Caim e Abel ou a luta de classes

Caim conduzindo Abel à morte,

quadro de James Tissot

 

 Não pretendo falar do livro de Saramago, apesar de ser de muito bom. Mas, de onde será que Saramago retirou a ideia de escever sobre Caim e incluir outras personagems e narrativas bíblicas? E de que seria a idia de por em debate a um escritor  materialista com um sacerdote católico que carece de ideias materiais, mas está cheio de ideias virtuais?

E defino virtual à Hegel: é necessário pensar antes para identificar o objecto depóis. Hegel era presbítero e filosófo luterano, e académico na Universidade de Bonn  e, a seguir, da de Berlim. 

Mas o que interesa é esse debate: o livro está em qualquer livraria. Carreira das Neves, colega de Cátedra e de vários júris, apenas sabe falar de ideias apocalípticas e denegrir  quem não sabe teologia. José Saramago, esse meu amigo de jantar com Jorge Sampaio na Presìdência da República e colega – se puder comparar, quem me dera – na escrita, com a humildade de todo escritor laureado, apenas é capaz de dizer: escrevi o livro, porque aconteceu.

Mas José Saramago é ribatejano e de partido político de esquerda e nos delicia com uma história romanceada da factos retirados dum livro, também cheio de ideias virtuais, mas que ele materializa.

Porquê? 

Porque tem lido o livro primeiro da Bíblia cristã, intitulado Génesis, Capítulo 4, versiculos 21 a 26. É narrada a história de dois irmãos de sangue, filhos de pais injustiçados por terem desobedecido uma divinidade que está em todas partes, mas que ninguêm ve.

Apenas que, nos tempos Bíblicos, aparecia perante os seres humanos sob diversas formas e falava directamente com eles Divindade arrogante que tudo sabia e tudo punia se fosse desobedecido. Como aconteceu com os pais de Caim e Abel: Nascidos, ou,mais bem, criados no Éden ou jardím das delicias onde não era necessário trabalhar mas podia-se comer de tudo, excepto de uma ávore denominado da sabedoria, exactamente a ávore que os nossos progeniores foram buscar, como narra a Bíblia, mesmo livro, Capítulo 3, versiculos 3 a 24.

Não se espante o leitor: os denominados Escritos do Mar Morto, escritos em pergaminho, são capítulos muito curtos, que fui capaz de estudar por meio de aparelhos electrónicos – se são tocados, partem-se. Li por estarem preservados na minha britânica Universidade de Cambridge, escritos em Aramaico com tradução simultânea ao inglês e outras línguas.

Aí se diz que os filhos de pais desobedientes podem ter esse gene hereditário. Como aconteceu com Abel, o filho obediente, por ser pastor, oferece o melhor do seu rebanho ou porção de gado lanígero para apagar a maldição, enquanto Caim, por ser lavrador sacrifica o pior fruto da sua terra. Pergunta a divindade se está zangado com ela, Caim responde que não. A divindade refere que Abel tinha dado o melhor de si, e pergunta onde anda o teu irmão. Responde Caim: sou por acaso, guarda do meu irmão?

Esta especial predilecção é, no meu modo de ver e, adivinho,do José Saramago, o começo da luta de classes. Caim não tinha má intenção, apenas sentia dor e fraqueza por não ser o preferido nem dos seus pais nem da sua divindade.

Para ganhar sítio, tipo Comuna de París de 1871, quer ver desaparecer o rival e o mata. Como na França do Século XVIII, as relações de interacção pioraram: há revolução  de operários da Associação Internacional, organizada por Jenny Marx, Karl Marx e Engels, os corpos são escondidos pela guarda imperial, como Caim esconde o corpo do seu irmão. Ele era guarda do seu irmão por meio da solidariedade fraterna, que nem Luís Napoleão nem Bismarch tiveram: matavam havia mais operariado para substituir.

Os revolucinários são banidos, como Caim que se ofende e diz que a punição é mais forte que o crime cometido: a terra envenenada pelo sangue do irmão nunca mais renderia frutos, como acontecera com os banidos na segundar revolução na França. Os subversivos tinham dossiers criminosos internacionais e não havia trabalho para eles, eram levados às cadeias. Como os filhos de Caim, até nascer o seu filho Enoch, e, daí em frente, até nascer o seu neto Me-thu’ shalem. Este viveu mil anos e acabou com a maldição por ser um homem soldário e amigo dos seus, bom pai e melhor marido das suas mulheres. Pelo que esta hitória da Caim ensina que a revolução é perigosa e dura imenso tempo, até ao dia que alguém acalma as desavenças, como Blanqui na França e a família Marx, no mundo inteiro.

Sem ler a Bíblia e textos marxistas ao mesmo tempo, é impossível mudar o fio da meada. Como fizeram  o Sacerdote e o Escritor. Caim e Abel prenumciam a luta de clases, é o que me parece, que, queira ou não o autor, está contido na mensagem de Saramago em forma de livro, e nas palavras virtuais de quem nunca conhecera a pobreza, com Saramago conheceu, filho e neto de jornaleiros do Ribatejo, ele proprio, como Caim, a cultivar a terra com as sua mãos…até passar a ser serralheiro, em Lisboa. Conhece as vidas dos Caim, como se fosse a sua prória vida.

Será que Carreira das Neves a conheceu?

Será uma luta de classes o debate que vi e li, entre um betinho e um descosido a triunfar na vida, caso o Nobel seja um triunfo? Mas Caim não precisa de Nobels para o triunfo de um português.

Carreira das Neves, faça como Ratzinger, leia pelo menos a Ideologia Alemã dos Marx!


 

Comments


  1. Que a atitude de Saramago é a de um ribatejano da terra, concordo; já o disse algures pela blogosfera.Que a Bíblia seja considerada um Manual de maus costumes, não posso concordar. Quanto aos costumes, digo nada. Quanto a ser considerada um Manual, oponho-me. O Velho Testamento é, mais do que um enunciado de preceitos (a,b,c… n), uma narrativa fantástica (enquanto género literário) sobre a Humanidade vista por cristãos. Creio que a vitória de Caim sobre Abel procura ilustrar o processo de sedentarização do Homem, pela invenção da agricultura, bem como a dureza desse processo e de como, a partir de então, o Homem começou a dominar a Natureza, em crescendo, até ao esgotamento de recursos terrenos. Não vejo aqui luta de classes mas conflito entre dois modos de viver do qual sairia vitorioso o modus vivendi sedentário. O mesmo iria acontecer por terras de índios com a chegada dos “Descobridores” ou “Achadores”: os grupos sociais que viviam em harmonia com a Natureza foram sendo dizimados, a ferro, fogo e sangue, perdendo a (suposta) inocência do Pastor, figura redesenhada e louvada para sempre como sendo a encarnação do Bem, nomeadamente – bem perto de nós – pelos Românticos. 


  2. Dona Vera Santana, agradeço o seu interesse pelo meu texto. Vamos ver, há coisas minhas e outras das pessoas do debate. No entanto, a Bíblia, livro sagrado como é para muitos, é uma cumprida lei sobre o que deve ou não ser feito. Adão e Eva foram desobedientes e foram punidos, Caim ofereceu a sua Divindade o pior da sua colheita e foi punido. Em Êxodo de Moisés, como lhe é atribuído , aparecem os 10 Mandamentos escritos enquanto o povo procurava outros deuses. Em Sansão , o seu adultério com Judite é punido com a falta de forças; em Savis, casa com Jezabel, a mulher de Urías, o melhor capião do Ri, que o manda matar para casar com a sua mulher viuva. Salomão, esse rei filho de David e Jezabel, é um livro sábio porque saber dirimir contendas: por outras palavras, é uma exposição de feitorias que ele resolve; em Juizes, de todo um pouco: divissão das aguas, resolução de contendas; Joshua, a chegada a tera prometida à qual foi-lhe negada por Yawhvé ppor causa de ter partido as pedra do dez Mandamentos. O resto, não~´e comigo, não está no meu texto Agradecido, bejo.mão, o seu Prof. Doutor Raúl Iturra lautaro@netcabo.pt


  3. Caro Raúl Iturra (é assim que está identificado um dos autores deste Blog, ali no canto superior direito)Fiquei tão espantada com a “postagem” do seu título académico – Prof. Doutor – que desisti à primeira de ler o seu comentário ao meu comentário. Apenas lhe peço que me não trate por Dona Vera. Não gosto.Saudações,Vera

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