos mais anciãos compatriotas.
No mesmo texto, comenta: Uma democracia directa é qualquer forma de organização na qual todos os cidadãos podem participar directamente no processo de tomada de decisões. As primeiras democracias da antiguidade foram democracias directas. O exemplo mais marcante das primeiras democracias directas é a de Atenas (e de outras cidades gregas), nas quais o Povo se reunia nas praças e ali tomava decisões políticas. O que o nosso sábio não pensou, porque ainda não existia, é que o lucro de poucos podia subjugar a falta de meios de produção de vários. Apenas referiu que, enquanto no tiverem meios de produção, perdiam o direito ao voto e à liberdade, como na maior parte das etnias do mundo e nas Nações modernas.
O medo à igualdade nas sociedades de classe como as de hoje em dia era ficar sem recursos para ter poder e mandar. Um primo directo meu visitou-me um dia e solicitou a minha intervenção para que o seu latifúndio não fosse expropriado. Calmamente ripostei ao meu caro primo que eu era um académico e não tinha aceso à vida política do Chile por morar no estrangeiro. Acrescentei que, ainda que tivesse esse poder, nunca o usaria porque a propriedade da terra e dos bens produzidos pertenciam aos seus produtores: um título de propriedade não dava direito a usufruir gratuitamente do trabalho de outros. Em silêncio acabou a sua comida na nossa casa e diz: no dia em que o teu Presidente for morto, porque morto será, vou-te denunciar às novas autoridades, que seremos nós. Um mês depois, o nosso Presidente era assassinado e eu levado para um campo de concentração.
Não apenas eu. Nós todos, cristãos para o socialismo, a lutar pelo povo e a sua alfabetização e o seu direito a organizar sindicatos, estávamos num campo de concentração. Jack, após 4 anos de Auswitchz, sabia o que era, reclamou e fui levado de volta á Grã-Bretanha e à nossa Universidade.
A família não falou mais comigo. Estavam, como Aristóteles analisara nas suas vária obras, especialmente na sua de 330: Ética a Nicómaco, texto que define a liberdade de opção. Liberdade que existe enquanto há meios, mas que desaparece mal o poder nos abandona ou passamos a ser uma carga para o nosso grupo social.
O socialismo é bem ao contrário: apoia, enobrece, acompanha, colabora, governa. Quem nada destas ideias materializa, passa a ser um dinamizador do fascismo.
Fascismo, natural antes da Revolução Francesa, até o ponto de fazer desfilar aos agricultores do sul da França até Paris, invadir as prisões e libertar aos oprimidos que, por não terem trabalho, estavam detido e em prisão eterna. A pior prisão, as Tulherias, desapareceu nesse dia. A França viu nascer a Democracia e lutou por ela até 1944, quando De Gaulle e a Resistência francesa souberam acabar com o domínio dos que queriam se apoderar de todos os povos, para trabalharem para eles e serem servidos pelos escravos que teriam havido no Século XX, caso não se houverem defendido e aliado Estados que tinham.
A igualdade estonteia, mete medo o tratamento de tu a tu, retira a arrogância dos que são despojados, sentimento que faz de quem possuem médios de produção, materiais ou intelectuais, inimigos do povo. O fascismo é uma doutrina praticada normalmente por pessoas poderosas que, para não perder o si para si, até comprometem a sua divindade no carisma da economia monetária. Tremeria Mateus, cobrador de impostos mas discípulo de quem prometia tormento na terra e um eterno descanso no céu, se souber que essa igualdade procurada era banida pelos que todo possuíam, com Missas Solenes para pedir o martírio dos que procuram justiça, dos que justiçam aos justiceiros, dos insolentes que, para tornar ao poder, mentem, opinam, inventam Nem Allende nem Sócrates merecem esse tratamento. O Estado está, por lei, chamado a acautelar a existência de trabalho para todos e a semelhança dos que deixam de ter poder, com quem o herda.
Allende e Sócrates juntos? Apenas pela procura de uma soberania do povo, pelo povo e para o povo. Materialismo histórico) Primeiro-ministro, não tenha medo: ouve o legado de Allende, de Lagos e da Presidenta da República Michelle Bachellet no Chile. Ela viu morrer ao seu pai, fiel à Constituição, o General Alberto Bachellet, socialista democrata como ela, mas nunca arredou pé. Pode-se ver na sua cara, para pensarmos com pé em frente este Domingo.

Ando mesmo preocupado

Inacreditável! A Sociedade Ponto Verde, para evitar falência, vai abandonar a reciclagem de um dos tipos de plástico. E mais grave ainda, deixa no ar, que “na crise que vivemos não há sectores protegidos e alerta para “a gravidade da situação financeira da Sociedade Ponto Verde“. Neste caso específico, e por falta de fundos, a reciclagem de plásticos mistos será interrompida, e todos os resíduos deste tipo irão para aterros ou para incineração. Os efeitos desta acção já são bastante conhecidos e são nefastos. Os ministérios do Ambiente e da Economia vão-se encontrar com responsáveis da SPV para resolver este problema. É e mesmo um problema. É o problema da economia a interferir directamente e prejudicar o equilíbrio ecológico, e por consequência a todos. É o problema duma questão económica se sobrepor a uma questão de saúde pública. Sinceramente, espero que esta decisão seja anulada e que os responsáveis governamentais usem da mesma força com que têm presenteado o país e apoiem financeiramente esta iniciativa da SPV. Mas fico preocupado porque existe também a possibilidade de esta decisão se manter e o plástico não ser reciclado. Tudo porque “está já garantida a meta de reciclagem dos plásticos“. Tudo se resume a números. Apenas e só a números. Isto é mesmo estar a olhar para o saco de plástico do supermercado como o anti-Cristo ecológico e não olhar para tudo o que lá vai dentro. E é tudo de plástico. Numa autêntica “sociedade de plástico” como esta em que vivemos, interromper a reciclagem por questões financeiras deixa-me mesmo preocupado.

ESTÁ NA HORA DE VOLTAR A LUTAR

ESCREVI ISTO, ESTÁ A FAZER UM ANO…

QUE MUDOU ENTRETANTO?
Estará na altura de voltar a lutar?


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Ás armas !

Ás armas !

Contra os …. marchar, Marchar!

Luta, guerra,

Lutem, guerreiem

Não se deixem abater

Portugal está a precisar que se sinta o nosso Hino e se lute.

Gritem e barafustem.

Tudo isto está pela “hora da morte”.

Toda a gente com poder ou que pensa ou sente que o tem, se acha capaz de fazer de nós o que bem lhe apetece, gozando com a nossa cara.

Olhem para os preços da gasolina;

Olhem para a cautela amedrontada do nosso ministro;

Olhem para a qualidade e os preços do ensino;

Olhem para a publicidade enganosa da nossa ministra;

Olhem para os preços da vida;

Olhem para a propaganda maravilhosa dos nossos governantes;

Olhem para o aumento dos crimes violentos;

Olhem para a justiça da justiça no nosso país;

Olhem para o estado da nossa economia;

Olhem para a divulgação sobre o emprego que o governo nos dá.

Olhem e ouçam com olhos de ver e ouvidos de ouvir, o que se passa em Portugal.

Olhem para o meio mundo que está a enganar o outro meio que por sua vez engana o primeiro.

Olhem para tudo isto, e para tudo o mais que infelizmente existe por aí e digam-me se não dá vontade de gritar, de barafustar, e até de lutar para acabar com esta pouca vergonha.

O sentimento geral reinante no nosso país, é o de que vivemos num mundo de larápios, que se sentem com todo o direito de fazer o que fazem, pois que o exemplo maior lhes vem de cima.

Se Henrique Lopes de Mendonça, vivesse no nossos dias, mesmo na falta de um ultimato e de um mapa cor de rosa e tendo em vista a (diz-se de boca a ouvido nas mesas de cafés) aproximação da nossa classe “reinante” a interesses económicos inconfessáveis e a decadência geral do nosso país, teria a mesma vontade de escrever “A Portuguesa”, usando talvez um outro nome para os “bretões” da nossa Pátria.

.

JM

(Publicado no jornal “O Primeiro de Janeiro” – Opinião – em 1 de Outubro de 2008)

.

POEMAS DO SER E NÃO SER

Delicadamente

ela abriu a blusa e levantou os olhos decidida.

Era uma mulher de guerra combatida

daquelas cuja face conta a história.

Mansamente

baixou a medo as alças do soutien

inclinou a cabeça

e fechou os olhos à espera da minha mão.

Depois comemos pão de centeio molhado num gole de azeite

bebemos um capitoso vinho

e fomos à procura de uma paisagem com cegonhas.

 

                         (adão cruz)

(adão cruz)

Poemas com história: Poema ecologista

Era com um longo Poema ecologista (podendo também servir de prefácio) que abria uma colectânea de poemas que publiquei em 1990 – O Cárcere e o Prado Luminoso. Na altura estava envolvido num projecto cuja direcção científica era conduzida pelo Professor Luís de Albuquerque, professor catedrático da Universidade de Coimbra, doutor honoris causa pela de Lisboa, figura cimeira na investigação histórica do período dos Descobrimentos, enfim, um grande intelectual, um cidadão exemplar e um homem bom. Foram alguns anos de convívio intenso, travámos uma grande amizade e, naturalmente, quando publiquei o livrinho, ofereci-lhe um exemplar. Pois Luís de Albuquerque escreveu uma réplica a este poema que hoje vos apresento. Guardo ciosamente o original escrito pelo punho do Professor e hoje compartilho convosco a leitura desse texto. Luís de Albuquerque, em plena actividade, presidindo à Comissão Nacional para a Comemoração dos Descobrimentos, foi ceifado por um acidente cardiovascular e faleceu em Janeiro de 1992. Aqui vos deixo a parte inicial do meu poema e, em baixo, o valioso «contraditório» de Luís de Albuquerque.

Poema ecologista

Vítima de uma certa e cruel
forma de poluição,
de um desgaste acelerado
dos meios naturais,
tal como o bisonte, o castor,
o lince, a cabra selvagem,
o poeta é hoje
um bicho ameaçado de extinção.
A destruição indiscriminada
de elementos essenciais
ao equilíbrio da vida,
a água contaminada, a voragem
que destrói a floresta,
a natureza consumida,
põem em perigo
a existência de muitos animais.
O poeta não se extingue porém
com a dramática violência
da baleia: a fúria utilitária
que se apossou das sociedades,
a súbita transformação
dos cafés em bancos comerciais,
roubaram-lhe o habitat
e ameaçam-lhe a sobrevivência.
Não flutua morto como o peixe
na albufeira da barragem,
entre o pneu velho, o preservativo,
a embalagem perdida,
as garrafas de plástico,
os detritos industriais:
não obedecendo já ao mote,
busca o spot, a «mensagem»
que ajude o pesticida
a matar o peixe e a vender mais
a margarina,
a «promover» o cancerígeno sumo:
aparece uma manhã a boiar
na secretária da agência,
morto heroicamente
ao serviço do consumo.

Não meu Amigo

O poeta não está em vias de extinção.
O lince, o castor, a foca, o homem
não vão resistir
ao fumo fétido das celuloses
suecas,
aos rios contaminados dos detritos das celuloses
suecas,
aos verdes plásticos
que alastram por prados artificiais,
ao crude.
que faz todo o mar negro, negro.
Mas salvam-se as cabras de Cabo Verde
que se riem dos plásticos
e comem-nos.
E com elas salvam-se os poetas
que sabem viver a angústia
de não haver mais amigos nos cafés, nos jardins, na noite,
e são capazes de fazer poemas de tudo,
mesmo dos plásticos.
E a poesia, meu amigo,
não é nada um péssimo produto;
é o único produto
que anda por aí
e não se adultera.
Para a poesia não é necessária a inspecção,
nem a defesa do consumidor.
Cada um consome a poesia que quer
e se ninguém a quer
a poesia morre e não deixa despojos deletérios.
Por isso,
Os poetas não são bichos em extinção
enquanto a poesia circular,
mesmo que seja em meios pútridos,
enquanto houver alguém que a sorva
como sorve o ar ignorado
de cada manhã irrepetível.

Luís de Albuquerque
1990.04.05

albuquerque

Não é o hábito que faz o monge. É o monge que tece o hábito, que usa o monge, que faz o monge

Parece ser um trocadilho, uma brincadeira. No entanto não é. É a lógica da vida. A sonhamos sempre. Ou, sonhamos sempre com a vida. Calderón de la Barca (1), o dramaturgo do Século de Ouro Espanhol, escreveu a sua comédia trágica: La vida es un sueño, onde o príncipe encarcerado para não ser El-rei pensa:

«¡Ay mísero de mí! ¡Y ay infelice!
Apurar, cielos, pretendo
ya que me tratáis así,
qué delito cometí
contra vosotros naciendo;
aunque si nací, ya entiendo
qué delito he cometido.
Bastante causa ha tenido
vuestra justicia y rigor;
pues el delito mayor
del hombre es haber nacido.»

Não seria assim que, no séc. XIX, falaria Karl Marx. Convicto estou de Marx ter sido um devoto luterano, um homem de fé, que escreveu o seu primeiro livro, aos 15 anos, ensaio sobre Religião, com o título Die Vereinigung der Gläubigen mit Christo nach Johanes 15,1-14, in ihrem Grund und Wesen, in ihrer unbedingten Notwendigkeit und inihren Wirkungen dargestellt (União dos Crentes com Cristo, segundo João 15, 1-14, representada no seu fundamento e essência, na sua necessidade incondicional e nos seus efeitos) (doravante Vereinigung), seguido de uma tradução do grego dos versos 140-176 da peça de Sófocles. Karl Heinrich estudou no Ginásio Jesuíta Frederico Guilherme, em Triers, entre 1832 e 1835, onde revolucionou os conceitos de economia e sociologia. O trabalho de Alexander von Humboldt, cientista natural e pesquisador, foi fundamental para a mudança do pensamento burguês de Marx: O princípio da causalidade estabelecido por Humboldt, inspirado no racionalismo de Descartes: “como conheço”, seria para a Geografia: como se constitui o fenómeno? Qual a sua causa primordial? Esta dúvida serviu de mediação para o conhecimento científico que, para ser considerado como tal, deveria ser demonstrado, justificado e só assim considerado verdadeiro, como é dito no texto “A geografia no pensamento filosófico” de Maria Flortice Raposo Pereira, da Universidade Federal de Ceará, pode ser acedido em: http://www.mercator.ufc.br/index.php/mercator/article/viewFile/65/40 e comentado em: http://portalsaofrancisco.com.br/alfa/alemanha/alemanha-5.php. Fonte a que eu próprio recorri para o meu trabalho (de Setembro de 2009): A religião é o ópio do povo, título tirado da introdução do livro de Marx, datado de 1943-44: Crítica aos princípios da Filosofia do Direito, do seu professor Georg Hegel.
Pôde um cristão luterano, instruído e ensinado na fé cristã proferir essa frase? A resposta é, para mim, positiva, porque se trata de um protestante no mais amplo sentido do conceito. A prová-lo aí está o livro em que debate Hegel, mas também o livro que escreveu a sua mulher, baseando-se nas notas do seu marido e de Engels, a Baronesa Católica Prussiana Johana von Westphalen, intitulado O manifesto comunista, de 1848. Baronesa que deixou a vida da corte para redigir os textos do seu marido, passando a ser uma desconhecida que escrevia o que Marx estudava: a economia. Uma família solidária, que entendeu o lucro, definiu a mais-valia e organizou a luta contra o capital e a burguesia que o possuía; fundou a Primeira Internacional ou a Primeira reunião dos Trabalhadores do mundo, em Londres, no ano de 1861, assistiu às iniciativas sindicais e colaborou na união dos trabalhadores, com o sonho de uma sociedade sem propriedade privada nem hierarquias.
Uma família, podemos dizer, à Calderón de la Barca.
Família perseguida e expulsa de vários países europeus pelas suas ideias radicais e pelos textos de Jenny Marx, assinados por Marx e Engels.
Com descendência que soube organizar, após a morte dos seus pais, a Segunda Internacional e colaborar com Kautsky na criação do primeiro partido social-democrata, de socialismo científico.
Família que teceu o hábito que usou, fazendo dos seus membros monges revolucionários.
Donde: Não é o hábito que faz o monge. É o monge que tece o hábito que usa que, por sua vez, faz dele o monge.

(1) Pedro Calderón de la Barca (17 de Janeiro de 1600 – 25 de Maio de 1681) foi um dramaturgo e poeta espanhol. De família acomodada, o seu pai exerceu funções administrativas na corte. Após os extensos e abundantes estudos Universitários no Colégio Imperial dos jesuítas e nas Universidades de Alcalá de Henares e de Salamanca, cursa Humanidades, Clássicos e Teologia, preparando-se para o sacerdócio católico romano, que abandona e parte para a Flandres, onde se torna soldado lutando no cerco da Catalunha. Mais tarde, retorna aos estudos para o sacerdócio, é consagrado padre e adoptado por El-rei como o dramaturgo da corte. Nomeado capelão de Honda delrei, escreveu autos sacramentais, peças de teatro, entremeses, zarzuelas, comédias religiosas, de amor, de ciúmes e filosóficas. Nos seus 60 anos de actividade criativa fixou as regras do teatro espanhol. La vida es sueño, sobre ética e El Alcalde de Zalamea, sobre costumes e justiças, são apenas dois exemplos da sua vastíssima obra.

POEMAS ESTORICÔNTICOS

O Paquete

O Paquete entrou ontem
no serviço de urgência
inchado como um tonel
tenso como um balão
a que só falta o alfinete para estoirar.
Fígado
pulmões
ventre de pandeiro
tudo está encharcado como uma esponja
por um coração entupido.
Sem ar
como se morresse afogado
ou dentro da linguagem médica
como peixe fora d’água.
Insuficiência cardíaca grave
Insuficiência cardíaca descompensada
anasarca…
os vários termos
para rotular o sofrimento atroz
de um jovem sem culpa
igual a tantos outros que jogam ténis.
Socorrido na primeira fase de compensação
e um tanto aliviado
é internado para estudo.
Hoje de manhã
veio fazer um ecocardiograma.
O Paquete tem vinte e seis anos
e uma cara aciganada
morena de si e roxa da cianose.
Começou a trabalhar como moço de trolha
aos treze anos
vergado ao peso da tábua e do balde.
À força de cachaços
lá se erguia
quando aninhava com o abafa.
Nunca alguém o levara ao médico.
Não tive coragem de colher a sua história
antes desta idade
a história da sua infância.
A meio do exame diz-me o Paquete
a medo e quase em segredo
Sr. Doutor
estou à rasca para mijar
deixe-me ir mijar
pelas almas.
No meio de tais máquinas
perante aquela gente de bata branca
que ele nunca vira mais gorda
o sofrimento da sua vida levava-o a pensar
que pedir para mijar era quase um crime.
O Paquete tem uma gravíssima estenose mitral
com severa insuficiência mitral e tricúspide
e um coração do tamanho de uma melancia.
Está numa fase inoperável
a rebentar pelas costuras.
Se operado fosse
tudo não passaria de remendo
em calças a desfazer-se.
Sem a mínima ideia do que se passa
ele submete-se
humilde
desconfiado
medroso
como sempre aconteceu em toda a sua vida.
Tem medo que lhe ponham a tábua à cabeça
ou o balde na mão.
E com aquela falta de ar!
Ele que sempre pediu
para o deixarem respirar um pouco
antes do peso de outra tábua e de outro balde.
O Paquete nunca fora ao médico
e nunca ninguém lhe dera a mão para se erguer.
Todos lhe esfacelaram o coração e a vida
até rebentar!
Pobre Paquete!
Pobre barco tão frágil!
Com as lágrimas nos olhos
saí do hospital.
e escrevi esta história de hoje
de há séculos.
Escrevo-a em especial para os meninos e jovens
que brincam
que jogam
que sonham
e que vão ao médico.

                        (adão cruz)

(adão cruz)

O reyno do Chile


Napoleão no Chile? Engano meu? Velhice que engana o intelecto? Nem por isso. Napoleão Bonaparte andou por todos os sítios dentro e fora da Europa, em pessoa ou por meio de representantes. A França, por causa das guerras de Conquista de Napoleão, governava a Europa e decretou um bloqueio dos portos do Velho Continente para derrotar a Grã-bretanha e cercá-la pela fome. Até estar certo de ser obedecido, raptou o rei Bourbon, em Espanha, Carlos IV e o príncipe herdeiro, mais tarde Fernando VII. Nomeou o seu irmão José, Rei de Espanha entre 1808 e 1813, e entrou em Portugal para raptar os Bragança e dividir o país em três reinos. Mas os Bragança fugiram rapidamente para a sua colónia do Brasil, com D. João IV como rei e a corte toda, instalando a Capital do Império Português no Rio de Janeiro. Épocas e tempos em que todas a monarquias europeias tinham como escravos os membros do Novo Continente: trabalho sem pagamento, arrecadação de bens, vendidos mais tarde a outras colónias latinas ou metrópoles europeias a preço de ouro. Napoleão ditou um código em 1804 (1), que ainda nos governa, para criar igualdades entre governos centrais, cidadãos europeus nas colónias e crioulos ou filhos de europeus nascidos nos países dominados, esses apropriadores da terra nativa para seu proveito. Fernando de Bourbon derrubou no seu pais Calos IV que, no seu dourado exílio francês, passou a ser Fernando VII sem coroa, sem Estado nem colónias para mandar. As colónias, conforme o uso dos tempos, pertenciam às famílias reinantes.
No Reyno do Chile, essa parte da propriedade da família Bourbon, entre 1808 e 1813, sentiu-se sem ninguém para a governar. O representante da coroa teve de ouvir os intriguistas de sempre, todos esses bascos que tinham boas terras e fazendas, exportações de indústrias de curtumes, especialmente na região do Maule, cidade de Talca, o rim da aristocracia chilena durante esse anos – e ainda hoje: fazem-se chamar Talca, Paris e Londres. Cidade e região que explorou os proprietários da terra – o clã Picunche (que eu estudo), da etnia Mapuche, habitante do Chili de tempos sem memória e sem escrita. Para todos os proprietários com o nome com duas letras r no apelido (bascos), os Picunche eram os seus jornaleiros, denominados inquilinos que na língua da terra, o mapudungun, significa subjugados, como tenho definido no meu texto de 1998 (2). A escravidão tinha sido abolida no Chile nos anos 50 do Século XIX, eufemismo que continua até aos nossos dias: o inquilino trabalha as terras do proprietário, sem mais pagamento do que a entrega de alguma terra para sustento da família que a tem de trabalhar. Na época da conquista da terra do fim do mundo (3), os Mapuche, fossem Picunche, Huilliche, Mapocho ou Pehuenches, eram os livros dos invasores. Invasores desconhecedores do cultivo da batata, da beterraba, do milho e do trigo. Engrolavam os reais donos da terra, que dormiam em terra soterrada feita prisão, como tenho estudado nos arquivos dos jesuítas do Século XVII, que por bom azar encontrei escondidos ao pé das palmeiras da vila de Pencahue, Talca, Do que li, estudei e interpretei, com a minha equipa chilena, resultaram, pelo menos, cinco livros. Quem caia morto durante o trabalho, era de imediato enterrado numa finca destinada a cemitério, perto de Curepto, entre Talca e Linares, Vilas as duas. O terreno era denominado Huenchumali, a terra dos mortos, em mapudungum. Levei as crianças por mim analisadas para entender a história do país, escreveram textos, ainda comigo, em 1997, base de vários livros meus sobre crianças, especialmente o do ano 2000 (4).
O Governador em nome do rei da Espanha, o criollo (5) Dom Mateo de Toro e Zambrano, reparou um dia que não tinham Rei, convocou um Cabildo ou Concelho de Governo que o apoiava na gestão e declarou: Não há rei, não tenho direito a Governar. Dou-vos o bastão e o mando. Lá ficaram os membros do Cabildo a deliberar, escolheram o Conde como Governador, nesse dia de 18 de Setembro de 1810. Foi o dia da declaração da Independência. O Conde da Conquista faleceu em 1813, e um Consulado de três, foi criado para governar o país. Havia os que queriam Rei, os que queriam República e os do Governo por Cabildos. 100 anos durou o debate na base de Governos Presidenciais, eleitos por sufrágio aberto para os ricos. O povo não votava. O Consulado, presidido por José Miguel Carrera, mandou organizar um Congresso. Congresso bicameral, no qual o herói mais importante do Chile, Manuel Rodríguez Elroiza, foi membro. Um Manuel Rodríguez que, aquando da tentativa da Monarquia Ibérica retomar as sua colónias, não apenas ajudou a organizar o Exército Libertador, chefiado pelo recentemente aparecido agricultor, filho do Vice-rei de Espanha no Peru, Bernardo O’Higginns Riquelme, que com a colaboração da primeira República libertada, Argentina e o seu Ditador, o General José de San Martín, como participou na batalha travada contra as forças realistas, ganha por estas gentes do Novo Continente, que em 1818, ficaram livres dos espanhóis. Manuel Rodrigues organizou os montoneros ou resistência dentro do país que foram a base da liberdade, sempre pensada como realizada pelo exército chileno argentino.
Nesse ano de 1818, no sítio da derradeira batalha, Maipú, à entrada da Capital, a Nossa Senhora do Carmo foi jurada Padroeira do Chile. Até ao dia de hoje é dia livre e santo o dia da batalha de Maipú, 5 de Abril de 1818. O dia da Padroeira que em Castelhano é La Virgen Del Cármen, se comemora a 15 de Junho de cada ano, dia da sua primeira aparição no Monte Carmelo no Século VI, na Itália. Bernardo O´Higgings e José de San Martín juraram a La Virgen del Cármen, como a Padroeira dos chilenos. A seguir, O’Higgins foi declarado Director Supremo da Nação, governou até 1822, data do seu exílio pelo Congresso. Entregou as insígnias do mando oferecidas pelos Depautados, saiu nu de poder, enveredou para o seu cavalo, foi-se embora ao Peru e nunca mais voltou a pisar terras chilenas. Aos finais do Século XIX, em acto de reparação por parte dos poderes, o seu cadáver foi repatriado e preside, em Mausoléu, o Cemitério Geral, que ele fundara para os ateus como ele.
Chile foi Descoberto pelo Adiantado Mor Diego de Almagro em 1539. Nada interessante encontrou. O Extremenho e Capitão Pedro de Valdivia, a sua Companheira Inês de Suárez mais doze soldados e uma série de yanaconas ou nativos Quechua, persistiram e fundaram Santiago do Chile a 12 de Outubro de 1542.
O que comemoramos hoje é o dia de liberdade: esse primeiro 18 de Setembro de 1810: 199 anos de liberdade, uma República sempre em formação, como o eram também a Europa do mesmo Século e a fundação, por Karl Marx, da União dos trabalhadores em Londres, no ano de 1861. Mundos distantes, mas sempre o mesmo ensejo: sermos livres e sabermos optar.
Como é o Chile de hoje. Não pela Padroeira, mas sim pelos esforços livres dos seus habitantes na sua capacidade de optar.

1) O Código Napoleónico (originalmente chamado de Code Civil des Français, ou código civil dos franceses) foi o código civil francês outorgado por Napoleão I e que entrou em vigor em 21 de Março de 1804. O Código Napoleónico propriamente dito aborda somente questões de direito civil, como o registo civil ou a propriedade; outros códigos foram posteriormente publicados abordando direito penal, direito processual penal e direito comercial. O Código Napoleónico também não aborda como as leis e normas deviam ser elaboradas, matéria para uma Constituição.
Este Código, propositadamente acessível a um público mais amplo, foi um passo importante para estabelecer o domínio da lei. Antes, a lei era a vontade do Soberano – eis o motivo para designar o mona
rc
a – e o proprietário das terras retiradas aos nativos pelo chamado direito de Conquista, baseado no Direito Romano. O Código Napoleónico baseou-se em leis francesas anteriores e também no Direito Romano e seguiu o Código Justiniano (Corpus Juris Civilis) dividindo o direito civil em:
1. a pessoa
2. a propriedade
3. a aquisição da propriedade
A intenção por detrás do Código Napoleónico era a reforma do sistema legal francês de acordo com os princípios da Revolução Francesa. Antes do Código, a França não tinha um único corpo de leis, que dependiam de costumes locais, criando-se frequentemente isenções e privilégios dados por reis ou senhores feudais. Durante a Revolução os vestígios do feudalismo foram abolidos e os vários sistemas legais deram lugar a um único código. Entretanto, devido às agitações revolucionárias a situação não caminhou até à era napoleónica. Fonte: a obra de Ferdinand Braudel, o livro Tratado Elementar do Direito Romano, de Èugene Petit, 1ª edição, 1989 e as Institutas e Digesta do Código Civil do Imperador Justiniano, de 535 da nossa era, textos comigo em edições do Século XIX. O de Justiniano foi a base, como diz Petit, do liberalismo do Código de Napoleão, ditado por ele ao seu grupo de juristas entre 1801-1804. Motivo que o levou a expandir o liberalismo pelos quatro cantos do mundo.

2) Iturra, Raúl, 1998: Pedagogia do oprimido. As minhas memórias de Paulo Freire, em Educação, Sociedade e Culturas Nº 10, Outubro, Afrontamento, Porto, pp 83-108. Pode-se ler em: http://www.fpce.up.pt/ciie/revistaesc/ESC10/10-3-iturra.pdf .

3) Palavra Aimara que assim define o Chile ou Chili, enquanto para os Quechua do Peru, Bolívia e Equador , Chili é o país do frio. Fonte: as minhas pesquisas no Chile a partir de 1994, época em que, desde a Grã-bretanha e Portugal, voltei para estudar o meu país de origem.

4) Iturra, Raúl, 2000: O saber sexual das crianças. Desejo-te, porque te amo, Afrontamento, Porto, 150 pp.

5) Criollo no Chile desses tempos, eram os filhos de Ibéricos nascidos no Chile. Desde 1823 passaram todos a ser chilenos, por Decreto assinado pelo agora Director Supremo do Chile, o Libertador Bernardo O’Higgins, por Decreto que declara a Independência do Chile e cria a cidadania chilena para todos os que tenham nascidos dentro do limites da nova República, Decreto que passa a ser lei na Primeira Constituição de 1822. Relatado e analisado no meu livro Como era quando não era o que sou. O crescimento das crianças, Profedições, Porto, 175 pp.

Ambiente – o desafio da UE

“As alterações climáticas envolvem ciência, economia e tecnologia. Porém, neste momento um acordo depende de decisões políticas. Precisamos de uma abordagem nova e precisamos dela rapidamente.” (Ministro dos Negócios Estrangeiros Britânico).

Este é o próximo desafio para a UE, não chega ver o Ambiente como troca entre países de produção de CO2 ou mesmo empurrar para os países menos desenvolvidos as indústrias mais poluentes. Não, trata-se de um novo modelo económico assente em novas tecnologias que exigem inovação e competências novas.

As alterações climáticas que dentro de poucos anos poderão ser dramáticas, assim o exigem. A União Ambiental, próximo desafio da UE deve constituir o elemento catalisador para um mundo liberto de carbono, ou para além dele.

A não ser este o caminho a percorrer a escassez de recursos é um dos mais dramáticos problemas que se colocam no horizonte, e que já foi a segunda razão mais importante na actual crise, logo a seguir à escassez de crédito. Vamos ter movimentos migratórios em massa, seca e escassez de água, com enormes conflitos sociais nacionais e internacionais.

O Ambiente deixou de ser um problema de uns quantos jovens hiperactivos e passou a ser um problema global.

PS: No ano passado estive na Patagónia, no sul da Argentina, fui ver as neves que deixaram de ser eternas, a serem sugadas inexoravelmente, pelas águas da baía de Vito Moreno. A milhares de quilómetros de distância da mais próxima fonte de poluição

Contos Proibidos: Memórias de um PS Desconhecido. Mário Soares e o financiamento do PS

Mário Soares ia, entretanto, aproveitando algumas das suas viagens enquanto ministro dos Negócios Estrangeiros para angariar alguns fundos para o PS. Mas, apesar de alguns contributos iniciais dos partidos sociais-democratas escandinavos, do SPD e de uma campanha de angariação de fundos lançada na Holanda pelo PVDA (PArtido Trabalhista), os apoios financeiros estavam longe de ser o que muitos imaginavam e se insinuava. Segundo consegui apurar, o movimento sindical noruguês deu pela primeira vez ao PS, em Maio de 1974, após visita a Oslo de Francisco Ramos da Costa, cem mil coroas norueguesas. E demonstrando os seus bons contactos internacionais e capacidade de angariação de fundos, também o PSD da Dinamarca forneceria cinquenta mil coroas enviadas através do Banco Espírito Santo e Comercial de Lisboa.(…)
Pelos meus cálculos, com base na pesquisa informal que eu próprio faria posteriormente, deduzi que, em 1974, o PS não recebeu de partidos «irmãos» montantes significativos e nem de longe minimamente comparáveis aos que os serviços de informação americanos afirmavam o PCP estar a receber! Aliás, só o secretário-geral sabia exactamente quanto e de onde recebia o dinheiro, sendo certo que, na prática portuguesa, o controle financeiro dos partidos está intimamente ligado ao controle do próprio partido. Não admira que este tipo de informação permaneça fechado e que as leis da chamada transparência, aprovadas pelos principais partidos políticos, permaneçam ainda hoje tão opacas!

O socialismo hoje. Uma social-democracia

O socialismo (1) hoje. Uma social-democracia

É-me quase impossível começar um pequeno comentário sobre o sistema socialista de gerir os bens sem começar por uma definição. A definição é a citação do meu mais recente livro acabado a 19 de Setembro: A religião é o ópio do povo (2), escrito especialmente para o IV Congresso da Associação Portuguesa de Antropologia (APA), fundada por mim e outros em Abril de 1989.
O socialismo de hoje é bem diferente do analisado no livro citado. O socialismo de ontem era de várias espécies. Tinha nascido com a Revolução Francesa, a queda da Monarquia Absoluta como forma de Governo com um sistema de propriedade em que todo pertencia à coroa reinante, que a entregava ou aos seus familiares, seus parentes mais chegados, ou a agricultores que sabiam lavrar a terra e criar animais, sempre a pagar com grande parte do produto a quem lhes cedesse esses meios de produção. Por outras palavras, nem gestão socialista dos bens existia até ao dia em que o Conde Henry de Saint-Simon começara a partilhar os lucros das suas indústrias, com os seus operários. Era o denominado socialismo utópico (3).
O socialismo utópico influenciou uma série de intelectuais, especialmente académicos e pessoas de fé. Entre eles, o pai de Karl Marx, Hirschel Marx, advogado hebraico, antes da sua conversação ao cristianismo por conveniência, baptizado na Igreja à qual servia, em conjunto com os seus dois filhos, Karl Heirich de 6 anos e Sophie de 10, e sua irmã mais velha, em 1824. O pai e o filho eram membros de um clube de leitores, ao qual assistia também o professor Ludwig Gall, que tinha estudado Saint-Simon e debateu as suas ideias com o pai e o fliho. Aos 15 anos, Marx, além de cristão, era um Saintsimoniano político. O socialismo de Saint-Simon prosperou e Marx e os seus amigos, especialmente o irmão da sua namorada, a Baronesa Johanna von Westphalen, Edgard, passaram a ser socialistas utópicos.
Ao longo dos seus estudos universitário em Bona e Berlim, Marx não ficou nada satisfeito com o denominado socialismo utópico e começou com o seu amigo Friedrich Engels e a sua mulher a entender que a economia era a ciência que governava o mundo. Calada e silenciosa, a Baronesa, já nesses tempos Jenny Marx ouvia os debates dos amigos, juntava os papéis nos quais eles gatafunhavam ideias sobre a propriedade, os salários, o operariado, a propriedade dos meios de produção, conceitos criados por eles e, sem dizer nada, bem criada e educada como era essa aristocrata mulher, em Janeiro de 1848, redigiu só o denominado nesse tempo O Manifesto do Parido Comunista, publicado pela primeira vez em 21 de Fevereiro de 1848 a pedido da Liga dos Comunistas de Marseille que começa logo com esta frase: Um espectro ronda a Europa – o espectro do comunismo.
Todas as potências da velha Europa unem-se numa Santa Aliança para conjurá-lo: o papa e o czar, Metternich (4) e Guizot (5) , os radicais da França e os policiais da Alemanha. Que partido de oposição não foi acusado de comunista pelos seus adversários no poder? Que partido de oposição, por sua vez, não lançou aos seus adversários de direita ou de esquerda a pecha infamante de comunista? O documento que revolucionara ao mundo, de apenas 21 páginas, é um ataque contra a burguesia que explorava ao povo (6)
Duas conclusões decorrem desses factos:
1a. O comunismo já é reconhecido como força por todas as potências da Europa;
2.a. É tempo de os comunistas exporem, à face ao mundo inteiro, seu modo de ver, os seus fins e as suas tendências, opondo um manifesto do próprio partido à lenda do espectro do comunismo”.
Este era o socialismo do Século XIX. O de Saint – Simon foi uma base apenas, como as ideias do britânico George Owen e outros, todo analisado no meu livro já publicado.
O texto parte de uma ideia que Jeny Marx bem conhecia: de uma análise histórica, distinguindo as várias formas de opressão social durante os séculos, e situando a burguesia moderna como nova classe opressora. Não deixa, porém, de o citar seu grande papel revolucionário, tendo destruído o poder monárquico e religioso, valorizando a liberdade económica extremamente competitiva e um aspecto monetário frio em detrimento das relações pessoais e sociais, assim tratando o operário como uma simples peça de trabalho (7).
Eis porque o socialismo de hoje não pode ser como os de os Marx e Engels. A análise é contra a propriedade privada e as relações abusivas da burguesia contra o povo explorado. É bem certo que o socialismo em Portugal nasceu como um movimento socialista marxista, mas no decorrer do tempo, o materialismo histórico tem desaparecido por causa do capitalismo, como Marx tinha previsto nos seus textos, foi em frente e ultrapassou as ideias da Revolução Francesa e os princípios do Direitos do homem redigidos por Jefferson durante a Independência do hoje Estados Unidos, enquanto que os princípios dos Direitos do Homem e do Cidadão, do Abade Sieyès, retirados do texto de Jefferson, foram ultrapassados também pela ascensão da burguesia para o grupo explorador.
Apenas fica a ideia de Afirmam sobre o proletariado: “Sua luta contra a burguesia começa com sua própria existência”. O operariado, tomando consciência de sua situação, tende a organizar-se e a lutar contra a opressão, e ao tomar conhecimento do contexto social e histórico onde está inserido, especifica o seu objectivo de luta. A sua organização é ainda maior, pois toma um carácter transnacional, já que a subjugação ao capital despojou-o de qualquer nacionalismo. Outro ponto que legitima a justiça na vitória do proletariado seria a de que este, após vencida a luta de classes, não poderia legitimar o seu poder sob forma de opressão, pois defende exactamente o interesse da grande maioria: a abolição da propriedade. (“Os proletários nada têm de seu para salvaguardar”).
Este sonho dos Marx e Engels, analisados por mim no livro que estou a editar «Capítulo 4: As pretensões da família Marx», parece ficar sintetizada nesta frase: no quarto capítulo fecha com as principais ideias do Manifesto, com destaque na questão da propriedade privada e motivando a união entre os operários. Acentua a união transnacional, em detrimento do nacionalismo esbanjado pelas nações, como manifestado na célebre frase: “Proletários de todo o mundo, uni-vos!”
O socialismo português, estudado no meu livro «Para sempre tricinso. Allende e Eu Tinta da China», no prelo, tem argumentos suficientes para definir que o PS foi criado no estrangeiro e que entre os seus princípios estava o materialismo histórico não apenas como forma de análises, mas como princípio. O XIII Congresso do PS de 2007, diz: 1. Partido Socialista é a organização política dos cidadãos portugueses e dos outros cidadãos residentes em Portugal que defendem inequivocamente a democracia e procuram no socialismo democrático a solução dos problemas nacionais e a resposta às exigências sociopolíticas do mundo contemporâneo.
O Partido Socialista considera-se herdeiro e representante do grande movimento social e político que, a partir dos meados do século XIX, conduziu a luta por sociedades mais justas e solidárias. Essa luta, desenvolvida na frente ideológica, sindical e política, foi determinante para a fundação e a consolidação das democracias contemporâneas e para a consagração e a efectivação dos direitos sociais.
Em Portugal, o pensamento e a acção socialista também remontam à segunda metade do século XIX. O ideal do socialismo democrático passou, desde então, por várias crises, mas nunca deixou de estar presente na sociedade portuguesa. A raiz do PS está indissoluvelmente ligada a esta matriz original.
Na sua forma actual de partido, o PS foi fundado em 1973, através da transformação da Acção Socialista Portuguesa, que havia sido criada em 1964. Nas
ce
u e cresceu na luta contra o fascismo e pela instauração da democracia. A sua história identifica-se com a resistência à ditadura e a construção de uma democracia pluralista e socialmente avançada. Para o PS, a liberdade foi sempre o elemento essencial do combate por uma sociedade mais solidária, justa e fraterna, mais igualitária e coesa; e o pluralismo das ideias e das opiniões foi sempre a marca característica, não só do seu funcionamento e da sua acção como partido, como também do projecto que concebe para a organização política e social de Portugal e da União Europeia
. (8)
A Acção Socialista Portuguesa foi fundada em Genebra por Mário Soares, Manuel Tito de Morais e Francisco Ramos da Costa, em Novembro de 1964. Representando um novo esforço de estruturação do movimento socialista, o certo é que não logrou estabelecer as bases de implantação a que aspirava, conciliando dificilmente os instrumentos de luta na clandestinidade com as poucas possibilidades de intervenção legal permitidas pelo regime salazarista.
A ASP iniciou a publicação do Portugal Socialista em Maio de 1967, estabelecendo também numerosos contactos com partidos e organizações internacionais, sendo formalmente admitida na Internacional Socialista em 1972.
Foi o embrião do futuro Partido Socialista (9).
O Partido Socialista na Europa sempre fugiu da análise materialista. Orientou os seus militantes contra a ditadura, o colonialismo e em prol do sindicalismo democrata. O Partido Socialista português teve uma excisão, até ao ponto de se organizar em 1964 o Movimento Marxista-Leninista Português.
Marx nunca passou por Portugal, apesar de que a seguir ao 25 de Abril, bem como antes, todos os partidos de esquerda estavam unidos para derrubar a ditadura. O marxismo passou pela mão de Álvaro Cunhal e de Rui D’Espinay (10).
Portugal e Espanha exploravam colónias, e operários de países altamente rurais. Em relação ao Chile, a tentativa de materialismo histórico democrata, já sabemos a história. Allende declarou o PS Chileno como materialista histórico, mas nunca leninista: eram outras sociedades e outros tempos. O Leninismo faleceu com Lenine e ficou apagado. O materialismo histórico tem sido a luta dialéctica para se libertar da opressão burguesa.
Fica, o resto da história, para os meus livros e outros textos deste bloge. Apenas comentar que o PS de hoje não anda de mãos dadas, mas também não se trata mal com o PSD.

(1) Socialismo refere-se a qualquer uma das várias teorias de organização económica advogando a propriedade pública ou colectiva e administração dos meios de produção e distribuição de bens e de uma sociedade caracterizada pela igualdade de oportunidades/meios para todos os indivíduos com um método mais igualitário de compensação. O Socialismo moderno surgiu no final do século XVIII tendo origem na classe intelectual e nos movimentos políticos da classe trabalhadora que criticavam os efeitos da industrialização e da sociedade sobre a propriedade privada. Karl Marx afirmava que o socialismo seria alcançado através da luta de classes e de uma revolução do proletariado, tornando-se a fase de transição do capitalismo para o comunismo. A ideia é minha, retirada do livro que escrevo: Marx, um devoto luterano, com as palavras do texto que escrevo e de: http://pt.wikipedia.org/wiki/Socialismo
(2) Iturra, Raúl, Setembro de 2009: A religião é o ópio do povo Pode-se ler em: https://repositorio.iscte.pt/handle/10071/1522
(3) Claude-Henri de Rouvroy, Conde de Saint-Simon, (Paris, 17 de Outubro de 1760 — Paris, 19 de Maio de 1825), foi um filósofo e economista francês, um dos fundadores do socialismo moderno e teórico do socialismo utópico. Para este autor, Saint-Simon, o avanço da ciência determinava a mudança político-social, além da moral e da religião. É considerado o precursor do Socialismo, pois, no futuro, a sociedade seria basicamente formada por cientistas e industriais. O pensamento Saint-simoniano pode ser visto nas obras de 1807 a 1821, com o lema: “a cada um segundo sua capacidade, a cada capacidade segundo seu trabalho”. Em um dos seus primeiros livros, Lettres d’un habitant de Genève à ses contemporains, publicado em 1803, ele propõe que os cientistas tomem o lugar dos padres para conduzir a era Moderna. A violência da guerra napoleónica leva-o a se abrigar no Cristianismo, e de uma base Cristã construir as bases para uma sociedade socialista. Previu a industrialização da Europa e sugere uma união entre as nações para acabar com as guerras.
Quando Saint-Simon falou sobre a nova sociedade, imaginou uma imensa fábrica, na qual substituiria a exploração do homem pelo homem para uma administração colectiva. Assim, a propriedade privada não caberia mais nesse novo sistema industrial. Vale notar que existiria uma pequena desigualdade e a sociedade seria perfeita depois de reformar o Cristianismo. Ainda disse que o homem não é apenas algo passivo na História, pois sempre procura alterar o meio social no qual esta inserido. Essas alterações são importantes para que a sociedade seja desmembrada, quando esta sociedade funciona dentro das normas que a ela correspondam, pois não é possível colocar uma regra de uma sociedade em outra.

(4) Klemens Wenzel Lothar Nepomuk von Metternich, príncipe de Metternich-Winneburg-Beilstein, (Coblença, 15 de maio de 1773 — Viena, 11 de junho de 1859) foi um diplomata e estadista do Império Austríaco.
Após a queda de Napoleão, apoiou vigorosamente a restauração da dinastia dos Bourbon em França, e foi um dos mais distintos apoiantes da reconquista absolutista em Portugal, por D. Miguel, opondo-se vivamente ao governo liberalista, após o retorno deste ao poder português. Presidiu o Congresso de Viena, tendo influenciado profundamente as decisões tomadas neste.

(5) François Pierre Guillaume Guizot (n. 4 de Outubro de 1787, Nîmes – f. 12 de Setembro de 1874 ) foi um político francês. Ocupou o cargo de primeiro-ministro da França, entre 19 de Setembro de 1847 a 23 de Fevereiro de 1848. Se Guizot é referido no Manifesto, deve-se a coincidência de datas entre a redacção do Manifesto e a chefia da burguesia pelo Primeiro-ministro da França, que era Guizot.

(6) Pode-se ler em: http://ateus.net/ebooks/geral/marx_manifesto_comunista.pdf

(7) Retirado do meu livro antes citado, que pode ser lido com esta ligação na ligação da nota 2 deste texto.

(8) Texto completo em: http://www.ps.pt/index.php?option=com_content&task=blogcategory&id=30&Itemid=39

(9) História completa em: http://www.ps.pt/index.php?option=com_content&task=blogcategory&id=29&Itemid=38

(10) História completa em: http://www.google.pt/search?hl=pt-PT&rlz=1W1ADBR_en&q=ac%C3%A7%C3%A3o+socialista+portuguesa+marxismo&btnG=Pesquisar&meta= Como na Espanha, eram países que tinham outros problemas longínquos da luta da Primeira Internacional presidida por Marx, e dos problemas da América Latina.

Falando de democracia: Rotativismo e «alternância democrática»

Há um provérbio beduíno que diz, mais ou menos, «por cada vez que olhares para trás, olha três vezes para a frente». Vem isto a propósito daquela tese, se assim lhe podemos chamar, segundo a qual a história se repete. Eu diria que, mais do que uma tese, é uma superstição. Um político que se guiasse por esse princípio no exercício da sua função, seria como um automobilista que conduzisse o carro olhando para o retrovisor. Senão vejamos – já por diversas vezes me têm chamado a atenção para a similitude entre aquilo a que, nos nossos dias, chamamos o «bloco central» e «alternância democrática» (e ainda «pacto de regime») e o sistema político-partidário que antecedeu a ditadura de João Franco (1906) e deu pelo nome de «rotativismo». Vejamos então o que há de comum e o que existe de diferente entre a realidade portuguesa de há pouco mais do que um século e a situação política actual.
O rotativismo fora experimentado na Grã-Bretanha desde meados do século XIX, com tories e whigs alternando-se no governo. Em Portugal, houve um primeiro ensaio do sistema entre 1851 e 1865, com os partidos Histórico e Regenerador. Em 1876, da fusão do partido Histórico com o Reformista, nasceu o partido Progressista, sob a liderança de Luciano de Castro. Foi este quem defendeu nas duas Câmaras a implantação de um sistema bipartidário, com um partido conservador e outro mais liberal alternando-se no Poder. Os partidos Regenerador e o Progressista assumiram esse papel e o sistema funcionou até que o Ultimato britânico de 1890 provocou uma crise que se prolongou até 1892, impedindo o sistema de funcionar. No ano seguinte começou a derradeira fase do rotativismo. Em 1906, o Partido Regenerador-Liberal, liderado por João Franco, venceu as eleições legislativas. O rotativismo acabou. Entretanto, desde a traumática questão do ultimato, que desacreditou não só a instituição monárquica como também o próprio sistema parlamentar, o Partido Republicano e o Partido Socialista (nada tinha a ver com o actual, a não ser o nome) ganharam força. As Cortes transformaram-se numa liça de lutas verbais (e não só). D. Carlos quis reforçar o poder real e encarregou João Franco de formar um governo de ditadura – um pouco como aquilo que Manuela Ferreira Leite sugeria quando falou de «seis meses sem democracia, para pôr tudo na ordem» – a ideia do rei era mesmo essa, pôr tudo na ordem (menos ele, claro), mas a coisa não resultou – em 1908 deu-se o Regicídio e em 1910 a proclamação da República.
A democracia como sabemos, nos seus primeiros tempos, quer em 1910, quer em 1974, provocou agitação e aquilo a que os amantes da ordem, e os nostálgicos do antigo regime, chamam caos. De facto, durante a ditadura do Estado Novo, reinara uma paz e uma ordem semelhantes às que imperam nos cemitérios. Foi então que, em nome da estabilidade política, começaram a irromper os «pactos de regime» e começou a edificar-se o «bloco central»com uma «alternância democrática» no poder partilhada por PS e por PSD.
Comparar o rotativismo com a «alternância democrática» faz algum sentido na medida em que ambas as soluções conduzem a uma situação efectiva de não-democracia, àquilo a que se usa designar por «partidocracia» e de que já aqui falei. Quando vejo, agora neste período eleitoral, sobretudo, a sanha com que PS e PSD se digladiam, se denunciam reciprocamente, não posso deixar de pensar que se trata não de uma comédia representada para povo ver, mas de uma luta real não pelos interesses nacionais, como nos querem fazer querer, mas pela ocupação de um poleiro de onde se pode chegar aos tachos, distribuí-los pela família e pelos amigos, não esquecendo os adversários, que amanhã, por certo, os substituirão no governo e retribuirão a gentileza. É o chamado «acordo de cavalheiros». Os grandes grupos económicos apostam num ou noutro dos dois grandes partidos, embora não se lhes possa exigir fidelidade. Apoiam, contestam ou apeiam ao sabor dos seus interesses – convicção política é coisa incompatível com esses interesses.
É ocioso estarmos a discutir se queremos ou não queremos, se gostamos ou não gostamos do «bloco central», como diz Mluciano Amaral em artigo do «Diário de Notícias», o «bloco central» ou «pacto de regime» instalou-se no dia em que Sá Carneiro morreu: «uma social-democracia e um welfare state que nunca foram grande coisa, agora claramente disfuncionais e (o que é mais) muito brevemente inviáveis. O PS nunca quis mais do que isto. E a partir do dia em que caiu o avião em Camarate, o PSD também não». Porém, para que o «bloco» funcione, é preciso que os dois partidos se digladiem, que se acusem, que descubram falcatruas no campo oposto – Isaltino de Morais, Avelino Ferreira Torres, Fátima Felgueiras, são as personagens pícaras da mesma tragicomédia – a commedia dell’arte da democracia. Commedia onde não faltam Pantaleões, Pierrots, Columbinas, Arlequins e Polichinelos – embora polichinelos como Alberto João Jardim sejam nefastos para o sistema, pois põem a nu a fragilidade da sua estrutura. E vêm provar que a moral desta comédia é precisamente não haver moral.
Isto que temos, este sistema teoricamente multipartidário, mas bipartidário na prática, é uma democracia? Claro que não? Há liberdade de expressão e há liberdade de associação, mas falta um dos pressupostos do demokratía (governo popular ou do povo) – por acaso, o principal dos seus pressupostos que é a de ser o povo a governar. Salazar era tacanho e, fez a tradução do grego muito à letra – (Governo do povo? Era o que faltava!) não compreendeu um dos mecanismos essenciais das sociedades modernas – o poder do marketing político. Quando, após a vitória dos aliados, converteu o seu fascistóide regime corporativo, na tal «democracia orgânica» – faltou-lhe dar o passo decisivo – proceder a eleições livres, sem fraudes nos cadernos eleitorais nem «chapeladas» – talvez não ganhasse as primeiras eleições, mas acabaria por ganhar. Mas a democracia era, para o seu espírito moldado à dimensão de Santa Comba e do seminário de Viseu, um papão. Os partidocratas deram esse passo. E afinal não aconteceu nada. O País é deles, os cargos e sinecuras são deles. O que mudou de essencial? Podem falar à vontade, dizem eles., que é como quem diz – «falem pr´áí». Temos de nos contentar com isso?
Não perfilho a ideia de que a «história se repete», pois é um conceito acientífico, que remete mais para o foro da superstição religiosa, fugindo à objectividade com que os fenómenos históricos devem ser analisados. Diria, perante certas listas de coincidências que por aí circulam (algumas forjadas) que se trata não de ciência histórica, mas de curiosidade de almanaque. No entanto, não pode duvidar-se que, em circunstâncias idênticas, a humana condição leva os acontecimentos pela rédea e conduz a comportamentos e soluções também idênticos.
Semelhanças entre o rotativismo e este sistema de «alternância democrática», apenas uma: quando uma classe, um grupo social ganha o poder, cria mecanismos para os conservar. É difícil comparar Portugal e o Mundo de há um século com os de hoje. Há cem anos as economias nacionais eram compartimentadas e as respectivas políticas também. Hoje, com tudo o que tem de fantasioso, a globalização torna-nos mais dependentes do que éramos então – se em Nova Iorque abrem uma porta e uma janela, nós constipamo-nos com a corrente de ar. Porém, hoje como há um século, há uma elite político-económica que apenas está dividida por questões formais e que, para preservar «valores» comuns, como o da prevalência dos seus interesses, encontra acordos tácitos que não necessitam de ser lavrados em documentos – pacto de regime, bloco central, alternância democrática, rotativismo… um partido aparentemente mais de direita, outro formalmente mais de esquerda (para dar o toque democrático), mas visand
o
ambos o mesmo objectivo – conservar o poder – lutam pelo «poder». O resultado não precisa de ser combinado – ganhe quem ganhar, o poder dos grandes grupos político-económicos não será posto em risco. Hoje como há cem anos, governam partidos governados por gente afim. Há cem anos, uma elite de bacharéis e de negociantes endinheirados, hoje um escol de licenciados (uns mais do que os outros) dependente das multinacionais, das grandes empresas indígenas e, last but not least, das centrais de inteligência, dos centros de poder político mundial..
Agora que olhámos uma vez para o retrovisor, olhemos, de olhos bem abertos, as próximas três para a estrada que á frente se nos abre. Porque os beduínos devem ter razão. Semelhanças com o rotativismo de há cem anos, só esta – quando uma classe ou um grupo social atinge o poder, muda as regras do jogo de modo a ganhar sempre. Mesmo quando parece que perde.

A Sua Excelência, o Dr. Salvador Allende Gossens

Nota da Administração: O prof. Raul Iturra pediu expressamente que este texto fosse publicado apenas hoje, dia 12 de Setembro. Por ter nascido no Chile, ontem foi dia de luto para ele.

Ontem, 11 de Setembro de 1009, estive em silêncio. Era o aniversário do assassinato do Presidente Constitucional do Chile, Sua Excelência Dr. Salvador Allende.
Dr. por ser médico e não por arrogância, como em muitos sítios da Europa e da América Latina, continentes onde apenas se tem um grau académico e as pessoas gostam de ser denominadas por Dr.. Enquanto isso, nós os Doutores costumamos pedir para sermos chamados pelo nome. Excelência, por ter sido a forma de se endereçar a ele como Presidente de todos os chilenos.
Um protocolo que acabou quando ele foi eleito, por sufrágio universal, Presidente da República do Chile. Gostava de ser denominado Companheiro Presidente e era assim que nos o chamávamos quando tínhamos a sorte de falar com ele.
A sua história é conhecida por todos. O que não se sabe, era da sua calma, serenidade, tratamento igualitário à Babeuf (1) da Revolução francesa. Como ele, lutava pela igualdade, usando o socialismo científico da Karl Marx, retirado, como devoto luterano que era, da teoria económica de Lutero dos anos 1540 em frente.
O Companheiro Presidente, como se sabe, fez tudo, excepto ser médico. Ministro de Estado nos Governos Radicais dos anos 30 do século passado, Senador (2) durante vinte anos e Presidente da República, eleito para seis anos, mas que não conseguiu atingir pela traição da Forças Armadas do Chile, inédito na nossa História Cronológica, por ordem dos manda-chuvas Nixon e Kissinger. História mais do que sabida.
A sua vida familiar e como indivíduo tímido que era, é outra história. Teimoso e persistente, mas com respeito pela humanidade e direito dos outros, excepto pela burguesia, que explorava a imensidão do povo pobre que era o Chile.
Nunca esqueço o dia, comigo ainda no Chile e com quinze anos de idade, em que um dos motoristas do nosso Senhor Pai entra na nossa quinta, colocada no sítio mais alto das terras da indústria que produzia força eléctrica e separada dos 370 descosidos que para ele trabalhavam, para me dizer: Don Raulito, está o Senador Allende às portas das terras e da população, mas o Senhor Engenheiro não o deixa entrar, mandou fechar o portão e colocou a Guarda Civil para ele se afastar. No Chile são chamados Carabineros e fazem parte da Forças Armadas.
Furioso, percorri a correr esses dois quilómetros que separavam a nossa quinta das casas do operariado, entrei de imediato ao quartel da polícia e mandei abrir as portas. A Guarda não queria, mas eu bati com um punho na mesa, acrescentei que era uma ordem para ser obedecida e que do Patrão eu tratava depois. Agarrei chefe da Guarda pelo braço, fomos cumprimentar o Senador, enquanto o resto dos carabineros corriam a abrir os portões da propriedade privada. Mandei a Guarda entrar para os seus aposentos e acompanhei o Senador casa após casa, para falar com as pessoas. Aliás, mandei um outro operário para juntar pessoas e o encontro foi feito com discurso nas partes públicas dessas terras.
O Senador, preocupado por mim, disse-me para me ir embora. Não ouvi: era o dinamizador da sala. Fiquei, ouvi, cumprimentei todos e cada um dos operários, referi que não sofreriam represálias e assim foi: o debate foi feito em casa, à qual tinha acesso livre toda a Democracia Cristã, que mais tarde ajudaria a derrubar o Presidente Constitucional, voltando atrás ao perceber o delito que tinham cometido e ajudaram a libertar o país… após muitas mortes, cadeia, exílios, ente os quais, o meu, o de minha mulher, filha de um General, sendo hoje a nossa descendência Britânica, outra Neerlandesa ou Holandesa, como são enganosamente denominados.
Saímos do Chile, para estudos, eu e a minha mulher, voltamos atempadamente para as eleições e o nosso candidato ganhou. A seguir, nunca mais o vi. No dia da sua morte, ganhei um campo de concentração, do qual os meus docentes da minha britânica Universidade me resgataram.
Desde esse dia, fui socialista materialista histórico: a Sua Excelência era o melhor orador. Vamos ouvir os seus discursos e a convicção das suas explicações. A história parece ser a minha, mas é parte da benfeitoria do Companheiro Presidente. Ele foi morto a 11 de Setembro, eu fui preso e enviado para o exílio até hoje. Voltar? Imensas vezes, por curto espaço de tempo,, para pesquisar saber social entre os meus.
Silêncio. O Companheiro Presidente fala:

1) Babeuf, Nöel Gracchus Gracchus Babeuf (1760-1797), o primeiro que, durante a Revolução Francesa, soube ultrapassar a contradição, da qual tinham-se retirado todos os políticos que se estimavam aderentes à causa popular, uma contradição entre o direito a existência e a recuperação da sua propriedade de trabalho e a sua liberdade de trabalhar onde melhor houver, para ganhar o direito da liberdade económica. Por causa do seu pensamento e da sua actividade com o adágio todos somos iguais, foi o iniciador de uma sociedade nova. Por causa dessa procura de igualdade, o cidadão Babeuf foi guilhotinado pelos seus colegas de Partido, os partisanos de Robepierre Foi um premonitor do tempo da história socialista científico criada por Karl Marx, a sua mulher a Baronesa Prussiana Johanna von Westpalen ou Jenny Marx, e ideias retiradas de um texto sobre a evolução da propriedade privada e a família de Friedrich Engels, sedo Jeny Marx a redactora de Manifesto Comunista. Base dos princípios social -democrata do Companheiro Presidente.
2) A república do Chile tem um poder legislativo bicameral, como na Grã-bretanha. O Senado era a Câmara Alta e o poder era exercido pelo Presidente da República por meio do veto presidencial para um certo tipo de leis.

Há vida para além de Sócrates

A maior central fotovoltaica do mundo está a ser estudada há vários meses por um grupo de empresas portuguesas para ser instalada no Alentejo ( o local específico ainda é secreto)e que será 45 vezes mais potente que as de Serpa e Moura que continuam a estar entre as 50 maiores do mundo.

A ideia é vender energia electrica “verde” para os países nórdicos que precisam de compensar a emissão de CO2 conforme o tratado de Quioto. Entretanto, e para o mesmo efeito, a Alemanha está a preparar uma Megacentral no deserto do Sara para abastecer a UE. O SOL começa a ser visto como uma fonte inesgotável de energia e Portugal foi abençoado como o país com mais horas de sol da UE.

A Megacentral em estudo ( a LUZ.ON tem como associados Mário Batista Coelho, o homem que ergueu a central de Moura, a Fundação de Calouste Gulbenkian, a Efacec e a EIP – electricidade industrial Portuguesa ) quer avançar na criação de um “cluster” nacional, onde entraria tambem a Quimonda, ou a parte correspondente à tecnologia dos painéis solares.

Este projecto terá um custo que será metade do custo previsto para o TGV (sem as alcavalas), poderá fornecer energia para três milhões de pessoas, representa quase quatro barragens iguais à do Alto Lindosos e duas centrais de Sines da EDP.

E evita 1.8 milhões de toneladas de CO2.

Mas claro que não tem o “cachet ” de um TGV a parar em todas as estações e sem passageiros…

Contos Proibidos: Memórias de um PS Desconhecido. Soares e Cunhal no I Governo Provisório

(continuação daqui. explicação da iniciativa aqui. para ver todos os «posts», carregar na imagem da capa do livro na barra lateral)

Valerá talvez a pena analisar aqui, tanto quanto é possível a mais de vinte anos de distância, se a ideia da inclusão do Dr. Álvaro Cunhal no I Governo Provisório parte realmente do general, como ele próprio admitiria em entrevista de fim de carreira (e já admirador do Dr. Mário Soares), em 1984, ao historiador e jornalista José Freire Antunes,ou se ela parte do primeiro encontro com Mário Soares. Ora, dados os sentimentos anticomunistas do general Spínola, dada a sua amplamente demonstrada ignorância
política e o facto de se saber que Mário Soares teria dito ao general que se Cunhal não entrasse ele também não entrava para o Governo, parece evidente que a decisão foi influenciada decisivamente pelos socialistas. Aliás, Soares diria a Dominique Pouchin de forma peremptória que Spínola não era então favorável «à presença dos comunistas no governo». Também me parece duvidoso, e nenhum registo existe que o confirme, que tenha sido o próprio secretário-geral do PCP a reivindicar tal lugar! O que implica que estando à partida excluída a hipótese de terem sido os comunistas a insistir na sua participação – e não devemos esquecer que o PCP em Abril de 1974 ficaria satisfeito com a sua mera legalização – estamos perante a probabilidade de ter sido o próprio Mário Soares, na sua primeira entrevista com Spínola, graças ao apoio de Raul Rego, quem lançou Cunhal para o I Governo, a fim de ele próprio se tomar indispensável na pasta dos Negócios Estrangeiros!
O ex-embaixador de Portugal em Washington, João Hall Themido, confirma que Mário Soares «não inspirava confiança» ao general Spínola, que terá simplesmente comentado que Soares não era «um génio» mas daria «um ministro aceitável». «Sá Carneiro estava no Governo, como ministro sem Pasta, para acompanhar de perto os problemas da política externa» necessitando o general apenas de alguém para abrir «as portas» do reconhecimento à Revolução, convencido das «ligações europeias do líder do PS». Do ponto de vista do Partido Socialista – tanto quanto me seria dado a conhecer posteriormente – não havia nenhuma vantagem em que a pasta dos Negócios Estrangeiros fosse ocupada por Mário Soares, havendo outros dirigentes, como por exemplo Ramos da Costa, que não tendo que se ocupar com a organização do Partido, era quem melhores relações internacionais detinha no PS de então, além de dominar razoavelmente o idioma inglês! Não seria essa, evidentemente, a opinião do próprio Mário Soares, que considerava que «ninguém mais do que [ele] tinha então a possibilidade de conquistar rapidamente a simpatia da Europa e do Mundo para uma
revolução tão repentina, que inquietava o estrangeiro». Contudo só Mário Soares teria essa opinião, com a falta de modéstia que todos lhe conhecem. O mundo inteiro recebera o anúncio do 25 deAbril com grande regozijo e quem dava garantias e tranquilizava os
governos aliados de Portugal na NATO era exactamente o general Spínola e não o socialista Mário Soares, co-signatário de um «inquietante» acordo de governo com o Partido Comunista. Teremos contudo que admitir que o 25 de Abril encontrara o País e os seus dirigentes (quer os cessantes, quer grande parte dos emergentes) num estado de grande provincianismo e isolamento internacional, o que explicaria a grande necessidade que Spínola sentia de ter alguém que lhe abrisse portas e alguém que controlasse as actividades do «porteiro»! O Partido Socialista achava o seu secretário-geral fundamental paraorganizar um partido que a 25 de Abril não existia «de facto»e que, como se veria alguns meses depois, ia sendo «entregue» ao PCP no seu I Congresso. Os socialistas, em 1974, não só não queriam que Soares fosse o ministro dos Negócios Estrangeiros do general Spínola como exigiam «que ficasse em Lisboa a fim de organizar o mais rapidamente possível as infraestruturas do Partido». Este, no entanto, não seguiria os conselhos dos amigos, admitindo mesmo que nenhuma atenção dava ao seu partido pois «as raras semanas que passava em Lisboa eram absorvidas por Conselhos de Ministros interrnináveis». Mas, mais uma vez demonstrando aquela vaidade que Tony
Benn diz ter encontrado no líder do PS, este explica o seu «sacrifício» pela Nação em detrimento do seu partido, perguntando-se «quem era suficientemente conhecido deWilly Brandt para lhe pedir uma audiência no próprio dia? Quem é quepodia organizar,
à pressa, um encontro com o Presidente Senghor, de passagem por Paris? Quem é quetinha a possibilidade de reunir em Helsínquia com um simples telefonema, os líderes da social-democracia escandinava? Quem é que Harold Wilson esperava para reconhecer, sem mais demora, o novoregime português?». Mas, acrescentaria, é evidente que o meu partido tirou proveito dessas viagens».
A necessidade de angariação de fundos para o PS, embora fundamental naquela fase,também não justificava quefosse o secretário-geral a ocupar a pasta dos Negócios Estrangeiros.
Francisco Ramos da Costa e Manuel Tito de Morais tinham sido no passado, e continuavam então a ser, não só angariadores de fundos como elementos bem creditados junto da Internacional Socialista, a quem tinham apresentado Mário Soares,anos antes. Por outro lado, para além da ridícula vaidade demonstrada, a sua autopromoção não passaria de uma operação de branqueamento que só o provincianismo reinante deixaria passar em claro.
De facto, Willy Brandt, que à semelhançade qualquer outro chefe de governo socialista receberia com o maior prazer qualquer enviado especial do novo regime português, estava demissionário após a prisão, a 24 de Abril de 1974,do seuconselheiro
Gunther Guillaume, acusado de ser espião do KGB. Seria já Helmut Schmidt, que Soares não conhecia, a reconhecer o novo regime português. Senghor, embora ainda não ligado à Internacional Socialista, ao que parece receberia com igual prazer qualquer enviado do general Spínola. E só por grande pretensão se poderia imaginar que o telefonema do MNE português levaria os líderes da social-democracia escandinava a reunir em Helsínquia para um encontro com ele. Acontece que quando Mário Soares pediu para ser recebido pelo então primeiro-ministro sueco, Olof Palme, lhe foi dito que seria melhor deslocar-se a Helsínquia, onde os quatro primeiros-ministros dos países nórdicos estavam reunidos numa das habituais reuniões do Conselho Nórdico.
Eram eles o sueco Olof Palme, o dinamarquês Anker Joergensen, o norueguês Trygve Brattelli e o anfitrião, Kalevi Sorsa. Todos sociais-democratas ansiosos por ter notícias do que se passava em Lisboa. Toma-se mais credível que ao insistir junto de Spínola na inevitabilidade da presença do Dr. Cunhal no Governo se estivesse ele próprio a tomar inevitável como sendo, na altura, o socialista e, provavelmente, o português mais bem credenciado para ocupar a pasta dos Negócios Estrangeiros, de que necessitava para se autopropulsionar internacionalmente.
Político comprovadamente astuto, sabia que em Portugal os próximos anos passariam pela vertente internacional e que o seu futuro político teria que passar pelas Necessidades. Também sabia que no Partido Socialista não existia na altura «um centavo» e que o controlo dos financiamentos representaria igualmente o controlo do partido.

Poemas com história: Canto da cela 10

Em Janeiro de 1965, envolvido na grande vaga de prisões que afectou estudantes e intelectuais das duas organizações clandestinas existentes – o Partido Comunista e a Frente de Acção Popular – fui preso e, antes de ir para a sede da polícia política onde, durante muitos dias, fui interrogado da forma que se sabe ou imagina, estive uns dias encarcerado na cela nº 10 do Aljube, num daqueles desumanos cárceres a que se chamava os «curros», celas estreitas e insalubres onde a luz filtrada através das grades e atravessando o corredor, era a única coisa agradável que acontecia. Quando, três meses depois, fui libertado, a recordação daqueles dias num «curro» do Aljube (que nem foram os piores…), ditou-me este texto que depois publiquei em A Voz e o Sangue. De notar, e não me canso de insistir neste tópico, que a Liberdade que invoco não é esta que vivemos – muito feita de «liberdades» – mas sim aquela que, há mais de 40 anos, eu e muitos sonhávamos alcançar.
Canto da cela 10

Sem título

Este esquife de pedra e de aço em que viajo,
onde navego as horas e as constelações do ódio,
é uma cela imóvel plantada no coração do medo.
Um manto de argamassa e ferro cobre a minha voz.
Não mais a mordaça invisível da falsa liberdade
que ante o Sol floresce impudicamente: agora
a voz abafada por sucessivas grades e paredes,
submersa sob este céu de estuque, sem estrelas;
agora, esta feia gaiola pintada de desespero,
em cujo dorso vai cravada a aranha possessiva
da lâmpada gradeada sempre acesa sobre a porta,
feroz sentinela da noite eterna. E, todavia,
para lá das grades, do corredor, do carcereiro,
a minha face adivinha o hálito fresco da madrugada
e eu navego a madrugada sobre o meu bailique,
sobre este corcel rescendente a suor e a sangue.
Durante as refeições abrem a porta e eu vejo
uma estreita fatia da janela do corredor:
são cinco grades de sé e três de céu
e estes são os melhores momentos do dia.
De pé, como a sopa do estado e olho a catedral –
– tive sorte – fiquei em frente a uma bela rosácea
(o quotidiano de um preso constrói-se
de factos humildes e pequenos).
Na parede cinzenta tatuaram um camelo sem pernas,
Um perfil de mulher com longos cabelos,
Uma estrela, nomes e riscos, muitos riscos,
sulcos no tempo, dias rasgados a golpes de solidão
pelos muitos camaradas que já aqui estiveram
e deixaram a sua passagem impressa nas paredes,
no chão, nas mantas e no ar, neste odor,
escandindo angústia e dolorosa expectativa.

Já não olho a parede – conheço-a de cor –
gasto as horas passeando nestas estreitas tábuas,
quatro metros para lá, quatro metros para cá.
Lá fora
passam eléctricos e os pombos rufam as asas.
………………………………………………………
À noite a prisão é um corpo pétreo, mas que pulsa,
As suas velhas empenas vibram sob os nossos dedos,
levam e trazem palavras fraternas.
Com o amor com que Ísis juntou o corpo de Osíris
disperso ao vento, junto letra a letra
uma mensagem que palpita aos meus ouvidos
– coragem companheiro – coragem companheiro.

Ah Companheiros,
nem a pedra e o aço conseguem esmagar as nossas vozes,
elas virão um dia como um rio impetuoso e forte
rasgar a noite em que as querem aprisionar,
destruir as grades da tirania, a opressão
e a crueldade – tudo isto derrubarão
na corrida para o seu oceano – a Liberdade.

Contos proibidos: Memórias de um PS Desconhecido – A fundação do PS

(continuação daqui. explicação da iniciativa aqui. para ver todos os «posts», carregar na imagem da capa do livro na barra lateral)

Em Bad Munstereife compareceriam vinte e sete fundadores, dos quais onze residentes em Portugal. Mário Soares, Ramos da Costa e Liberto Cruz viviam em Paris.
Soares vivia desafogadamente, leccionando instituições portuguesas na Universidade de Vincennes e, sobretudo, enquanto consultor do Banco d’Outre Mer de Manuel Bullosa. Este emprego, que era a sua principal fonte de rendimento só seria revelado, pelo
próprio, em 1983. Jorge Campinos leccionava na Universidade de Poitiers e Francisco Ramos da Costa era considerado um homem abastado que vivia de rendimentos que tinha em Portugal. Manuel Tito de Morais e Gil Martins viviam em Roma. O primeiro
era financeiramente apoiado pelo Partido Socialista Italiano e o segundo estudava arquitectura. Fernando Loureiro era licenciado em medicina e vivia na Suíça, onde trabalhava para uma empresa farmacêutica. Bernardino Gomes vivia na Bélgica e estudava na Universidade Católica de Louvaina. De Londres vinham José Neves que era funcionário de uma empresa de equipamentos de escritório e Seruca Salgado que tinha participado, enquanto militante da LUAR, na tentativa de golpe de Beja refugiando-
-se primeiro em Argel. Da Alemanha vinham Gomes Pereira, que lá trabalhava como metalúrgico, assim como Lucas do Ó, Carlos Novo e Carlos Queixinhas. De Portugal estariam presentes os advogados Catanho de Menezes, Gustavo Soromenho, Fernando
Vale, Fernando Borges e António Arnaut. Arons de Carvalho, Nuno Godinho de Matos e Roque Lino eram licenciados em direito e Maia Cadete, Mário Mesquita e Carlos Carvalho eram jornalistas. A única mulher presente seria Maria Barroso que, na Alemanha,
representaria essencialmente o grande ausente, Francisco Salgado Zenha. Também outros, à data reconhecidamente ligados à fundação do Partido Socialista, não estariam presentes pelas mais variadas razões.
Áurea Rego que vivia em Londres e muito fez para dinamizar o núcleo de Londres, Raul Rego, António Macedo, JaimeGama,
António Campos, José Luís Nunes, Magalhães Godinho e Vasco da Gama Fernandes, são alguns dos ausentes de maior relevo.
Em qualquer dos casos o Partido que fundámos na Alemanha, no dia 19 de Abril de1973, não teria mais de cinquenta filiados em todo o mundo.
E a polémica que viria à luz, aquando das celebrações do vigésimo aniversário da fundação, sobre quem votara a favor e quem era contra a transformação da ASP em partido é realmente pouco relevante. E apesar do meritório esforço jornalístico de Mário Mesquita, nem a fundação do PS teria a «benção»de Willy Brandt nem os que votaram contra a fundação do PS, como foi o caso de Salgado Zenha, através de Maria Barroso, e do próprio Mário Mesquita, o fizeram por razões doutrinárias. Willy Brandt não esteve presente nem enviou qualquer mensagem a este congresso fundador e os únicos representantes do SPD seriam a funcionária da fundação Ebert para as questões ibéricas, Elke Esterse, no último dia, o secretário internacional Hans Eberhard Dingels que é igualmente funcionário e não pertence aos quadros dirigentes daquele partido.
O SPD não acreditava então, nem na viabilidade do Partido Socialista enquanto partido de massas, nem na queda do regime. As razões que levariam sete congressistas a votar contra explicam-se em alguns casos pelo receio das consequências de tal acto, noutros casos porque também havia quem achasse que para se ser um partido político era necessário ter mais que meia centena de dirigentes.
Havia ainda os que viam na fundação do PS uma manobra apressada e camuflada de Mário Soares para poder negociar com o PCP o acordo que viria, aliás, a assinar cinco meses depois, sem mandato das «exíguas» bases.

continua aqui

A Era dos Estúpidos

Estreia na América, no dia 21 de Setembro, um filme de nome “The Age of Stupid“, alertando para os efeitos catastróficos das mudanças climáticas. Em Portugal, a estreia está marcada para 22 de Setembro, o que para os nossos governantes encartados tão dependentes de dados estatísticos provenientes do exterior, quer dizer que estamos atrasados em apenas 1 ponto percentual face ao desenvolvimento dos Estados Unidos. Cá, provavelmente, o nome do filme será traduzido para “A Era da Mudança”, pois, mantendo o nome original, pode ofender alguns estúpidos.

Numa altura em que se discute se somos uma sociedade mais justa e solidária que há 100 ou 200 anos atrás, se somos assim tão desenvolvidos e modernos ou se o comunismo ou o neo-liberalismo são a solução mágica para a vida em sociedade, um facto é inegável: vivemos numa era instável em termos ambientais. Eu pessoalmente até acho que caminhamos para um mundo cada vez mais injusto, desequilibrado, hipócrita e paranóico, e tenho quase a certeza disso, veremos o quanto em Dezembro na reunião do COP15, em Copenhaga. Mas isso é a minha opinião e isso vale o que vale. O que é um facto indesmentível e inabalável é que vivemos actualmente num mundo que está à beira de um colapso ecológico. E ainda por cima, causado pelo próprio Homem, que, ao que parece, não está muito inclinado em mudar de rumo.

Contos proibidos – Memórias de um PS desconhecido. «Bastava olhar para ele [Mário Soares] para ver que nada tinha que ver com o socialismo da classe operária»

(continuação daqui)

Desde o lançamento da ASP que os socialistas portugueses encontravam imensas dificuldades em ser reconhecidos em termos de igualdade pelos seus congéneres europeus e o acolhimento político e logístico aos dirigentes portugueses – com excepção da ocasional foto protocolar em reuniões internacionais – estava longe de ser solidário e, muito menos, caloroso. Enquanto exilado, o líder do movimento socialista português
nunca seria recebido oficialmente, nunca participaria em nenhuma conferência de imprensa conjunta, em nenhuma conferência de líderes ou reunião bilateral pública com nenhum dos dirigentes da Internacional Socialista. Não há registo de declarações conjuntas de Soares com nenhum dos «amigos» acima mencionados e não se conhece um único acto conjunto, nem sequer um simples almoço, que revele aquela intimidade.
À excepção de Mitterrand, jamais conseguiria encontrar nos escritos de Palme, Kreisky, Brandt ou Wilson, nem tão-pouco nas suas biografias, uma única referência ao líder português comprovativa daquela autoproclamada amizade. E estes são os exemplos da família socialista. Em contraste, por exemplo, Felipe González, apesar de pertencente a uma geração mais jovem, é frequentemente referenciado por todos eles. No seu livro de memórias, o ex-chanceler alemão e presidente da Internacional Socialista, Willy Brandt, diz mesmo que «com o jovem Felipe González [sentiu] uma forte ligação desde o princípio». A situação de desconsideração pelo nosso esforço, enquanto dirigentes políticos no exílio, era tal que Mário Soares chegaria a ter mesmo momentos de desespero com os seus «anfitriões» do Partido Socialista Francês que, apesar de estar na oposição e ser, na cena internacional, um partido relativamente insignificante, raramente o recebia e só em casos excepcionais se encontrava com o então secretário das relações internacionais, Robert Pontillon. E, apoio material, nem vê-lo! Por outro lado, como já se disse, para além da foto ou aperto de mão protocolares, os contactos do líder português faziam-se de uma posição humilde e algo humilhante com funcionários dos partidos da Internacional ou, como grande conquista, com os secretários das relações internacionais desses partidos. Estes exemplos de falta de solidariedade eram generalizados, mas para isso é evidente que contribuía o conhecimento dos partidos «estabelecidos» da exiguidade da nossa influência na sociedade portuguesa, que contrastava, no tamanho, com o radicalismo à francesa dos dirigentes da Acção Socialista.
Os socialistas europeus tinham a sensação de que o recém-nascido movimento socialista português era uma criação artificial pequeno-burguesa ou, como diria mais tarde o conhecido e radical ex-ministro britânico, Tony Benn, referindo-se ao líder do PS, «bastava olhar para ele para ver que nada tinha que ver com o socialismo da classe operária».
As dificuldades eram tais, que os poucos financiamentos teriam que ser
arrancados quase à força. Perante um pedido de ajuda para o núcleo da Acção Socialista que acabara de ser constituído em Londres, o primeiro núcleo devidamente organizado no exílio, o Partido Trabalhista respondia lamentar, mas não estar «em posição de poder contribuir para a manutenção duma sede. Contudo, se conseguirem obter um espaço talvez possamos contribuir com uma máquina de escrever, estantes, secretárias, etc., de que nós próprios já não necessitemos».
No mesmo ano, Bernt Carlsson, secretário internacional do partido irmão da Suécia escrevia a Mário Soares em Paris: «que a direcção [do PSD sueco] considerou o o seu pedido de ajuda financeira de 15 de Outubro, 1971. Foi decidido dar uma contribuição de 10000 coroas suecas»,tendo, após novo pedido de Mário Soares, no ano seguinte, o referido funcionário anunciado uma nova «contribuição de 10000 coroas suecas».
Mesmo assim esta fonte, que tendo em conta os valores cambiais da altura, e as contribuições dos outros partidos, era extremamente solidária, parece ter secado. Manuel Tito de Morais escrever-me-ia em Novembro de 1973, pedindo-me para «ir a Estocolmo falar ao Carlsson. Ficou de se encontrar [com ele] aqui em Roma mas não deu sinal de vida, depois de ter recusado a ajuda material que lhe pedíramos. Devias
vê-lo e falar também ao Schori, não para pedir nada mas para manter o contacto, falar nos nossos assuntos e veres se descobres a razão do afastamento que se verifica».
Estávamos assim bem longe do tempo em que bastava pegar no telefone e falar com o Brandt, o Palme ou o Kresiky. E, se as quantias que o PSD sueco enviava para Paris a Mário Soares eram generosas em relação ao tamanho da ASP e das nossas expectativas, elas eram, na realidade, insignificantes se comparadas com o financiamentosueco a outras organizações consideradas importantes. A título de comparação, bastaria dizer que na altura o apoio financeiro da Suécia à luta da FRELIMO era 7500 vezes superior ao enviado a Mário Soares, para Paris. Após divulgação pelo The Times de Londres, a 10 de Julho de 1973, do massacre de Wiriyamu relatado pelo padre católico Adrian Hastings, o ministro sueco dos Negócios Estrangeiros do governo de Olof Palme, Krister Wickman, anunciaria que o aumento da ajuda sueca à FRELIMO seria aumentado de 3 para 5 milhões de coroas. O malogrado ex-primeiro-ministro da Suécia tinha, aos 22 anos e enquanto secretário da União de Estudantes Suecos, promovido uma colecta a favor de bolsas de estudos para estudantes africanos. Um dos primeiros a serem beneficiados, já no ano de 1949, fora exactamente o fundador da FRELIMO, Eduardo Mondlane, de quem Palme viria a tomar-se grande amigo.

Ainda o esquecimento

Continuação daqui

Sem as bases históricas correctas e uma extensa pesquisa (seria preciso regressar a tempos até anteriores à 1.ª Guerra Mundial), é difícil perceber como uma única pessoa, um artista frustrado, conseguiu montar um esquema maléfico, de tal modo aliciante ao ponto de levar consigo milhões de seguidores numa rota de colisão com a própria Humanidade, deixando uma marca tão profunda e duradoura no Mundo Moderno, atingindo proporções à escala planetária e que ainda hoje é sentida. Tudo parece sempre centrado numa única pessoa, Hitler, que juntamente com um punhado maléfico de controladores, conseguiu fazer uma lavagem cerebral a uma nação inteira com único objectivo de aniquilar judeus.

Na realidade, ao longo dos tempos, uma visão “holywoodesca” da situação, contribui com uma perspectiva muito redutora, extremamente centrada no conflito armado (talvez até em demasia e ainda assim não totalmente reveladora), deixando quase sempre de parte o enfoque sobre os pilares que sustentaram uma ideologia que teve tanto de perverso como de eficaz.

Não resisto a deixar mais alguns excertos do prefácio de “A Deportação”. Faço-o por várias razões. Tão ou mais importante que o conflito militar e as batalhas, os horrores da guerra e o sangue derramado, é também tudo o que lhe serviu de base, o sofrimento civil e os pilares que permitiram que uma mentalidade tão deturpada pudesse nascer e fortalecer-se ao ponto de ter, obrigatoriamente, que se expandir para fora do seu próprio território e acima de tudo, de ter poder para o fazer. Também, porque noto as incríveis semelhanças, ainda que para já mais ténues, entre tempos tão distantes como os que precederam a  2.ª Guerra Mundial e os de hoje em dia, nomeadamente depressão económica, aproveitamento político duma situação social instável, desemprego crescente e propaganda. Costuma-se dizer que a História se repete. Fico na dúvida se serão apenas reminiscências de um passado que já se tornou longínquo ou raízes de um qualquer futuro próximo.

Excertos de “A Deportação”, 1970

“A origem de todo este mal encontra-se em Hitler. Mas Hitler não estava só. A derrota tinha momentaneamente desarmado os Senhores da Guerra sem ter reduzido as suas ambições nem despertado os seus escrúpulos. Impacientes e vigilantes, eles aguardavam. Por Senhores da Guerra não devemos apenas entender o alto comando mortificado, mas também aqueles que vivem da guerra e da preparação para ela, o grande capital e a grande indústria, o “Herren Klub” de Hugenberg, os Krupp, os Thyssen e os outros.”

(…)

“Sem poder sobre o povo, tinham de agir por interposta pessoa. Um aventureiro demagogo começava então a fazer-se ouvir. Disfarçada com umas pinceladas de “socialismo” e o pretexto de servir os interesses e a honra da raça germânica, a doutrina que ele pregava era a mesma deles. Mas deram-lhe ouvidos. Tinha a audiência que lhes faltava. Eles tinham o dinheiro que fazia falta a Hitler. Ao apoiarem a sua empresa, pensavam que esse agitador se tornaria um instrumento dócil nas suas mãos. O “socialismo”, para ele, mais não era do que uma palavra de apresentação de que nem ele nem os outros faziam o menor caso. Não foi inteiramente assim que as coisas se passaram. Guindado ao Poder pelo seu ascendente popular e pelos Senhores da Guerra, Hitler instalou-se nele. Mas que importava, se eles tinham tudo a ganhar com isso? Já tinham fornecido os estandartes e as botas envernizadas; passaram a fornecer também as armas e depois os tanques e os aviões. Era Hitler que reinava, mas quem prosperava eram eles. O mais seguro poder é o que permanece invisível: Hitler caiu e eles sobreviveram.”

(…)

“Em 1929, escrevia Hitler no Angriff, de Goebbels: “Quando a propaganda impregnou de uma ideia um povo inteiro, bastará um punhado de homens para a organização poder extrair disso as consequências desejadas”. Quatro anos mais tarde, ao ser chamado ao Poder pelo velho marechal Hinderburg, ele não tardou a mostrar a que é que chamava “um povo inteiro” e o que é que entendia por “uma ideia”: um povo inteiro subjugado à mais feroz das tiranias em nome de uma ideia que não passava de uma impostura estúpida e sedutora. O pangermanismo sempre fez receita. A propaganda tinha cumprido bem a sua tarefa. Não era já de um punhado de homens que o Führer dispunha, mas de centenas de milhares ébrios de orgulho, carregados de ódio, mentalmente fanatizados pelo mito da superioridade da “Raça dos Senhores”, e aos quais tudo era prometido, tal como tudo era permitido. Todos os que vegetavam, todos os que a inveja roía, todos os que se viam num desemprego sem esperança, todos os que não comiam o suficiente, e também todos os cobardes que preferiam matar a sujeitar-se a morrer, toda essa gente sem distinção, infelizes misturados com a escória, era convidada para a grande carniça. Os jovens sentiam-se objecto dos seus particulares cuidados. Ele definia-os assim: “Uma juventude fortemente activa, dominadora, brutal, eis o que desejo. Quero ver no seu olhar aquela centelha de orgulho e de independência que transparece nos olhos dos animais selvagens. Não quero nenhum adestramento intelectual. Para os meus jovens, o conhecimento constitui uma ruína.”

(…)

“A solidariedade era uma das formas da Resistência [nos campos de concentração]. Até aos últimos meses da guerra era praticamente impossível preparar uma verdadeira revolta armada. Não só o estado de esgotamento físico e moral dos deportados não permitia que se encarasse a hipóteses de um levantamento, mas também a delação que grassava, praticada abundantemente por todos os indivíduos duvidosos de que falei, misturados na multidão dos outros, tornava difícil a menor combinação. Tanto mais que certos detidos, que não eram dos tais cadastrados duvidosos, mas que eram fracos de espírito, se submetiam à “lei” dos campos em vez de lhe oporem uma recusa total; acreditavam esses que, ao denunciar o “delinquente” ou o suspeito, realizavam uma espécie de acto cívico, que, de resto, logo era recompensado com uma ração melhorada ou uma isenção do serviço de faxina.”

(…)

“Apesar da quase impossibilidade de se estabelecer qualquer combinação, de se organizar, de encontrar armas, 1944 e 1945 assistiram, no entanto, a verdadeiras revoltas, as primeiras das quais foram, que eu saiba, as dos campos judeus de Treblinka, em Agosto de 1943, de Sobibor, em Outubro de 1943, do Sonderkommando de Auschwitz, em Outubro de 1944, e de Mauthausen, em Fevereiro de 1945. Revoltas selvaticamente reprimidas, mas que provam a inabalável recusa de submeter-se, recusa transformada em acção, que não foi inútil, uma vez que era possível combater sem esperança de vencer.”

(…)

“Não há que perdoar àqueles que não são culpados. Seria grave injustiça fazer recair sobre o povo alemão, como um todo, a responsabilidade moral de um mal cujo nascimento, nas condições históricas em que se debatia, ele não discerniu. Quando mediu o perigo, já era demasiado tarde para lhe deter o crescimento, tendo sido ele a primeira vítima, ainda que muitos dos seus filhos tenham começado por se mostrar os sustentáculos de uma tal situação, para dela virem depois a sofrer, por sua vez, as mortais consequências. Mas quantos, no resto do mundo, se mostraram mais clarividentes, mesmo já com a guerra à porta? Seria ainda injusto atribuir aos jovens alemães de hoje a culpa de alguns dos seus pais, crimes de uns, cegueira de outros, esquecendo todos aqueles (e inúmeros são…) que sofreram e pereceram sob o terror e todos os que resistiram em condições ainda piores do que as que nós conhecemos. Uma tal maldição seria nada menos do que um genocídio moral, uma forma in
si
diosa de racismo, e a aplicação do princípio, detestável entre todos, da responsabilidade colectiva, um dos mais odiosos fundamentos do “direito” hitleriano.”

(…)

“Quem não vê, hoje, que a impunidade e o esquecimento fazem ainda fermentar certos espíritos nostálgicos de uma ditadura restaurada de que eles seriam os chefes todo-poderosos. E que, ao dirigirem-se de novo aos frustrados, aos descontentes, aos jovens mal informados do que aconteceu, eles encontram uma audiência iludida? E isto não apenas na Alemanha, mas por toda a parte onde o ódio troa ou a violência mina.”

Contos proibidos: Memórias de um PS desconhecido – Mário Soares e Samora Machel

(continuação daqui)

Em circunstâncias que descreverei noutros capítulos, eu teria a grande honra de conhecer em 1983 o então presidente de Moçambique, Samora Machel. Era injustamente conhecido em Portugal pelas «anedotas» racistas que o transformavam sempre
no «intérprete vítima», ignorando totalmente os seus grandes dotes humanos. Acontece que Samora Machel gostava de contar ele mesmo «histórias» sobre os portugueses e às vezes, com grande sentido de Jair play, transformava-se a si próprio na «vítima»da anedota. Uma noite, numa conversa que teve comigo em Maputo, satisfaria a minha curiosidade sobre pormenores da transição dizendo-me, meio a sério meio a brincar, que, quando assumiu o poder pela primeira vez, uma das suas primeiras medidas foi só sair à rua com pelo menos o dobro dos motards da escolta policial que o antigo governador colonial utilizava. Para a população – diria perante o meu ar de divertido espanto – era um sinal de que o novo presidente moçambicano era duas vezes mais importante que o ex-governador colonial! Ora vem esta maravilhosa história a propósito da imagem que, no nosso país, se «vendeu» com êxito à empobrecida população, farta do seu longo isolamento internacional. A ideia, a partir do momento que se sabe que os portugueses querem seguir um destino comum ao dos seuscongéneres europeus, de que quem tinha amigos ricos na Europa era rei! Chegar-
-se-iam mesmo a descrever relações internacionais sem o menor sentido de modéstia e das proporções, tendo o líder socialista afrnnado até ser «evidentemente… amigo pessoal do Schmidt, do Willy Brandt, do Callagham, do Olof Palme, do Yoergensen,
do Kreisky, do Mitterrand, etc. Posso pegar em qualquer momento no telefone e falar com eles». Mesmo que fosse verdade em 1979 e que, com excepção de Mitterrand, Mário Soares conseguisse falar com qualquer desses «amigos pessoais» numa linguagem comum,
esta afirmação visava o mesmo objectivo dos motards de Samora Machel.
A realidade era contudo muito diferente, sobretudo, antes do 25 de Abril de 1974!

Contos Proibidos: Memórias de um PS desconhecido. Mário Soares – Da colagem ao PCP ao exílio dourado

(continuação daqui)

Na realidade, a incapacidade dos socialistas e dos democratas portugueses para se organizarem e manterem relações com os seus congéneres europeus, após o desalento em que caíram com as divisões da I República, permitiram a quase «exclusiva» implantação do Partido Comunista e inviabilizaram o estabelecimento de um regime democrático em Portugal, em 1945. E, não obstante a grande desilusão da chamada «oposição democrática» portuguesa perante a opção dos vencedores da Guerra, nem a vitória de Clement Attleel e dos trabalhistas britânicos, em 1945, valeu aos socialistas portugueses. É que, se os havia, ninguém no resto da Europa sabia onde estavam.
Mesmo assim, em 1973, a consciência do seu passado de relações subalternas em relação aos comunistas e a evidência dos maus resultados a que esse relacionamento conduzira Portugal anteriormente não seriam motivos suficientes para demover a direcção do ainda jovem movimento socialista de um acordo com o Partido Comunista.
Mário Soares, desiludido com as promessas da «primavera marcelista» e com o resultado da CEUD nas eleições de 1969, iniciaria uma longa viagem à volta do Mundo, acabando por se exilar em França, em 1970, após garantida a sua sobrevivência económica enquanto «consultor» do grupo económico de Manuel Bullosa (2).
Neste país acabaria por ser profundamente influenciado pela plataforma unitária que Mitterrand viria a estabelecer com Marchais, passando então a ser o principal defensor de um acordo entre os socialistas portugueses e o Partido Comunista, segundo o
modelo francês e a que chamaria «contrato político». E, sem grandes consultas ao seu pequeno grupo político, este contrato transformar-se-ia num «pacto de governo», após reunião «clandestina» dos dois partidos que teve lugar em Paris, em Setembro desse ano. Do qual, por sua vez, só não resultou um programa de acção comum, porque o PC desconfiava das expectativas que os fundadores da ASP tinham manifestado em relação à chamada «primavera marcelista» e estava convencido de que os socialistas
não tinham o menor peso no que eles consideravam ser o «conjunto do movimento democrático» português.
De facto, o único trunfo dos socialistas era o terem sido admitidos, um ano antes, na Internacional Socialista. Organização que a União Soviética pretendia penetrar, apesar das «críticas» às suas características «social-democratas»!
Mas o PCP, embora seguindo as superiores directivas do PCUS3em matéria de política externa, estava desfasado da realidade nacional e preferiria desenvolver a sua relação de domínio sobre o MDP/CDE, em detrimento do potencial e das «virtualidades» da aliança desejada por Soares. Mas, para o líder socialista, sob fogo cruzado da propaganda do regime e da extrema-esquerda, o acordo com o PC seria uma credencial preciosa que dissiparia algumas dúvidas no seio da Internacional Socialista. Dúvidas semelhantes às que existiam em relação a François Mitterrand. O acordo de Soares com o PC jamais seria, contudo, um acordo honroso para os socialistas, dada a evidente subalternidade em que se colocavam. Tão-pouco vinha ao encontro da orientação seguida pela esmagadora maioria dos partidos «irmãos» da Europa. Mas, apesar disso, Soares desenvolveria todos os esforços para o dar a conhecer junto dos parceiros da IS, pedindo-me mesmo que o traduzisse para sueco, o divulgasse e o mostrasse ao Partido Social-Democrata Sueco.
Em Lisboa, também Mário Soares tinha, desde o início da década de 60, estabelecido contactos com um funcionário da embaixada da Dinamarca, simpatizante do Partido Social-DemocrataDinamarquês, Axel Buus I e com um funcionário da embaixada dos
Estados Unidos, de nome Diego Ascensio. Um outro contacto internacional do início dos anos 60, que provaria vir a ter grande utilidade para a carreira de Mário Soares, foi a amizade que estabeleceu com Marvin Howe, jovem correspondente itinerante do
NewYork Times em Lisboa e na capital marroquina, Rabat. Depois de algumas menções na imprensa internacional, Marvin Howe conseguiria junto de um grupo de «liberais» norte-americanos, seus amigos, que se reclamavam das tradições de Norman Thomas,
juntar alguns correspondentes estrangeiros no Overseas Press Club de Nova Iorque com quem Soares comentaria os seus pontos de vista sobre a política colonial de Marcello Caetano. E, graças à assustadora mediocridade e provincianismo dos governantes de então, Mário Soares, ainda em Nova Iorque, seria aconselhado a não regressar a Portugal.
O governo português conhecia de antemão as suas posições sobre a guerra colonial, mas desconhecia por completo o funcionamento da comunicação social internacional, confundindo telegramas das agências noticiosas com campanhas antiportuguesas na imprensa internacional. Marcello Caetano não se conteve e, deixando cair a última máscara de tolerância e de abertura que evidenciara quando tomara posse pouco mais de um ano antes, mandou instaurar um processo-crime ao dirigente socialista. A verdade é que, apesar do empenho de Marvin Howe, os telegramas dos correspondentes que participaram na dita «conferência de imprensa» do Overseas Press Club pouco eco teriam então na imprensa internacional. Segundo o ex-ministro dos Negócios Estrangeiros de Salazar, Franco Nogueira, revelaria ao historiador José Freire Antunes, Marvin Howe «não era ainda uma correspondente, mas uma principiante».
Tal não corresponde, contudo, à verdade. Tendo em conta que sobre ela já na altura recaíam suspeitas «de ser uma conexão da CIA» 4 e conhecidas as ligações de grandes órgãos de comunicação social americanos com os serviços secretos como viria a ser
confirmado pela Comissão de Inquérito a que presidiu o congressista norte-americano Edward Boland, então, não só ela não seria uma principiante, como seria mesmo uma grande profissional e foi por obra e graça dos seus esforços que Mário Soares começou
a ser conhecido da imprensa internacional. Foi, aliás, através «dos seus textos públicos e das suas recomendações à margem do jornalismo, que a CIA – pouco atenta à oposição portuguesa durante os anos de Johnson – aprendeu a soletrar o nome de Mário Soares». De qualquer modo, foi a partir das iniciativas da correspondente do New York Times e, em particular, de uma carta que ela enviaria ao «Special Assistant to the President», Bill Moyers3, em Outubro de 1965, que Mário Soares iniciaria uma série de contactos com um dos membros da delegação da CIA em Lisboa. Mário Soares refere-se a esses contactos no seu livro Portugal Amordaçado como contactos com «um secretário da embaixada americana em Lisboa» mas tudo leva a crer que já se trataria de Diego Ascencio, que o então chefe de informações da PIDE Álvaro Pereira de Carvalho, identificaria como sendo «um dos membros da pequena estação da CIA em Lisboa». Ascencio seria uma das relações mais precisosas de então de Soares e ainda hoje continuam a manter relações de amizade.
Não admira, portanto, que ainda hoje muitas pessoas continuem a ter uma imagem distorcida do que uma certa imprensa difundiria em tons dourados, após 1974, sobre os chamados contactos internacionais dos socialistas portugueses e do Partido Socialista.
Com as incessantes romarias políticas do pós 25 de Abril e a constante exibição de grandes figuras da cena política europeia e norte-americana, como Harold Wilson, James Callaghan, Olof Palme, Willy Brandt, Bruno Kreisky e, entre muitos mais,
Edward Kennedy, ficar-se-ia com a ideia de que estes não só protegiam e apoiavam a Acção Socialista Portuguesa com mundos e fundos como recebiam, de braços abertos, os seus dirigentes no exílio ou na clandestinidade. Nada poderia ser mais diferente, se
bem que esta «distorção da história» tivesse então algo de premeditado.

(2) Manuel Bullosa
fo
i um dos principais empresários portugueses de antes do 25 de Abril. Era dono do Crédito Predial Português, Sacar e Banco Franco-Português, de Paris.

Santarém, Capital do Gótico (Fim)

(primeira parte e explicação do «bodo aos pobres» aqui)

Património moderno: Do manuelino ao barroco

A chegada do manuelino decorreu em Santarém com naturalidade. Para além da própria evolução artística, o grande terramoto de 1531 contribuiu largamente para essa situação, ao levar à ruína muitos dos monumentos da cidade. Mais tarde, viria o barroco, sobretudo nas decorações exteriores, e o caminho para o romantismo, já na fase seguinte.
A igreja de Santa Maria de Marvila está classificada como monumento nacional em 27 de Agosto de 1917. Encontra-se no largo de Marvila, no local onde existiu o bairro da antiga medina islâmica. Chamou-se inicialmente Santa Maria de Santarém, o que prova que a sua fundação foi anterior às restantes igrejas da cidade. Aliás, deve ter havido uma transformação directa de templo muçulmano em templo cristão.
Segundo Jorge Custódio, o seu nome deriva do topónimo árabe marvila, território onde existiram outrora algumas mesquitas muçulmanas. Quanto à tradição, diz que a igreja deve o seu nome a uma imagem de Nossa Senhora das Maravilhas oferecida por S. Bernardo ao templo primitivo, corria então o século XII. Outra lenda diz que um touro de fogo, no ar, profetizou que D. Afonso Henriques iria conquistar Santarém. Um sucesso fabuloso, uma maravilha. Diz a tradição que, de maravilha, resultaria o topónimo Marvila.
Os cronistas atribuem a fundação da igreja a D. Afonso Henriques. Em 1244, a igreja passou a integrar uma colegiada com o seu nome, muito beneficiada com rendimentos e privilégios por parte de D. Aires Vasques, bispo de Lisboa. Data dessa época a construção da igreja, em estilo gótico, que apagou todos os vestígios do edifício anterior.
Dessa reconstrução, pouco resta hoje em dia. A igreja foi totalmente reformada nos inícios do século XVI ao longo de dois reinados, o de D. Manuel I e o de D. João III, contando para tal com o patrocínio de D. Francisco de Almeida, vice-rei da Índia, que deixou em testamento mil cruzados. As obras ficariam concluídas cerca de 1530. É deste período o portal manuelino, com elementos naturalistas, os alçados laterais com janelas de arco quebrado ou os arcos de acesso ao coro e à capela baptismal. De resto, os elementos habituais nos monumentos manuelinos abundam: emblemas de D. Manuel I, cruz da ordem de Cristo, esferas armilares, escudo das cinco quinas. No século seguinte, viria a receber o revestimento azulejar dos muros parietais.
De resto, sabe-se muito pouco sobre aquele que projectou e dirigiu a reconstrução manuelina do templo. A ligação a Lisboa ou à «vulgarização e popularização dos modelos eruditos da Batalha» (Pedro Dias) pode ser encarada como muito provável, dada a proximidade geográfica desses dois centros da arte e cultura portuguesa do século XVI.
A partir daqui, a igreja de Santa Maria de Marvila tornou-se o centro espiritual da cidade de Santarém. Para além da localização, junto a uma Praça Nova que recebeu muitas atenções durante a época manuelina, a capacidade económica da sua colegiada e a forte ligação ao padroado real justificaram que assim tivesse acontecido.
Templo de planta longitudinal, composta pelo corpo das naves rectangular e por cabeceira tripartida escalonada, a que se adossam dois corpos rectangulares. A fachada principal é em empena, com dois pisos vazados por portal de arquivoltas trilobadas. Sobre o arco cruzeiro, dois óculos de diâmetro diferente. O portal, também nitidamente manuelino, é ladeado de pilares escalonados. Alguns pormenores zoomórficos da decoração do portal estão relacionados com o processo expansionista então em curso, caso de um pequeno leão presente no lado esquerdo e outros animais e grifos. Contígua à nave lateral esquerda, uma torre sineira que no século XIX substituiu a antiga torre medieval.
Quanto ao interior, é composto por três naves de cinco tramos, sendo que a nave central é mais elevada do que as outras. Dividem as naves arcos plenos clássicos, assentes sobre doze grossas colunas com capitéis jónicos. Todas são cobertas por tecto de madeira de três planos. As capelas, que se ligam às naves por arcos triunfais, são cobertas com abóbadas de cruzaria polinervadas. Tanto na capela-mor como nas capelas laterais, as imagens da época manuelina aparecem com alguma frequência. Na capela-mor, de abóbada polinervada, com o símbolo manuelino como fecho das nervuras, merece destaque retábulo em talha branca e dourada, de estilo nacional. Sobre o sacrário, uma imagem de Cristo crucificado, indo-portuguesa, em marfim, com cruz revestida a tartaruga. O púlpito, em mármore, é de forma quadrada, com colunas compósitas formando as guardas. Na sacristia, o tecto está decorado com ornatos a azul e a vermelho, datados de 1690, e um silhar de azulejos seiscentistas. Na capela-mor, encontra-se uma tela de Fuschini, pintor da Ajuda, alusiva à Assunção da Virgem. Esta pintura substitui o retábulo maneirista que se perdeu durante as Invasões Francesas.
Para além da estrutura e decoração quinhentistas, a igreja conserva um valioso património azulejar seiscentista, executado em 1617, 1620, 1635 e 1639 em enxaquetado azul e branco e em composições de tapete azul e amarelo. O epíteto de «catedral do azulejo» justifica-se bem pelos 1200 metros quadrados de área coberta por azulejos, correspondentes ao espantoso número de 65 mil placas cerâmicas. É na parte superior das paredes da nave que é empregue o maior padrão azulejar – 12 x 12 metros, conhecido pelo nome de padrão rico de Marvila.
A igreja conta ainda com imaginária diversa, entre as quais se destacam quadros de devoção mariana, duas pias de água benta, lajes tumulares com inscrições e ainda mobiliário e paramentos vários. Em termos tumulares, uma palavra para a diversidade de estratos sociais aqui sepultados, que vão de elementos de cavaleiros a licenciados, a homens do e até a uma escrava negra.
No fundo, um dos principais monumentos da cidade, do concelho e do país, no qual Jorge Custódio, no tamanho, nos assentos corridos, no tipo de colunas e seus capitéis, encontra algumas semelhanças com a sinagoga de Amsterdão.
A igreja do Hospital de Jesus Cristo, ou de Nossa Senhora de Jesus do convento do Sítio, encontra-se no largo Cândido dos Reis. É monumento nacional desde 8 de Fevereiro de 1923. Pertenceu inicialmente à ordem franciscana e foi construído no local onde, anteriormente, existira a ermida de Santa Maria Madalena e o paço dos arcebispos de Lisboa.
O arcebispo D. Miguel de Castro doou os paços entre 1582 e 1605 à ordem Terceira de S. Francisco, que anteriormente estava instalada em Vale de Mourol. A construção terá decorrido entre 1615 e cerca de 1730. Pelo meio, um conjunto de obras aos solavancos – primeiro a área conventual, depois a capela-mor e o transepto da igreja e só nos anos 30 do século XVIII o corpo da igreja e o coro. Apesar de prolongado no tempo, o traço primitivo do arquitecto responsável foi respeitado. Depois da extinção das ordens religiosas, em 1834, instalou-se aqui o hospício João Afonso, razão pela qual passou a ser conhecida pelo nome de igreja do Hospital.
É um dos melhores exemplos da arquitectura portuguesa chã, inspirada no figurino maneirista filipino. Fachada maneirista, de modelo semelhante à igreja de S. Vicente de Fora, está dividida em três registos, que se desenvolvem de forma simétrica, e tem duas torres laterais inscritas. No plano central, o pórtico, que revela a simbologia dos franciscanos. Em alguns pormenores desta frontaria, o barroco já se vai fazendo anunciar de forma tímida.
Templo de planta em cruz latina, com uma única nave, transepto e capela-mor rectangular, tão pronunciada como a própria nave. Todo o edifício é coberto de abóbada de berço. No cruzeiro do transepto, curto, assenta uma cúpula. De cada lado da nave, quatro capelas que c
om
unicam entre si. O coro evidencia-se pela pintura do tecto, de 1723, que teve como autor António Simões Ribeiro, discípulo de Baccarelli.
Destaque-se ainda o imponente retábulo da capela-mor. Lavrado em pedra, pertenceu à antiga capela de D. Gil Eanes da Costa. Ao centro, a tela de S. Nicolau de Tolentino, pintada por Diogo Teixeira. Num altar lateral, quatro tábuas maneiristas dos finais do século XVI, vindas do convento de Santa Clara, representando A Apresentação da Virgem Maria no Templo, a Visitação, a Adoração dos Pastores e Cristo Deposto da Cruz.
O edifício conventual, com o seu claustro contemporâneo, foi ampliado em meados do século XIX para albergar o hospital de Jesus Cristo. Anexa à igreja, a capela barroca da ordem Terceira de S. Francisco, totalmente revestida de talha dourada. São catorze as telas alusivas aos irmãos terceiros. Cenas relativas aos franciscanos podem ainda ser vistas no silhar de azulejos azuis e brancos fabricado pelo ceramista Manuel de Oliveira.
A igreja de S. Nicolau, situada no largo Ramiro Nobre, freguesia de S. Nicolau, é monumento nacional desde 7 de Janeiro de 1947. Para além do próprio edifício, há no seu interior outros elementos classificados: os túmulos de Fernão Rodrigues Redondo e de João Afonso são monumentos nacionais desde 16 de Junho de 1910, assim classificados como forma de impedir a sua transferência para Lisboa; o oratório na fachada testeira é valor concelhio desde 12 de Setembro de 1978.
Terá existido um primeiro templo, pré-gótico, e depois um gótico. Sabe-se da sua existência pelo menos a partir de 1261, data em que pregadores e menores dos conventos de Santarém já o visitavam. Destruído parcialmente por um incêndio no ano de 1600, a reconstrução, iniciada em 1613, foi feita sob a direcção de Baltazar Álvares e radicou na transformação do anterior edifício. Foi neste século que se construiu o oratório colocado na fachada nascente – uma caixa envidraçada, sobrepujando uma janela gradeada assente sobre mísulas.
Igreja de planta longitudinal, cuja fachada principal é de cinco panos, separados por pilastras. No pano central, rasga-se uma porta encimada por frontão quebrado, no qual se inseriu um nicho para ali ser colocada a imagem de S. Nicolau, e por um óculo medieval. Um frontão barroco remata a fachada. A torre sineira é encimada por pináculos.
O interior é composto por três naves de cinco tramos, separadas por quatro arcos de volta perfeita sobre colunas toscanas. Cobertura de tecto em madeira de caixotão de três panos. Cabeceira com capela-mor abobadada. De cada lado, foram abertas oito capelas , posteriores à fase maneirista do templo. A pintura de brutescos nas colunas e a decoração de azulejos dos lambris, de padrão pouco vulgar em Santarém, pertence à campanha maneirista das obras, enquanto que o revestimento das paredes de estuque marmoreado e pintado, também pouco comum, pertence aos trabalhos do século XIX.
Na primeira capela lateral do lado sul, está sepultado João Afonso de Santarém, uma das mais importantes figuras do século XVI. Foi conselheiro de D. João I e fundador do Hospital de Jesus Cristo, que dotou com uma importante verba da sua herança. Também por testamento, instituiu uma capela para igreja para ali ser sepultado. Um túmulo manuelino, posterior portanto à morte dos tumulados. Está classificado como monumento nacional.
É constituído por arca rectangular com tampa piramidal e face decorada. Na face da arca, ao centro, o escudo é ladeado por cartelas e tem caracteres góticos inscritos. Imediatamente acima do arco, desenvolve-se um Calvário de excelente qualidade artística – Cristo crucificado, ladeado pela Virgem Maria e por S. João. O conjunto escultórico é ladeado por botaréus, delimitados por colunelos torsos. Tanto o túmulo como as imagens revelam uma policromia acentuada. Aliás, neste túmulo alia-se um requinte técnico notável a uma grande diversidade cromática.
Anexa a esta igreja, está a capela de S. Pedro, que em tempos foi ermida independente. Aqui estão sepultados Fernão Rodrigues Redondo e Marinha Afonso. Natural do norte do país, Fernão Redondo foi meirinho-mor na corte de D. Dinis. Possuía paço em Santarém, onde morreu cerca de 1324. O seu túmulo é constituído por arca rectangular armoriada, datada da primeira metade do século XIV, tampa com estátua jacente e seis leões de suporte. O homenageado encosta a cabeça numa almofada e surge vestido com trajes de corte – uma longa túnica e manto e sapatos com esporas. Nas mãos, a espada. Aos pés, dois cães com a cabeça partida.
O oratório, como se disse antes, tem uma classificação independente. Trata-se de um nicho aberto na parede de uma ampliação da igreja. É uma construção barroca do século XVIII, em cuja parte de cima se encontra um cruzeiro manuelino que terá vindo de outro local. Está decorado com volutas, florões, dois pináculos e fogaréus. Toda a estrutura assenta em duas mísulas.
Em Salvador, na praça do marquês de Sá da Bandeira, temos um outro monumento nacional, a igreja do Seminário de Santarém, ou igreja de Nossa Senhora da Conceição do Colégio dos Jesuítas. Classificado como monumento nacional a 14 de Março de 1917, ergue-se no mesmo local onde antes existiram os antigos paços reais de Santarém. Tudo começou em 1609, quando D. Duarte da Costa, armeiro-mor do reino e padre jesuíta do Colégio de Santo Antão, em Lisboa, se ofereceu para financiar o novo colégio dos Jesuítas em Santarém. O início da construção teria lugar cerca de 1620 sob projecto de Mateus do Couto (tio), arquitecto que aparece ligado a outras obras da cidade. Entretanto, os jesuítas tinham-se instalado sucessivamente na ermida de Santo Antão e na de S. Sebastião. A doação dos velhos paços reais para a fundação do colégio data de 14 de Julho de 1647, enquanto que a instalação dos jesuítas no local ocorreu quatro anos depois, em 6 de Março de 1651.
O projecto de Mateus do Couto viria a ser alterado em 1673, de forma a que o edifício se assemelhasse ao colégio jesuítico de Coimbra, menos austero. A construção da igreja, por sua vez, só terminou em 1711, embora as obras no interior tenham continuado depois daquela data. Em 1759, com a expulsão dos jesuítas do reino, o colégio deixou de ter a serventia inicial e passou a ser, a partir de 1780, a igreja do Seminário Patriarcal, instituição que conheceu o seu período áureo até 1834. Em 1975, o templo foi elevado à categoria de Sé Catedral e Paço Episcopal da diocese de Santarém.
Este edifício integra-se, pela originalidade das suas linhas, no chamado estilo «chão», que dominou a arquitectura portuguesa no século XVII. A sua fachada maneirista é imponente. Assume um aspecto claramente cenográfico, do qual resulta um prospecto sóbrio mas ao mesmo tempo elaborado, tradicionalista mas ao mesmo tempo arrojado. O corpo principal é ladeado por dois corpos simétricos, que formam o conjunto do Seminário.
Com uma largura de mais de vinte e sete metros, a frontaria é composta por quatro andares de cinco corpos segmentados verticalmente por pilastras. Dos três portais que se rasgam no corpo inferior, o central, o maior de todos, é de colunas e empena rusticadas. Acima do andar térreo, abrem-se nos corpos extremos dois nichos com as imagens de Santo Inácio de Loyola e S. Francisco Xavier. No terceiro andar, mais duas imagens, desta vez as de S. Francisco de Borja e S. Luís Gonzaga.
O interior tem um certo sabor a barroco que, de certo modo, contrasta com o da fachada. Onde esse sabor mais se acentua é na qualidade do equipamento ornamental dos altares, com os seus retábulos em mármore ou talha dourada; nas suas colunas torcidas; na pintura cenográfica do tecto do corpo da igreja e nas esculturas sacras de grande qualidade.
É um templo de planta longitudinal, com nave e capela-mor justapostas. Nave única, muito ampla, com mais de quarenta metros de comprimento e quatro capelas de cada lado, O tecto pe

rspectivado que já se referiu, em falsa abóbada de madeira pintada, foi obra de pintores escalabitanos. A capela-mor é abobadada de tijolo com embutidos de florões lisos nas paredes, enquanto que o seu tecto apresenta uma pintura da autoria de Luís Gonçalves de Sena representando Nossa Senhora da Glória. O retábulo-mor foi executado por entalhadores lisboetas a partir de um projecto de Carlos Garvo.
De entre as várias capelas laterais, uma merece destaque, a de Nossa Senhora da Boa Morte. Obra do arquitecto António de Pádua, da escola de Mafra, é em grande parte construída em mármore de Carrara rosado e preto. Atrás, um retábulo também de mármore apresenta as pinturas de Nossa Senhora na cidade de Jerusalém e a sua Assunção ao Céu.
A nível da pintura, merece destaque um impressionante conjunto de pinturas da primeira metade do século XVIII. Os temas abarcados vão da Imaculada Conceição entre a glória dos anjos a alegorias diversas, cenas bíblicas do Antigo Testamento ou à representação iconográfica de quatro pilares dos Jesuítas. No dizer de Vítor Serrão e Jorge Custódio, «estas pinturas colocam-nos perante um testemunho impressionante da pintura de perspectivas arquitectónicas fingidas do barroco português do século XVII».
Quanto ao edifício do Seminário, dispunha no século XIX de cerca de duzentos quartos, um amplo refeitório, livraria e outras dependências. O seu espólio de pintura (destaque para «Pentecostes», de Diogo Teixeira), escultura, azulejaria e documentação é extremamente valioso.
Incorporados no edifício do Seminário estão os vestígios dos paços medievais, junto à desaparecida muralha e porta de Leiria do castelo. Foram classificados como imóvel de interesse público na mesma data da igreja do Seminário. Subsistem restos dos paços de três épocas diferentes: do período medieval (segunda metade do século XIII), vestígios das portas do Castelo, da Traição e do Paço, a torre dos Presos a antiga carpintaria e celeiro; do período anterior ao século XVII, algumas áreas interiores térreas, vestígios do antigo claustro, do pátio interior com cisterna e de outros elementos arquitectónicos reaproveitados; do período seiscentista, o mui decorado corredor nobre, de onde se rasgaram os quartos de aposentadoria, a escadaria monumental de acesso a essa ala, o refeitório azulejado e os vestígios da antiga cozinha.
«Hoje, o viajante contenta-se com vistas de conjunto, não sente vocação para particularizações. Porém, vai ficar sem tempo na igreja do Seminário Patriarcal, onde entrou por uma porta lateral furtiva, sem que ninguém desse fé. Esta igreja reúne exemplarmente todos os elementos do gosto jesuíta: teatralidade, luxo decorativo, riqueza de materiais, aparato cenográfico. Aqui a religião é uma ópera ao divino, lugar para o sermão de grande instrumental, aula prática de seminário. O viajante olha o magnífico tecto, pintado a fresco e de imponentes dimensões, como se o céu tivesse coberto de arquitectura fingidas e festões de flores, para receber a visita da Imaculada Conceição e da corte dos anjos. O efeito é magnífico, os pintores jesuítas sabiam o que queriam e sabiam executá-los bem. Talhas, mármores alvíssimos de Carrara, mármores embutidos revestem as capelas de cima a baixo.»
A igreja da Misericórdia, na rua 1.º de Dezembro, freguesia de S. Nicolau, é monumento nacional desde 1922. O projecto da sua construção data de 1559 e foi seu autor Miguel de Arruda, arquitecto que por essa época devia estar a terminar o seu trabalho no mosteiro da Batalha. As obras arrastaram-se com lentidão e prolongaram-se por muito tempo. Cinquenta anos depois, ainda a fachada estava a ser concluída.
A Santa Casa da Misericórdia de Santarém fora instituída por alvará de 1503 e por iniciativa de frei Martinho de Santarém. Recebeu os mesmos privilégios da Misericórdia de Lisboa e teve como primeira sede o próprio hospital de Jesus Cristo, que até aí administrava todas as instituições hospitalares da vila.
Quanto ao seu templo, construído no ambiente da Contra-Reforma, é uma igreja em estilo renascentista tardio, no dealbar do maneirismo santareno. Conjuga de forma perfeita elementos clássicos com elementos medievais. Estão entre os primeiros as colunas toscanas e os barretes acima dos capitéis e entre os segundos as nervuras das abóbadas e os bocetes de fecho.
É um templo com planta tipo igreja-salão, cuja fachada exibe uma aparatosa decoração barroca. Já não é a frontaria de origem, visto que a anterior foi destruída pelo terramoto de 1755. Seccionada horizontal e verticalmente, tem no centro o pórtico principal, em cujo lintel aparece o primeiro símbolo heráldico da Santa Casa de Santarém. No piso de cima, três janelões de estilo pombalino.
No interior, três naves de quatro tramos à mesma altura e com presbitério sobrelevado em relação à nave. A cobertura das naves, de abóbadas de nervuras cruzadas, é sustentada por dez colunas toscanas decoradas com ornatos brutescos, que emprestam monumentalidade a todo o conjunto. Na capela-mor, o retábulo, oitocentista, integra uma pintura maneirista de Simão Rodrigues, anterior em dois séculos, representando a Nossa Senhora da Piedade. Na Sala do Consistório, destaque para um silhar de azulejos neoclássicos cuja policromia se limita ao verde azeitona, ao roxo manganés e ao azul. Aqui está sepultado Nuno Velho Pereira, figura dos Descobrimentos portugueses e benemérito da Misericórdia.
A sacristia merece destaque por várias razões: pela talha dourada que apresenta; pelos baixos-relevos em madeira que representam a Anunciação e a Adoração dos Pastores; pelo lavabo «rocaille» e pela pintura do tecto abobadado, em brutescos, de Luís Gonçalves Sena.
Quanto ao edifício da Misericórdia, tem várias dependências importantes, das quais se salienta o Arquivo, um dos mais importantes do país, e o Definitório. Nesta sala, reservada à reunião dos Irmãos da instituição, pode ver-se uma janela de sacada em ângulo tardo-renascentista, um cadeiral que pertenceu ao conselheiro Figueiredo Leal, os retratos dos provedores da Misericórdia desde 1860 e, nas paredes, um lambril de azulejos setecentistas com temas alusivos às obras da Santa Casa.
O pelourinho de Alcanede é monumento nacional desde 1910. Foi construído segundo os cânones românticos e revivalistas. Nele se reúne uma série de elementos, que vai desde a evocação do rei D. Afonso Henriques, que conquistou a vila aos mouros, passando pelas bolas, cordas e motivos vegetalistas, típicos do manuelino. Com um soco de três degraus e um fuste prismático, localiza-se no centro histórico de Alcanede. Evoca o passado municipal da freguesia, da mesma forma que o antigo edifício da câmara, que ostenta na frontaria um brasão em relevo.
A capela de Nossa Senhora do Monte, ou capela de Santa Maria do Monte, encontra-se na freguesia de Salvador. É monumento nacional desde 14 de Março de 1917. Desde 1191, pertenceu à colegiada de Santa Maria de Alcáçova, tendo ficado em meados do século XIII na jurisdição do hospital dos leprosos. A partir do século XVII, tanto a ermida como o hospital passaram a ser administrados pela Santa Casa da Misericórdia, depois da integração do hospital de S. Lázaro no hospital de Jesus Cristo.
Inicialmente gótica, a sua traça foi sendo modificada. No século XIII, terá sido ampliado, o que resultou na alteração do arco triunfal e da abóbada da capela-mor. Da época manuelina é o nicho de recorte mudéjar com imagens da Virgem e, ao que parece, uma porta lateral. Em meados do século XVI, construiu-se o alpendre que ocupa duas fachadas da capela e o portal sul e os assentos do coro, de gosto maneirista. Ocorreu neste século, também, a sepultura de Duarte Sodré, vedor de D. Manuel I, no pavimento do templo.
A sua arquitectura revela uma presença simultânea do gótico ducentista e do estilo renascentista, o segundo dos quais se destaca visualmente. Templo de pla

nta longitudinal, composto por nave única, capela-mor rectangular e cabeceira abobadada em dois tramos. Exterior com alpendre, composto por vinte e uma colunas e meia colunas, com capitéis jónicos, cuja decoração é claramente influenciada por João de Castilho.
Merece referência, no seu interior, para além dos elementos já referidos, o coro, de 1555; o púlpito, de 1623; uma tábua maneirista da Anunciação, atribuída a Ambrósio Dias; e duas esculturas em madeira seiscentistas, representando A Virgem e o Menino e Nossa Senhora da Piedade. Um lambril de azulejos do século XVII revestem o pavimento interior.
O velho pelourinho quinhentista, ou o que resta dele, está hoje conservado no Museu Municipal. É imóvel de interesse público desde 11 de Outubro de 1933. Foi lavrado e erguido na antiga praça do Município, actual praça Visconde da Serra do Pilar, depois da atribuição do foral manuelino. Encontrava-se à direita dos paços do concelho.
Do monumento original, resta apenas a sua terminação, um pináculo em forma de pinha sextavada, encimado por uma esfera armilar em ferro. Apesar da temática manuelina, alguns autores apontam a sua construção para o século XVIII. Quando foi retirado do local, em 1834, ficou praticamente destruído.
A igreja de Santa Iria, no largo do mesmo nome, é imóvel de interesse público desde 12 de Setembro de 1978. O templo primitivo era muito pequeno e foi sendo progressivamente destruído pelas inundações do rio Tejo, até chegar ao ponto de ser substituído, no século XII, por uma nova igreja. Esta viria a ser totalmente reconstruída no século XVI e a receber obras que a alteraram profundamente nos séculos seguintes. Da antiga construção, resta apenas a abóbada gótica de nervuras de uma capela do lado esquerdo.
A fachada, caracterizada por uma grande simplicidade, é de finais do século XVIII. O pórtico, no centro, é sobrepujado por um duplo frontão partido com uma imagem em pedra de Santa Iria. Ostenta a data de 1688, ano de uma campanha tardo-maneirista. Acima, três janelas rectangulares. Do lado esquerdo, um torreão cilíndrico quinhentista e uma torre sineira quadrangular do século XVIII.
É um templo de planta longitudinal, composta pelo corpo de três naves de quatro tramos, formados por quatro pares de colunas toscanas. Na cabeceira, a capela-mor apresenta dois bustos de estuque. Ressalta ainda o altar em talha dourada, que abriga o Cristo de braço caído de Mont’iráz, e os muros laterais em estuques relevados. As naves laterais têm diversas capelas, num total de cinco, e são cobertas por madeira. Os tectos das naves são de caixotões em madeira, sendo que o da nave central é abaulado. O interior dos muros é revestido por azulejos.
Para além do altar-mor, a igreja tem dois altares colaterais e quatro laterais. O transepto é cupulado e a cúpula pintada em trompe l’oeil, mostrando restos do anterior zimbório. No pavimento, cerca de oitenta lápides. Por todo o corpo da igreja, um revestimento de azulejos azuis e amarelos seiscentistas.
A igreja de Nossa Senhora da Piedade está classificada como imóvel de interesse público desde 11 de Agosto de 1934. Foi entregue a frei Manuel da Conceição, em 1668, para que aí se instalasse a ordem dos agostinhos descalços, que estava instalada em Portugal há cinco anos. Nesse mesmo ano de 1663, ocorrem os «sinais milagrosos» que vão conduzir à aceitação generalizada do milagre da Senhora da Piedade. Para os seus habitantes, fora a Virgem a responsável pela vitória, no Ameixial, contra os espanhóis. O cabido de Lisboa, em finais de 1663, proclamou o milagre.
O local onde se encontrava a padroeira foi o escolhido por D. Afonso VI para a construção do novo templo. Iniciadas em 1665, as obras viriam a ser concluídas cerca de 1690 e o edifício entregue à ordem em 1695.
A planta da igreja é em cruz grega. Um templo de sólida construção, cuja cúpula octogonal, rematada por placas em bronze e terminada em 1721, está assente em silharia de pedra modelada no topo. Sobre a porta principal, o escudo real. Acima, uma janela pombalina para iluminação do interior. Sobre as portas laterais, inscrições em latim.
No interior, a capela-mor é coberta por abóbada de caixotões e destaca-se pelo retábulo, que apresenta uma tela joanina de Nossa Senhora da Boa Viagem. Nos outros braços do templo, duas capelas colaterais dedicadas a Santa Mónica e a Santa Rita. Sob a porta de entrada, o coro. O mármore de excelente qualidade aplicado na sacristia, maneirista, é responsável pelos efeitos cromáticos que aquela ostenta.
O palácio de Eugénio Silva, ou dos Meneses, ou dos provedores das Lezírias, situado no antigo largo do Espírito Santo, é imóvel de interesse público desde 6 de Novembro de 1951. Funciona actualmente como Câmara Municipal de Santarém, que comprou o edifício, em 1954, aos herdeiros do industrial Eugénio de Carvalho e Silva.
Terá sido D. Pedro Telles de Meneses, provedor das lezírias, irmão do conde de Unhão, D. António Telles de Meneses, vice-rei da Índia em 1665, o promotor da sua construção. Depois de ter servido como habitação particular, o palácio foi sede do Estado-Maior de D. Miguel, durante as guerras civis dos anos 30 do século XIX, e depois quartel-general de D. Pedro. Foi ainda sede do Gabinete de Regularização e Obras Hidráulicas do Tejo. Em meados do século XX, o industrial Eugénio Silva adquiriu o palácio, que viria a ser comprado em 1954 pela Câmara Municipal. Dois anos depois, eram aqui instalados os Paços do Concelho.
É um edifício de inspiração maneirista, de planta em U, com dois corpos laterais rectangulares e um central. Muito sóbrio e elegante. Os pináculos que coroam os cunhais da fachada principal são claramente barrocos, bem como a relação que se estabelece entre a casa e o jardim envolvente e alguns pormenores azulejares do interior. A meio da fachada norte, encontra-se a porta principal. Acima, a janela central é sobrepujada por um frontão triangular.
No interior, o piso nobre alberga as melhores salas do palácio. As pinturas a fresco, os estuques e os lambris de azulejos merecem destaque. Uma escadaria monumental de dois andares, onde se podem ver azulejos tromp l’oeil, dá acesso ao piso inferior.
Numa casa da praça Sá da Bandeira, antigo Terreiro do Paço, merece referência uma janela manuelina, classificada como imóvel de interesse público desde 14 de Março de 1917 e integrada numa zona de protecção especial. Colocada no segundo piso de um edifício com dois andares, o primeiro dos quais é ocupado por uma loja comercial, a janela data dos inícios do século XV e, tal como é habitual naquele estilo, o lavor é delicado e requintado. É uma janela quadrangular, de cantaria de calcário, dividida ao meio por uma coluna de capitel mudéjar. O capitel é sobrepujado pela representação de uma vieira. De cada lado da janela, as ombreiras são formadas por colunas com capitéis e por pilastras. Terá sido um genovês a construí-la, segundo Rafael Moreira – pelo menos, o estilo é de importação daquela cidade do norte de Itália. Segundo a lenda, sem qualquer fundamento histórico, o rei D.Pedro I teria assistido desta janela à execução dos assassinos de Leonor de Castro.
Na rua de João Afonso, no número 58, encontra-se, num solar de meados do século XVI, uma varanda quinhentista, classificada como imóvel de interesse público desde 14 de Março de 1917. É uma rua onde ainda hoje se podem ver alguns bons exemplares de arquitectura solarenga. Quanto à varanda, de cantaria lavrada, dois resguardos em ângulo definem as suas faces e, dessa forma, o espaço de um alpendre. Uma das faces, esculpida, está voltada para a rua e a outra para um pátio interior. Nas guardas e no friso da base, decoração de brutescos, caso de enrolamentos de folhagem com animais fantásticos e candelabros. É composta de sete blocos de calcário, esculpidos na face exterior, e revela grande simetria a nível de desenho.
O chafar

iz de Palhais, na Ribeira de Santarém, data da segunda metade do século XVIII. É imóvel de interesse público desde 12 de Setembro de 1978. Situada junto à porta da cerca de Palhais, a sua função era abastecer tanto os viajantes que se dirigiam ao norte pela estrada real ou coimbrã como aqueles que chegavam à vila pelas três estradas rurais existentes. No século XIX, chegou a ser encarado como fonte essencial para o abastecimento de água à cidade.
De estilo barroco tardio, é uma peça de linhas clássicas, apesar da profusa animação «rocaille» do frontão e dos jogos de volutas simétricas que o leiam. É composto por um tanque de água, separado de duas bicas, que brotam de duas carrancas, por uma guarda de ferro forjado, uma das bicas para dar de beber aos animais e a outra às pessoas. Quatro pilastras, duas de cada lado, rodeiam um nicho central com moldura rococó. Na zona superior, um frontão barroco, no qual surge o brasão de Santarém com motivos heráldicos reais.
Junto a este chafariz, subsistem ainda restos da antiga porta e hospital de Palhais, anexo à ermida do mesmo nome, também conhecida por Nossa Senhora de Palhais ou Nossa Senhora da Encarnação de Palhais. Desses vestígios, salientam-se as cantarias da porta, três arcos góticos da estrutura e porta da igreja e um piso com construção dos séculos XVII e XVIII.
A casa e quinta de Nossa Senhora da Saúde é imóvel de interesse público desde 18 de Maio de 1998. Situa-se no Vale de Mourol ou dos Olivais, no local onde, no século XIV, o rei D. Duarte possuía uma quinta, com capela dedicada a Santa Catarina.
Trata-se de um conjunto edificado em que são visíveis ainda as ruínas do antigo convento de Santa Catarina da ordem Terceira de S. Francisco, o primeiro da ordem em Portugal, fundado em 1470, e alguns elementos da igreja do Hospital de S. Lázaro.
A primitiva quinta da Saúde pertenceu aos Coutinhos, família de Santarém, mas situava-se noutro sítio que não o actual. Foi transferida para Val de Mourol, em finais do século XVI, devido a uma epidemia. Quando o convento franciscano foi transferido para o lugar do Sítio, a área monacal continuou a funcionar como um colégio ligado às Artes.
A actual quinta apalaçada é o resultado de uma evolução de séculos, desde que os franciscanos aqui construíram o seu convento de Santa Catarina. Apesar disso, a sua feição actual remete para uma certa recuperação das tradições dos antigos palácios barrocos setecentistas. Passou para as mãos de particulares depois da extinção das ordens religiosas. A parte da quinta, construída em redor do espaço conventual, data dos inícios do século XX. Do antigo convento, resta o claustro de dois pisos, composto por quatro alas de cinco arcos sobre colunas dóricas, a igreja da Senhora da Saúde, a fonte das águas radioactivas e a fonte da cerca azulejada, de 1751, onde se pode ver a Senhora da Piedade rodeada por S. Marçal e por Santo António.
Quanto à igreja, de fachada rectilínea, é de uma nave única, coberta por tecto estucado de três planos e revestida por silhar de azulejos. Tem capela-mor abobadada e quatro capelas revestidas por azulejos seiscentistas e setecentistas e com pinturas a óleo, imaginária dos séculos XVI a XVIII e várias sepulturas com epígrafe dos séculos XV e XVI. Numa daquelas capelas, dedicadas a Nossa Senhora da Saúde, pode ver-se um retábulo em madeira de fundo branco com elementos marmoreados e dourados. O portal, de arquivoltas com arco quebrado, é do século XIV e abre-se em dois colunelos colocados em arcaturas, cuja moldura é composta por rosas e folhagens. Acima, uma janela mainelada.
O antigo hospital de Santa Iria, na freguesia de Santa Iria da Ribeira de Santarém, é valor concelhio desde 12 de Setembro de 1978. O actual edifício, que se encontra na rua João Augusto César de Oliveira, data da segunda metade do século XVIII. Actualmente, pertence ao Centro Social Interparoquial de Santarém João Arruda. Não se conhece muita da sua história, mas o seu passado deve estar ligado ao período de maior autonomia administrativa da freguesia, depois da restauração da independência portuguesa.
É um edifício solarengo sobradado, composto por dois pisos. Fachada principal rasgada por portal de volta perfeita, decorada com uma concha na zona do seu fecho. Acima do frontão, uma janela de moldura recortada que parece evocar Santa Iria. Nas fachadas laterais, há três janelas em cada um dos dois pisos do edifício. Alguns elementos, como as cantarias das portas e das janelas, denotam claramente influências pombalinas. Na ligação dos vãos entre os pavimentos, existe uma decoração a caminho do barroco que empresta ao edifício uma grande noção de movimento. Sob a porta principal, ornatos barrocos.
Na travessa dos Surradores, encontra-se no edifício do número 26 uma varanda quinhentista, classificada como valor concelhio desde 29 de Setembro de 1977. É uma grande varanda com alpendre, nas traseiras do imóvel, de clara influência mudéjar tardia. Abre para o exterior através de cinco arcos abatidos em pedra, assentes em seis colunelos de secção redonda com capitéis de feição islamizante. As superfícies entre os vãos das portas interiores e das arcadas, o intradorso dos arcos e o parapeito estão cobertas por azulejos azuis e brancos.
O conjunto edificado do solar dos Sousa Coutinho, também conhecido como palácio Landal, é imóvel de valor concelhio desde 11 de Outubro de 1979. Trata-se de um edifício de grandes dimensões que se desenvolve ao longo de várias artérias da freguesia. Construído no século XVI, sofreu transformações importantes em inícios de setecentos – uma verdadeira reconstrução – a nível da fachada e do interior. Aqui nasceu Frei Luís de Sousa, um dos grandes nomes da literatura portuguesa e imortalizado na obra de Almeida Garrett. Em meados do século XIX, foi adquirido pelo 1.º Visconde de Landal. Depois de passar por várias mãos, a Câmara Municipal de Santarém adquiriu-o em1980, adaptando-o anos mais tarde para a instalação de serviços administrativos. Parte do quarteirão que é ocupado por este palácio, e que inclui a rua de Serpa Pinto, a travessa do Montalto e a rua Capelo e Ivens, encontra-se já na vizinha freguesia de S. Nicolau.
Com capela privativa, a entrada do solar abre para um pátio interior calcetado, para onde convergem as restantes entradas. Uma escadaria dá acesso ao primeiro e ao segundo piso, sendo que neste último se encontram as habitações e o torreão. Até 1970, teve dois tectos seiscentistas pintados, que representavam a vida de Sansão e cenas humorísticas da «comedia dell’arte». Viriam a ser comprados por um particular e transportados para outro local, embora, mais recentemente, um deles tenha voltado a ser adquirido pelo município.
A igreja e convento das Capuchas da Senhora dos Inocentes, ou Recolhimento das Capuchas Terceiras, encontra-se na freguesia de Marvila. É valor concelhio desde 6 de Março de 1996. Situado no largo de Pedro António Monteiro, foi fundado em finais do século XVII, para acolher as religiosas daquela ordem, que tinham sido autorizadas a instalar-se, por D. Maria Sofia de Sabóia, mulher de D. Pedro II, em 1678.
Até 1732, a intenção vai ser a construção de um convento ligado à primeira regra de Santa Clara, mas as suas intenções vão sair goradas. Em 1753, inicia-se um conjunto de obras, que vai transformar o recolhimento numa casa conventual. Estas obras vão ser responsáveis por uma certa feição barroca e «rocaille» do monumento, que terá o seu expoente máximo no lavabo de pedra datado.
Parte do convento foi demolido em 1835, depois da extinção das ordens religiosas. Quanto ao recolhimento, é encerrado em 1910 e os seus bens vendidos em hasta pública. Actualmente, pouco resta da construção inicial, devido aos factores referidos e também às alterações que sofreu ao longo dos séculos.
É uma igreja que mais parece uma ermida. De arquitectura maneirista e rococó,
de pequenas dimensões, tem uma só nave, iluminada por três janelas, e tecto em madeira. O coro-alto comunica simultaneamente com a igreja e com o espaço conventual através de uma grade de ferro. A sacristia está adossada à cabeceira, seguida da portaria e dos anexos. O altar-mor e os altares laterais estão integrados em triplo arco de volta perfeita. A meio da nave, o púlpito maneirista em pedra. Na nave, um lambril de azulejos enxaquetados. A cabeceira tem três capelas profundas em talha. Sobre o arco da capela-mor, encontra-se uma pintura mural alusiva aos símbolos da ordem Terceira. Do recheio que conserva, uma palavra para uma tela de O Menino Jesus Salvador do Mundo, pintada certamente por um artista castelhano nos inícios do século XVII.
A parede oposta à cabeceira faz a ligação entre a igreja e o convento, de planta rectangular. Em redor do claustro, encontram-se as dependências conventuais, como por exemplo as minúsculas celas das reclusas ou o refeitório, quase intacto, com púlpito e umas alminhas em azulejos de 1756. «Estar ali é entrar, de facto, num retiro espiritual dos mais impressionantes e característicos. Respira-se neste recinto tranquilidade, suavidade e, olhando o céu azul, parece-nos estar mais próximo de Deus. Talvez fosse esta característica espiritual que conferia um certo valor ao recolhimento, cujo claustro seiscentista, rodeado de dependências em dois pisos, era obra singela, com o seu bocal de cisterna e ferros forjados, no meio de um jardim.» (Zeferino Sarmento)

Património contemporâneo

Se grande parte do património que descrevemos até ao momento é de religioso, a época contemporânea vai assistir ao lançamento de grandes obras públicas e infra-estruturas urbanas. A palavra de ordem agora é a utilidade e a necessidade de responder às carências da cidade aos mais diversos níveis, desde o comércio à higiene ou à cultura.
O mercado municipal de Santarém, construído em 1928, é um interessante edifício de traça tradicional, classificado como imóvel de interesse público em 18 de Maio de 1997. Interligam-se aqui diversos modelos arquitectónicos, desde o revivalismo à «arte do ferro», passando pelo modernismo.
Surgiu da necessidade que se sentia de dotar a cidade de um espaço adequado à sua população e da maior sensibilidade para as questões da higiene pública. Ou como se tentou aliar a harmonia estética à funcionalidade e necessidades específicas. A «beleza» que os gregos privilegiavam nas suas obras, a «utilidade» que os romanos preferiam, aqui reunidas em perfeito equilíbrio.
Entre 1890 e 1920, tinha havido várias tentativas de criar em Santarém um mercado diário coberto, mas todas elas fracassaram. A ideia era substituir o mercado ao ar livre que se realizava na Praça Velha, actual praça do Visconde da Serra do Pilar. Projectado em 1928, viria a ser inaugurado dois anos depois, influenciando a partir daí toda a estrutura urbanística das redondezas.
A beleza do edifício e todo o cuidado posto na construção de um «simples» mercado municipal deveu-se ao arquitecto que o projectou, Cassiano Branco, um dos vultos do modernismo da arquitectura portuguesa. Para além da beleza intrínseca do edifício, a sua instalação naquela zona, aberta e desafogada, veio definir a orientação urbanística do local.
Através da utilização de materiais como a alvenaria e a telha portuguesa, o arquitecto procurou, naquela que foi uma das suas primeiras obras, seguir uma linha mais tradicionalista, pouco condizente com a linguagem modernista que viriam a caracterizar as suas obras no futuro.
O ecletismo da construção foi conseguido graças à introdução de elementos neo-barrocos, patentes nos painéis de azulejos azuis e brancos e policromos, cuja temática ribatejana (a lezíria, a vivência mercantil do Chão da Feira, alguns monumentos locais) nos remete de novo para o tradicionalismo. Um dos núcleos mais activos da produção intensiva de azulejos, e que se reflecte no conjunto que enquadra a porta principal, foi a Fábrica Aleluia, que os produziu em 1930. Já os restantes azulejos são de 1936 e foram feitos na Fábrica de Sacavém. No total, são sessenta e três painéis «em que se procura promover o dinamismo regional e mercantil de uma região que se assumia cada vez mais como polo comercial do Ribatejo» (Jorge Custódio)
A fachada principal possui um corpo central mais elevado e é enquadrada por dois torreões, rasgados no topo por pequenos óculos. Ladeiam esta estrutura dois corpos rectangulares, onde se rasgam amplas portas, encimadas por arcos de volta perfeita. No interior, a espacialidade e arejamento do espaço consegue-se através da aplicação das regras formais e funcionais da arquitectura do ferro – estruturas de ferro forjado, colunas aliadas a pilastras hexagonais, cuidada simetria das bancas dos vendedores.
O Teatro Rosa Damasceno, na rua Conselheiro Figueiredo Leal, é imóvel de interesse público desde 2002. O primeiro edifício foi construído entre 1877 e 1884 sob projecto de José Luís Monteiro, que se inspirou no Teatro Ginásio de Lisboa, e por iniciativa do Club de Santarém, que considerava precisar a cidade de Santarém de um espaço próprio e adequado para a prática teatral. Escolhido o local, foi necessário demolir a igreja de S. Martinho, do século XVIII. A escolha do nome, feita em 1894, foi uma forma de homenagear uma grande actriz, muito famosa em Lisboa na segunda metade do século XIX. Antes da sua existência, o teatro em Santarém representava-se na igreja de S. João de Alporão.
Em 1938, a sala seria totalmente remodelada pelo arquitecto Amílcar Pinto, devido ao surgimento do cinema sonoro. Do edifício anterior, foi aproveitada apenas uma parede mestra com cunhais em cantaria, embebida na fachada posterior, onde também são visíveis três janelas em cantaria, não previstas no segundo projecto. Na inauguração do novo espaço, foi representada a peça «A Recompensa», de Ramada Curto, pela Companhia Rey Colaço, com Amélia Rey Colaço no papel principal.
Amílcar Pinto foi o arquitecto de outros edifícios de Santarém, como por exemplo o Café Central (1939), o Hotel Abidis (1942/1944), uma casa no número 29 da Avenida Gago Coutinho e Sacadura Cabral ou a Casa do Campino.
Uma reconstrução, a do teatro, que teve como «musa inspiradora» o Teatro Éden (Lisboa), de Cassiano Branco, embora no final não lhe tenha ficado atrás. Com os trabalhos concluídos, o edifício adquiriu a feição Art Deco que tem hoje. A geometrização linear da decoração da fachada e a relação entre a verticalidade estrutural das linhas e os módulos de vidro comprovam-no. Os cinco janelões que rasgam a fachada, e que transmitem uma espacialidade ímpar, concretizam aquela solução. O modernismo de toda a concepção arquitectónica está patente na uniformização do interior do edifício com o mobiliário existente, na relação espectáculo-espectador ou na iluminação.
A liberdade criativa do arquitecto foi plena e isso nota-se sob os mais variados prismas, desde as questões ligadas à higiene e à segurança, passando pela linguagem «deco» do pavimento em marmorite do seu chão e atingindo o seu ponto máximo na sala de espectáculos, onde o conforto dos espectadores convive em todos os planos com espaços que são verdadeiras obras-primas, caso do 1.º balcão.
É uma obra claramente enquadrável no modernismo, que segundo Jorge Custódio aceita mesmo um modernismo radical e as tendências neoplásticas. Para além das influências de Cassiano Branco, Amílcar Pinto «bebeu» muitas das influências europeias, sobretudo no «De Stijl» do holandês Mallet-Stevcens
Com uma capacidade para 1400 espectadores, o espaço articula-se em três zonas distintas: a zona de acesso e convívio, em três andares sobrepostos – átrio, foyers e zonas de acesso ao primeiro e segundo balcões – articuladas por escada de vários lanços; o espaço cénico, unificado, constituído por ampla plateia, a que se s

obrepõe o primeiro e o segundo balcão; finalmente, a zona de sanitários e serviços, no corpo adjacente do lado direito. O piso do vestíbulo e foyer é constituído por marmorite de várias cores, formando uma composição geométrica marcada por frisos de latão. No foyer do primeiro balcão, a primeira máquina de projectar do cinema, da autoria da firma americana Ashcraft Meg. Co.. Do recheio, fazem parte mesas, cadeiras, vitrines em ferro pintado, desenhadas pelo arquitecto.
O antigo matadouro municipal é também imóvel de interesse municipal, por deliberação camarária de 1997. É um edifício projectado pelo arquitecto Domingos Parente da Silva na década de 80 do século XIX e inaugurado em 1889. Encontra-se na rua Pedro de Santarém. Uma construção que decorreu no período compreendido entre 1886 e 1889 e que foi integrada no plano de expansão urbana do cerco de S. Lázaro. Teve por modelo os matadouros públicos que no mesmo período se desenvolveram na Europa e nos Estados Unidos da América.
Nos primeiros anos da década de 60 do século XX, o corpo lateral direito foi destruído, em parte, para dar lugar a um conjunto de prédios. Em 1983, o matadouro passou a funcionar na quinta do Mocho, freguesia de Várzea. Actualmente, serve de armazém da Câmara Municipal e de sede dos escuteiros.
É um edifício de traça eclética, simples e sólido. De planta longitudinal, articula um corpo central com dois corpos laterais, sendo estes mais austeros a nível decorativo. Na fachada principal, a heráldica de Santarém. Quanto ao interior, nota-se a influência da arquitectura do ferro, embora esta seja assumida de forma tímida. Com uma área de 2,143 metros quadrados, tem uma planta de três corpos, divididos por pátios interiores. O corpo central é ameado e integra o grande recinto da matança propriamente dita dos animais. Um corredor central abre para o recinto, onde uma série de colunas de ferro fundido sustentam uma cobertura de madeira e fazem a divisão do espaço. Em todo o recinto, um silhar de azulejos azuis e brancos.
Mais uma vez, tal como aconteceu com o mercado, na vizinha freguesia de S. Salvador, aqui se alia a beleza do edifício à funcionalidade e objectivos para que foi construído. «Articulando a arquitectura de engenheiros com aspectos formais mais próprios da composição estilística, a gramática do edifício revela o ecletismo do movimento romântico e revivalista, pretendendo esconder para a via pública o local bárbaro da morte do gado.» (Jorge Custódio)
A penitenciária distrital de Santarém constituiu um pólo de desenvolvimento urbanístico da cidade de Santarém ao longo da segunda metade do século XIX e primeiro quartel do século XX. Imóvel de interesse público desde 19 de Fevereiro de 2002, foi construída a partir de 1870 e durante mais de vinte anos, pelos engenheiros Adolfo Loureiro, Alexandre da Conceição e José Cecílio da Costa, que se basearam nos modelos das penitenciárias de Lisboa e Coimbra. A abolição da pena de morte, em 1867, e as novas ideias que chegavam da Europa, acerca do sistema prisional como local de punição mas também de reabilitação do preso, fizeram-se sentir no projecto de construção. Assim, o ponto essencial de todo o edifício é um corpo central em forma de charola, do qual irradiam várias dependências, incluindo as celas individuais dos presos. Com uma área de mais de quinze mil metros quadrados, organiza-se a partir da forma de cruz. A casa da administração está separada do edifício da prisão propriamente dito e evita que este se veja do exterior. O ferro é utilizado como forma estrutural construtiva. De resto, Jorge Custódio considera-a o mais belo exemplar da arquitectura do ferro da cidade.
«Causa admiração nos nossos tempos a grandeza e a magnitude de um espaço público construído em finais do século XIX, numa altura em que a situação financeira do país esteve frequentemente periclitante e a dívida pública aumentava de orçamento para orçamento. A raridade do projecto, o tipo de obra, a base legislativa de onde partiu, raiz do seu significado cultural, a evidência paisagística registada por artistas e fotógrafos e o insólito da situação (não é habitual surgirem imóveis deste tipo e funcionalidade propostos no âmbito do património cultural) foram fundamentos na criatividade do processo de pedido de classificação.» (Jorge Custódio)
Em pleno centro histórico, o edifício onde antigamente funcionou o Banco de Portugal é imóvel de valor concelhio desde 20 de Outubrpo de 1996. Foi inaugurado em 1890, num momento em que o Banco de Portugal alargava a sua rede de dependências para fora de Lisboa. A partir de finais de oitocentos, saliente-se, o Banco de Portugal passou a exercer funções de banco emissor de moeda, abrindo então uma rede de agências, que veio substituir os bancos locais, afectados por várias crises financeiras.
O actual edifício, no entanto, só veria a sua construção iniciada em 1899 e inaugurada no ano seguinte. O projecto esteve a cargo de Júlio Francisco José de Sousa. Funcionou aí, paredes-meias com o Teatro Rosa Damasceno, até 1978, ano em que fechou. Dez anos depois, o imóvel foi adquirido pela Câmara Municipal. Em meados do século XX, chegara a ser pensado para albergar um posto de polícia, mas o projecto nunca se viria a concretizar.
De planta longitudinal, rectangular, é um edifício térreo, com casa-forte, cuja fachada é rasgada por uma porta, ladeada por duas janelas de dupla verga, enquanto que os corpos laterais são rasgados por quatro janelas rectangulares. Por cima da porta principal, um frontão curvo com a seguinte legenda: «Agência do Banco de Portugal». Interiormente, dois espaços bem delimitados, a área de serviços e a de atendimento ao público. Naquele, a presença do cofre forte abobadado da empresa Jotocar/Fichet assume plano de destaque.
Saliente-se, por fim, a feição maneirista e barroca de todo o edifício. Arquitectura muito eclética, como se comprova pelo alçado exterior, em que se imita as fachadas de habitação burguesas.

Em conclusão

Em conclusão, dir-se-á que o património edificado de Santarém é um inestimável conjunto a descobrir. Mal andou a Unesco, até hoje, a não atribuir a classificação de Património Mundial da Humanidade a tão extraordinária monumentalidade.
A mesma monumentalidade que começou a ser construída no tempo dos nossos antepassados. A mesma monumentalidade a que romanos, muçulmanos e cristãos deram o seu cunho muito particular. A mesma monumentalidade que a nossa Monarquia, primeiro, e depois a nossa República, se esforçaram por ampliar.
No fim de contas, uma monumentalidade que Alberto Pimentel, depois de visitar Santarém para acompanhar a exumação das ossadas de Pedro Álvares Cabral da igreja da Graça, conseguiu sintetizar numa dúzia de linhas bem escritas e independentes de todos os estios e de todas as facções políticas que até há pouco tempo haviam estado em confronto.
Diz o referido autor em «A Estremadura Portuguesa», no capítulo dedicado ao Ribatejo e a Santarém: «Procura a gente ali uma cidade antiga, e encontra uma cidade nova. Procura uma cidade nova e tem a memória cheia de tradições de uma cidade antiga. É que em Santarém há hoje reunidas numa só cidade muitas cidades de diversas épocas: há a cidade mitológica do rei Abidis, a quem deve o seu primeiro nome de Scalabis, «alimento ou manjar de Abidis»; há a cidade romana de Júlio César; Praesidium Julim, um dos três conventos jurídicos da Lusitânia; há a cidade gótica do tempo de Receswindo, época em que se diz ter vindo ao Tejo o corpo de Santa Irene, virgem mártir, donde alguns querem derivar o nome Santarém; há a cidade moirisca, em cujo topo escarpado campeava a alcáçova, que Afonso Henriques assaltou pela porta de Atamarma; há a cidade medieval, com algum raro vestígio da sua antiga fortificação, tal é uma guarita de pedra num dos ângulos da muralha, cidade onde a corte portuguesa f

olgou por várias vezes e onde se desenrolaram grandes dramas, alguns deles fúnebres, como foram o suplício de dois assassinos de Inês de Castro e a morte desastrosa do malogrado filho de D. João II, há, finalmente, a cidade moderna, onde o recinto da alcáçova foi convertido no lindo jardim da Porta do Sol e as ruínas do convento de S. Domingos na actual praça de Touros.»
E há, como já vimos, a cidade contemporânea, com os seus equipamentos económicos e sociais virados para as necessidades das populações, caso do mercado, do matadouro ou da agência do Banco de Portugal.
Tão ou mais importante que este património edificado de Santarém é o património humano existente. Preservado e mantido ao longo dos séculos, é um património imorredoiro que a cada dia rejuvenesce e se desenvolve. Basta que nasça uma criança. Basta que uma mãe conta a lenda de Santarém ao seu filho. Ao seu neto. Basta que lhe cante uma modinha tradicional, daquelas antigas que ajudam ao «espírito do lugar» que se sente em Santarém.

Contos Proibidos: Memórias de um PS desconhecido

(continuação daqui)

«Corriam rumores entre os exilados de que Mário Soares só não aceitara o convite do director de campanha de Marcello Caetano, Guilherme de Mello e Castro, para integrar as listas da ANP, em 1969, porque pretendia a garantia de um lugar no governo.
O fundador da ASP e primeiro líder do movimento, Mário Soares, reconhece para ele próprio a influência do socialismo humanista e cooperativista de António Sérgio e até o pensamento estalinista do seu antigo professor, Álvaro Cunhal. A verdade é que, contrariamente ao que acontecia pelo resto da Europa, e até na vizinha Espanha com o Partido Socialista Operário fundado por Pablo Iglésias, em Portugal, a Acção Socialista, primeiro, e o Partido Socialista, a partir de 1973, para além dos textos de Mário Soares que iriam sendo «oficializados», nada têm que ver com os grandes movimentos socialistas da classe operária do fim do século dezanove.
A precursora do Partido Socialista não tinha qualquer passado histórico. Nascera na década de 60 um pouco como quem regista uma patente por iniciativa de um grupo de conspiradores de «operações»,a sua maioria ligados à Maçonaria, e de alguns teóricos influenciados pelo PCP, como foi o caso de Salgado Zenha e do próprio Vitorino Magalhães Godinho.
A evolução teórica do movimento, mais de três décadas após a sua constituição, é assim essencialmente caracterizada mais por razões empíricas de conveniência dos seus operacionais do que pelasteses dos seus «ideólogos» ou pelos princípios doutrinários que emanam do socialismo democrático. Esta caracterização, que viria a ficar célebre quando o líder da oposição, Francisco Sá Carneiro, acusou o então primeiro-ministro Mário Soares de «metero socialismo na gaveta» com a finalidade de se manter no poder através de uma coligação com o partido democrata-cristão, CDS, verifica-se frequentemente na prática seguida desde 1964. Seria mesmo
motivo de algum desdém por parte dos sociais-democratas norte-europeus que consideravam verdadeiramente ridícula a constante necessidade de demarcação dos socialistas portugueses em relação à social-democracia, a cuja familia queriam pertencer
embora afirmassem ser socialistas democratas e nãosociais-democratas. Era um maneirismo influenciado por François Mitterrand,que a Internacional Socialista considerava uma expressão de retórica e pura hipocrisia, com o objectivo de parecerem mais progessistas aos olhos do mundo.
Era aliás um sintoma típico do Sul da Europa, que um proeminente político norte-americano, anos mais tarde, comentaria com ironia, em termos semelhantes aos de Sá Carneiro.
Mas não obstante a «subtil» distinção e a demarcação progressista dos seusprincipais dirigentes, a verdade é que a adesão dos socialistas portugueses à Internacional Socialista representa o ponto mais alto do movimento no período que antecedeu o 25
de Abril de 1974. Na história do PS, a suafiliação internacional sobressai destacadamente da manifesta «probreza» do seu passado. O PS, «sobrevivente apagado dos anos 30, que não resistiu,como organização autónoma, à repressão e clandestinidade, que
no final da Segunda Grande Guerra era constituído apenas por um pequenogrupo de abencerragens, sem qualquer influência real no País».

Há que saber fazer as queimadas…

Metaforicamente e realmente o país está um braseiro, arde em campo aberto e em circuito fechado. Só faltava o incêndio chegar à TVi.

O Ministro vem dizer que a culpa é do excessivo calor, será, mas não haver uma política para a floresta, limpar os terrenos, ajudar os proprietários tambem não ajuda nada. O senhor Ministro já reparou nesta coisa absolutamente excepcional, que as florestas de pinheiro e eucalipto das indústrias de celulose não ardem ? Ano após ano não ardem. Com calor, sem calor, no pino do verão, sem ministros, não ardem. É que as celuloses têm uma política para as suas florestas,desde o plantar, deixando acessos capazes, limpando a floresta, vigiando, com um grupo profissional e privativo de bombeiros, equipamento moderno, não arde!

Por isso senhor Ministro não pode dizer que é do calor, no inverno tambem não arde e é por causa da chuva, se vossa excelência não serve para fazer nada, entre o calor e a chuva, agradecíamos que vá tirar um curso intensivo às celuloses eles não dizem que não. Mas vir dizer que há incêndios por haver calor e tempo seco, obrigado, já sabíamos.

Lembro-me bem nos idos de 90, a floresta a arder, as casas e os lugares aonde vivem pessoas, pasto das chamas, e o Loureiro, que fazia o papel que vossa excelência faz agora, a gritar que estava tudo controlado, era só fumaça. Já naquela altura ardia, aliás ardeu sempre, embora a bem da verdade se tenha melhorado muito no equipamento aéreo e na programação. Mas chateia-me ouvir dizer que é do calor. Quer vossa excelência dizer que não pode controlar o tempo, mas que controla o resto ? Mas o exemplo das celuloses, mostra que não é verdade, é mesmo falta de jeito, de competência. Não pode queixar-se!

Está a ver o que está a acontecer na TVI ? Outro incêndio não controlado, não se pode deitar lume ao restolho sem os devidos cuidados, tem que se ser perito em contrafogos, não se pode ser suspeito de incendiário e depois andar com fósforos no bolso, dá encrenca. E de quem é a culpa ? Do tempo de eleições , já se sabe, brincar ao controle de empresas, primeiro com a PT a querer comprar uma empresa privada e agora isto.

Está a ver senhor ministro, isto está mesmo a arder e não é só por causa do calor. Mas é por culpa do tempo, isso é verdade. Há que saber escolher o tempo para se lançar as queimadas!