Um diz "mata!", outro diz "esfola!"

Pedro Passos Coelho, ajudante número 1 de José Sócrates, disse hoje:

“A Constituição tem implícito um programa de governo, ao dizer que a Educação e a Saúde têm de ser tendencialmente gratuitas. O problema é o irrealismo destas propostas. Sabemos que a educação e a saúde não são tendencialmente gratuitas”.

Pois é, a Constituição Portuguesa, esse manual de práticas despesistas, consagra que compete ao Estado assegurar o acesso a cuidados de saúde e a uma escolarização tendencialmente gratuitas.

Mas esta geração de pragmaticíssimos gestores transformados em políticos, e que não são mais do que marionetas trôpegas, com os cordelinhos demasiado à vista, de um poder económico cada vez mais exigente com os seus títeres,  acha que a Constituição já não se serve os supremos interesses do país.

Mais do que isso, estes nossos gestores acham que direitos fundamentais, conseguidos através da luta de muitos homens e mulheres das gerações que nos antecederam, têm de ser editados, encurtados, formatados de forma a caberem nas limitações impostas por uma ideologia que já está para lá de neo-liberal, que já não tem vergonha de se assumir como simplesmente ávida de lucro.

E assim temos o líder da oposição, de quem se esperava que erguesse a voz contra as políticas vergonhosas que têm sido postas em prática, penalizadoras dos mais fracos, perpetuadoras dos privilégios de meia dúzia, a confirmar-nos que nada podemos esperar dali.

Se um diz mata, outro diz esfola. Se um acha que o sacrifício é justo, o outro diz-nos que há que reescrever a Constituição e dali expurgar os delírios economicamente inviáveis que antigamente se chamavam direitos humanos e agora assumem a sua verdadeira qualidade de “despesas”.

Comments

  1. maria monteiro says:

    Pois, pois a educação e a saúde têm que caminhar para o totalmente privado… depois é só repartir os «milagres»

  2. Carlos Fonseca says:

    Ainda nos últimos dias ocorreu grave erro no Hospital Particular de Lisboa, PRIVADISSIMO. Dispenso-me de enunciar detalhes.
    O Obama viu-se branco par aprovar a reforma o sistema de saúde dos EUA – gastos na ordem dos 16% do PIB – que deixava cerca de 45 milhões de norte-americanos sem cobertura de serviços de saúde.
    O que é que a pascoal figura , coelho, sabe dos deveres do Estado em termos de saúde, educação e justiça?
    Ignorância pura. Ainda ontem o IMD, instituto suíço, revelava que a Suécia, um dos malditos países onde subsiste o Estado Social, estava em 6.º no ranking da competividade. Nós com Sócrates e Passos de ‘dança’ estamos no 38.º. lugar. É um problema constitucional?

  3. mjrijo says:

    um diz mata, outro esfola, e os outros se pudessem comiam-nos a pouca carne, que aos portugueses já quase só restam os ossos.
    É aquele dito já tão velhinho… as moscas é que mudam…

  4. Pedro says:

    Eu vinha aqui fazer um comentário, Carla, mas saíu-me tão comprido que acabei por fazer um poste com ele. A sério.

    http://www.aventar.eu/2010/05/20/jose-socrates-e-pedro-passos-coelho-irmaos-siameses/

  5. maria monteiro says:

    O condicionamento de trânsito nas proximidades do HParticular e as tolerâncias de ponto levou muitas pessoas a andarem com os nervos em franja… logo não estarem a 100% para desempenharem as suas tarefas. Pode ter sido o caso da equipa médica e em vez dum milagre cirúrgico fizeram asneira da grossa

    • Luís Moreira says:

      Foi o mesmo condicionamento de trânsito que cegou 6 pessoas no H Santa Maria. Bem melhor seria que de uma vez por todas os médicos trabalhassem numa só instituição, em vez de andarem a correr de hospital em hospital.

  6. maria monteiro says:

    Médicos, enfermeiros, pessoal auxiliar… andam a correr de hospital em hospital, de clínica em clínica e nos entretantos ainda vão dando uma mãozinha nas seguradoras, nos lares, …. pois quem pouco descansa…

  7. Luís Moreira says:

    Sim, agora com argumentos desses e esquecer o que se passa nos públicos…há argumentos e situações esses sim, que deveriam ser objecto de clarificação e transparẽncia.

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  1. […] benefício da dúvida. Se no congresso laranja meteu o neo-liberalismo no saco, apressou-se a retirá-lo agora, regressando a ele, se estendeu a mão a Sócrates e se prestou a apoiá-lo em nome do […]

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