A emigração explicada aos ingénuos e outros tristes

Está tudo aí, no poema de Rosalía de Castro adaptado e musicado por José Niza e superiormente cantado pelo Adriano Correia de Oliveira.

Para cabeças mais duras, como as que ainda tentam inventar vantagens económicas, recomendo a leitura de Emigrantes ameaçam cortar remessas, uma grande contribuição de Paulo Portas para o PIB nacional.

Vai tu que se faz tarde

‘Musseque’, ‘Favela’ ou ‘Tabanca’

Não resisto à tentação de abordar o tema, a que o João José Cardoso se referiu, e bem, anteriormente. Há tempos, este Mestre, Secretário de Estado da Juventude, proclamou:

Os jovens portugueses que não encontrem colocação no mercado trabalho não se devem acomodar à situação, ‘zona de conforto’, EMIGREM!

Pensava eu, e naturalmente muitos dos portugueses, ter-se tratado de uma declaração política individual, infeliz, desfocada dos fundamentos e orientação política do governo de Passos Coelho e de Paulo Portas. Afinal eu e os outros, todos alinhados pela ideia de ser disparate de um ‘deus menor’, equivocámo-nos.

Com efeito, trata-se de um objectivo programático perene do governo, antes proclamado em relação a jovens ex-estudantes, agora reafirmado por Passos Coelho relativamente a 15 mil professores desempregados:

[Aconselharia] “os professores excedentários que temos a abandonar a sua zona de conforto e a procurarem emprego noutro sítio. Em Angola e não só. O Brasil…” Jornal “i”

Na lógica da reciprocidade da convivência democrática, entre governantes e governados, e uma vez tão saturado deste como do anterior – os meus votos não favoreceram nem um e nem outro – como cidadão posso também propor ao Senhor Primeiro-Ministro que emigre, com três destinos opcionais: um musseque luandense, uma favela do Rio ou uma tabanca entre Bissau e o Chacheu.

Publico imagens de um musseque, para ilustrar uma das ‘zonas de conforto’ de acolhimento possíveis e merecidas por quem diz lutar pelo melhor para os outros:

A menina da fotografia

A menina da fotografia cresceu e chama-se Maria da Conceição Tina saiu no Público esta semana. Patrícia Carvalho pegou no depoimento da hoje mulher e professora que nos anos 60 foi a menina retratada por Gerard Bloncourt numa fotografia ícone da emigração portuguesa em França e teve aquele toque de génio que faz a jornalista desaparecer do texto e dar-lhe a magia de um depoimento.

É uma pequena obra-prima: está ali a História, do que fomos e somos, a beleza de uma mulher que se abre revelando a memória, a teia que força hoje a sua filha desempregada a emigrar (as repetições na História são ambas tragédias), conta-nos como a mulher só este ano se soube a menina retratada e fotografa-lhe a vida que foi a de tantas meninas e meninos, nem todos com um final quase feliz.

Parabéns a Patrícia Carvalho, a Gerard Bloncourt  e a Maria da Conceição Tina, e deixo-vos aqui o pdf para que estas páginas circulem pela rede,  partilhem, partilhem sff, num tempo de cinzas há sempre um raio de sol onde a vida da gente também sai no jornal.

Baixar A menina da fotografia

Ele diz que casou com África…

…mas parece que foi contra a vontade da “esposa“. Divórcio à vista…

história sintética de Portugal

´metáfora do nosso país que nunca mais decide ser República!

Portugal é um País em permanente transição. Até à entrada dos Bonapartistas, no início do séc. XIX, toda a terra era do Rei. Fosse quem fosse o detentor da Coroa. Coroa simbólica e legal. A material estava, desde D. João IV, pousada sobre a cabeça da imagem de Nossa Senhora da Conceição, em Vila Viçosa. A terra, desde Afonso Henriques, era conquista da Coroa, excepto as terras aforadas a Condes, Duques, Viscondes, ou grupos de vizinhos, sempre que daí resultavam benefícios. A entrada dos Bonapartistas, terminada na guerra Peninsular, pondo fim às guerras Napoleónicas, deixou em Portugal a ideia do liberalismo burguês da Revolução francesa. Duas das consequências, da absorção das ideias liberais, marcam o fim dos contratos de enfiteuse e do Morgadio, que se caracterizava pela transferência das terras da família ao filho mais velho. Wagner na Baviera lutou pela sua abolição (1845), e por isso foi expulso, como Verdi, em Itália (1859), com um final mais feliz, ao tornar-se membro do Parlamento constitucional. O Bonapartismo semeou o conceito de que a terra era das pessoas que a tinham e não do direito de raiz, que permanecia (quarto direito) da lei visigótica, permitindo aos proprietários viverem dos rendimentos acumulados da colheita dos foreiros, rendeiros e caseiros, excepto dos jornaleiros, que entregavam mão-de-obra e viviam e vivem ainda, dos salários. A população ficou com as ideias da propriedade directa, e muitos dos intelectuais portugueses, galegos e chilenos, derivaram-

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Rui Pedro Soares – o elevador social

Este rapaz por ser um boy do PS e sobrinho de quem é chegou a administrador da maior empresa do país aos 32 anos, sem curriculum, pois a PT é a única empresa que conhece e entrou de imediato para Director aos 28 anos, tudo num país onde, jovens de grande qualidade com curriculum académico e profissional relevantes, têm que abandonar o país para não cair no desemprego.

Um dos aspectos mais importantes para se avaliar a capacidade de um país no que ao mérito e à justiça social diz respeito é a igual de oportunidades. A capacidade que a sociedade e a economia de um país oferece aos seus cidadãos para, montados no mérito e mas capacidades individuais desenvolvidas, possam ascender socialmente. Portugal tem vindo progressivamente a perder esta capacidade! À emigração dos anos 60 formada por mão de obra não qualificada junta-se agora a emigração de gente qualificada.

Um país assim não tem futuro, andamos a treinar e a formar gente que custa muito dinheiro a todos nós para depois irem produzir para outros países que oferecem essas oportunidades de “ascenção social”. Quem nasce rico e em família rica e poderosa arranja emprego obscenamente remunerado, quem nasce pobre, mesmo que seja muito bom, a sociedade não lhe dá oportunidade para “apanhar o elevador social”!

Os amigos do rapaz e os boys e os que têm pretensões a boys e mesmo os que não sendo boys não vêm mais do que a cor do grupo, olham para estas críticas como se nada mais revelassem do que “inveja” ou confrontos partidários, fazendo crer que tudo isto é natural e quando as coisas mudarem tambem mudam os boys e as girls e adiante com a marinha. Mas não é assim, isto revela a incapacidade do país se desenvolver, de segurar os seus melhores, a injustiça social acentuada, a tendência para o empobrecimento.

Quem não percebe isto não percebe nada!

Porque fogem os portugueses ?

A emigração volta aos números dos anos 60, agora para Espanha e Inglaterra, Suiça ou Andorra e, tambem, Angola e outros países africanos e asiáticos.

Para além do desemprego, ou melhor da falta de oportunidades de emprego, os melhores níveis salariais tambem são um chamamento. Muitas vezes saem temporariamente, para prestar serviços específicos e de duração limitada – na construção civil, no turismo, na agricultura.

O que é novo e preocupante é a saída de cérebros, estamos em terceiro lugar na lista da OCDE, quase 15% da população qualificada está a viver no estrangeiro.

Há algumas esperanças, como sejam a abertura de novas unidades de investigação e laboratórios associados que  cresceram de 8 000 para 12 000 e temos ainda a Fundação Champalimaud, o Instituto Fraunhofer, o Instituo Gulbenkian da Ciência, o Laboratório Ibérico da nanotecnologia…

Mas a fuga continua, mais de cem licenciados por mês abandonam o país por falta de oportunidades de trabalho.

Direita securitária quer aprovar "lei mata-processos"

Parece um contra-senso, mas acontece em Itália, onde Berlusconi perdeu definitivamente algum resto de vergonha que alguma vez possa ter tido. Leis fortes contra os fracos, fracas contra corruptos poderosos. Com canções de amor à mistura.

Desertificação intelectual

Não conseguimos segurar os quadros médios e superiores. Quase 15% da nossa mão de obra qualificada vive no estrangeiro.

 

Cem licenciados por dia deixam o país para procurarem lá fora, emprego, mas a hemorragia vai continuar porque existem mais 45 000 licenciados, que no inicio deste ano estavam a desempenhar trabalhos de baixa qualificação ou não qualificados.

 

Hoje o país oferece a estes licenciados, empregos nos "call centers" e no comércio e na restauração, e é certo que grande parte deles irão tentar a sorte lá fora.

 

Na década de 90 acolhemos milhares de emigrantes de outros países, sobretudo do Leste, mas tambem do Brasil e Cabo verde, como resultado do nosso bom desempenho económico.

Na década perdida de 2000 voltamos a ser um país de emigração, mas agora já não exportamos mão de obra desqualificada, mas sim quadros médios e superiores, a quem Portugal não oferece condições conformes às suas qualificações.

 

Esta enorme contradição em que nos enredamos, por um lado aposta-se na educação e na qualificação das pessoas , para as vermos depois,  sair do país.

 

É no estrangeiro que estes quadros aplicam os seus conhecimentos que adquiriram nas universidades portuguesas, financiados por nós todos, contribuintes!

 

Desenvolver o tecido empresarial português, produzindo bens transacionáveis e esportáveis e que substituem importações, em mercados abertos e exigentes, é a única saída para o empobrecimento.

 

Ao invés, o que temos é um Estado centralizador e incompetente que trava o desenvolvimento, grupos económicos que oferecem bens não transacionáveis e protegidos pelo Estado.