Cama, crime e jóias

A manchete de hoje do Jornal de Notícias é mais um monumento em memória do jornalismo, tendo em conta que se trata uma actividade já extinta, substituída que foi pelo sensacionalismo. Note-se, a propósito, que as eleições regionais da Madeira merecem apenas um quadradinho lateral, não conseguindo sequer competir com o regresso apoteótico de um padre a Vouzela, uma semana depois de aí ter sido apupado.

Seja como for, mesmo como sensacionalismo, tudo é muito pobre e, sobretudo, confuso. Na primeira página, temos o título gigantesco: “Prata salva família de ourives”. Sabendo-se que houve um assalto, uma pessoa pensa que a dita família do referido ourives terá conservado a vida ou os dentes graças à prata que foi obrigada a entregar aos meliantes. Uma leitura atenta leva-nos a descobrir que os criminosos, que “buscavam ouro”, descobriram prata e levaram apenas um telemóvel, depois de se darem ao trabalho de se esconderem debaixo de capuzes e de transportarem “metralhadora” (teria sido uma para os três ou uma para cada um?).

Não percebo muito de assaltos, mas parece-me que estamos na presença de ladrões de duvidosa competência, que saltam do plano A (“Vamos encher-nos de ouro”) para o plano Z (“O quê? Só há prata? Então, traz aí um telemóvel ou uma torradeira ou o carago!”). Como é que um país há-de ir para a frente se nem os ladrões sabem transformar uma crise numa oportunidade? Resumindo, a verdadeira manchete seria “Estupidez de ladrões salva família de ourives”.

Voltando à estranha conjugação de manchetes, títulos e texto, não merece menos destaque aquele que está acessível online: “Gangue com metralhadora tira família de ourives da cama”. A verdade é que um assalto que se salda por usar capuzes e entre uma a três metralhadoras para roubar um telemóvel só pode chamar a atenção de alguém se meter uma família a ser retirada da cama, para além de que fica sempre um cheiro a perversão a ideia de que está uma família toda junta na mesma cama. Como se a desilusão não fosse já bastante, ainda ficamos a saber que a família era um casal e que a retirada do leito foi um dano colateral do assalto, já que o dito casal era constituído pelos pais do ourives assaltado, que quase não merece destaque. Finalmente, tendo em conta a idade avançada do casal, a noite do assalto pode ter sido um momento de excitação como já não acontecia há muito.

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