Santarém, Capital do Gótico (XIII)

(primeira parte e explicação do «bodo aos pobres» aqui)

NOTA: As minhas desculpas aos nossos leitores, e em especial ao nosso leitor Balby, grande apreciador desta coluna, pela não publicação deste «post» ontem, mas a actualidade política «falou» mais alto.


Santarém, Capital do Gótico

Resultando da evolução da arte românica, a arte gótica foi essencialmente uma arte de cidade, que permitiu uma posterior evolução para a arte Renascentista. Iniciada na Europa do século XIII, contribuiu para uma nova forma de ver o mundo, para uma nova relação entre o divino e o humano.
Partindo de uma arquitectura renovadora que fora iniciada pela ordem de Cister como contraponto à de Cluny, a arte gótica elegeu como figura de proa o arquitecto. Um sábio, um estudioso da geometria, muito mais do que o simples artesão de formas simples dos tempos do românico.
Toda a arquitectura gótica acabou por representar uma oposição total em relação à arquitectura românica. Se esta se caracterizava pela espessura das paredes, pela quase ausência de janelas ou aberturas para o exterior, pela escuridão e sobriedade, a arte gótica destacou-se pela claridade e abundância de grandes vãos.
Para conseguir aliviar o peso das estruturas, bastou ao arquitecto gótico rasgar um grande número de janelas para o exterior e utilizar a abóbada de cruzaria de ogivas como forma de aliviar o peso que dantes tinham de suportar. Ao mesmo tempo que os edifícios se tornavam mais altos, a fachada era enriquecida com grandes janelas e rosáceas de pedras decoradas, que exponenciavam a iluminação do interior.
Ou seja, apesar de ter partido da tradição românica, o arquitecto gótico soube transformar completamente os principais elementos construtivos e a relação entre esses mesmos elementos. «O reconhecimento social do arquitecto, do «magister operis», talvez por causa dos conhecimentos que se lhes exigiam para realizar essas construções, aumentou de tal maneira que alguns deles eram conhecidos por «doctor lathomorum», título reservado aos mestres universitários, e outros foram chamados «architector et mirificus aedificator»». (História da Arte)
Na arquitectura religiosa, o gótico veio valorizar determinadas zonas do edifício, como os portais. O alargamento das portas permitiu a profusão de arquivoltas e de pequenas figuras esculpidas. Em relação às diferenças regionais, a arte gótica tinha um carácter um pouco arbitrário, pois estava condicionada por particularismos diversos, ou seja, em cada zona da Europa acabou por absorver as influências locais. Alguns autores dizem mesmo que, na Península Ibérica, não há dois monumentos góticos iguais.
No caso de Santarém, foi um gótico primário e funcional aquele que foi aplicado às construções religiosas, sobretudo no século XIII. Era ainda um gótico de expressão mendicante, dado que os seus principais promotores eram precisamente essas ordens. Nos séculos XIV e XV, a renovação dos ideais religiosos e o patrocínio régio foram responsáveis pela evolução do gótico, embora as influências dos arquitectos e dos mestres do mosteiro da Batalha tenham sido decisivas.

Património medieval: O românico e o gótico

A igreja de Santo Agostinho da Graça, do antigo convento dos Agostinhos de Santarém, no largo Pedro Álvares Cabral, é monumento nacional desde 16 de Junho de 1910. É o último grande monumento gótico de Santarém, mas ao mesmo tempo o mais representativo. Uma «obra-prima da corrente gótica nacional», no dizer de Mário Tavares Chicó. Foi construída a partir de 1380 por iniciativa dos Agostinhos de Lisboa, que se tinham fixado na cidade quatro anos antes, e sob o patrocínio de João Afonso Telo, conde de Ourém. Devido à morte do fundador, a dificuldades económicas e a outras causas, as obras foram concluídas apenas no segundo quartel do século XV, facto que provocou uma conjugação de estilos diferentes e soluções arquitectónicas diversas.
É por esse facto que, apesar de a sua construção ter começado antes do mosteiro da Batalha, muitos dos seus elementos são influenciados pelo monumento da vila «em que mais pátria há», nomeadamente os elementos de tradição inglesa.
Do gótico mendicante, é a cabeceira tripartida, o transepto e as naves. Do gótico flamejante, o mesmo que foi aplicado na Batalha, é a fachada principal, com o seu portal cenográfico, e a grande rosácea que o sobrepuja, de fino lavor. O próprio túmulo do fundador da igreja e da sua esposa é muito semelhante ao de D. João I e D. Filipa de Lencastre em Santa Maria da Vitória. Aliás, terão sido os próprios mestres da Batalha a trabalhar nesta igreja de Santarém.
Em 1531, D. Mécia Mendes de Aguiar, mulher do navegador Gonçalo Gil Barbosa, mandou edificar a capela do Senhor Jesus dos Passos. Em finais do mesmo século, foi construído um novo claustro, sob a direcção do arquitecto António Dias.
Depois da extinção das ordens religiosas, o espaço funcionou como o lar de Santo António, sofrendo profundas obras de restauro a partir da década de 40 do século XX.
A sua planta obedece às regras de simplicidade das construções mendicantes. A fachada principal é em três panos definidos por contrafortes. Pórtico de cinco arquivoltas em arco quebrado, com as suas colunas e capitéis de motivos vegetalistas. Em cima, a rosácea, que segundo Jorge Custódio talvez seja uma das mais originais do gótico europeu. Ainda na frontaria, dois brasões da família de Ourém.
Interior constituído por três naves de cinco tramos cada, sendo que a nave central é mais alta do que as outras. Separam as naves seis colunas de pilares cruciformes, ornadas até aos capitéis. O transepto é de dimensões próximas às da nave central. A cobertura é em madeira nas naves e transepto e em abóbada de cruzaria de ogivas na cabeceira, onde se encontram três capelas poligonais. A capela-mor é de maior dimensão e volumetria.
Panteão dos Meneses, esta igreja conserva importantes mausoléus, que enriquecem a tumulária artística de Santarém. É o caso do fundador e sua mulher, Guiomar de Vilalobos, é também o caso de D. Pedro de Meneses e D. Beatriz Coutinho. Salientam-se ainda os de D. Leonor de Meneses; D. Afonso de Vasconcelos e Meneses, conde de Penela; D. João, filho de D. Pedro I; D. Luís de Meneses; Pero Rodrigues Portocarrero; os Sás; e muitos outros nobres de igual importância.
Na antiga capela de S. João Evangelista, no absidíolo direito, encontra-se o túmulo em campa rasa de Pedro Álvares Cabral, o descobridor do Brasil, e sua mulher, D. Isabel de Castro. É uma laje rectangular simples, gravada com uma inscrição em caracteres góticos: «Aqui jaz Pedralvarez Cabral e dona Isabel de Castro dua mulher cuja é esta capela é de todos seus herdeiros a qual depois da morte de seu marido foi camareira mor da infanta Dona Maria filha del-rei Dõ Juan Nosso Sñor o Terceiro deste nome».
Anexo à igreja, o claustro e os vestígios do antigo convento da Graça. Depois da extinção das ordens religiosas, o espaço foi abandonado e acabou por ser comprado em 1847 por Silvério Alves Cunha, que ali fundou o Lar Distrital de Santarém, instituição de assistência a idosos. A partir de 1992, ali funciona também um instituto politécnico, numa adaptação feita com o maior cuidado e que mereceu, inclusivamente, o prémio «Santarém – Cidade a Defender».
O claustro e os vestígios existentes datam dos finais do século XVI e das duas centúrias que se seguiram. Composto por cinco arcadas em cantaria de cada lado, de abóbadas artesoadas, trata-se de um conjunto quadrangular, que ter-se-á iniciado em finais de Quinhentos, embora as obras se tenham prolongado pelo tempo fora. As po
rt
as que davam acesso ao claustro, por exemplo, são maneiristas.
A igreja de Santo Estevão, ou do Santíssimo Milagre, é monumento nacional desde 1917. Encontra-se no largo do Milagre, na freguesia de Marvila, e deve o seu nome «alternativo» ao milagre da hóstia que, roubada do templo no ano de 1266, começou a sangrar no bolso da mulher que a roubara e, depois de escondida, iluminou toda a casa.
É o mais primoroso templo gótico de Santarém. Da primitiva igreja, provavelmente sagrada em 1241, restam apenas dois arcos do transepto. O actual edifício foi construído em meados do século XVI, por causa do terramoto de 1531 e ainda porque as suas dimensões não comportavam todas as pessoas que acorriam a visitar o Santíssimo Milagre. Artistas e mestres formados em Tomar terão participado nestas obras. Da primeira metade do século XVIII, por sua vez, datam praticamente todos os trabalhos de talha, nitidamente barrocos, alguns dos quais desvirtuaram as características iniciais. Os retábulos desse período vieram substituir os anteriores, que deveriam ser em madeira.
A fachada da igreja é formada por três corpos delimitados por pilastras. As exteriores são rematadas por pequenas mísulas encimadas por pináculos. Porta principal encimada por frontão triangular, um friso separa-o da janela. Torre sineira, em pedra, adossada ao lado da Epístola e coroada também por pináculos.
O interior é extremamente equilibrado e harmonioso. A distribuição entre os diferentes espaços – corpo da igreja/transepto, nave central/naves laterais – assim o comprovam. Esta característica, bem como a leveza de todo o traço arquitectónico, é claramente renascentista.
De planta longitudinal, é composto por três naves de igual altura mas de comprimento diferente – a nave central é mais comprida. Separam as naves três colunas toscanas, ligadas por arcos simples de volta inteira. A capela-mor é quadrangular e antecedida por um pouco comum tramo perpendicular às naves, constando de três arcos redondos. Esta estrutura é decorada com pilares lavrados de grotescos e imagens representando S. Pedro e S. Paulo, assentes em mísulas e coroados por baldaquinos. Adossadas às pilastras centrais, pequenas cabeças de anjos e de demónios. Na base, representações em relevo dos quatro Evangelistas. As paredes apresentam silhares de azulejos de padrão azul e amarelo e de axadrezado azul e branco. Do espólio existente, destaquem-se várias tábuas quinhentistas tardias, as imagens estofadas e policromadas de Santo Estevão e de Santo Agostinho e a pia baptismal.
Também em Marvila, no largo Zeferino Sarmento, é a igreja de S. João de Alporão, monumento nacional desde 16 de Junho de 1910 e hoje transformada em museu. Nela coexistem soluções românicas e góticas, numa tão curiosa quão invulgar ligação e experimentalismo dos dois estilos. A elegância austera que a caracteriza é bem o resultado da conjugação daqueles estilos.
O românico está presente na estrutura maciça da nave, no portal principal com arquivoltas em arco de volta perfeita ou no carácter fortificado de todo o conjunto. Quanto ao gótico, com claras influências da ilha de França, revela-se na cabeceira, de planta poligonal e com amplas janelas ogivais, na cobertura original dos três tramos da nave, de abóbada nervurada de cruzaria de ogivas e sobretudo na galeria que se desenvolve para lá da capela-mor. A própria nave é um exemplo da conjugação dos dois estilos, seguindo um modelo de transição definido como a goticização de modelos românicos tardios.
Ao longo dos anos, fantasiou-se muito sobre a sua origem. Chegou a dizer-se que, da sua varanda principal, foi lido à população o édito de Octávio César Augusto «Ut Describertur Universus Orbis».
Foi fundada pela ordem de S. João do Hospital, que se instalou em Santarém entre 1159 e 1185. Datará desse período, que prolongaremos até ao primeiro quartel do século XIII, a sua construção. Em 1207, pelo menos o presbitério já estava concluído, pois serviu de sepultura a D. Afonso de Portugal, filho ilegítimo de D. Afonso Henriques e grão-mestre dos Hospitalários.
Nos séculos XIII e XIV, fazia parte do complexo monacal de S. João do Hospital. A sua localização, junto à porta do Alporão, tinha como principal finalidade proteger o acesso militar à cidade e controlar a entrada de judeus.
Depois de 1834, a igreja passou para a posse do Estado. Foi utilizada como teatro entre 1849 e 1876 e, a partir de 1877, recebeu obras de adaptação para a instalação de um museu, o que viria a acontecer em 1889.
É um templo de planta longitudinal, composta pela nave e cabeceira poligonal mais baixa, de volume paralelepipédico. A fachada principal é em empena triangular de pano único. O pórtico é formado por cinco arquivoltas de volta perfeita. Mais acima, uma grande rosácea de colunelos radiantes. A cabeceira da igreja é de forma poligonal e contrafortada. Interior de nave única de três tramos. A cobertura é em abóbada de cruzaria com arcos de volta perfeita.
Destaque-se, na parede lateral esquerda, o cenotáfio de D. Duarte de Meneses, fronteiro de Alcácer-Seguer falecido em 1464 na serra de Benacofur. Um túmulo onde se realça a estátua do guerreiro, em posição horizontal, segurando na mão direita a espada de combate. Os coruchéus, os baldaquinos e os fogaréus são notáveis trabalhos de pedra. Para Gustavo Matos Sequeira, foram os mestres canteiros da Batalha os seus autores, dadas as semelhanças com alguns dos túmulos do mosteiro de Nossa Senhora da Vitória.
Outros dos túmulos que merecem referência são os de Martim e João de Ocem, que estiveram anteriormente no convento de S. Domingos. Martim Ocem foi embaixador de Portugal em Castela na altura em que, em 1411, se assinou o tratado de paz entre os dois países. João de Ocem, sobrinho daquele, pertenceu ao conselho de D. Duarte e de D. Afonso V. São dois túmulos muito semelhantes, até porque entre a morte do primeiro (1431) e a morte do segundo (1442), mediaram apenas onze anos. A figuração dos sepultados, os peitáfios e as divisas seguem todos na mesma direcção artística.
Da época romana, ali se guardam uma ânfora, três sepulturas, uma estatueta de criança, um marco dedicado ao imperador Marco Aurélio e duas aras funerárias. Do período árabe, apenas dois capitéis.
Anexo à igreja, encontram-se os vestígios da crasta do antigo mosteiro hospitalário, no qual o templo se integrava. Nas traseiras da igreja, pode ver-se ainda a casa dos comendadores da ordem do Hospital, que conserva ainda restos de estruturas antigas, como portas chanfradas em tijoleira e velhas lojas ao nível do piso térreo.
A fonte das Figueiras, ou fonte Mourisca, é um exemplo da arquitectura civil gótica. Está classificada como monumento nacional desde 16 de Junho de 1910. Localiza-se na freguesia de Marvila, junto a uma calçada que liga a cidade ao vale da Atamarma. Terá sido construída nos últimos anos do reinado de D. Dinis, embora Jorge Custódio levante a hipótese de ter sido edificada ainda no reinado anterior, o de D. Afonso IV. Com um ou com outro, simboliza de qualquer das formas a protecção régia às obras municipais, daí a grande qualidade dos materiais utilizados e do mestre canteiro que executou a obra, provavelmente um tal de Ioannis. Deve ter pertencido ao convento de Santa Clara.
Inicialmente, foi construída só com os alpendres góticos, mas no século XIII foi-lhe acrescentada a coroa de merlões pontiagudos. De planta quadrangular, consta de uma estrutura em alpendre, ameada de merlões, com abóbada de cruzaria, que protege uma bica. Os capitéis são profusamente decorados com elementos vegetalistas, sendo um dos mais que mais chama a atenção o «capitel dos três florões». Note-se neste chafariz a grande variedade decorativa em apenas quatro metros quadrados.
«O turista que desce o vale de Mont’Irás ou que toma a estrada que conduz à ponte D. Luis encontra, escondida na vege

tação, a fonte das Figueiras que é uma das mais preciosas jóias que o estilo gótico deixou em Santarém. Fazendo parte das terras que pertenciam ao convento das Clarrissas, em local que a natureza fadou, quantos cantares de amor não se teriam entoado à sombra dessas musgosas pedras, quando os troveiros medievais dirigiam galanteios às donas dos seus encantos! Certo é que, durante séculos, esse curioso monumento esteve desprezado, não se lhe referindo mesmo qualquer dos cronistas do burgo.» (Joaquim Veríssimo Serrão)
A igreja do antigo convento de Santa Clara, na freguesia de Salvador, está classificada como monumento nacional por decreto de 14 de Março de 1917. É o maior templo gótico da cidade. A sua dimensão justifica-se pelos apoios que sempre aquela instituição monacal recebeu da parte da família real.
Uma construção que se integrou, no dizer de Jorge Custódio, «num movimento ascético de feição franciscana e clarissa em Portugal, o qual se organizou tendo como referência a Regra seráfica.» As freiras clarissas começaram por se fixar em Lamego em 1258, passando para Santarém em 1265, por autorização do papa Alexandre IV.
As obras decorreram entre 1259, ainda antes, como se vê, do estabelecimento das clarissas, e ter-se-ão prolongado, sempre com donativos régios, pelo menos até 1327. D. Afonso III, D. Dinis e a sua esposa, a Rainha Santa Isabel, apadrinharam sempre a edificação. Especialmente importante nesta situação foi D. Leonor Afonso, filha de D. Afonso III que foi freira neste convento. O seu túmulo, de influência coimbrã, segundo Reynaldo dos Santos, é muito semelhante ao de D. Dinis no mosteiro de Odivelas. Anterior na sua execução aos túmulos de Alcobaça, a sua autoria deve ser endereçada, muito provavelmente, a pedreiros santarenos.
Era um complexo monacal de grandes dimensões, um dos maiores do país, com capacidade para oitenta freiras. No período de maior esplendor, tinha dois claustros e inúmeras dependências. Ao longo dos anos, foi sofrendo profundas remodelações, em parte pelos acidentes que o atingiram, dos quais se destacam o terramoto de 1531 e os incêndios de 1668 e 1669. As obras então realizadas transformaram a fisionomia do edifício, que passou a assemelhar-se a um imóvel setecentista.
Encerrado em 1902, depois da morte da última freira, o convento e a igreja entraram em ruína até 1934, ano em que a Direcção-Geral dos Edifícios e Monumentos Nacionais iniciou a sua recuperação e o retorno à sua pureza original. Nessas obras de restauro, perdeu-se o retábulo quinhentista de Diogo de Contreiras (1554), o cadeiral do coro (1600), os azulejos, os elementos barrocos e o claustro quinhentista.
É um dos templos do ciclo mendicante da cidade. Muito semelhante à igreja do convento de S. Francisco, também em Santarém. A cabeceira composta por cinco capelas escalonadas, a feição geral das arcadas e dos suportes e a contemporaneidade das duas construções comprovam as similitudes entre os dois templos.
Templo de planta longitudinal, composta por nave, torre e cabeceira. Na fachada principal, ressalta de imediato a grande rosácea, sobrepujada pelas armas reais. Uma rosácea octogonal sobrepujada pelas armas reais que, coadjuvada pelas janelas maineladas rasgadas nas paredes, inunda o interior de uma luz homogénea. De colunelos radiantes, que seguram um centro de arcaria trilobada, é um elemento de grandes dimensões.
Outros elementos a registar no exterior são a torre sineira, semelhante a algumas igrejas italianas de finais do século XIV; e a fachada principal, sem pórtico, típica dos edifícios de clausura.
O interior é de três naves, iluminadas por janelas geminadas e pela já referida rosácea. As naves são extremamente compridas, de oito tramos cada, marcados por colunas muito altas revestidas de colunelos e capitéis lavrados. O comprimento é de cerca de oitenta metros, quase tantos como os da igreja do mosteiro da Batalha. As naves laterais são mais baixas, permitindo dessa forma clerestório. Naves e transepto de grande volumetria apresentam cobertura em madeira, a abside abóbada de nervuras, os absidíolos abóbada de nervura. A cabeceira tem cinco capelas. A capela-mor, encimada por abóbada gótica de nervuras cruzadas, é poligonal e as restantes, ladeadas por absidíolos, são rectangulares. Em nichos renascentistas, algumas pinturas a fresco de personalidades franciscanas.
A igreja e o claustro do extinto convento de S. Francisco, freguesia de Salvador, encontra-se na rua 31 de Janeiro. É monumento nacional desde 17 de Março de 1917. A construção do edifício monacal iniciou-se em 1242, no mesmo ano em que os franciscanos se instalaram em Santarém (Frei Manuel da Esperança). Quanto à igreja, de grandes dimensões, terá sido concluída em 1260 ou 1282, consoante as teorias chegadas até nós. É o mais antigo exemplar da arquitectura franciscana em Portugal, a par da igreja de Estremoz, e o mais antigo testemunho do gótico em Santarém.
Tipologia construtiva muito semelhante ao ciclo mendicante do resto da Europa no mesmo período, nomeadamente no que diz respeito à severidade dos volumes, à preponderância das dominantes horizontais e rectas em detrimento da verticalidade, aos elementos vegetalistas dos capitéis e à ausência de qualquer tipo de decoração. Aliás, terão sido os próprios franciscanos a trazer a planta do edifício e as regras de medição do centro do «velho continente», pois a unidade de medida aplicada foi a de «pied de roi».
Ao longo dos séculos, igreja e convento foram sendo engrandecidos, caso do claustro, construído em duas ou três fases. O complexo chegou a dispor, para além dos dois claustros, de três dormitórios, um refeitório e uma biblioteca. À primitiva fase do gótico mendicante do século XIII, sucedeu-se uma fase de acrescentos da primeira metade do século XIV, uma outra gótica nos reinados de D. Fernando e D. João I, uma fase manuelina, uma renascentista e, por último, uma campanha setecentista. Assim, o gótico do templo foi mesclado com a arte renascentista e barroca.
Nos primeiros séculos da sua existência, muitos foram aqueles que quiseram ser aqui enterrados. Algo de normal, afinal, se tivermos em conta o quadro de costumes e de mentalidades da sociedade europeia da Baixa Idade Média. O exemplo mais paradigmático foi o do rei D. Fernando, que decidiu ser aqui sepultado e para tal patrocinou a construção de um coro-alto, nos três tramos médios da nave central. Em 1447, D. João II foi aqui aclamado. No século XVI, aqui discursou Gil Vicente, fazendo um apelo para que os cristãos-novos não fossem perseguidos. Em 1579-1580, reuniu-se aqui o povo para impedir que o poder fosse entregue a D. Filipe II, que acabaria por ser coroado nas cortes de Tomar.
No século XVIII, a quantidade e qualidade dos túmulos e das inscrições existentes ainda era notável. No entanto, o terramoto de 1755, as Invasões Francesas, as guerras civis, a extinção das ordens religiosas e um grande incêndio, em 1940, levaram à destruição de quase toda a parte conventual. O estado de ruína do claustro mantém-se ainda hoje. A recuperação de todo o complexo, para a instalação de um espaço museológico, é um projecto a ser desenvolvido a curto prazo.
Templo de planta longitudinal. A fachada principal é de dois registos, definidos pelo pórtico de arquivoltas decoradas com motivos geométricos, ladeado por quatro colunelos, e pelo grande vão quadrangular destinado a receber a rosácea. É muito semelhante ao pórtico do mosteiro da Batalha. À fachada nascente, está adossada a casa do Capítulo; à parte norte, está adossado o claustro e os corpos do antigo convento. O claustro, gótico, é composto por colunas duplas, com capitéis foliáceos e abóbada de nervuras com fecho heráldico. Foi mandado construir por D. Duarte de Meneses e pelos condes de Vila Real.
O interior é composto por três naves de cinco tramos, com cobertura de madeira, um cruzeiro alto e cabeceir

a com cinco capelas. Vários escudos, entre os quais o do rei D. Fernando, fecham as nervuras das abóbadas. As naves laterais são mais baixas do que a central. Colunas poligonais sustentam os arcos góticos, que terminam em capitéis de ornatos vegetalistas, embora alguns desses capitéis tenham perdido a decoração por causa das obras do coro-alto. Na cabeceira, as cinco capelas estão escalonadas em relação à capela-mor.
Ainda em relação ao coro-alto, Mário Tavares Chicó considera-o «a mais bela manifestação de arte gótica do país, antes da construção do mosteiro da Batalha». O construtor seguiu todas as regras do estilo então vigente, como se percebe pela decoração, pelos curtos pilares cruciformes, pelas nervuras que sobre eles assentam, pelos capitéis lavrados ou pelos fechos heráldicos das abóbadas e das frontarias. Para além de albergar o túmulo de D. Constança, mãe de D. Fernando, este tinha ainda a intenção de se tumular a si, como se viu antes, e à sua mulher, D. Leonor Telles.
A igreja de Almoster, juntamente com as ruínas do claustro do antigo mosteiro de freiras bernardas, é monumento nacional por decreto de 1920. Situada no largo do Convento, foi fundado por D. Berengária Aires, aia da Rainha Santa Isabel e mulher de D. Rodrigo Garcia.
É um templo de planta longitudinal, constituído por três naves de cinco tramos cada. A capela-mor é de dois tramos, com coberturas em ábobada de ogivas com pinturas de grotescos. As capelas absidais são de tramo único, com cobertura em abóbada de berço quebrado, abrindo para as naves colaterais por arcos quebrados em ressalto de moldura facetada.
Quanto ao claustro do antigo convento, dele restam dois lanços e a fonte da castra. As alas maiores possuíam quatro tramos, tendo os dois primeiros quatro vãos e os restantes cinco, de arcos quebrados geminados sobre colunas emparelhadas. A Sala do Capítulo é revestida de azulejos azuis e brancos e várias lajes sepulcrais.
A torre das Cabaças, no largo Zeferino Sarmento, é monumento nacional desde 3 de Fevereiro de 1928. Foi construída no local onde antes existia uma torre de recinto muralhado do antigo complexo defensivo de Alporão, que tinha o seu centro na porta do mesmo nome. Servia como torre do relógio do senado da Câmara, numa época em que a «medição» do tempo começava a ser objecto de interesse por parte da sociedade.
Assim, em meados do século XV Santarém foi uma das primeiras localidades a receber uma importante inovação: o relógio mecânico. Accionado por pesos e com mostrador das horas, surgiu em Itália entre 1277 e 1300 e começou a ser instalado nas torres das principais cidades. Era um invento fundamental, porque media o tempo e servia de instrumento para diversas profissões, como os mercadores. No dizer de J. Gimpel, foi o primeiro invento «decididamente moderno». E moderno foi Santarém, que recebeu o relógio pouco tempo depois do Porto e Lisboa.
Terá sido construída em meados do século XV – o primeiro documento conhecido que lhe diz respeito data de 1462. Foi alterado sucessivamente ao longo dos séculos, como no reinado de D. Manuel I, D. João III ou D. Filipe II. Este facto acabou por desequilibrar esteticamente todo o monumento. As obras realizadas no século XVII colocaram-lhe uma cimalha maneirista. A partir dos anos 30 do século XX, a Direcção-Geral dos Edifícios e Monumentos Nacionais levou a cabo obras de reabilitação do monumento, como foi o caso da demolição do edifício anexo, conhecido como a casa do Relojoeiro. Essas obras prolongaram-se no tempo até à actualidade, embora nos últimos anos tenha sido a Câmara Municipal de Santarém a responsável pelas mesmas.
A tradição popular refere que o nome de Cabaças foi dado em «homenagem» às «cabeças ocas» dos vereadores que decidiram a sua construção, de tão feio que o edifício era considerado. Na verdade, o nome deve-se a oito cabaças de barro colocadas na estrutura de ferro que suporta o sino e que têm como função ampliar o som emitido.
«Quando de uma visita de D. Manuel a Santarém, os edis solicitaram do monarca um subsídio para se erguer a torre do relógio e do sino de correr, necessidade quotidiana da população, sobretudo dos trabalhadores rurais que desejavam conhecer a hora de começo e fim dos seus trabalhos. Concedida a desejada quantia, os membros camarários, em número de oito, teriam mandado colocar no alto da torre um sino assente em quatro varões de ferro. Voltou o Venturoso a Santarém, poucos anos mais tarde, e ao contemplar a fealdade do conjunto arquitectónico da torre do Relógio, esbajada que fora a dádiva régia em obra tão desprovida de elegância, ordenou que, a rodear o sino, fossem colocados oito púcaros de barro – a que chamam cabaças – que passariam a representar as oito cabeças ocas dos senadores locais. Umas e outras, desprovidas de inteligência. E ao senado santareno caberia o epíteto de senado cabaceiro.» (Joaquim Veríssimo Serrão)
Segundo Vítor Serrão, o edifício apresenta características tardo-góticas. É uma estrutura com a forma de um paralelepípedo de vinte e dois metros, coroada por uma armação de barras de ferro, para apoio das vasilhas de barro, ou cabaças, que lhe dão o nome. Torre de secção quadrangular, em cujo topo se rasgam, nos quatro lados, oito janelões em arco de volta perfeita. Acima, os oito púcaros de barro que já referimos e que servem como caixa de ressonância do sino do relógio. No interior, entre o primeiro e o segundo piso, todo o seu volume, exceptuando o volume da escada em caracol, encontra-se atulhado.
Um dos projectos existentes para o aproveitamento desta estrutura, que lembra, «mais do que nenhuma inventada pelos arquitectos, a origem árabe, a vida nómada, a tradição pastoril da região onde surgiu» (Ramalho Ortigão), é a sua transformação no Núcleo Museológico do Tempo – um verdadeiro museu vivo da relojoaria.
Aliás, são muito elogiosas as palavras que Ramalho Ortigão lhe dedicou em «A Arte em Portugal»: «A torre das Cabaças não será talvez o mais monumental, o mais nobre, o mais rico, mas é decerto o mais sugestivo, o mais anedótico, o mais interessante, o mais carinhoso, o mais familiar, o mais lindo campanário de toda essa formosa campina ribatejana, o mais aberto sorriso agrário da terra portuguesa. Tudo envolve de penetrante poesia local essa velha torre. O seu mesmo nome de relógio das cabaças ou de cabaceiro se alia harmonicamente no ouvido à lembrança das lezírias, das hortas, dos pauis, das courelas e dos olivedos, que o circundam, e fazem dele como que uma parte integrante da paisagem, um natural rebento da terra… A torre das Cabaças fez-se para ser olhada do vasto campo da Golegã ou do campo de Almeirim, vindo do Vale, vindo de Coruche, de Benavente ou da Barquinha, através dos olivais, das terras de semeadura e das eiras do termo de Santarém, de jaqueta e sapatos de prateleira, mostrando uma égua de maioral, de cabeçada de esparto, almatrixa de peles e estribos chapeados.»
As muralhas do antigo castelo, em Marvila, estão classificadas como imóvel de interesse público desde 14 de Março de 1917. Foi edificado em 1147 no local onde anteriormente se situou um castro proto-histórico, sucessivamente ocupado por fenícios, gregos, romanos, visigodos e árabes. Originalmente, era constituído pelo recinto da Alcáçova, com quatro hectares, e pelo perímetro muralhado da vila, de trinta e três hectares. Era parcialmente defendido por uma barbaça e pela cerca dos bairros da Ribeira e de Alfange.
Das diversas intervenções que sofreram ao longo dos anos, destaque-se a ampliação fernandina, a adaptação da Torre de Alpram no século XV e o reforço de toda a estrutura muralhada no século XVII. O século XIX, por sua vez, assistiu à destruição de grande parte das muralhas e das portas de acesso. Várias razões estiveram na base desta sanha demolidora, desde razões urbanísticas à construção do caminho-de-ferro. Entre 1936 e 1954, a Di

recção-Geral dos Edifícios e Monumentos Nacionais procedeu a obras de consolidação de vários troços de muralhas, como tem vindo a acontecer, de resto, até hoje.
«Em qualquer das dominantes alturas de Santarém captam-se imagens visuais de rica tonalidade. Do alto panorama das Portas do Sol pode-se admirar um magnífico espectáculo no quadro que se nos apresenta. Disse-o Afrânio Peixoto: «um dos mais belos panoramas do mundo». Em baixo, o rio no seu curso pela terra portuguesa dá a nota de frescura com os seus areais e ilhotas, os verdes mouchões que o limitam, beijando na sua margem direita a povoação da Ribeira (antiga Seserigo) e o bairro piscatório do Alfange. Quase a pique, dominando uma encosta cavada, o roqueiro castelo é como acrópole que senhoreia os horizontes, e dele pode o forasteiro admirar o curso sinuoso do rio, o acidentado das colinas do norte e as férteis planícies da Borda d’Água. Encanto profundo que leva o visitante a recolher-se, admirando a obra da natureza em belas imagens que a retina passa a guardar.» (Joaquim Veríssimo Serrão)
Ainda sobre as Portas do Sol, mais das paisagens que dali se alcançam do que do banal jardim existente, referia João Barreira, na primeira metade do século, no «Guia de Portugal»: «É o mais belo varandim de Santarém (ajardinado em 1895), com um miradouro feito na porta que olhava o sol levante e dá sobre os vastíssimos e planturosos campos ribatejanos com o rio derivando em preguiçosos meandros laivados de ilhotas de areia fulva, as quadrículas da cultura ubérrima em que o verde esmeraldino é pintalgado de preto pela silhueta nervosa dos touros e a linha esbelta dos campinos, vendo-se no limite das pastagens branquejarem as vilas da Chamusca, Almeirim e Alpiarça. Ao norte Alcanhões e no extremo do horizonte Monte de Trigo. À direita, para o sul, o Outeiro da Forca, plantado de oliveiras. É indubitavelmente, diz F. F. Palgrave, que acompanhou o grande poeta inglês Tennyson na sua viagem a Portugal, «one of the great panoramic landscapes of Europe.»
Castelo de montanha, de planta irregular, era rasgado por várias portas e postigos. As antigas muralhas cobriam o perímetro da povoação. Na época muçulmana, as muralhas iam das Portas do Sol à Porta de Atamarma e daí ao «colar muralhado» que vinha do vale de Alfange. Nessa altura, existiam as portas de Atamarma, de Alcáçovas e do Alporão. Depois da conquista aos mouros, D. Afonso Henriques mandou alargar o perímetro da zona ameada. Fê-lo porque o burgo estava a crescer mas também porque era necessário prevenir futuros ataques. Com as guerras fernandinas, grande parte das muralhas ficou destruída. Cerca de 1380, D. Fernando restaurou-as e ampliou a periferia defensiva de Santarém.
Assim, havia três zonas dentro das muralhas: a zona da Alcáçova, fechada pelas portas da Atamarma, do Alporão e da Alcáçova; o perímetro muralhado da época de D. Afonso Henriques, que ocupava o planalto de Marvila; e a zona muralhada de D. Fernando, com a sua dupla linha defensiva. As muralhas originais, as da Alcáçova, ainda existiam em parte no século XVI, segundo relato de Erich Lassota de Steblovo. Actualmente, restam apenas alguns trechos.
Das antigas portas e postigos da cidade, também resta pouco hoje em dia. As portas de Santiago e do Sol estavam no perímetro da cidadela principal. A porta de Santiago estava ligada à calçada de Santiago, que a punha em contacto com a Ribeira de Santarém. Na porta, pode ver-se um brasão real do reinado de D. Fernando e a data de 1375. A porta de Alcáçova ficava junto da estrada que vai para Alfange. A porta do Alporão, demolida no século XVI, estava ligada à igreja de S. João de Alporão. A porta de Atamarma localizava-se no alto da calçada do mesmo nome. Foi por aí que D. Afonso Henriques entrou em Santarém. Destruída em 1865. A porta de Leiria encontrava-se no local da actual capela de Nossa Senhora da Piedade. A porta de Manços, que devia o seu nome a S. Manços, primeiro bispo de Évora, encontrava-se perto da antiga casa da Relação. A porta de Palhais, localizada à entrada da Ribeira de Santarém, desapareceu entre 1838 e 1840. A porta de Valada, por fim, encontrava-se no extremo do lugar de Pereiro. Desapareceu em 1838.
Quanto aos postigos, o de D. Margarida, como era conhecido no século XVIII, na rua Pedro Canavarro. Era também conhecido como postigo de S. Domingos, por dar acesso ao convento desse nome. O postigo das Figueiras ficava do lado da porta de Leiria e devia o seu nome ao chafariz do mesmo nome. O postigo de S. Gens ficava encravado na muralha, em frente da igreja do Milagre. Segundo a tradição, S. Gens andou por ali a pregar o Evangelho. Um outro postigo encontrava-se no bairro de Alfange, entre duas torres fronteiras à igreja de S. João. O postigo do Pão existiu até ao século XVIII, na Ribeira, perto do penedo de Santa Iria. O postigo da Carreira foi destruído algures entre o século XIX e o século XX.
Actualmente, subsistem panos de muralhas da época românica e gótica e, sobretudo, do momento do restauro da Alcáçova levado a cabo durante o reinado de D. Dinis. As portas de acesso de vão em arco quebrado são típicas desse período, enquanto que da época maneirista é o revelim triangular constituído por panos em talude e a guarita cupulada localizada no seu vértice. Em 1896, chegou a pensar-se na demolição do monumento, mas a forte oposição por parte da população evitou que a medida se consumasse.
As ruínas do castelo de Alcanede são imóvel de interesse público desde 1943. Terá sido fundado, muito provavelmente, pelos romanos, sobre um antigo castro, e reconstruído já durante a Idade Média, devido às guerras da Reconquista Cristã. Depois de estar definitivamente na posse dos portugueses, foi completamente reedificado e actualizado.
Durante o reinado de D. Dinis, altura em que passou a ser propriedade da ordem de Avis, fizeram-se as obras mais importantes, das quais avulta a construção da torre de menagem. O terramoto de 1531 provocou a sua destruição e só uma campanha de obras liderada pela Direcção-Geral dos Edifícios e Monumentos Nacionais, entre 1941 e 1950, permitiu dar novo alento à estrutura, com o levantamento de alguns panos de muralhas derruídos e a reconstrução de torres e alguns espaços interiores.
Em alguns pontos, ainda se podem ver os muros exteriores que antecediam as muralhas. Cubelo de planta elíptica adossado à fachada exterior da torre de menagem, de planta quadrangular, pela qual se tem acesso ao monumento através de porta em arco de volta perfeita. Acima deste, uma cartela heráldica. Na torre de menagem, cubelo e em alguns dos panos de muralhas que ainda restam, podem ver-se merlões rectangulares. Possui ainda adarve e uma cisterna.
Localizadas na encosta de S. Mateus, freguesia de Marvila, atrás do Cine-Teatro Rosa Damasceno, as ruínas da Albergaria de S. Martinho são imóvel de interesse público, por despacho de 6 de Novembro de 1978. Poderão ser ainda, segundo alguns autores, as ruínas de uma capela, provavelmente do século XII. Não se sabe quando foi fundada inicialmente, mas Maria Ângela Beirante vai até ao século II d. C. e ao culto esotérico dedicado a Mitra, ou ao culto de Cibele, que de resto estava associado àquele, para localizar a origem das ruínas.
A sua existência está documentada desde a primeira metade do século XV. Era então um dos hospitais de Santarém que, desde 1426, passaram a estar sob a alçada do Hospital de Jesus Cristo. Um terramoto, em 1531, veio destruir grande parte do edifício original. A reconstrução, por sua vez, alterou completamente a feição quatrocentista que possuía.
As mudanças verificadas nos últimos séculos alteraram completamente a geomorfologia do local. Assim, só é possível ter uma visão mínima de conjunto a partir da Ribeira de Santarém – uma parede, que parece muralha, uns contrafortes, uma porta e uma janela.
Hoje, apresenta no interior um carácter maneirista. A sua planta compre

ende um compartimento circular arruinado, bem como um outro compartimento ao qual se tem acesso a partir da porta de entrada, um corredor e uma sala coberta por uma cúpula. O interior é todo abobadado em tijoleira. Na primeira sala, a abóbada é de caixotões e faz a ligação à sala seguinte. O local onde está a cúpula parece ter sido o centro do edifício. Na frontaria, um portal de ombreiras rusticadas e frontão triangular.
A igreja de Santa Maria de Alcáçova, imóvel de interesse público desde 25 de Junho de 1984, encontra-se no largo fronteiro ao jardim das Portas do Sol, no local em que, segundo alguns autores, terá existido um templo romano. A invocação de Santa Maria, que recebeu desde o início, significou a santificação imediata de um lugar que era pagão.
Foi fundada nos primeiros anos da segunda metade do século XII, provavelmente 1154, depois da conquista da cidade aos mouros. A sua construção deveu-se à iniciativa de D. Anjo Martins, mestre da ordem dos Templários, a crer na inscrição sob a porta principal, e decorreu sob a orientação de D. Frei Pedro Arnaldo, membro daquela ordem e comendador de Santarém. Entre 1157 e 1159, aqui esteve Gualdim Pais, mestre dos Templários, antes de se fixar definitivamente em Tomar. Após a extinção dos Templários, tanto na Europa como em Portugal, foi entregue aos cónegos regrantes de Santo Agostinho.
Em 1192 a igreja da Alcáçova já era uma colegiada composta por vinte cónegos, pelos quais o rei D. Sancho I distribuiu as suas rendas. Entre meados do século XIII e 1834, funcionou como capela real. Foi ainda sede de uma escola que se prolongou até Setecentos e de uma comunidade de clérigos pobres. Os seus priores e cónegos atingiram grande notoriedade nas áreas da teologia, direito, música e letras. Foi, no fim de contas, uma ubérrima colegiada, porque os bens de que foi proprietária atingiram valores altíssimos e chegaram a incluir, entre outras, as igrejas de Santa Cruz, Santa Iria e S. João de Alfange. Os seus privilégios equivaliam aos de uma sé catedral e os do prior ao de um bispo.
Sofreu muitas alterações ao longo dos anos, sobretudo nos séculos XVI, XVII e XVIII, facto que descaracterizou completamente a traça primitiva. A reconstrução do século XVIII foi devida a D. Rodrigo Teles de Menezes, conde de Unhão. A reforma de 1724 foi a mais devastadora. Depois dessa data, da primitiva feição gótica ficaram apenas vestígios nas lápides e nalguns túmulos. Os retábulos laterais de cunho maneirista são os elementos arquitectónicos mais antigos. Tudo o resto insere-se já na reforma setecentista realizada dentro do espírito neoclássico.
Assim, se é verdade que o actual edifício tem uma aparência romântico-oitocentista, também é verdade que os elementos de outras eras que chegaram até nós dão ao conjunto uma unidade espacial de grande valor estético e artístico.
O seu plano de construção obedeceu a uma orientação nascente-poente, embora o tempo e o Homem, mais este do que aquele, se tenha encarregado de colocar a frontaria a sudoeste. Na fachada principal, a já referida lápide em mármore, em caracteres carolinos, recorda a edificação da igreja.
Templo de planta longitudinal, em cruz latina, com três naves separadas por dez colunas revestidas a estuque e com transepto. A nave central é mais alta do que as laterais. Todas elas têm cobertura em madeira apainelada. Arcos de volta perfeita sob colunas toscanas dividem os tramos. Junto ao arco triunfal, as paredes são revestidas por azulejos do século XVIII. Para além do lambril de azulejos setecentistas, com temas marianos alusivos às ladainhas da Virgem, o revestimento interior é em estuque. De resto, a cabeceira tem três capelas, sendo que a do meio é mais profunda e corresponde à capela-mor. Rectangular, é coberta por abóbada de caixotões de cantaria e está ladeada pelos absidíolos. No altar-mor, uma tela de excelente qualidade, da autoria do pintor e escritor Cyrillo Volkmar Machado. Representa o rei D. Afonso Henriques a entregar o eclesiástico de Santarém à ordem dos Templários.
Segundo a tradição, o túmulo adossado à entrada da igreja alberga o corpo de um cristão e de uma moura que se apaixonou por ele. A este propósito, dir-se-á que o património epigráfico do templo é muito valioso. É composto por quarenta lápides, essenciais para reconstituir a história da colegiada, da capela real e da escola. Da sua tumularia, salienta-se o cofre que guarda os restos mortais de Rodrigo Afonso, filho bastardo do rei D. Afonso III.
A igreja de Santa Cruz, em Santa Iria da Ribeira de Santarém, é imóvel de interesse público desde 2 de Maio de1950. Implantada numa plataforma rasgada na encosta, em posição de destaque sobre a Ribeira, estaria concluída em 1280, data em que D. Dinis concedeu o padroado da igreja à colegiada de Santa Maria de Alcáçova. No entanto, a sua fundação deve datar do reinado anterior, o de D. Afonso III, ou até do de D. Sancho II. De acordo com a documentação, já existia em 1261, pois nesse ano já fazia parte do plano anual da pregação dos dominicanos e franciscanos de Santarém.
Foi construída por iniciativa de Lourenço Domingues Minatos, conde estrangeiro radicado em Portugal, e sua nulher, Eiria Afonso Caeira. Terá substituído um outro templo, mais modesto, construído após a Reconquista da cidade, em meados do século XII. Funcionou como sede paroquial até 1851, data em que a paróquia de Santa Cruz foi extinta. Ao longo dos anos, foi objecto de várias remodelações, a maior das quais ocorreu em 1681, com a construção de um novo portal barroco na frontaria, o acrescento de uma torre sineira quadrangular e o alargamento do corpo do edifício para o lado da sacristia.
É a única igreja gótica trecentista da cidade que não está ligada ao patrocínio das ordens religiosas. Segue o modelo das igrejas paroquiais da época, ao mesmo tempo que conserva algumas características do gótico mendicante de Santarém.
O portal gótico, anterior ao da época barroca, é composto por quatro arquivoltas e capitéis florais, de reentrância em gablete e com arcos de ponto subido. A elegância deste elemento é pouco habitual em monumentos do gótico inicial, de carácter tão utilitário como é este.
O interior, plenamente barroco devido às reconstruções de vários séculos, é dividido em três naves relativamente altas, divididas por arcos ogivias, sendo que a nave central é maior do que as laterais. Os tramos dividem-se por arcos quebrados em cantaria. A cobertura é em madeira. Os capitéis das colunas que as dividem têm uma feição arcaizante e aproximam-se daquela que terá sido uma evolução natural das oficinas românticas santarenas.
A capela-mor, com dois tramos, é poligonal, com altas janelas abertas em panos delimitados por contrafortes. É iluminada por cinco janelas góticas. Virada a nascente e com um volume que se salienta do corpo da igreja, é abobadada. O presbitério é amplo e marcado por sinais de modernidade. Junto a uma coluna do lado do Evangelho, um púlpito renascentista em pedra.
A ponte de Alcourse, imóvel de interesse público desde 29 de Setembro de 1977, cruza a vala de Alcourse, no sentido norte/sul, à saída da povoação da Ribeira, no alinhamento com a fonte de Palhais, servindo a estrada para Vale de Figueira. Construída no século XIV, segundo o escudo da vila nela localizado, fez parte da estrada real que ligava Santarém a Coimbra, pela Golegã, Tomar e Pombal. Provavelmente, terá substituído a velha ponte romana que ligava Scallabis a Sellium (Tomar). Ainda hoje faz parte do percurso entre Santarém e Vale de Figueira.
É uma ponte de feição gótica, constituída por um tabuleiro rampeado de um dos seus lados e ladeado por guardas em pedra. Está assente em quatro arcos redondos de volta inteira. No centro da ponte, entre o segundo e o terceiro vão, encontra-se o brasão de D. Afonso III, que contém as armas do concelho e de Portugal, facto que parece
indiciar a divisão das despesas da construção.

Sócrates : o que parece é!

Não é possível alguem ser Primeiro Ministro e ter uma imagem pouco transparente com a verdade. Ou que a população e a sociedade tenha essa percepção, em relação ao caracter de quem exerce funções que têm uma influência decisiva nas nossas vidas.

A actual notícia e factos relacionados com o processo Freeport, Moniz e Moura Guedes não teria a importância que está a ter se outro fosse o Primeiro Ministro. Sócrates tem passado e tem história neste tipo de coisas, suspeitas, casos mal explicados, militantes ou simpatizantes do PS colocados em funções que podem seguir de perto ou mesmo influenciar os processos que têm a ver com o próprio.

Por mais que se negue, a maior força de um governante é estar acima de suspeitas, ser-lhe reconhecida ética pessoal e política, não basta ser sério, é preciso parecê-lo. E em política o que parece é!

Neste caso uma voz incómoda foi calada, e parece que numa altura em que uns documentos sobre o Freeport iam ser publicados. Metem medo a quem para haver esta precipitação? Porque nesta altura calar uma voz incómoda, a vinte e três dias das eleições, parece que é uma decisão motivada por razões políticas.

Quem se apressou a apontar o dedo a Sócrates fê-lo com a legitimidade de quem pensa que o Primeiro Ministro é capaz de fazer isto e mais alguma coisa, que tambem aqui está a ter dificuldade em ter uma relação sádia com a verdade.

Esta questão vem provar que para o cidadão comum prevalece o plano do Estado de Direito, uma pessoa só é culpada depois de um tribunal a considerar como tal, mas para um político tal não é suficiente, há outro plano, o plano político que é essencial à sua eficácia nas funções que exerce.

Uma coisa é certa. Não parece possível termos um Primeiro Ministro que esteja permanentemente sob suspeita!

Luiz Pacheco – Um libertino passeia pela vida – Alguns casos

O caso da quadrilha dos selos

Em Fevereiro de 1959 dera-se o caso do sobretudo – usara, sem autorização do proprietário, um opulento sobretudo do Chefe da Secretaria da Inspecção-Geral de Espectáculos – processo disciplinar e condenação a cinco dias de multa. No final de 1959, Pacheco pede a demissão do seu cargo de fiscal da Inspecção-Geral de Espectáculos. Antes disso houve uma nova bronca – a da falsificação dos selos. Luiz explica: «Um gajo está numa repartição a lidar com requerimentos e selos fiscais de duzentos, trezentos paus, um conto de réis – na altura era muito dinheiro. Ora não se põe um gajo a ganhar seiscentos paus por mês quando lhe passam diariamente pela mão dezenas de contos de réis pela mão sem a mínima fiscalização. Aliás, não era um gajo, eram dez.»
E conta como um filho de família numa atmosfera de corrécios adere a uma quadrilha – um inspector dos mercados, um colega, foi quem teve a luminosa ideia – não havia controlo dos selos que entravam Então eram limpos com lixívia e novamente vendidos. Alguns tinham de ser reformados porque começavam a ficar amarelados. A matéria-prima era abundantíssima. Um deles especializara-se a imitar a assinatura do director. Havia um outro especialista em falsificar passaportes – um novo ramo do negócio, que ia de vento em popa: «Arranja aí um passaporte dos nossos!». «Passa-me aí uns selos dos nossos!» «Aquilo tinha-se tornado uma instituição paralela ao Estado português!», diz Pacheco resumindo a situação. Funcionários com ordenados miseráveis compravam automóveis, tinham amantes, faziam uma vida de ostentação. Pacheco apenas fez duas extravagâncias – comprou uma mota e foi jogar ao Casino Estoril – saiu a ganhar na roleta e nunca mais lá voltou com medo de apanhar o vício (mais um). Mas os membros da quadrilha estavam a desleixar-se. Não havia cuidado. Pacheco apercebeu-se de que, mais tarde ou mais cedo, tudo iria desabar. Foi então que entrou um novo inspector… Damos de novo a palavra ao Luiz: «Até era um gajo giro, e perguntou-me: -“Então como vai isso?” – E eu mandei uns bitaites. Ele ficou fodido: – “Eu não preciso dos seus conselhos para nada, era o que faltava!” – Ora este cabrão! Apanhei o gajo sozinho e disse-lhe: “- O senhor inspector não precisa dos meus conselhos, mas vou dar-lhe alguns». E descreveu por alto o que se passava. «Você também pertence à quadrilha? – Pertenço, mas isto não pode continuar, senão vai tudo parar à cadeia.». O homem começou a ficar roxo, com as veias a inchar. «Ai que este gajo vai-me ter aqui uma congestão e eu fico com a morte dele na consciência», pensa Pacheco. Mas não. O inspector começa de imediato a pôr em prática os conselhos de Pacheco. A mama acaba-se, mas ninguém é preso. O chamado crime perfeito.

Os casos da gravata escocesa e do sobretudo do director

Como já disse, Pacheco trabalhava na Inspecção-Geral de Espectáculos, organismo estatal que fazia parte do dispositivo de repressão, a par do Secretariado Nacional da Informação e da Comissão de Censura, entre outros apêndices institucionais orquestrados pela polícia política e dirigidos pelo parido único. Era, pois, um departamento do Estado com funções repressivas embora actuasse a níveis modestos, inspeccionando salas de espectáculos, teatros e cinemas, zelando porque as directivas superiores, de carácter político e de carácter burocrático, fossem cumpridas. Funcionava no Palácio Foz, onde funcionava também o Secretariado Nacional da Informação. Quando em Abril de 1951morreu o marechal Carmona, presidente da República, foram decretado os regulamentares dias de luto nacional. Aos funcionários públicos era exigido que usassem gravata preta e roupas de tons escuros. Era algo que talvez não estivesse escrito em nenhuma ordem de serviço, mas que toda gente sabia.
Pois Luiz Pacheco apresentou-se ao serviço no dia seguinte ao da morte do marechal com uma gravata colorida, de padrão escocês em cores vermelha e castanha. Tal enormidade foi objecto de movimentações e de indignação a nível das chefias. O caso foi mesmo enviado ao ministro da Presidência! Veja-se o ofício abaixo:
gravata
O Caso do sonâmbulo chupista logo seguido pelo dos «Clandestinos»

Sobre o meio literário, Pacheco disse: «O meio literário é de cortar à faca, mas muito fácil de penetrar. Eu, que nasci em Lisboa, via-os chegar da província, os Namoras, os Amândios César, os Paço d’Arcos, etc. andavam por aí a borbulhar, a deslizar, a ver quem chega primeiro. É como os espermatozóides.» Houvera uma controvérsia lançada por Pacheco que acusou Fernando Namora de ter plagiado no seu romance «Domingo à Tarde», o livro de Vergílio Ferreira «Aparição». «Eu apenas fiz a divulgação da vigarice do Namora… O Namora era um vigarista, o gajo que mais plágios fez em toda a história da literatura», diz numa entrevista a Guilherme Pereira. Em 1972, Namora lança um romance, «Os Clandestinos», editado pelas Publicações Europa-América. Uma tarde, na livraria da editora na Avenida Marquês de Tomar, o editor Francisco Lyon de Castro repara num sujeito, alto, magro, semi-calvo e de óculos que folheia livros com ar interessado. Lyon de Castro aproxima-se e vê que o homem está a ler passagens do recém lançado romance de Namora.
– Gosta dos livros de Namora? – o sujeito faz um gesto passível de ser interpretado como um sim (ou como um não). Tagarela e gabarola Lyon de Castro continua: «- Sabe? Esse livro foi praticamente escrito por mim… » – por detrás das grossas lentes os olhos do cliente abrem-se de espanto «– Ah sim?» Castro não se faz rogado e explica com grande cópia de pormenores como descreveu a Namora as suas aventuras quando, nos anos trinta, fugindo à polícia política, se escapou para França. Namora tomou apontamentos, gravou cassetes, em suma, colheu a história de Lyon de Castro e transformou-a num romance. Foi uma coisa normalíssima, muito comum – os escritores não podem viver as vidas de todas as suas personagens. Porém o exagero de Lyon de Castro sobrevalorizando a história (que nunca foi capaz de escrever) e subestimando o trabalho do escritor que efabulou algo que, de outro modo, ficaria para sempre sepultado na cabeça do editor, e a aversão de Pacheco (pois era ele o cliente) a Namora, transformaram uma coisa normal num escândalo. No dia seguinte o Diário Popular, no seu suplemento cultural, trazia a toda a largura das páginas centrais a afirmação de que Namora roubara a trama do seu novo romance a Lyon de Castro. Resultado – Namora zangou-se com o editor e passou para a Bertrand.

QUADRA DO DIA

Foi um covil de ladrões

Marcinkus e muitos mais

Porventura ainda o é

A avaliar p’los jornais.

Não há festa como esta!


No dia em que arranca mais uma edição da Festa do Avante, apenas um breve «post» evocativo. Eu estive lá, uma vez, em 1995. Vim directamente da Madeira e, por ter chegado a meio da noite, tive de dormir com a minha namorada, hoje minha mulher, no chão do Aeroporto.
Foram três dias cheios. Lindos. Cheguei mesmo a ver, a dois metros de mim, o Álvaro Cunhal. Era então um jovem sem consciência política e a única coisa que me interessava era a música, os comes-e-bebes, a festa. O que me divertia quando as pessoas me chamavam camarada!
Catorze anos volvidos, posso dizer: «Eu estive lá». É que, digam o que disserem, seja qual for a cor partidária, não há mesmo festa como esta.

Freeport : e, no entanto, mexe-se…

Apesar das fugas de informação cirurgicas dando como arquivado o processo Freeport, e com Sócrates fora dele, a verdade é que o processo ainda mexe.

Agora um dos arguidos, Carlos Guerra, ex-presidente do Instituo da Natureza não está a gostar do andamento da coisa e põe em causa a conduta dos magistrados titulares do processo. Acusa-os de suspeita de violação de segredo da Justiça e prepara-se para os accionar criminalmente.

Para além das declarações de Moura Guedes ou talvez por isso mesmo, o “SOL” vem dizer que a atenção dos magistrados se vira agora para outro primo de José Sócrates, este a viver, convenientemente, em Angola. Angola fica mais próximo da China aonde está a tirar um curso de artes marciais, convenientemente, o outro primo. Ai, se isto acaba à chapada…

Entretanto a saga TVI continua, com Moura Guedes a dizer que há novas em relação ao Freeport, documentadas, o que poderá em qualquer altura ser tornado público, se é que a administração da empresa deixa. E se não deixa, é certo e sabido que vão ser publicados num outro qualquer canal de televisão.

Isto está preto!

POEMAS ESTORICÔNTICOS

A mulher que amanha o peixe

Sempre que que a vejo

no supermercado onde vou

reconheço que não é por acaso.

Muito bonita a mulher que amanha o peixe

(não sei se amanha se amanhece!).

Rosto combatido

dorido

olhar sofrido e manso

não sei o que faz desta mulher um poema

se os olhos negros e fundos

se o desenho rasgado da face

se um gesto brusco da natureza

revoltada de cansaço.

Um vale profundo entre o cá e o lá

banca de peixe

mar imenso

mar morto

do outro lado um peixe vivo no céu

tocando o mar

estripando com mãos invisíveis

entre lágrimas e sangues

as entranhas da vida

nas elegâncias difíceis dos plásticos

cobertos de escamas.

Passos molhados

encharcados

pesados

cheirando a algas

ondas de tempestade

no lindo rosto marcadas

pela ânsia de voar.

Com tantos apetrechos de borracha

botas altas

luvas e avental

não sou capaz de adivinhar

o corpo que tem por baixo

nem quero que aconteça o tal.

A mulher é segredo

a mulher é sonho

sonho de si mesma

no olhar dos outros

sonho de ventre liso

crescente de imensidão

fonte de pão e de leite

eternidade e sorriso

dança de movimento

para além das formas

e da imaginação.

Trepadeira de vida e de morte

olhos que se abrem no céu

e repousam no mar

mãos de todas as direcções

ainda que vestidas de plástico

amanhando o peixe.

Não sei se é casada ou mãe

se é tudo ou nada

no reduto escasso do dia-a-dia

nem me interessa.

Bastam-me os olhos infinitos

a boca seca de beijos

a dor-desenho dos lábios

a doçura-criança que não cresceu

por falta de uso

tempo e espaço.

O corpo desta mulher está na face

oculta e sedenta

na ânsia fervente do impulso

na mais íntima agitação do mundo

e da dimensão

que pode caber numa banca de peixe.

Difícil acertar ideias e olhares

quando só olhares fazem ideias…

enfeita-se a beleza desta forma estranha

criando beleza no amanhar do peixe.

Cruel seria descobri-la a dançar

pesadamente etérea e volátil

nos salões de púrpura da mulher vulgar

entre rendas e espumas

que não são espuma do mar.

Como sempre

tenho de dizer até amanhã

sou forçado a serenar as ondas

a desnavegar meu barco.

Muito obrigado.

Não tem de quê.

Você é das mulheres mais lindas que já vi.

Muito amável

um exagero…

faça o senhor o resto das compras

e depois passe por cá.

Buscar o peixe…ou voltar a vê-la?

Sei lá!

Mário "alucinado" não é consensual

Longe disso! Todos temos amigos e familiares que são professores, conhecemos as suas opiniões, assim como as suas concordâncias e discordâncias com as posições dominantes. E, sabemos mesmo, como as minorias são vistas e tratadas em certas escolas e meios.

Não vale a pena fazer o que neste país, habitualmente, se faz, que é transformar planetas, ou cometas em estrelas com luz própria. Rapidamente chegamos à conclusão que e esmagadora maioria desta gente não tem luz própria. E tambem não estou (nunca estive, na verdade) para tirar as mãos dos bolsos quando se fala em santos e milagres, só porque alguns juram que os viram.

Outra coisa, bem diferente, é os professores estarem de acordo com as causas. É fácil cavalgar um movimento destes e utilizá-lo para efeitos menos legítimos. Defender que todos os professores vão chegar ao cimo da carreira é uma falácia, seria aceitar que os militares vão chegar todos a General, quando sabemos que a maioria não passa de Coronel. É fácil vender isto. Ou que os funcionários públicos vão chegar todos a Directores- gerais.

Ou que a Gestão da Escola vai ser feita só por professores, há muito que esta questão foi discutida, por exemplo nos hospitais, que já passou por profissionais da saúde convertidos em administradores, pelos “autointitulados administradores hospitalares, depois por gestores profissionais e hoje já temos Hospitais -Empresas, isto é, com gestão empresarial. A escola pública não será diferente, custe o tempo que custar. É fácil andar a vender coisa diferente.

.Há mais de trinta anos que eu próprio aplico a Gestão por Objectivos na minha vida profissional, o que implica modelos de avaliação. É fácil reunir a classe contra um modelo estúpido, burocrático, subjectivo e com esse pecado original, que são os professores “especiais”. Sabe-se como se faz e a avaliação será implementada custe o tempo que custar.

Os concursos para quatro anos, só exigem bom senso. Dá estabilidade aos alunos e aos professores com evidentes vantagens para o êxito da escola. Dizer o contrário, querer voltar ao circo dos concursos anuais, revela uma visão vesga da escola, porque o que está em primeiro lugar são os alunos e a sua aprendizagem e não ter os professores ao pé da porta ( o que será sempre impossível).

Não tomemos pois a nuvem por Juno e não se perca a capacidade de crítica legitima, em relação a alguem que tem um enorme déficite de capacidade de diálogo e que aposta na hostilidade e no afrontamento como regra.

POEMAS DO LUSCO-FUSCO

Este amor

preso à proa de um barco

guardado por muralhas de fogo

onde encerro a tua virgindade

é vento que me leva para o mar azul

onde livremente se espraia

a tua nudez intacta.

Contos Proibidos: Memórias de um PS Desconhecido

(continuação daqui)

«Durante mais de uma década, até à entrada de Portugal como membro de pleno direito na Comunidade Europeia, em 1986, o nosso pequeno e subdesenvolvido país, até então quase «esquecido» do seu contexto europeu, mobilizaria de forma inédita todas as atenções mundiais com a sua «Revolução dos Cravos» e teria reflexos profundos na Europa e no Mundo. A «nossa» revolução seria quase instantaneamente «adoptada» por praticamente todas as forças democráticas internacionais, tendo-se democratas cristãos, liberais, socialistas e até comunistas em todas as suas imagináveis versões, em determinados momentos e por diferentes motivos, considerado próximos do nosso 25 de Abril. Para o Partido Socialista, que protagonizaria de certo modo os aspectos positivos da Revolução e que imprimiria a sua marca ao sistema político constitucional vigente, esta seria também a sua década dourada.

Em Abril de 1974, a social-democracia europeia entra na sua fase de apogeu. Partidos filiados na Internacional Socialista, a que o PS português também pertence, estão então no governo na Alemanha Federal, Áustria, Bélgica, Dinamarca, Finlândia, Grã-Bretanha, Holanda, Israel, Luxemburgo, Noruega e Suécia. Na Escandinávia, os movimentos sociais-democratas de inspiração sindical começam a desprender-se do «conservadorismo» em que a sua dependência «operária» os lançara e a ansiar por um maior protagonismo internacional. Na Grã-Bretanha, a onda de revolução social da segunda metade dos anos 60 contra o chamado establishment reabre as portas ao Partido Trabalhista liderado por Harold Wilson, que se mostra impotente para travar a vaga que transformaria aquele partido, tradicionalmente moderado, num dos mais radicais da Internacional Socialista. Na Alemanha, a democracia «controlada» do pós-guerra deu lugar a um «novo» Partido Social-Democrata com forte liderança de Willy Brandt e Helmut Schrnidt os quais, apesar das nuances entre si, tinham o objectivo comum de transformar novamente a Alemanha num país unificado e no motor da Europa. Na Áustria, com Bruno Kreisky, na Holanda, com Joop den Uyl, na Bélgica e até na Itália, graças à ameaça do P.C. de Enrico Berlinguer, emergem igualmente partidos sociais-democratas dispostos a dar nova cara ao socialismo.

Socialismo até então caracterizado essencialmente pelo seu eurocentrismo. Nos Estados Unidos também sopram ventos de mudança e, quando o 25 de Abril acontece em Portugal, já a administração republicana de Richard Nixon está ferida de morte com o caso «Watergate». Quando James Carter e Walter Mondale lançam a sua plataforma eleitoral de cooperação internacional e de defesa dos Direitos Humanos, em 1976, Willy Brandt prepara-se para ser eleito presidente da Internacional Socialista, com base num programa de actividades não muito diferente dos valores proclamados pelos democratas americanos e com a firme intenção de pôr fim ao eurocentrismo, dando início a uma nova fase de cooperação internacional entre socialistas democráticos, que alcançasse todos os continentes.

A Revolução Portuguesa tomara-se um marco essencial para a compreensão dos grandes acontecimentos políticos mundiais da segunda metade do século XX, se bem que os políticos portugueses, que pouco tinham feito para que o 25 de Abril acontecesse, também não a soubessem promover, nem conseguissem dela tirar os «louros» que, por direito próprio, Portugal merecia. A transformação pacífica de Portugal num país livre e democrático foi um acontecimento não só inédito como exemplar, que viria a contribuir de forma absolutamente decisiva para a falência de inúmeros regimes totalitários em África, na América Latina e no próprio Leste Europeu e para um desanuviamento da tensão nas relações internacionais.

A descolonização total do Continente Africano e os processos de democratização na Península Ibérica e na América Latina seriam o primeiro resultado da Revolução de Abril. O fim do apartheid e das ditaduras comunistas no Leste Europeu, pela via do diálogo e do pluripartidarismo, seriam também consequência da vitória das forças democráticas, primeiro em Portugal, depois, como reflexo dessa vitória, encontrariam força suficiente no seio da Internacional Socialista e no seio da NATO para rejeitar soluções de submissão unilateral nos chamados diálogos Leste Oeste e Norte Sul. Na base da força moral das forças democráticas, perante os graves conflitos entre o Leste e o Oeste e na escolha da via para a libertação dos Povos, nos anos 80, estaria sempre presente o exemplo português a que André Malraux chamaria a primeira vitória dos mencheviques sobre os bolcheviques. Bastaria referir, a este propósito, a situação de ruptura a que quase se chegou no seio da NATO por causa do regime sandinista na Nicarágua, sobre as propostas conducentes a um processo de desarmamento unilateral na Europa Ocidental e sobre um eventual apoio europeu a formas de luta armada a conduzir por países da Linha da Frente na África Austral, como forma de pôr fim ao regime do apartheid na África do Sul. Seria o exemplo da moderação da vitória dos mencheviques em Portugal que, na maior parte dos casos, mesmo quarido a revolução portuguesa já parecia esquecida, cimentaria as decisões de bom senso que acabariam por prevalecer e moderaria os ímpetos revanchistas dos republicanos norte-americanos e os ataques de pacifismo serôdio de alguns socialistas europeus. Portugal esteve no epicentro de uma grande ameaça à paz tendo a solidariedade internacional, que nos faltou durante tantos anos, finalmente funcionado. Entre as várias opções que se colocariam aos «capitães de Abril» e as várias receitas preconizadas para Portugal prevaleceria o bom senso. Mas os partidos políticos e seus principais dirigentes rapidamente desperdiçariam este enorme património, em lutas intestinas e com vaidades provincianas. Hoje, visto de fora para dentro, Portugal regressou ao seu estatuto de país insignificante e receptor. Não foram conseguidos os grandes objectivos da Revolução de Abril e o País encontra-se entre a Europa e a mediocridade. Parece que o povo português não consegue libertar-se do fatalismo da I República. Este meu livro de memórias, assim o espero, é também uma contribuição contra esse fatalismo.

O chamado caso do «fax de Macau» ou caso «Emaudio» dar-me-ia o último argumento de peso para escrever este livro. A propósito de um conflito, em nada diferente dos conflitos que devassam o interior dos partidos políticos portugueses e que se prendem com situações de poder; a propósito de um financiamento político relativamente «insignificante» e em nada, a não ser no montante, diferente dos que têm sido feitos ao longo dos últimos vinte anos a partidos políticos e organizações afins, confundiu-se a árvore com a floresta e iniciou-se a investigação à corrupção em Portugal de tal forma que, ao contrário do que tem acontecido noutros países europeus, se inviabilizaria o conhecimento da verdade e, como tal, o combate à corrupção. Em vez de se optar por um esclarecimento idóneo e completo, a que os Portugueses têm direito, sobre o estado da Nação em matéria de tráfico de influências e de corrupção, cortando o mal pela raiz ou, caso se verificasse que a verdade poderia ser fatal, a Assembleia da República em acto público entendesse fazer um acto de contrição para bem da democracia, criando moratórias e regras novas, o Ministério Público parece ter assumido a responsabilidade de definir o interesse nacional. Produzindo uma acusação sem provas numa total inversão de valores e, mesmo admitindo a convicção do investigador em relação a um crime que não existiu, ignorando a máxima de Séneca: «quem, podendo, não manda que o delito se não faça, manda que se faça».

Não há Democracia sem a
pa
rticipação dos cidadãos na vida do seu país. Escolheu- se definir, em Portugal, que o enfâse dessa participação se faça através de partidos políticos. Mas faltam ainda definir regras estritas sobre a democracia interna nos partidos que os impossibilite de se transformarem, como tem vindo a acontecer em Portugal, em aparelhos burocráticos fechados que impedem essa mesma participação.

E para além da ausência de regras que permitam, pela via individual, o acesso do cidadão à actividade política, não existem regras idóneas de financiamento dos partidos, nem de transparência para os políticos.Um pouco à semelhança dos «pilares morais» do regime, a Maçonaria e a Opus Dei, tudo se decide às escondidas, como se o direito dos cidadãos à informação completa e rigorosa de como são financiadas as suas instituições e dos rendimentos dos seus govemantes e dos seus magistrados fosse algo suspeito, algo subversivo.

Liberdade, Justiça e Transparência são sinónimos de Democracia. E sem esses ingredientes essenciais o regime português não passará de uma democracia com pés de barro. Acontecerá então, para mal de todos nós, a conversão do já em si negativo «triunfo da política» no temível «estado dos juízes»!»

ETICA E EDUCAÇÃO (2)

 ÉTICA E EDUCAÇÂO (2)

PRIMEIRA PARTE

Preâmbulo eventualmente útil como ponto de partida

 Num artigo escrito por mim há pouco tempo, eu dizia que quando se deu o hipotético Big-Bang em razão do pequeno desequilíbrio entre a matéria e a antimatéria, o Universo entrou em expansão e, com ele, esta risível partícula de poeira chamada Homem. No confronto entre a resistência da condição humana como força antropocêntrica e o movimento de fuga para fora dessa condição, tendente a dilatar o Homem no infinito, reside, a meu ver, a interface onde a verdadeira vida se processa. Uma luta racional e científica projecta-o para fora da sua estreiteza humana, mas também o prende ao amadurecimento da consciência social ajudando-o a combater a sua perversão.

O Homem não é o centro de nada, quer queiramos quer não, mas detém a força do equilíbrio ou do desequilíbrio da humanidade. O homem tem um enorme potencial de conhecimento acumulado, o qual, no contexto da revolução técnico-científica pode aprofundar o desequilíbrio entre os homens e constituir uma ameaça à soberania da dignidade, elemento nuclear da vida.

O homem é um animal, e o animal é um organismo complexo. O Homem é um ser vivo com actividade própria em permanente interacção adaptativa com o meio. Possui uma força intelectiva e emocional, que o torna capaz de entender as realidades e transformá-las, transformando-se dentro da sua sensibilidade intrínseca. Assim como o seu fenótipo resulta de uma interacção e de um diálogo permanente entre o genótipo e o meio ambiente, ele, ontologicamente parte integrante do Universo, não pode fugir à relação com o infinito.

O organismo humano é uma unidade constituida por sub-unidades, também elas muito complexas e em interacção permanente. Mas o Homem não é um simples quantitativo nem uma soma, antes se constitui por um crescendo de saltos qualitativos que nos levam a reconhecer que o todo é sempre muito maior do que as partes, tanto no que às relações humanas se refere, como à dimensão da sua relação universal. No meio destes dois poderosos vectores da sua natureza, vamos tratar o Homem na dimensão mais terrena, considerando que a dimensão universal é tema para palestras com outros objectivos. É nesta dimensão que reside a problemática da nossa conversa sobre ética e educação, sustentada na convicção de que a sociedade humana, muito mais do que um conjunto de homens, é uma profunda rede de relações.

                 ( manel cruz)

( manel cruz)

O esquecimento

adeportacao

A propósito disto: Faz hoje 70 anos. Hoje também faz 70 anos que o Reino Unido e a França declararam guerra à Alemanha Nazi. A efeméride é em si mesma, irrelevante. O que é relevante, é que o distanciamento temporal dos acontecimentos é neste momento tão grande, que a torna apenas mais uma data no calendário, sem que tenha grande expressão no dia-a-dia. É, apenas e só, mais uma notícia de rodapé a caminho do esquecimento. Este distanciamento torna-se o principal entrave à verdadeira relevância dum evento que foi provavelmente o mais importante da história da humanidade, quanto mais não fosse, por expor o que provavelmente serão os limites do próprio homem. De desumanidade e violência e de resistência e perseverança. Perante tudo isto, parece-me que, quer queiramos, quer não, estamos mesmo destinados a esquecer. Ou a querer esquecer. Consequência disso mesmo, é um pequeno livro de 200 páginas que encontrei no lixo. Alguém o deitou fora, provavelmente porque as imagens não são bonitas e apelativas (e o livro é composto essencialmente por fotos), porque este não foi um evento importante ou porque achou que estes eventos nunca terão acontecido. As razões pelas quais ele foi parar ao lixo eu não as conheço. Mas percebo perfeitamente a implicação e o significado do acto em si. De certa forma, o autor do prefácio, Louis Martin-Chauffier, muito melhor que eu, explica-o.

«A DEPORTAÇÃO, que tenho a subida honra de apresentar, não deve ser apenas, “para cada família de deportado ou de internado, o testemunho perene dos sacrifícios votados à causa da liberdade e da pátria”. É a um mais vasto acolhimento que se propõe corresponder. Monumento da recordação e do reconhecimento devidos àqueles que, pela sua forte afectividade, partilharam em espírito tantos sofrimentos quase inimagináveis, sofrendo ainda por cima crueldades que a mente dificilmente concebe, um tal livro é também destinado àqueles que se não lembram porque não souberam, para que eles venham a aprender e compreendam. Penso, antes de mais, nos jovens que, pela sua idade, ficaram aquém da memória, jovens esses a que importa dar a conhecer essa grande e terrível lição e os deveres que, no seu próprio interesse, ela lhes impõe.
Mas muitos outros há, e esses em idade de terem sido informados, que, por não terem sido atingidos pessoalmente ou através dos entes queridos, conheceram mal a verdade e pouco fizeram para a conhecer. Há muito tempo já que o esquecimento abafou os vagos e longínquos ecos que os seus ouvidos desatentos escutavam sem os fixar e apagou as imagens captadas por acaso no cinema ou nas revistas com um olhar distraído que logo delas se desviava.
Esconder a cabeça para não ver e envolver-se numa capa de silêncio é uma cobardia que, não raras vezes, a si própria se ignora, uma maneira prudente de deixar a consciência em sossego, dissimulando-lhe uma realidade por de mais terrível, perante a qual, uma vez alertada e informada, não poderia deixar de se comover e se interrogar. Como se o recusar-se a saber impedisse as coisas de terem sido o que foram! Como se essas coisas não tivessem, implícitas, consequências, e se o facto de elas terem sido o que foram não mudasse a sequência dos acontecimentos e, levando forçosamente à reflexão, não impusesse um sentimento de inquietação!
Não se pode viver indefinidamente na ignorância do mal que foi feito porque esse mal se prolonga; nem do bem que ele suscitou porque esse bem traz fortes razões de ter esperança. O que aqui se narra, o que aqui se mostra, passou-se há mais de vinte anos. Todos nós esperamos que os indiferentes de então ousem agora, talvez timidamente a princípio, tomar conhecimento do que aconteceu e que, pouco a pouco, impressionados por essa revelação, experimentem, embora tardiamente, remorsos pela sua prolongada e intencional ignorância e pela ilusão de terem acreditado que se podia impunemente varrer da história ainda bem viva aquilo que não passara de “um mau momento a atravessar”.»

Excerto do prefácio de “A Deportação”, Edições Europa-América, 1970

E se o mestre cervejeiro fosse trocado?

Andei de boca aberta uma parte do dia. Vi um país discutir e debater a retirada de um pivot televisivo da apresentação de um telejornal. Debateu como poucas vezes debate. Como talvez só aconteça em jogos de futebol. E como muito poucas vezes acontece noutros temas.

A administração da TVI, uma empresa privada, decidiu afastar Manuela Moura Guedes da apresentação do Jornal Nacional de sexta-feira. Disse faze-lo para transformar aquele produto em algo de homogéneo para com os restantes serviços noticiosos do canal.

Falou-se em pressões, em influências políticas, em vergonha. Como é evidente tudo tem a ver com política e este caso não é excepção. Algumas das virgens ofendidas poderão ter alguma legitimidade para reclamar. As outras, a maioria, não. A começar, por exemplo, no PSD, a continuar na Entidade Reguladora da Comunicação, a quem só falta abordar o índice de açúcar nos pirolitos, continuando por muitos jornalistas da TVI, que não podem ver Manuela Moura Guedes nem pintada mas agora vieram gritar que o rei vai nu. Sócrates garante que nada teve a ver com o assunto. Estranho seria se dissesse que teve.

Escusado será dizer que todos os poderes políticos desejam controlar a comunicação social. Sempre assim foi, sempre assim será. Aos jornalistas cabe responder à altura. Escusado será dizer que o jornal de sexta da TVI era feito por uma redacção dentro da redacção, por um núcleo de fiéis que trabalhavam, na maior parte das vezes, uma semana inteira para um noticiário. Escusado será dizer que isto fica caro. Muito caro.

Escusado será dizer que José Eduardo Moniz saiu contrariado da TVI, mas saiu. E depressa abraçou outro projecto.

Escusado será dizer que este afastamento não me agrada. Não por gostar do jornal das sextas, que raramente via e quando via não gostava. Não me agrada porque não me agradam as trocas feitas a desproposito e em cima da hora. Porque não aprecio o cheiro a esturro.

No entanto, a TVI é uma estação privada e a administração pode fazer as mudanças que considerar adequadas, desde que cumpra a lei. Não houve bom-senso? Não, mas isso também não houve muitas vezes nos jornais de Manuela Moura Guedes. Está em causa a democracia? Está sempre em causa. Sobretudo a qualidade dela.

Feitas as contas, estou preocupado mais ou menos. Foi um dia longo, estou cansado e não me apetece pensar muito. Cá entre nós, confesso que estaria muito mais preocupado se a minha marca de cerveja predilecta mudasse o mestre cervejeiro. É que nem se atrevam a trocar no homem.

A Armadilha da PRISA – Ongoing:

Como não ando nisto há dois dias, não fiquei espantado com a decisão da PRISA quanto ao Jornal Nacional da TVI.
Como não acredito que Sócrates seja néscio e por saber que não lembraria “nem ao careca”, não alinho na teoria da conspiração que afirma existir mão do Governo e do PS nesta decisão. Um profundo desejo? Não duvido. Depois das eleições? Certamente. Agora? Não.
A minha surpresa reside apenas no timing da decisão da PRISA. Ora, como “nuestros hermanos” não são parvos (mesmo tendo eles pago uma fortuna pela Media Capital), fico espantado com a escolha da data para tal divórcio. Que os espanhóis se queriam ver livres da Manuela Moura Guedes rapidamente e em força já todos, a começar pela própria, sabiam. Mas nesta altura, em pleno período eleitoral, num momento tão politicamente delicado?
É caso para perguntar: que expectativas foram criadas a este grupo internacional de comunicação social para suscitar tal vingança? Ou muito me engano ou está montada a armadilha da PRISA. Primeiro foi uma longa relação de amor, uma chegada inesperada, uma segurança reforçada, os meus amigos do outro lado vinham a caminho para me salvar. Depois, depois foi a ruptura, como em qualquer relação sem substância, como quando se dorme com o inimigo. O arrependimento, o fim do mundo…
Uma valente viagem sem retorno a caminho dos braços de Nuno…

O debate Francisco Louçã – Jerónimo de Sousa

Francisco Louçã e Jerónimo de Sousa mostraram que são bem mais educados do que o primeiro-ministro e Paulo Portas: nunca se interpelaram directamente e cumpriram as regras do debate. Não se afrontaram, nem seria natural que o fizessem, antes remaram na mesma direcção: o Governo Sócrates e os ataques deste aos trabalhadores e aos mais pobres. E, sobretudo, o falhanço de todas – TODAS! – as suas políticas económicas.

Todos contra Sócrates. Quem mente?

Como, habitualmente, Sócrates nada sabe. Tambem não sabia da compra em curso de uma parte da Media Capital pela PT. Não tinha que saber porque não se intromete nos negócios das empesas públicas. Mas apanhado, com a mão no queijo, mandou que a empresa desfizesse o negócio. Na tal empresa em que Sócrates não se intromete.

Atacou forte e feio a informação da TVI, dizendo que eram ataques pessoais, campanha negra.

Resultados:

Moniz saiu da empresa que criou.

Manuela não emite amanhã o Jornal.

Direcção de Informação pede demissão.

A Prisa arranjou um grupo português que meteu lá muita massa.

A campanha negra acabou.

Sócrates segue sem nada saber.

Quem mente?

Ignacio Polanco, o PSOE e as teias do poder da PRISA

  
Ignacio Polanco, nascido em 1954, é um empresário natural de Madrid e o Presidente do Grupo Prisa, dono da Media Capital e, em consequência, da TVI. Pertence também ao Conselho de Administração do El Pais, da Union Radio e da Cadena SER, entre outros. O Grupo que lidera controla hoje em dia 475 emissoras em Espanha e chega a mais de 11 milhões de pessoas nesse país e 17 milhões na América Latina. Um verdadeiro Império!
Ignacio Polanco sucedeu há dois anos ao pai, Jesus de Polanco Gutierrez. Um homem que foi considerado, em 2005, um dos mais ricos do mundo. Fundou a Editora Santillana em 1958 e, em 1970, após uma súbita mudança dos curriculum escolares, tornou-se o único capaz de fornecer os livros às escolas a tempo e horas. Seis anos depois, pouco tempo depois da transição para a democracia, fundou o «El Pais».
A sua influência começou a aumentar durante a década de 80, sobretudo durante o Governo socialista de Felipe González. A frase «Polanco é Deus e Felipe o seu Profeta» é sintomática quanto à relação e cumplicidade que então existia entre o fundador da Prisa e o PSOE.
«El grupo PRISA se convirtió en el adalid y defensor del gobierno González y de todo el turbio entramado empresarial y económico que coexistía en torno a él. A cambio recibió todo tipo de prebendas, compensaciones económicas y privilegios.
El gobierno de Felipe González le vendió a un precio ridículo la CADENA SER (cadena de radio que tenía una red espectacular de emisoras que cubrían todo el territorio español). Después de fracasar en el libre mercado radiofónico, optó con la ayuda del gobierno felipista por destrozar a la competencia (el antenicidio). Se le otorgó a dedo un canal de pago (el único) que además tenía la exclusiva del fútbol los domingos. El Canal Plus era una fuente inmensa de beneficios para Polanco y que además no tenía competencia posible.
El gobierno de Felipe González y toda la oligarquía financiera que lo sostenía tuvieron en Polanco su principal soporte publicitario y mediático. Su influencia en la sociedad fue enorme al contar, en sus acciones, con el apoyo abrumador de todos los medios de comunicación públicos y la inmensa mayoría de los privados (quien osara enfrentarse al poder, lo pagaría caro…). Desde el Grupo Prisa se produjeron la descalificación y el linchamiento mediático de las personas que se atrevían a poner en duda o a criticar algún aspecto de la corrupción felipista. Se intentó acallar los medios críticos e independientes. El felipismo necesitaba un escudo protector… Ese fue el Grupo PRISA. Incluso Juan Luis Cebrián, el hombre de El País y otros veintiséis editores de periódicos y revistas europeos pedían al máximo órgano político de la Comunidad Europea la desregulación de las normas sobre concentración de medios de comunicación. El ex comisario europeo responsable de la Competencia, Karel Van Miert, asegura en su libro “El Mercado y el poder” que en el último Gobierno de Felipe González, Solana y Solbes (acusado de corrupción en el caso Eurostat) le presionaron para que favoreciera a PRISA e ignorase la posible ilegalidad de su alianza con Telefónica en la sociedad de Cablevisión.»

A sua influência era tão grande que conseguiu a condenação e expulsão da Magistratura do juiz Gomes de Liaño, acusado de prevaricação no caso Sogecable. Em 2004, o Tribunal Europeu dos Direitos do Homem viria a considerar que o julgamento a que o juiz foi sujeito não foi justo nem imparcial e que o Supremo Tribunal não lhe permitiu uma defesa justa. Aznar acabaria por indultá-lo.
No referido caso Sogecable, o juiz Gomes de Liaño permitira que todos os subscritores do Canal Plus interviessem como parte interessada no proceso contra a Sogecable. Um caso que o juiz investigava desde 1997 e que tivera origem numa acusação contra os administradores da Sogecable, acusados de terem desviado 22 milhões de pesetas.
Durante o Governo de Jose Maria Aznar, a Prisa soube adaptar-se aos novos governantes e deles recebeu também alguns favores, como a autorização da fusão entre a Sogecable e a Via Digital.
No entanto, no dia 12 de Março de 2004, um dia depois dos sangrentos atentados de Madrid e na véspera das eleições legislativas (dia de Reflexão, portanto), desenvolveu uma intensa campanha contra o PP. «Es verdad que el Gobierno del PP mintió durante la guerra de Iraq y ocultó a los autores del atentado del 11M consciente de la gravedad para sus resultados electorales. Pero también es verdad que la campaña que desde la CADENA SER, CNN + y El País se hizo durante “el día de reflexión” de las pasadas elecciones generales fue una manipulación de la opinión pública y una falta de una mínima ética democrática al instrumentalizar el atentado terrorista para favorecer a la opción política del PSOE…
Polanco dijo que le daba lo mismo quien ganara estas últimas elecciones con tal que no fuera Aznar. El ganador de estas elecciones es el grupo PRISA. El PSOE, más que nunca, está en manos de Polanco.»

Em Novembro de 2005, Zapatero, antes do «apagão digital», concedeu à Prisa um canal nacional aberto, que permitiu ao Grupo ganhar uma vantagem de vários anos em relação aos seus competidores.
Jesus de Polanco morreu em 2007 e sucedeu-lhe o filho, Ignacio Polanco, mas nem por isso a influência da Prisa diminuiu no seio do PSOE. A influência do Grupo na política espanhola era muito grande e o PSOE sabia disso. «Si Zapatero pierde, Prisa puede perder buena parte de las prebendas de las que goza en la actualidad, y eso va a afectar duramente a unas cuentas de resultados que ya se van a resentir bastante de la crisis económica que está comenzando en España», analisava um especialista da área económica em Março de 2008, num momento em que as acções do Grupo caíam a pique. Avizinhavam-se as eleições legislativas e a vitória de Zapatero ainda não era certa.
Talvez por isso, querendo cobrir todas as hipóteses, Ignacio Polanco, herdando do pai (que fora franquista antes de ser felipista) os fantásticos «golpes de rins», encontrou-se secretamente no Verão de 2007 e em Dezembro do mesmo ano com Mariano Rajoy, líder do PP. Assegurou-lhe então que o Grupo não ia apostar em Zapatero na campanha eleitoral que se avizinhava. Justificou a mudança de posição com a falta de apoio de Zapatero na «guerra do futebol» com a MediaPro; com as entrevistas que continuava a dar a Pedro J. Ramirez, inimigo da Prisa; e com o desdém com que tratara nos últimos quatro anos Jose Luis Cebrian, braço-direito de Polanco, chegando ao ponto de nem sequer o consultar antes de tomar decisões, como fazia Felipe Gonzaléz.
Aliás, sobre esta «guerra do futebol», o socialista Felipe González acabou por envolver-se, tentando intermediar uma situação que considerava de «fogo amigo» de consequências imprevisíveis. «Me preocupan el fuego amigo, los daños colaterales y otras cosas absurdas que estamos viviendo. (…) Como en la guerra de Irak, hay dos versiones. Y la segunda de la de Irak no parece que esté resultando tan apropiada como la primera. Me preocupa», dirigindo-se ao Governo Zap
at
ero.
Em finais de Janeiro de 2008, Igancio Polanco teve um encontro secreto com Esperanza Aguirre, Presidente da Comunidade de Madrid, a quem prometeu suavizar as posições informativas da Cadena SER em relação ao PP.
No entanto, Ignacio Polanco ia jogando em dois tabuleiros e sabia da importância do seu Grupo para o PSOE e para as eleições do ano seguinte. Em Outubro de 2007, Jose Luis Zapatero reuniu-se com o Ministro do Interior, Rubalcaba, que disse ao primeiro-ministro que «vamos a pagar caro lo que está pasando con el grupo Prisa en la guerra del fútbol y creo que tomar partido es un grave error, porque vamos a necesitar muy pronto el apoyo de El País y la SER para las elecciones». Ou seja, o PSOE precisava dos membros da família Polanco para ganhar as eleições. De resto, «toda la artillería de Prisa se ha volcado en la campaña electoral a favor de Zapatero, lo que seguramente “tendrá su recompensa si vence el PSOE, y su castigo si el ganador es el PP”, según el analista consultado.»
O que é certo é que Zapatero voltou a ganhar as eleições folgadamente e a Sogecable, empresa do Grupo Prisa, acabou por ganhar a chamada «guerra do futebol» que mantinha com a Mediapro.
Es innecesario explicar los vínculos y complicidades entre Prisa (la Ser y El País, y más!) y el PSOE; son históricas y evidentes. El País, dicen algunos, contribuyó a la consolidación democrática en España… otros pensamos que a pesar del imperio Prisa en este “país” ha cuajado y resistido la convivencia pacífica y “representativa”, pero no es el lugar para enumerar los dislates y ataques a la libertad encabezados por Polanco y sus secuaces.
Hoje em dia, apesar da influência da Mediapro, que rivaliza com a Prisa no que concerne aos favores do Governo Zapatero, o Grupo continua a ter uma influência enorme no Governo e no PSOE. Alguns Ministros, como o do Interior, o importante Rubalcaba, continua a ser um indefectível aliado da Prisa.
A notícia que se segue, acerca de um certo projecto imobiliário desbloqueado em 2008 pelo Presidente da Prisa através do PSOE (no qual está envolvido o ministro Rubalcaba), é bem elucidativa: «Hasta el presidente de Prisa y el ministro Rubalcaba figuran citados en el sumario de La Muela. Las presiones que ha ejercido la trama de la Operación Molinos para intentar conseguir sus propósitos han llegado hasta las más altas esferas de poder, autonómico y nacional. Y no siempre procedentes de la principal encausada, la alcaldesa del municipio María Victoria Pinilla.
Según se desprende de las intervenciones telefónicas que durante más de un año efectuó la Policía, José Carlos Fernández Delgado, el propietario de la empresa madrileña Brocover y actualmente en prisión, llegó a conseguir información del PSOE a través del presidente de Prisa, según le explica a Pinilla en una conversación que mantuvieron el 6 de mayo del 2008.
“Me ha llamado el presidente de Prisa, que ha hablado con gente del PSOE de Zaragoza. No me ha dicho con quién pero con alguien mu gordo (…) Le dijo que tenía un amigo que había hecho inversiones y quería saber cómo estaba… Y le han dicho… Dile a tu amigo que se salga de la operación. Este proyecto está envenenado y jamás va a salir… Y me ha dicho que hay una importante guerra montada entre el PAR y el PSOE… Están a guantazo limpio”.
El proyecto al que hace referencia tiene que ver con los terrenos que Fernández Delgado había comprado por 30 millones de euros, con el compromiso de que iban a ser recalificados, por los que tenía que discurrir la circunvalación de La Muela. El plan fue paralizado por el Consejo de Ordenación del Territorio de Aragón (COTA) y es una de las cuestiones que más quebraderos de cabeza ha dado a Pinilla y a otros imputados en la trama.
Los problemas con este plan, que el dueño de Brocover y otra de las imputadas, María Jesús Velilla, hacen suyo –“nuestro plan”, dicen– llevó al primero y a la alcaldesa a mover todos los hilos que tenían a su alcance para intentar desbloquearlo.»

Não admira que o cancelamento do Jornal de Sexta da TVI tenha sido apenas mais um dos muitos favores que o Presidente do Grupo Prisa fez ao PSOE e, através deste, ao PS.

O PS já ganhou as eleições, ou uma intensa fraude eleitoral a caminho

Da maneira que as coisas estão, e sobretudo depois dô caso da TVI, já não me admira que o PS, sem vencer, vença na mesma. E se calhar com maioria absoluta. Salazar fê-lo muitas vezes.
Sim, falo de fraudes eleitorais em massa. Falo de corrupção das mesas eleitorais. Falo de duplos e triplos votos de eleitores-fantasmas. Falo de votos por «correspondência». Falo de cadernos eleitorais falsificados.
Sim. Estou convencido de que, sem fiscalização de entidades internacionais independentes, o PS voltará a ganhar com maioria absoluta.

POEMAS DO SER E NÃO SER

Um dia me darei conta

Um dia me darei conta
do teu corpo infindável.
Um dia, sorridente,
me sentirei infinito, nunca esgotado
o desejo que nos abraça
e nos atormenta
à distância dos sentidos sempre fugazes
sempre perdidos no corpo finito.
Um dia me darei conta
do tempo que não se perde para lá das formas
do tempo em que não murcham os rebentos
cálidos da minha carne
e o sangue não perde o fulgor
das cores abertas ao sol.
Um dia me darei conta
e nesse dia gostaria de partir.

Evidentemente, demito-o!

O que está em jogo no próximo dia 27 é saber se escolhemos ou não viver em Democracia. Já não se trata de saber se há ou não maioria absoluta, ou se os partidos vão ou não estar representados na Assembleia da República, segundo os votos que receberem dos eleitores.

No dia 27 vamos saber se os portugueses estão com a Democracia ou se estão dispostos a aceitar uma deriva anti-democrática de um conjunto de homens e mulheres que não aceitam o livre jogo democrático. Ainda há menos de um mês a ERC, braço armado do PS/Sócrates para a Comunicação Social, veio a público com uma directiva em que proíbia que os candidatos a deputados pudessem manter os seus lugares de comentadores na comunicação social. Ante a reacção em cadeia dos profissionais, Sócrates fecha tambem a boca aos jornalistas que lhe não são afectos!

Tudo isto teve ínicio numa jogada desmontada a tempo e horas, em que estava envolvida uma empresa pública. Um mês depois, Sócrates consegue o seu desiderato por caminhos ínvios, através de uma empresa ligada aos socialistas espanhóis e que precisa muito de dinheiro!

O senhor Presidente da República deve seguir as pegadas do General sem medo e dizer ao país alto e bom som : Evidentemente, demito-o!

Disney comprou Hulk

Hulkporto

Era a felicidade de vários clubes. Mas não foi este.

Incredible-hulkFoi o outro.

ETICA E EDUCAÇÃO (1)

(manel cruz)

ETICA E EDUCAÇÃO (1)

 

 

Sobre este tema irei publicar alguns textos.

Gostaria, no entanto, de dizer que eles não reflectem a opinião ou a abordagem de um profissional da Educação. Antes constituem a opinião pessoal e a reflexão de um simples cidadão que, felizmente, se preocupa com estas coisas.

Quando me pedem para abordar em público estes complexos assuntos, fico sempre muito receoso. E isto porque é necessário dizer palavras, muitas palavras. E eu não quero dizê-las só por dizer. Não suporto fazer das palavras ingredientes de caldeirada. Tenho muito respeito pelas palavras e pela verdade nuclear que as constitui. Tenho muito medo de poder esvaziá-las ou atraiçoá-las. As palavras, elas mesmas, têm necessidade de ser ditas com rigor, senão não passam de palavras, e eu tenho necessidade de as dizer sentindo, senão não passo de mero dizente. O teor destes textos facilita-me a tarefa, ao criar-me não só a necessidade mas também o prazer e a honra de os fazer com algum sentido, verdade e coerência. O juízo é vosso, se tiverem a pachorra de me ler. 

Por outro lado, se as palavras têm um sentido para aquele que as diz, podem não o ter para aquele que as ouve, se as palavras têm um significado para aquele que ensina, podem não o ter para aquele que aprende. O conceito de sentido é fundamental na comunicação. E o sentido está dentro de cada um de nós e resulta da forma como respondemos interiormente às nossas experiências, que não é a mesma de cada um daqueles que nos ouvem. O sentido é fruto de um processo complexo em constante movimento, e ao transmiti-lo, nunca devemos esperar uma colagem pura e simples mas sim uma profunda integração consciente nos mecanismos construtivistas do sentido dos outros. A razão e as palavras são a nossa maior riqueza e nossa melhor arma, a qual, como todas as armas, deve ser usada com o mais profundo sentido da responsabilidade.

Pelo facto de não ser profissional, como já disse, e por ter medo, eu tentarei fugir propositadamente e estrategicamente da especialidade, nomeadamente do âmbito da educação escolar específica, para abordar, de uma forma mais ampla e abrangente, a educação social do Homem e o seu desenvolvimento a vários níveis. (Continua).

                      (manel cruz)

             (manel cruz)

«A TVI faz um jornalismo travestido!» – José Sócrates, 21 de Abril de 2009 (com vídeo)


E como é óbvio, a suspensão do Jornal de Sexta da TVI nada tem a ver com estas declarações de José Sócrates…

A caixa de chat do Aventar

A partir de hoje, o Aventar passa a ter uma caixa de chat. Podem econtrá-la logo abaixo do título do blogue, entre «As regras da casa» e «Contacte Aventar».
Poderá ser debatido tudo o que os leitores quiserem, desde a política ao clima no Torrão do Lameiro. Por uma questão de actualidade, propomos como tema do dia a suspensão do Jornal de Sexta da TVI. Mais logo à noite, poderemos acompanhar em directo o debate entre Francisco Louçã e Jerónimo de Sousa e, nos próximos dias, o restante da campanha eleitoral.
Aventem-se, caríssimos leitores!

O Freeport vai ser arquivado


in Salteadores da Arca

Vai ser arquivado e é bom saber porquê!

O Polvo


Hoje em dia, José Sócrates é um verdadeiro Polvo, cujos tentáculos alcançam, para além dos poderes que lhe foram conferidos pelos portugueses, o poder judicial e o chamado «quarto poder» – o da imprensa e comunicação social.
Assim, em alguns meses, José Sócrates consegue não ser investigado ou sequer inquirido no âmbito do caso Freeport, consegue a saída de José Eduardo Moniz da TVI e, na sequência disto, a «cereja no topo do bolo», consegue o afastamento de Manuela Moura Guedes e do seu incómodo Jornal Nacional.
Quanto ao poder judicial, está nitidamente ao serviço do primeiro-ministro. Lopes da Mota encarregou-se do trabalho sujo mas, no fundo, desnecessário. A nomeação de Cândida Almeida, amiga de abraço de Almeida Santos e mandatária da candidatura presidencial de Mário Soares, ditou o desfecho do Freeport: arquivamento de tudo o que diz respeito a José Sócrates, ignorando-se ostensivamente todos os indícios e provas recolhidas pela Polícia inglesa.
Quanto à comunicação social, dominado que está o serviço público e acalmados todos os outros através da «cenoura» do quinto canal, José Sócrates tratou de anular os únicos que ousavam fazer-lhe frente, José Eduardo Moniz, Manuela Moura Guedes e o seu Jornal Nacional. Primeiro, foi a tentativa de compra da estação pela PT, que não deu resultado. Depois, conseguiu mesmo que Moniz abandonasse o canal. Agora, confrontado com novas revelações sobre o Freeport a três semanas das eleições, consegue o afastamento de Moura Guedes. Um escândalo!
A democracia em Portugal, hoje em dia, não passa de uma palavra sem sentido. O poder judicial é corrompido através de jogos de bastidores e a comunicação social é amordaçada através de uma intrincada malha de relações políticas internacionais que chega mesmo a Espanha e ao primeiro-ministro Zapatero (vidé as ligações da Prisa ao PSOE).
Irene Pimentel diz que é historiadora, mas não distingue um democrata de um ditador nem que lho metam à frente do nariz. Acredita em homens providenciais e acredita que não vivemos num período de asfixia e de claustrofobia democrática. Acredita em José Sócrates, o que é grave, muito grave, numa historiadora.
Seria bom que os portugueses soubessem dar a resposta correcta ao compadrio, à corrupção e à vigarice que pulula hoje em dia no país e que tem José Sócrates como a principal força motriz. O Polvo José Sócrates, cujos tentáculos apanham, imobilizam e destroem tudo o que foge ou poderia fugir à normal ordem das coisas. Que é a do homem providencial, do salvador, daquele que tirou o país do caos. Daquele que, custe o que custar, dê por onde der, tem de manter no poder. É que, sem poder, é a sua própria sobrevivência à frente das grades que estará em perigo.

palavras do Emerenciano

(Alerta de notícias do Google sobre EMERENCIANO):

Palavras de Emerenciano. “… No cimo de uma cerejeira farei o meu ninho encoberto e prevenido. E em todos os bolsos guardarei pedras para a fisga sempre pronta.”

 

(Comentário):

Que imagino não seja ninho mas lugar. Lugar onde nascem as palavras. Que imagino não sejam pedras mas palavras. Palavras de nascente como as primeiras águas de um rio. Que imagino não seja fisga mas a atracção pela distância onde parece desaguar o futuro.

Um abraço do amigo Adão.

Contos proibidos: Memórias de um PS Desconhecido

(continuação daqui)

«Hoje, para repor a verdade, decidi-me a escrever o livro. É um livro de memórias em redor do Partido Socialista, duma perspectiva das suas relações internacionais, que eu dirigiria durante mais de uma década. Não é, contudo, nem poderia ser, a história do Partido Socialista mas, essencialmente, uma contribuição para uma melhor compreensão de como foi forjado aquele que seria a espinha dorsal do regime democrático português actual.

O PS acabaria por ser, acidentalmente, aquele que mais responsabilidades teria na construção das actuais estruturas económicas, sociais e políticas do País. Opôs-se à opressão salazarista e sairia desiludido da chamada «primavera marcelista». Acabaria por resistir à aventura comunista e, depois, à tentação militarista, acabando por «impor» o seu modelo de sociedade, a partir de 1976. Nesse percurso e nos momentos decisivos, teria sempre o apoio internacional dos Estados Unidos e da Europa. Daí que a perspectiva internacional, em redor da qual têm girado o país e os principais partidos políticos, seja uma peça essencial para a análise dos actuais fenómenos da nossa sociedade.

Sem esses apoios, que para o PS estariam como o oxigénio está para a vida, provavelmente o regime democrático teria sucumbido. Do mesmo modo que, em 1945, a sua ausência viabilizaria a continuação de Salazar. Mas, por outro lado, se sem eles tudo estaria em jogo, também a relação de dependência criada e a institucionalização do tráfico de influências iriam provocar algumas distorções e vícios que o País hoje sente.

Tentar explicar esses fenómenos de um passado recente, para compreender o presente, é um dos objectivos deste livro. Mas, como não poderia deixar de ser, escrever sobre o PS durante este período sem falar dos seus principais protagonistas tomaria impossível alcançar essa meta. Entre eles destacam-se duas personalidades distintas e a relação de «amor e ódio» que, em grande parte, determinaria o actual PS: Mário Soares e Francisco Salgado lenha. O primeiro deixaria marcas profundas que continuarão a caracterizar o PS por muito tempo. De Salgado lenha este partido herdaria a «consciência moral» que ainda lhe resta. Mário Soares seria eleito Presidente da República e Salgado lenha abandonaria o partido, incompatibilizado com o seu «velho» amigo.

Durante algum tempo, o PS iria ser um barco à deriva. Recuperaria eleitoralmente, contudo, com o seu actual líder, António Guterres. Mas, curiosamente, essa recuperação só aconteceria quando este fiel discípulo de lenha se converteu ao «soarismo». Por isso mesmo, esta interessante simbiose das personalidades daqueles dois principais personagens será agora examinada à lupa no novo PS, para ver se ele segue o caminho da «consciência moral» do seu velho protector, ou o caminho do «absolutismo monárquico» e das facilidades do seu favorito ex-inimigo.

Para já, é evidente que o actual secretário-geral do PS, já em 1976 responsável com Edmundo Pedra, Soares Louro e Santos Ferreira I pela campanha eleitoral do PS, conhece bem as dependências internacionais do seu partido e até, à semelhança do seu antecessor, «trata-se por tu com pelo menos seis primeiros-ministros europeus» 1. Vamos ver para crer, como diz o ditado, mas, pelos primeiros indícios, temo que, do mesmo modo que Soares meteria o socialismo na gaveta, Guterres venha a meter a «consciência moral» do PS no congelador. O que é um mau sinal para a democracia. Que não terá futuro se o passado não estiver esclarecido e o futuro continuar a depender de bodes expiatórios.

O meu livro, assim o espero, ajudará a compreender como o triunfo de alguns se faria à custa do sacrifício dê outros. O «estado dos juízes» está «atento» ao passado dos actuais políticos e não hesitará, no momento oportuno, em colaborar para a sua decomposição.

Eu entrei para a política quase por acaso. Aderi nos anos 60 à minúscula Acção Socialista Portuguesa por acreditar que, pela via do socialismo democrático e através de um sistema pluripartidário, Portugal viria a ser um país igual ou melhor que aquele onde vivia exilado – a Suécia – e que era então considerado, acertadamente, a sociedade mais justa e mais evoluída do planeta. Não o socialismo utópico, igualitário, de partido único que transforma os cidadãos em funcionários do estado. O socialismo onde os partidos se combatem no campo das ideias e onde os interesses e bem-estar dos cidadãos estão sempre em primeiro lugar. Onde os partidos políticos são a espinha dorsal do sistema e os instrumentos para a sua modificação democrática e não o instrumento de promoção pessoal dos seus dirigentes. Mas, infelizmente, e daí a outra razão de ser ser deste meu livro, Portugal parece estar a perder essa importante batalha da democracia.

Isso atestam o crescente branqueamento da História e falta de transparência das instituições. A Europa, berço da amálgama de culturas e conflitos que deram origem ao que é hoje vulgarmente apelidado de «civilização ocidental», nunca produziu um modelo perfeito de democracia que garanta aos seus cidadãos a igualdade de acesso à educação, ao trabalho, à saúde e à justiça. Entretanto, alguns países, sobretudo a norte, conseguiram ao longo dos anos conquistas importantes naquelas áreas, com base numa considerável evolução do conceito de respeito pelos direitos humanos, dos direitos dos animais e da natureza. A vitória dos Aliados na Segunda Guerra Mundial, a criação da Organização do Tratado do Atlântico Norte, o lançamento dos alicerces da União Europeia não viabilizariam, contudo, o acesso dos países do Sul ao fenómeno de desenvolvimento dos seus vizinhos mais a norte e, até meados dos anos 70, a Europa viveu num clima de completa desunião. Entre democracias mais ou menos formais no Norte e Centro, ditaduras medíocres e subservientes de «inspiração cristã» na Península Ibérica, uma ditadura militar com reminiscências pan-arábicas na Grécia e uma imensidão de regimes comunistas totalitários e despóticos, proclamados pela via revolucionária em nome da classe operária, a Leste.

O início da luta dos Movimentos de Libertação contra o colonialismo português na Guiné, em Moçambique e em Angola, empurrados pela miopia e desinteresse ocidental para os braços da União Soviética, dariam lugar ao chamado «Movimento dos Capitães» que a 25 de Abril derrubaria, para surpresa de todos, dentro e fora de Portugal, a ditadura iniciada com o Estado Novo, em 1933, por António de Oliveira Salazar.

Este levantamento pacífico e sem objectivos políticos claros, provocado quer por razões de natureza sindical, quer pela derrota psicológica dos militares portugueses nas guerras coloniais, viria a influenciar a evolução política mundial deste fim de século.

Luiz Pacheco – Um libertino passeia pela vida: Os amores e os desamores de Pacheco


Com 18 anos, Luiz Pacheco arranja o primeiro problema da longa série de problemas em que a sua vida se vai transformar. Tem uma ligação sexual com uma jovem criada de seus pais, Maria Helena Alves, com catorze anos. Um tio da menor processa Pacheco. As coisas parecem arranjar-se – Maria Helena é emancipada e Luiz compromete-se a casar com a moça. Tudo solucionado? Não – Pacheco apaixona-se por Maria de Fátima, estudante de piano em casa de uma vizinha, com a qual não pode ter um namoro convencional dado o compromisso de casamento com Maria Helena. Mas é uma paixão escaldante, com encontros secretos em quartos alugados e casas de passe. Tudo isto ocorre por volta de 1945. A relação clandestina com Maria de Fátima durará até 1948.
Em 1947, ainda relacionado com o caso de Maria Helena, é emitido um mandado de captura em seu nome. Refugia-se numa casa que alugara no Mucifal, em Colares, fugindo depois para casa de uma tia, no Campo de Santana. Acaba por ser preso na Estefânia, em casa de seus pais. Na cadeia do Limoeiro recebe o nº 420-47, ficando ali mês e meio. Em Abril, na sexta-feira Santa, desposa Maria Helena no Limoeiro – é provisoriamente liberto. No sábado de Aleluia, o jovem casal, parte em viagem de núpcias para a casa do Mucifal, donde vem depois para Lisboa onde se instala numa casa da Rua Andrade. Porém, o caso não está resolvido. É julgado, acusado pelo crime de estupro e condenado a dois anos e meia, com pena suspensa, visto ter casado com a «vítima». No ano seguinte nasce Maria Luísa, a primeira de uma «comunidade» de oito filhos.
Em Maio de 1950, nasce João Miguel, o segundo. Morre sua mãe, Adelina Maria Machado Gomes. Zanga-se com Maria Helena (que terá sabido do affaire Maria de Fátima?). Mantém uma relação homossexual com um rapaz do Sindicato dos Artistas.
A relação com Maria Helena, que entretanto se formará como enfermeira, piora; no entanto, engravida, enquanto Pacheco arranja outro namoro – agora é Maria do Carmo, a quem a família se apressa a desterrar para a Sertã. Luiz já está de olho noutro sarilho, sob a forma de Maria Eugénia, filha da dona da casa onde mora, na Almirante Barroso. A menina tem 13 anos. Em Maio de1958 nasce Fernando António, terceiro filho de Luiz e de Maria Helena. A evidência de um iminente envolvimento com Eugénia está à vista, e, antes que seja tarde, uma criada denuncia o caso a Maria Helena e à mãe da rapariga. Expulso de casa, instala-se com Maria do Carmo na Rua Jorge Colaço.
pacheco - foto
Em 1959, a mãe de Maria Eugénia move-lhe um processo. É condenado por atentado ao pudor de uma menor. Em Agosto nasce o seu quarto filho Luís José, o primeiro da união com Maria do Carmo. Ameaçado por novo mandado de captura (caso Maria Eugénia) anda fugido pelo Porto, Ermesinde, Setúbal, acabando por ser capturado e recolher de novo ao Limoeiro. Ali passa o Natal. Natália. É absolvido do caso Maria Eugénia (à qual, afinal, apenas terá beijado e talvez acariciado), mas condenado por faltar à audiência. Estamos em 1960. Maria do Carmo está grávida.
Em Fevereiro de 1961 nasce Adelina Maria, a quinta. Este 1962 é ano de novo sarilho: engravida Maria Irene, irmã de Maria do Carmo. Novo processo. No ano seguinte, será julgado e condenado à revelia pelo Tribunal da Comarca da Sertã. Pacheco nem sequer tomara conhecimento da existência do processo. Em Maio nasce Paulo Eduardo, o filho de Pacheco e Irene. Em 1964, vive agora nas Caldas da Rainha. Em Maio nasce Maria Eugénia, sétima, segunda da ligação com Irene. Pacheco é preso nas Caldas devido ao processo de Maria Irene, saindo sob caução.
Desentende-se com Irene e fica a viver sozinho nas Caldas da Rainha. O abuso do álcool provoca-lhe o agravamento da asma. Em Novembro de 1967, o casamento com Maria do Carmo é dissolvido «por abandono do lar». Em 1968 é de novo preso nas Caldas da Rainha, sendo depois transferido para o velho Limoeiro, uma segunda casa para Luiz. No ano seguinte, já em liberdade, apaixona-se por Elsa Isabel com quem tem uma ligação. Num breve passeio às Caldas tem um envolvimento de alguns dias com Isabel Valadares. Na véspera de Natal apanha uma monumental bebedeira e passa a consoada no banco do Hospital de S. José. Em Janeiro de 1970 é internado no Hospital de Santa Marta Pacheco continua e intensifica o tratamento ambulatório de desintoxicação alcoólica. Tratamento que, com acidentes de percurso e muitas recaídas, prosseguirá até 1980. Até 1975, Luiz continua a publicar, a fazer traduções e… a beber. Mantém uma política de porta aberta, entrando «toda a bicharada» (expressão sua) – «malucos, marginais, bêbedos, paneleiros, lésbicas» a fama da casa onde vive, em Massamá, é terrível. Luiz Pacheco, sempre segundo regista no diário, tem ligações episódicas com algumas mulheres, engata uns rapazes – «a fome, a solidão, a tristeza, a velhice e a decadência». Sai de Massamá. Até 1980, não tem paradeiro certo. Deambula pelo Montijo, Campo de Ourique, Algarve. Afectado pela subnutrição é internado no Hospital Curry Cabral. Em 1977 é internado na Clínica Psiquiátrica de Celas, com a visão e o raciocínio afectados pelo álcool. Em 1980 faz uma tentativa de suicídio, atravessando de olhos fechados a Avenida de Berna na hora de ponta. Travões guincham, pneus chiam, automobilistas furiosos insultam-no, mas a morte não quer nada com ele.

Cartazes das Autárquicas (Sintra)


Ana Gomes, PS, Sintra.