Foram a votos e perderam

Há gente na vida pública portuguesa que nunca foram a votos e no entanto, já ocuparam todos os lugares possíveis. Eurodeputados, deputados,vereadores, gestores de empresas públicas…

Não se percebe qual a força desta gente, o que oferecem aos partidos para estarem sempre em pé. Não se lhes reconhece uma ideia boa ou original, nenhum mérito ou resultados. Andam numa espécie de limbo, que nada tem a ver com a vida dos cidadãos, com os seus problemas, com as suas necessidades.

Quando são obrigados a dar a cara, ou porque a ambição não está satisfeita ou porque o partido o exige, perdem e despacham tudo com o mesmo à vontade com que mudam de lugar e de função. Houve-se falar que fizeram o trabalho sujo naquele caso e naquele outro, são padrinhos ou madrinhas de carreiras de sucesso, tecem a teia anos a fio e aí andam sem se saber a fazer o quê.

Mas mesmo a perder não nos livramos deles !

Lisboa com a CDU no coração ?

As últimas é que Costa e Santana podem ficar com o mesmo número de eleitos.

A ser assim Rubem de Carvalho e a CDU ficam com as chaves da cidade na mão.

Macário deu à costa em Faro…

Luis Filipe Menezes arrasa adversário que foi ajudado pessoalmente por Sócrates, com 70% dos votos e já diz que o PSD pode derrotar o PS, é uma questão de o porem a ele à frente do partido.

Avelino Ferreira Torres, foi de tractor e fato macaco, esperemos que não torne a vestir fato e gravata.

Oliveira, recupera a Câmara de Évora o que constitui pretexto para a CDU dizer que não perdeu a noite eleitoral.

BE perde metade do eleitorado em Lisboa e Porto, o que mostra bem que as autárquicas são muito específicas, têm a ver com as pessoas.

Fatinha e Narciso foram à vida…

Vá lá, metade foram apeados. Valentim e Isaltino continuam, apesar dos processos judiciais. É a vontade da população, dir-se-á, mas é dificil perceber que em Oeiras, principalmente, onde vivem  quadros de empresas, essa questão não seja decisiva.

Em Gondomar já se explica melhor, é um meio mais pequeno, uns frigoríficos e uns bilhetes para festivais do Carreira conseguem fazer a diferença, embora seja vergonhoso.

Num caso e outro tambem há muita gente a viver mal e uma casa decente, cria fidelidades para toda a vida.

É mais um problema da Republica do que das populações, acho eu!

Lisboa e Porto sem maioria ?

Mais dificil para Costa do que para Rio mas tudo indica que não teremos maiorias absolutas nas duas maiores cidades do país.

Os cidadão estão vacinados por uns anos e bons contra as maiorias absolutas. É, assim, a Democracia que exige discussão, procura das melhores soluções. O quero, posso e mando leva muito frequentemente à prepotência e Sócrates deixou escola, quanto ao abuso.

Aqui em Lisboa, parece que o BE está muito perto de obter o seu primeiro vereador, já no Porto o BE tem muito poucas hipóteses de obter um vereador.

Afluência às urnas em bom ritmo

Parece ser o primeiro resultado. Uma abstenção menor que nas eleições anteriores, o que atendendo a esta frequência, três actos eleitorais em tão curto espaço de tempo, mostra que as pessoas querem dizer coisas, que só vamos saber daqui a uma hora e tal.

Entretanto, há um rodopio de figuras conhecidas a serem filmadas no momento de votar e que depois debitam umas banalidades. O Alegre diz que as autárquicas deviam ser respeitadas pelas máquinas partidárias, aqui contam mais as pessoas e o conhecimento pessoal, do que o partido ou a figura nacional que anda por aí a dar uma ajuda.

Nas grandes cidades grande parte dos autarcas não sabemos quem são, mas o mesmo não se passa no resto do país. Aí são os amigos de sempre ou o vizinho de todos os dias que concorre.

Ás vezes conhecem-se bem de mais como é o caso da morte de hoje. O que choca é que aquelas duas pessoas foram para as mesas de voto armadas!

Levam longe demais a velha expressão revolucionária ” O voto é a arma do povo!”

Poemas com História: Luto em Outubro

Este poema foi escrito em 11 de Outubro de 1967, quando se confirmou a morte do Comandante, pois passáramos os dois último dias na dúvida se o que constava sobre a sua execução era verdade ou manobra de intoxicação. No dia11 os jornais traziam a fotografia de Guevara morto, estendido sobre uma padiola em Valle Grande, de olhos abertos. Num grupo de amigos, reunidos em torno das notícias, havia quem duvidasse, mesmo assim, que fosse verdade. Foi um dia negro. Guevara que saíra de Cuba, todos o sabíamos, por não suportar ver a Revolução submeter-se a um imperialismo para fugir a outro, constituía para os que amavam a liberdade a esperança numa «terra sem amos». A nossa tristeza era indizível. Vim para casa e escrevi este texto que, mais tarde, publiquei em «A Poesia Deve Ser Feita Por Todos».

Luto em Outubro

Onze de Outubro – há um rosto
que ensanguenta o jornal
e anoitece o dia –
Guevara caiu sob o céu da Bolívia,
morto na sua guerra pela paz.
Flor que nasce negra na tarde
triste e fria,
a sua fotografia é um cartaz
desfraldado ao vento da história.
É um rosto
que ensanguenta a página
e anoitece o dia.
Uma lâmpada apagou-se na treva
debruçada sobre a terra americana
– silêncio no teu fuzil de esperança,
Comandante,
tombado no teu posto de combate.

As palavras nos teus lábios
não eram só palavras,
mas acção.
Espingardas e punhais
dentro da tua voz havia.
Hoje há um rosto, sim um rosto,
que ensanguenta o jornal
e anoitece o dia.

Guevara caiu no seu posto,
cremado o seu corpo, as cinzas
sobem no ar da América,
saúdam as estrelas,
beijam os pássaros,
caem
como chuva justiceira,
pranto dos humildes
de todo um continente
que de escuridão se cobre.
Milhares de mãos se estendem
para empunhar as tuas armas órfãs.
Sim, há um rosto em Outubro
que ensanguenta o jornal.
Há um rosto vitorioso
que anoitece o dia.

FUTAventar – felizmente que falhei no prognóstico

Alguma vez seria a primeira, falhei fragorosamente em tudo o que disse acerca da selecção. Felizmente!

Esta equipa, curiosamente, jogou como deveria sempre jogar. O Ronaldo entrava de ínicio, marcava ou dava a marcar um golo e a seguir saía. Os outros ao verem-no sair, arregassavam as mangas e lutavam como se fosse o último jogo. Do primeiro ao último minuto!

O Deco está sem ritmo, não joga no Chelsea e a equipa viu-se atrapalhada no meio do campo, onde o Pedro Mendes fez uma exibição notável, sempre a correr e a cortar bolas. O Simão marcou hoje duas bolas mais dificeis do que as que falhou contra a Dinamarca. Está visto que só se marcam golos com um “terrorista” a jogar dentro da área, que coloca minas e armadilhas aos defesas, chateia, vai lá sempre e quando alguem se esquece dele aí está, bola dentro da baliza. O Leadson é esse tipo de jogador. Três jogos dois golos.

O Bosingwa viu-se bem que veio de uma lesão, jogou bastante mal e o Duda fez o trabalho que se lhe exige. Fecha bem e quando ataca causa perigo. Os centrais vê-se bem que têm a escola do Dragão, são do melhor e o Meireles até cansa vê-lo a ocupar os vazios…

O Nani tem tudo para ser um jogador de primeira mas tem que deixar de acertar no guarda-redes, se não está como eu, falha nos momentos decisivos.

FUTAventar – o resultado não mora ali

Logo a selecção vai iniciar, a nível mundial, mais uma originalidade. Quando o jogo começar já se sabe o resultado.

Se a Suécia , cujo jogo se inicia às 19 horas, ganhar à Dinamarca, o jogo da Luz, às 21 horas não serve para nada. Portugal estará, irremediavelmente, afastado do Mundial. Os sessenta mil espectadores vão ter a oportunidade de ver um jogo a feijões, irados com a eliminação, calcula-se o estado de espírito, os impropérios, a pantuminisse de um jogo que ninguem quer jogar.

É, que, nestas condições a Hungria tambem estará fora do Mundial, terá tanta vontade de jogar quanto eu, vamos ter palhaços não no intervalo, mas durante o tempo todo.

Talvez as “cheedleaders” salvem a noite! Ou a águia Vitória !

Clube dos Poetas Imortais: Rosalía de Castro (1837-1885)


Depois desta bela canção de Amancio Prada, musicando um poema de Rosalía de Castro, mais fácil se tornará entender duas coisas: a intensidade emocional da poesia de Rosalía e o amor dos Galegos pela sua pátria. É difícil encontrar um autor que simbolize toda uma língua e toda uma literatura. Do castelhano se diz ser «a língua de Cervantes», nós usamos com frequência a expressão «língua de Camões» para designar o português. A língua galega encontra em Rosalía a sua mais emblemática expressão, embora o país seja rico em escritores e em grandes intelectuais – referimos apenas alguns: Manuel Murguia, o marido de Rosalía (1833-1923), Manuel Curros Enríquez (1851-1908), Alfonso Castelao (1886-1950), Carvalho Calero (1910-1990), Ernesto Guerra da Cal (1911-1994), Celso Emilio Ferreiro (1912-1979), Manuel Maria (1929-2004)… De todos eles irei falando. Por hoje, peço a vossa atenção para Rosalía de Castro.

Rosalía de Castro, nasceu em 1837, nos arrabaldes de Santiago de Compostela e morreu em 1885, com 45 anos, no lugar de Padrón. As suas obras principais são «Cantares Gallegos» (1863) e «Follas Novas» (1880). É considerada a fundadora da moderna literatura galega, pois com Manuel Curros Enríquez (1881-1917), Eduardo Pondal (1835-1917) e Manuel Murguia (1833-1923), seu marido, fundou o movimento nacionalista do «Rexurdimento galego».
A emigração, durante as grandes crises sociais que afectaram o país na segunda metade do século XIX, foi a solução para os galegos fugirem da fome e da miséria. Muitos vieram para Portugal. Outros emigraram para outras regiões da Península ou para as Américas. Em «Follas Novas» Rosalía dá corpo poético a um lamento que percorria todas as terras galegas nesses anos negros:
Este vaise i aquel vaise,
i todos, todos se van;
Galicia, sin homes quedas
que te poidan traballar.
Tês, en cambio, orfos i orfas
i campos de soledad;
e nais que non teñem fillos
e fillos que non tén pais.
E tês corazós que sufren
Longas ausências mortás.
Viudas de vivos e mortos
Que ninguén consolará.
A tradução não seria necessária, mas, apesar de tudo, o José Niza fê-la e compôs a bela e impressiva música que o Adriano Correia de Oliveira cantava de forma superior. Isto, numa altura em que Portugal via também os seus homens partir, para a Guerra colonial ou, fugindo à guerra e à miséria, emigrava para países estrangeiros, a canção assumia um significado especial e muito claro. Ora escutem:

Gatos dão de caras com fedorento!

Marinho Pinto esteve à altura do que pensamos dele, sem papas na língua, distribuiu mimos por tudo o que é Justiça em Portugal e terminou em grande estilo. Fujam !

Fujam dos Juízes que não têm competência para o serem, dos magistrados políticos e sindicalistas, dos processos que não andam nem coxeiam, morrem nas gavetas.

Diz-se jornalista e advogado que sempre quiz ser, não olha a nomes nem a lugares, todos são iguais perante a Lei.

Não receia o Ricardo fedorento porque se trata de um profissional que não humilha os seus convidados, ao contrário da Manuela MG que acusa sem provas.

Tem outra paixão que é ser professor e  conseguiu acabar o programa sem gritar, o que é, convenhamos, uma vitória  e peras!

Já?

O Presidente dos Estados Unidos da América, Barack Obama, é o laureado com o Prémio Nobel da Paz de 2009.

Quanto a mim a atribuição desta distinção é muito prematura.

Não tenho dúvidas que o Sr. Barack Obama fará tudo para que a paz seja uma realidade em todo o Mundo.

Mas não nos podemos esquecer que ele só assumiu a presidência há 9 meses.

Pergunto: Não será um pouco cedo demais?

Não contesto, no entanto, o facto do Prémio Nobel da Paz ser entregue a um presidente dos EUA. No passado outros receberam a mesma distinção. Assim aconteceu, por exemplo, com Jimmy Carter.

Vamos ver é se ele vai ser digno da distinção que vai receber.

Assim todos o esperamos…

A máquina do tempo: uma deusa em Alfama

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Diz Mário Cesariny de Vasconcelos, entrevistado por Carlos Câmara Leme para o jornal Público, em 16 de Março de 2003: «A primeira vez que vi a Natália Correia foi no São Carlos. Eu estava na galeria ela no segundo balcão. Quando? Ui! Aí pelos anos 1950. Apesar de já não ter muito afecto a senhoras, ia caindo para o lado do espectáculo de beleza que ela apresentava. Era quase extra-humana, era muito mais linda que a mais bela estátua feminina do Miguel Ângelo. Era uma coisa impressionante. Mas era também uma mulher de um desdém muito grande. Cheguei a julgá-la assexuada ou frígida mas parece que não era bem isso…». Isto, atenção, foi o Cesariny quem disse ( e quando Cesariny diz «parece que não era bem isso», está a referir-se a uma característica da Natália que o Luiz Pacheco contou á saciedade – segundo ele, a Natália, ao contrário do Mário, tinha bastante afecto a senhoras).

Agora a minha história.

Andava eu por Alfama numa véspera de Santo António. Foi, salvo erro em 1958. Estava acompanhado por gente que depois se tornou conhecida, mas dizer os nomes desses amigos famosos nada adiantaria à história. Subitamente, num daqueles pequenos largos onde afluem estreitas ruas medievais, surgiu uma deusa. Como costuma acontecer quando contactamos divindades, fiquei siderado ou como disse o Cesariny, ia caindo para o lado. Havia um coreto com músicos, um céu de bandeirinhas e flores de papel colorido, fumo de sardinhas assadas… – o Santo António , mas tudo isso se esfumou e ali estava eu feito estátua olhando a deusa que se aproximava. E vinha na minha direcção. Vi depois que não vinha sozinha, um homem trigueiro, de bigodes escuros, vestido muito formalmente, acompanhava-a. Nem o vi. Deixem-me descrevê-la: não era muito alta, de formas generosas, sem sombra de obesidade, um rosto oval onde luziam dois olhos escuros, de um brilho ironicamente inteligente. Sumptuosamente linda, se é que me entendem.

Como continuava, com o seu acompanhante a vir na direcção do nosso grupo, o meu embevecimento crescia na medida em que a distância diiminuia. Até que chegaram junto de nós. Beijou as faces dos meus três amigos e esperou que eles me apresentassem. O que fizeram enquanto eu continuava em estado cataléptico. Um deles, deu-me uma cotovelada e lá me aproximei. Estendeu-me a mão. Mirava-me com o olhar divertido de quem sabia o que me ia na mente. E depois apresentou-nos o seu acompanhante. Era o senhor embaixador da República Árabe Unida, uma federação de estados de existência efémera, constituído pelo Egipto, pela Síria e pelo Iémen. Trocámos frases de circunstância em francês, que era o inglês de há cinquenta anos. E a deusa foi-se embora levando o embaixador, dando-me à despedida um beijo na face, olhando-me sempre com o ar trocista de quem me lia os pensamentos. Foi-se, perdeu-se no meio daquela multidão de pobres mortais. Um dos amigos, grande poeta, deu-me um encontrão e disse-me a frase sacramental:
– Acorda rapaz! Olha que ela podia ser tua mãe!
Talvez pudesse, com alguma boa vontade, pois tinha mais 14 anos e uns meses do que eu. Mas não era. Tinha um nome:
Natália. Natália Correia.

Foi um rude golpe quando a vi aderir ao PPD, partido de que foi deputada. Mas nunca me desiludiu como escritora, como intelectual. À sua beleza exterior, correspondia uma grande beleza interior. Não tinha papas na língua, embora deputada de um partido conservador. Quando em 1982, na Assembleia da República, o deputado Jorge Morgado lembrou que a Igreja Católica proíbe o aborto por entender que o acto sexual tem como objectivo único a procriação, Natália, respondeu:

Já que o coito diz Morgado
tem como fim cristalino,
preciso e imaculado
fazer menino ou menina
e cada vez que o varão
sexual petisco manduca,
temos na procriação
prova de que houve truca-truca,
sendo só pai de um rebento,
lógica é a conclusão
de que o viril instrumento
só usou parca ração! uma vez.
E se a função faz o órgão diz o ditado
consumado essa excepção,
ficou capado o Morgado.

Nunca fui frequentador do seu «Botequim». Quis sempre preservar a imagem daquela visão que me surgiu em pleno Santo António no embandeirado largo em Alfama Como uma deusa. Embora, com a tal boa vontade, pudesse ser minha mãe. (Já repararam que esta questão não tem sentido, pois todas as mulheres podiam ser sempre nossas mães, tias, irmãs, filhas, primas… É a síndrome do incesto a atacar).
Como o texto já vai demasiado longo, deixo-vos com a voz de Natália Correia lendo o seu poema «Defesa do Poeta», num serão gravado (em 1971?) em casa de Amália Rodrigues, com a presença desta, de Vinicius de Moraes, de David Mourão-Ferreira, de José Carlos Ary dos Santos. A Defesa do Poeta:

FUTAventar – Paulo Bento parte do problema

Se a equipa do Sporting após quatro anos com o mesmo treinador e os mesmos jogadores, mesmo não tendo vencido quase nada ( uma Taça, um segundo e terceiro lugares, razoáveis prestações nas Europeias ) apresentasse agora uma equipa forte colectivamente, com um naipe de jogadores que desse garantias individualmente, tudo se compreenderia.

Mas não é assim ! O que se vê é que os jogadores jogam como nunca tivessem treinado entre si ( dá a impressão que se juntam ao jantar, antes dos jogos), o jogo é feio, feito de bolas para trás e para os lados, a circulação da bola não se faz com rapidez, não há desenvolvimentos verticais, a bola dura uma infinidade antes de chegar lá à frente.

Então o que faz a estrutura dirigente no clube? Em quatro anos não conseguiram encontrar soluções financeitas e técnicas para poderem comprar os jogadores certos? Ou estão a aceitar que o Sporting deixe de ser, definitivamente, um dos três grandes?

Após os “negócios” com terrenos, construção, velho estádio, novo estádio, academia, habitação, Alvaláxia, o resultado é um clube sem dinheiro, sem equipa, sem património e com um enorme passivo? Alguem responde ? E quem manda no clube são os bancos ? Ninguem sabe nada?

É, assim, tão dificil comprar um jogador de grande nível para jogar no centro da defesa, o que elevaria de imediato o nível de todos os outros defesas, incluindo o guarda-redes? E um jogador tipo “ninja” que deixaram ir embora, para poderem pagar milhares de contos a quem não marca um golo?

O Manuel Fernandes, grande sportinguista, já os ofereceu ! Estão no União de Leiria , e estarão em muitos outros lugares mas como não há quem veja, fiquem-se por quem sabe e está tão perto!

De capa e batina

Uma vez ali em Alcochete estava com uma namorada num restaurante quando entrou um grupo de rapazes e raparigas de capa e batina, com violas e outros instrumentos musicais. Como não há por ali nenhuma universidade (não havia, agora crescem como cogumelos) pensei que a rapaziada andava a fazer pela vida, isto é, a arranjar condições para o namoro se aprofundar e, como tal, podia nascer entre nós uma espécie de cumplicidade.

Logo que a dificil me deu uma oportunidade e me deixou só, eu acertei com o grupo de capa e batina, eh!, pá, vocês fazem aqui uma serenata à dificil e eu pago-vos o jantar, que tal? Que sim o dinheiro é pouco vem mesmo a calhar.

Lá voltou a adúltera, dizia-me que era divorciada e só quando levei com um gajo com 90 Kgs é que percebi que não, e os capas e batinas vá de fazer uma serenata. Joelhos em terra e vá de cantar e tocar os poemas ” que eu não ouvia, era o vento na ramaria, que murmurava só para nós” cantava o gajo com os olhos a tremilicar.

A dificil ficou-se por ali mas logo que me vi aliviado comecei a pensar cá para mim , mas que fazem estes gajos de capa e batina? No meu tempo quando entrei para o primeiro ano do Liceu, havia uns gajos, filhos de gente rica, que andavam no sétimo ano e que podiam ser meus pais. Era a vida deles não faziam mais nada, sempre nos copos e na má vida, usavam a capa e batina porque não havia tempo de ir a casa, era trajo que servia para as alegres e para as tristes, sempre impecável, quanto mais rugas melhor, buracos tapavam-se com emblemas e farrapos de cores diversas.

Mas agora que os “jeanes” são ao preço da “uva mijona”, há roupa porreira por tuta e meia, agradavel e cómoda, porquê o trajo académico?

Hoje, na baixa de Lisboa, lá andava o pessoal de capa e batina a fazer um grande alarido, com uns penicos na cabeça e a fazer umas flexões, tudo muito envergonhado e muito academicamente,correcto.

O problema, é que apanhavam sol uma loiras turistas lindas de morrer ,mas eu não consegui pôr ninguem a cantar!

… finalmente, um nobel para a literatura !

… permitam-me um momento de felicidade (essa coisa que não sei muito bem o que é mas que também pouco me interessa) e um momento de radicalismo intelectual (essa coisa que faz asco a muita gente) : de longe a longe, de muito muito longe, o Nobel da Literatura é atribuído a um(a) escritor(a), o que é muito muito estranho. Herta Muller é um portento da literatura novecentista. a literatura não é uma questão de «gosto». ponto final. por vezes a academia sueca engana-se. ainda bem.

o homem Herta Muller, O Homem é um grande faisão sobre a terra, trad. Maria Mendonça, Cotovia, 1993. (edição de 1500 exemplares; ainda se encontra à venda, fora de catálogo, nos célebres mercados do livro, vejam lá  !)

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Herta Muller, A Terra das Ameixas Verdes, trad. de Maria Lopes, Difel, 1999.

um excerto:

a dália branca
«Nos dias escaldantes de Agosto, a mãe do carpinteiro tinha metido, com um balde, uma grande melancia dentro do poço, A água fez ondas à volta do balde. A água borbulhou em volta da casca verde. A água refrescou a melancia.
A mãe do carpinteiro foi com uma grande faca para a horta. O carreiro era um rego. A alface tinha espigado. As folhas estavam coladas com o leite branco que lhes corre nos pés. A mãe do carpinteiro levava a faca ao longo do rego. Onde a sebe começa e a horta acaba, florescia uma dália branca. A dália chegava-lhe ao ombro. A mãe do carpinteiro cheirou a dália. Cheirou prolongadamente as pétalas brancas. Aspirou a dália. Esfregou a testa e olhou para o pátio.
A mãe do carpinteiro tinha cortado a dália branca com a faca grande.
‘A melancia foi uma desculpa’, disse o carpinteiro depois do funeral. ‘A dália é que foi a perdição dela.’ E a vizinha do carpinteiro disse: ‘A dália era um rosto.’
‘Por este verão ter sido tão seco’, dizia a mulher do carpinteiro, ‘é que a dália estava cheia de pétalas brancas enroladas. Fez-se tão grande como nenhuma dália alguma vez podia ser. E como houve vento neste Verão, não se desfez’. Embora já não tivesse vida, não conseguiu murchar.’
‘Isto não se aguenta’ disse o carpinteiro, ‘ninguém consegue aguentar isto.’
Ninguém sabe o que a mãe do carpinteiro fez com a dália branca. Não levou a dália para casa. Não a pôs no quarto. A dália também não ficou caída na horta.
‘Ela veio da horta. Trazia a faca grande na mão’, disse o carpinteiro. ‘Nos olhos dela havia qualquer coisa da dália. A córnea estava seca.’
‘Pode ser que tenha esperado pela melancia’, disse o carpinteiro, ‘e entretanto tenha desfolhado a dália. Desfolhou-a com a mão. Não havia pétalas espalhadas pelo chão. Como se a horta fosse uma sala.’
‘Acho que’, disse o carpinteiro, ‘ela abriu um buraco na terra com a faca grande. Enterrou a dália.’
A mãe do carpinteiro tirou o balde do poço ao fim da tarde. Levou a melancia para a mesa da cozinha. Espetou a faca na casca verde. Com a faca na mão fez um círculo com o braço e cortou a melancia ao meio. A melancia rachou. Foi um estertor de agonia. No poço, sobre a mesa da cozinha e até cair aberta em duas metades, a melancia ainda estava viva.
A mãe do carpinteiro esbugalhou os olhos. Como tinha os olhos tão secos como a dália, não se abriram muito. O sumo escorria pela lâmina da faca. Os seus olhos pequenos olhavam com hostilidade a polpa vermelha. As pevides pretas pareciam os dentes dum pente encavalitados uns sobre os outros.
A mãe do capinteiro não cortou a melancia em talhadas. Pôs as duas metades da melancia à sua frente. Com a ponta da faca escavou a polpa vermelha. ‘Tinha os olhos mais gulosos que já se viram’, disse o carpinteiro.
O líquido vermelho escorrera pelo tampo da mesa da cozinha. Escorria-lhe dos cantos da boca. Pingava-lhe dos cotovelos. O sumo vermelho da melancia ficou colado ao chão.
‘Os dentes da minha mãe nunca foram tão brancos nem tão frios’, disse o carpinteiro. ‘Enquanto comia dizia: não olhes dessa maneira. não me olhes para a boca.’ E cospia as pevides pretas para a mesa.
‘Eu virei os olhos. Não saí da cozinha. Tive medo da melancia’, disse o carpinteiro. ‘Olhei para a rua pela janela. Vi passar um homem desconhecido. Ia apressado e falava sozinho. Ouvia pelas costas como a minha mãe escavava com a faca. Como mastigava. E como engolia. Mãe, disse eu sem a olhar, pára de comer.’
A mãe do carpinteiro levantara a mãe. «Gritou e eu olhei para ela por ter gritado tão alto’ disse o carpinteiro. ‘Ela ameaçou-me com a faca. Isto não é um verão e tu não és gente, gritou ela. Sinto uma pressão na testa. Tenho as tripas a arder. Isto é um verão que lança as chamas do fogo de muitos anos passados. Só a melancia é que me refresca.»
herta muller «o homem é um grande faisão sobre a terra»

A máquina do tempo: ir «pró maneta»

Hoje vamos fazer uma rápida viagem de dois séculos para trás. Estamos em Lisboa no ano de 1808.
Há uma expressão que, nascida em Lisboa, encontro espalhada por todo o País –« ir para o maneta» ou, como as pessoas dizem: «ir pró maneta». Penso que a maioria dos amigos conhece a história desta expressão, pois já muitos a explicaram. Contudo, como ligo sempre muita importância às minorias, vou contá-la rapidamente. Quando da primeira Invasão francesa, entre Agosto e Setembro de 1808, houve portugueses que julgando as tropas napoleónicas portadoras dos valores da Revolução Francesa, as viam, não como invasoras, mas como libertadoras do estado de atraso em que Portugal se encontrava. Depressa se desiludiram, pois os franceses deixaram por onde iam passando um rasto de destruição, incêndios, violações, assassínio indiscriminado de civis, pilhagens…

Louis Henri Loison, general de Junot, e, mais tarde, de Soult, distinguiu-se pela ferocidade com que ordenava prisões, fuzilamentos e atrocidades. Anos antes, na campanha da Suíça perdera um braço. Montando Junot o seu estado-maior em Lisboa, onde as tropas francesas estavam confinadas após as pesadas derrotas ante as forças anglo-lusas, nomeadamente a do Vimeiro, perto de Torres Vedras, Loison, enraivecido porque as coisas estavam a correr mal, perseguia, prendia, torturava e fuzilava todos os que eram suspeitos de conspirar contra a presença francesa.

Os lisboetas, que depressa o temeram e odiaram chamavam-lhe, com ironia maldosa, o «maneta». Quando Loison prendia e executava alguém, dizia-se, «olha fulano foi pró maneta». E tornou-se frequente o aviso – «Tem cautela, se não vais pró maneta!». «ir para o maneta», perdurou após os franceses retirarem de Lisboa, em 15 de Setembro, retirada negociada em Sintra. Perdurou como sinónimo chocarreiro de morte ou de fatalidade iminente. Ir pró maneta, é coisa da qual ninguém tem pressa.

Eis alguns poemas de poetas populares e anónimos que circulavam de mão em mão sobre o general Loison e sobre o seu comandante, Junot (Jinot, como se dizia):

Entre os títeres generais
entrou um génio altivo
que ou era o Diabo vivo
ou tinha os mesmos sinais…

Aos alheios cabedais
lançava-se como seta,
namorava branca ou preta,
toda a idade lhe convinha.
Consigo três Emes tinha:
Manhoso, Mau e Maneta.

Que generais é que devem
morrer ao som da trombeta?
Os três meninos da ordem:
Jinot, Laborde e Maneta.

O Jinot mai-lo Maneta
julgam Portugal já seu:
É do demo que os carregue
e também a quem lho deu.

Escutas ou escuteiros/escoteiros

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Não sei se rio… não sei choro.

Não, não penso como o José Castelo Branco ou a Lili Caneças.

Por estes dias, creio que ontem, um mail com alguma piada.

Vem tudo isto a propósito da questão das escutas no Palácio de Belém.

Alguém descobriu esta foto de 2007 em que o Presidente da República recebeu uma delegação de escoteiros/escuteiros/escutas que iam participar no Jamboree Mundial que, naquele ano, decorreu na Inglaterra e que celebrava os 100 anos do movimento criado por Baden-Powell.

Para quem não sabe para designar estes jovens existem três terminologias na Língua Portuguesa:

– Escutas – Associado do Corpo Nacional de Escutas;

– Escuteiro – nome genérico;

– Escoteiro – Associado da Associação dos Escoteiros de Portugal;

Ao que chegamos na imaginação da língua portuguesa.

“Escoteiro um dia, escoteiro toda a vida”

FUTAventar – Parte do problema

Paulo Bento está há quatro anos no Sporting como treinador principal.

Uma volta no expresso…

Passando a publicidade, ontem dei uma volta no Expresso on-line. E foi uma volta estranhíssima que me deixou, mais uma vez, preocupado. Costumo passar lá para ler as novidades da Emily. Presa no gelo, na base Amundsen-Scott relata a sua permanência na estação junto com outros investigadores. Não é que tenha grande interesse técnico em saber o que a rapariga faz por lá, mas é uma oportunidade única para mim, saber como é viver com recursos muito limitados, completamente isolado do resto mundo e, também, ter a hipótese de ver fenómenos naturais extremos. Interessam-me as “travessias no deserto”, ainda que neste caso seja mais “estadia no deserto”. Tivesse eu oportunidade (e dinheiro) e o Pólo Sul seria um dos meus destinos de sonho. No entanto, enquanto lia mais umas novidades da base, olho para a barra dos links do lado direito e vejo: “Supositório-bomba é a nova arma da Al-Qaeda”. Como?!? Não resisto e sigo o link. E não é que é mesmo verdade? Agora nem se sabe se o possível “terrorista” sentado ao nosso lado no autocarro não vai explodir mal lhe toque o telemóvel! Paranóia!

“O novo modus operandi da Al-Qaeda foi descoberto na sequência das investigações sobre o atentado cometido contra o príncipe Mohammed bin Nayef , responsável pela luta contra o extremismo na Arábia Saudita. Ficou provado que o activista islâmico Abul Khair trazia o explosivo dentro de um supositório, algo até aqui inédito, tendo utilizado um telemóvel para provocar a explosão.”

Bem, é melhor desdramatizar um pouco a situação e ver umas notícias menos “pesadas” – pensei eu. Mas não dá. Novamente do lado direito, pisca um link que alerta: Gripe A é uma doença “banalíssima”. Quem o diz é Pedro Nunes, bastonário da Ordem dos Médicos. Como disse?!?!

“”Há claramente um excesso de alarme, de zelo”, disse Pedro Nunes, referindo que “não passa de uma gripe, uma doença banal, pouco letal“. Neste sentido, frisou, “o melhor contributo da Ordem dos Médicos é chamar a atenção dos médicos e, através deles, das pessoas, de que isto é uma doença banalíssima e que não é preciso andarmos todos assustados“”

Há coisas que eu não entendo. Mas então anda a miudagem toda a cantar nas escolas para evitar o monstro da Gripe A, juntamente com milhões de portugueses que não conseguem parar de lavar as mãos com aquele gel de álcool e agora é que se lembram de avisar que afinal não é assim tão grave? Mas assim sendo, é ou não é grave? Não tenho o direito a saber? Ou tenho de tirar um curso rápido de medicina para tirar  as minhas próprias conclusões? O cidadão comum já nem tem o direito de ser informado sem contradições evidentes? E o mais preocupante de tudo isto é ler os comentários à própria notícia. Comentários totalmente paranóicos sobre uma conspiração para dramatizar a Gripe A, negócios obscuros com as vacinas, implantação de chips e, claro, a Nova Ordem Mundial . E já não é a primeira vez que noto esta queda geral para a paranóia, partindo seja de que tema for. Não consigo deixar de observar que, lentamente, a paranóia invade a sociedade. E não consigo deixar de pensar que a génese da paranóia é precisamente a contradição, o que equivale a dizer, a mentira.

Isto foi uma autêntica volta no Expresso Preocupado. Desisto de ler as notícias… Se calhar, o melhor que tenho a fazer é tentar arranjar algo para fazer na base Amundsen-Scott.

Escrevi este texto durante a manhã. No entanto, quando ia para publicar, o Aventar foi-se abaixo e ficou em baixo. Terá sido coincidência ou acto propositado? Não se sabe. E é assim que começa a paranóia.

Empresa Frente Tejo SA – a luta continua

Por convite a seis empresas estrangeiras foi escolhida uma delas para apresentar um estudo base para o Terreiro do Paço, tambem conhecido por Praça do Comércio.

Esta empresa, Frente Tejo SA foi constituída, justamente, para poder funcionar ao arrepio dos controlos a que as câmaras estão sujeitas, podendo contratar por ajuste directo (filho selecto do governo socialista) sem ouvir quem quer que seja e muito menos os Lisboetas.

Mas o atrevimento é de tal ordem, como demos conta há dias aqui no Aventar, que nem sequer o vereador da câmamra, Arquitecto Manuel Salgado, resiste a uma feroz crítica. O estudo propõe que as frentes das paredes que dão para as arcadas sejam rasgadas para assim se criarem montras e ali se instalarem lojas e restaurantes.

Tudo nas costas dos Lisboetas, como convém, o estudo está agora em discussão (por uns senhores muito importantes, tão importantes como os que foram convidados para constituirem o juri, que ninguem sabe quem são) e parece que a ideia de o rés do chão ligar aos primeiros andares por umas escadas espectaculares fica, para já, sem efeito.

O mesmo acontecerá com as tais janelas/montras que iam rasgar as paredes dos edificios que, segundo o arquitecto Salgado “são uma gargalhada de mau gosto”.

A empresa Frente Tejo SA como se vê, continua a trilhar o seu caminho de roubar à cidade o melhor que ela tem, nas costas dos Lisboetas, e à Praça junta-se uma série de projectos que pouco a pouco virão à luz do dia, como sejam os Contentores de Alcântara, a acostagem de navios e muitos metros quadrados de betão no rio junto a Santa Apolónia, os edificios no Cais de Sodré que já lá estão sem discussão pública, o Hotel na Marina de Belém que já lá está, a Fundação Champallimoud que vai ser criada junto à marina de Pedrouços, o gigante Museu dos Coches…

Eu não voto no António Costa porque o governo com ele na Câmara faz o que quer, como se vê. Lisboa precisa de uma oposição forte que lute contra este assalto à luz do dia.

Memórias do Reviralho (III)

continuação daqui

III – A revolta militar de 3 de Fevereiro de 1927

Com excepção daquilo que Fernando Rosas (9) qualifica como “comichão insurreccional” da infantaria flaviense, logo em 11 de Setembro de 1926 (10), o movimento de 3 a 7 de Fevereiro de 2007, foi o primeiro e único a constituir uma verdadeira ameaça para a ditadura.
A esquerda republicana, apesar das prisões e deportações logo no consulado de Gomes da Costa, mantinha-se activa e atenta, tanto no Exército, como na Marinha, na GNR, na PSP, na Guarda Fiscal, tanto a nível dos oficiais (superiores e intermédios), como dos sargentos. As organizações de operários, em especial a CGT, bem como os partidos republicanos mantinham-se em funcionamento, e continuavam a editar a sua imprensa, não obstante as crescentes restrições censórias e policiais.
A iminência da revolta era pública e notória. O próprio Presidente Carmona havia visitado o Porto e unidades militares da região, nas vésperas do movimento e os ministros haviam estado reunidos no Quartel de Artilharia nº 3, em Lisboa, “contando espingardas”, e ordenando alertas e prevenções em todo o país.
A revolta inicia-se a 3 de Fevereiro, pelas 4.30 da madrugada, com a saída do Regimento de Caçadores 9, a que se juntou o Regimento de Cavalaria 6, vindo de Penafiel, vários núcleos de outros regimentos da cidade e uma companhia da Guarda Nacional Republicana, aquartelada na Bela Vista.
No dia seguinte, 4 de Fevereiro, vieram juntar-se aos revoltosos os militares do Regimento de Artilharia de Amarante.
Comanda a Revolta o General Sousa Dias (11), secundado pelo Coronel Fernando Freiria e pelo Comandante Jaime de Morais. Dos civis destacam-se José Domingos dos Santos (12), Jaime Cortesão (que havia sido Capitão-médico do Corpo Expedicionário Português), logo nomeado Governador Civil do Porto, e Raúl Proença que teve uma intervenção activa nesta revolta – foi conspirador, organizador e combatente de armas na mão (13).
Os revoltosos tomam de assalto a sede do Quartel-General e do Governo Civil, bem como os Correios, e fazem prisioneiros o general Ernesto Sampaio e o coronel Zamith, respectivamente primeiro e segundo comandantes da Região Militar, o tenente-coronel Nunes da Ponte, governador civil do Porto, e o seu substituto, major Sequeira Tavares e o comandante da força que fazia a guarda ao Quartel-General, tenente Alão, e o presidente da Comissão de Censura à Imprensa.
Nesse mesmo dia, e nos dias imediatos, juntam-se aos revoltosos outras forças do Exército, vindas de Penafiel, Póvoa do Varzim, Famalicão, Guimarães, Valença, Vila Real, Régua, e Lamego. De Amarante chega a artilharia, que é colocada nas imediações de Monte Pedral.
Simultaneamente levantam-se tropas em Viana do Castelo, Figueira da Foz, Faro (apoiadas por forças de Olhão, Tavira e Vila Real de Santo António), combatendo, contudo, por escassas horas.
Lisboa, centro vital, permanece queda, o que obviamente, permite ao Ministro da Guerra, Coronel Passos e Sousa concentrar todas as forças no combate aos entricheirados no Porto.
Montaram-se trincheiras na zona envolvente à Praça da Batalha (14) e, na confluência desta com a Rua de Entreparedes, duas peças de artilharia.
O chefe militar do “Comité Revolucionário do Norte”, Jaime de Morais, envia ao general Carmona, presidente da República, um ultimato: “Os oficiais revoltosos decidiram reintegrar o País dentro do regimen democrático constitucional, com a formação de um Governo Nacional que afirmasse a supremacia do poder civil, guardado e defendido pela força armada, que assim teria restituído as funções de que a desviaram.” (15)
Na própria tarde do dia 3, sob o comando inicial de Craveiro Lopes (16) as tropas fieis ao Governo – parte bastante reduzida do Regimento de Infantaria 18, o Regimento de Cavalaria 9 e o Regimento de Artilharia 5, da Serra do Pilar – concentram-se nesta última e abrem fogo de artilharia contra os revoltosos. Mais tarde, o bombardeamento prossegue a partir do Monte da Virgem (Vila Nova de Gaia), para onde são obrigadas a recuar pela resposta das peças de artilharia vindas de Amarante.
Do lado governamental, na manhã do dia 4, furando o fogo dos revolucionários, o Regimento de Cavalaria nº 8, vindo de Aveiro atravessa a Ponte de D. Luís, mas esbarra nas barricadas que defendem a Praça da Batalha. A mesma sorte têm as tropas fiéis ao regime da própria cidade, que são rechaçadas pelo fogo intenso das trincheiras.
A Leixões chegava, no dia 5, o vapor “Infante de Sagres”, com tropas governamentais, comandadas por Farinha Beirão. Outras atravessam o Douro em Valbom e encaminham-se para o centro da cidade.
Começa então a montar-se o cerco aos revoltosos, envolvendo o Porto num anel de fogo e metralha: pelo Norte as tropas desembarcadas do “Infante de Sagres”; do leste as tropas fiéis vindas de Bragança e da Régua, chefiadas por Lopes Mateus; e em Vila Nova de Gaia concentra-se um verdadeiro exército vindo de todo o país – em números redondos 4 000 homens, munidos de farta artilharia, preparando-se assim o assalto final.
Perante o esmagador e sufocante ataque das forças governamentais, faltando os géneros, e perante um cenário dantesco de destruição, fogo e fome, os revoltosos na noite do dia 5 propõe um armistício. Contudo, face à dureza das condições governamentais apresentadas na manhã do dia 6, ainda se resiste – com os olhos postos em Lisboa, onde, finalmente no dia 7 o movimento arranca – por mais dois dias.
Na tarde do dia 7, o quartel-general, instalado no Teatro de S. João, dispensa os civis ali aquartelados. À meia-noite Sousa Dias faz chegar ao Regimento de Artilharia nº 5, em Vila Nova de Gaia, documento apenas por si subscrito, em que propõe a rendição salvaguardando a isenção de responsabilidades de sargentos, cabos e soldados e toda a responsabilidade dos oficiais. Como resposta as forças fiéis ao Governo admitem apenas a isenção quanto a cabos e soldados. Na madrugada do dia 8, pelas 3 da manhã, sucumbe o Porto revolucionário: Sousa Dias, em resposta, afirma aceitar as condições propostas.
Pelas 8.30 horas da manhã, Passos e Sousa, entra na cidade, pela Ponte D. Luís, depois de ter avisado que qualquer civil apanhado de armas na mão seria imediatamente fuzilado.
Craveiro Lopes, envia ao presidente da República o seguinte telegrama “Felicito V. Ex.ª e o Governo da Nação. Tropas entraram Praça da Batalha, Porto, às 8 horas e meia, tomando conta da cidade onde a vida vai retomando a sua normalidade”.
“Esperava se a revolta simultânea, em Lisboa e Porto. Mas não. Daí o desastre. Não sai igualmente com toda a força de que dispunha ou que estava comprometida. A organização poderia e deveria ter ido mais longe, arrostando com as dificuldades dos ronceiros; mas o optimismo, contando com adesões que não vieram e outras que demoraram, foi fatal”. (17) Sousa Dias, por seu turno, considerou que o insucesso se deveu essencialmente “à falta de acção de elementos militares mais do que suficientes para garantir o seu êxito em todo o País, e que no momento necessário faltaram” . (18)
Em Lisboa, apenas a 7 de Fevereiro, e comandada pelo comandante Agatão Lança e pelo Coronel Mendes dos Reis, irrompe a “revolução do remorso”, como lhe chamaria ironicamente Sarmento Pimentel. A 9 de Fevereiro, pelas 19.30 horas, já sem munições para combater as tropas governamentais (reforçadas, entretanto com a tropa mandada regressar do Porto), Mendes dos Reis pede a rendição. Desta vez cumpre-se a ameaça feita no Porto, e repetida em Lisboa: inicia-se uma caça ao homem, e marinheiros e civis, no dia 9, junto ao chafariz do Largo do Rato, são sumariamente fuzilados.
Balanço final: no Porto, 80 mortos e 360 feridos (19) (segundo alguns autores, mais de 100 mortos e mais de meio milhar
d
e feridos(20)), em Lisboa, 70 mortos e cerca de 400 feridos (21).
Na sequência do fracasso do 3 de Fevereiro, o General Sousa Dias, como muitos outros líderes revolucionários, foi preso e separado do serviço activo, com direito a apenas metade do respectivo vencimento (22), sendo-lhe fixada residência obrigatória em São Tomé e Príncipe, uma situação considerada oficialmente como de deportação política que se prolongou por nove meses, sujeito aos caprichos atrabiliários do Governo. Do degredo continuou a manter activa ligação com os exilados políticos da Liga de Paris, sempre coerente com a sua lealdade aos princípios, valores e ideais constitucionais da República e sempre confiante no triunfo final desta contra a ditadura. (23)
Transferido, em Dezembro de 1927, de S. Tomé para o Faial (Açores), foi julgado em 1929, no Forte da Graça, em Elvas, por um tribunal especial e condenado a dois anos de prisão, tendo-lhe sido descontado o tempo passado em São Tomé e nos Açores. Voltou a ser-lhe fixada residência no Faial, sendo em 1930 transferido para o Funchal.
A 21 de Fevereiro, sem julgamento, são deportados para os Açores e para as colónias africanas, a bordo do Lourenço Marques, mais de 700 pessoas.
A derrota do movimento militar marca o início de uma era de repressão como não havia memória no passado, desferindo um rude golpe nas forças democráticas e republicanas do reviralhismo.

9) Fernando Rosas, O Estado Novo (1926-1974) in José Mattoso (editor) História de Portugal (vol. VII), Círculo de Leitores, Lisboa, 1994.

10) Comandada pelo capitão Alfredo Chaves.

11) O General Sousa Dias encontrava se no Porto, ao tempo, sob prisão e com baixa no Hospital Militar.

12) Líder da Esquerda Democrática, que, em 1918, dirigira a conspiração civil contra a Monarquia do Norte, e agora comandava os combatentes civis.

13) Através do estudo do espólio de Raúl Proença, especialmente a correspondência e as notas que tomava nos seus cadernos de apontamentos, ficamos a saber que, em 25 de Junho de 1926, isto é, um mês depois do golpe de 28 de Maio já se trabalhava em preparar uma revolta contra a Ditadura Militar. Quem liderava o processo era o denominado grupo da Biblioteca Nacional, onde trabalhavam Raúl Proença, Jaime Cortesão, David Ferreira que também tinham fortes ligações à Seara Nova. A 21 de Janeiro de 1927, Raúl Proença parte para a cidade do Porto, para servir como elemento de ligação. Profundamente envolvido na revolta, Raúl Proença convoca os civis para combaterem ao lado dos revoltosos, mas com pouco sucesso. Na noite de 6 de Fevereiro de 1927 regressa a Lisboa para pedir auxílio e para tentar ajudar a desencadear a revolta que começava a enfrentar sérias dificuldades no Porto. Intervenção do Prof. Doutor António Reis, intitulada Raul Proença e a participação em Fevereiro de 1927, em conferência promovida a 2 de Fevereiro de 2007, no Arquivo da Universidade de Coimbra, pelo Centro de Estudos Interdisciplinares do Século XX, sob o tema “A Revolução de Fevereiro de 1927 contra a ditadura: oitenta anos depois”.

14) A que foi erguida na bifurcação da Rua 31 de Janeiro com a Rua de Santa Catarina ficou conhecida como “trincheira da morte”…

15) Citado por José Freire Antunes, “A Desgraça da República na Ponta das Baionetas – As Forças Armadas do 28 de Maio”, Livraria Bertrand, Amadora, 1978.

16) João Carlos Craveiro Lopes, ao tempo comandante da Região Militar e governador militar da cidade, pai do futuro presidente da República (1951-1958), Marechal Francisco Craveiro Lopes.

17) Raúl Rego, “História da República” Vol. V, Círculo de Leitores, 1987.

18) Citado por A.H. de Oliveira Marques, “O General Sousa Dias e as Revoltas contra a Ditadura 1926 1931”, publicações Dom Quixote, 1975

19) Fernando Rosas, ob. cit.

20) Germano Silva a 3 de Fevereiro de 2007, in Jornal de Notícias, Germano Silva.

21) Fernando Rosas, ob. cit. Segundo Germano Silva, loc. cit., em Lisboa, os combates entre os revoltosos e as forças governamentais causaram 90 mortos e 400 feridos.

22) Decreto n º 13 137, de 15 de Fevereiro de 1927 e Decreto de 14 de Julho de 1927.

23) Seguindo de perto o Major-General Augusto José Monteiro Valente, em texto alusivo a Adalberto Gastão de Sousa Dias, publicado na Revista Militar nº 2447 – Dezembro de 2005.

A máquina do tempo: coisas elementares, gente simples – elementos transcendentes na poesia de Neruda

Dou a palavra a Isabel Allende: «A 23 de Setembro de 1973, doze días após o Golpe Militar, morreu Pablo Neruda. Estava doente e os tristes acontecimentos desses dias acabaram com a sua vontade de viver.»(…)«que está a acontecer? Ficaram todos loucos? murmurava o poeta com a vista extraviada.»(…)«Enterraram-no no dia seguinte, numa cova emprestada, num funeral eriçado de metralhadoras ladeando as ruas por onde passou o negro cortejo. Poucos puderam ir com ele no seu último percurso, os seus amigos estavam presos ou escondidos e outros temiam as represálias.» («Paula»,tradução de José Carlos Gonzalez).

Pode, pois, dizer-se que Neruda morreu de tristeza. Uma tristeza profunda por tudo o que estava a acontecer no seu Chile. Estava doente, com um cancro na próstata; a emoção e a tristeza foram demasiadas. O coração do poeta não aguentou.

Li tudo o que pude ler de Pablo Neruda. Sempre em castelhano – naqueles anos 50, os livros dele, não só não estavam traduzidos, não se vendiam livremente, alguns livreiros tinham-nos «debaixo do balcão», como se dizia na altura. Lembro-me da emoção com que, na adolescência, pegava nos livrinhos de capa cinzenta da Editorial Losada, de Buenos Aires e devorava as suas páginas.

Lia Neruda, com a sensação transgressora de quem abre uma porta proibida, ainda com a ajuda de um velho dicionário de David Ortega Cavero. Sabia de cor muitos dos «Veinte poemas de amor y una canción desesperada» e, depois, deslumbrei-me com os ainda mais clandestinos dois volumes do épico «Canto general».

Anos depois, saboreei os quatro volumes de «Odas elementales». Encantou-me a ideia de se dedicarem palavras tão belas a coisas tão simples e comuns, tão ligadas à face mais humilde do quotidiano, como uma cebola, o pão, uma colher, uma laranja, um cão, uma maçã… Uma coisa tão simples como transformar chumbo em ouro. Alquimia que só está ao alcance de um grande poeta como Pablo Neruda.

Em «Confieso que he vivido», confia-nos que nas «Odas» quis descrever coisas já cantadas, ditas e reditas. Como se fosse uma criança que começa, mordendo o lápis, uma redacção sobre o sol, sobre a ardósia escolar, o relógio ou sobre a família humana. Nenhum tema podia ficar de fora da sua órbita, tinha de tocar em tudo, andando ou voando, submetendo a sua expressão à máxima transparência e virgindade.

Ouçamos Pablo Neruda na voz do cantor andaluz Joaquín Sabina:

Isabel Allende conta como no funeral «diante dos olhares raivosos dos soldados, todos iguais, com os rostos pintados para não serem reconhecidos e com as armas a tremer-lhes nas mãos», os amigos desfilavam lentamente, com cravos vermelhos nas mãos, gritando: «Pablo Neruda! Presente, agora e sempre!»

Agora e sempre, Pablo, as tuas palavras ecoam nos corações amantes da liberdade.

A máquina do tempo: a força positiva do futebol – Eusébio

Já aqui confessei o meu gosto pelo futebol e também a minha indisponibilidade para falar do tema sem ser em termos muito gerais – já pude verificar como, rapidamente, pessoas de grande saber e inteligência parecem perder esses atributos mal pegam no assunto. Quem já não é muito prendado, quando discute futebol ainda o fica menos.

O facciosismo, a clubite aguda, são inimigos da clarividência e pasma-me a convicção com que, por exemplo, se afirma que num determinado lance houve ou não houve grande penalidade, quando, por vezes, árbitros e comentadores isentos (se é que os há), têm dificuldade em discernir mesmo depois de verem e reverem o lance de vários ângulos.

Em família, embora sejamos todos adeptos do mesmo clube, lá vou discutindo e dando vazão aos meus sentimentos futebolísticos, se tal coisa se pode chamar às pulsões malignas que o futebol provoca (sobretudo quando o nosso clube não ganha). Em crónicas anteriores, lamentei o meu desapontamento quer face ao mau futebol praticado pela generalidade das equipas portuguesas, quer perante a corrupção associada a este desporto. Verberei as miseráveis claques, gente asquerosa, pelo menos quando em manada. Hoje queria falar de uma força positiva que o futebol também tem. A de ser fonte de inspiração para escritores e não só.

Há muitos anos, traduzi um livro de Ernesto Sábato, o grande escritor argentino, um dos indigitados este ano para o Prémio Nobel da Literatura. Foi o romance «Sobre héroes y tumbas» que na edição portuguesa, e com o acordo do autor, ficou «Heróis e Túmulos». Não foi um trabalho fácil, porque tendo eu estudado o castelhano europeu, deparou-se-me um texto cheio de argot porteño que só consegui decifrar com a amável ajuda de Sábato com quem fui trocando correspondência e que, compreendendo a minha justificada atrapalhação, me mandou um glossário enorme com termos que nenhum dos dicionários de que dispunha registava.

Contudo, o que me surpreendeu num intelectual de tamanha dimensão foi o rigor com que as suas personagens discorriam sobre futebol. Vim depois a saber que Sábato, hoje quase centenário, pois nasceu em Junho de 1911, é um fervoroso adepto do Boca Juniors, o clube do mítico Diego Maradona. Hei-de voltar a falar aqui de Ernesto Sábato e oxalá que seja muito em breve e a propósito da atribuição do Nobel – poucos escritores houve e há que tanto justifiquem esse galardão. Esta a força positiva do futebol – artistas como Maradona, Eusébio ou Pelé, inspiram grandes escritores, artistas plásticos, músicos…

Não é pecado (e se fosse tanto melhor) – sou adepto e sócio do Benfica. Sendo agoráfobo – ou tendo a mania que o sou, o que vem a dar no mesmo – raramente vou ver os jogos ao estádio (mas tenho as quotas em dia). Porém, apesar do meu convicto benfiquismo, alguns dos meus melhores amigos são adeptos de clubes rivais. Para mim, o futebol é um jogo e há coisas infinitamente mais importantes. Mas, quando bem jogado, é um jogo bonito.

Hoje, como o vídeo indicou, queria referir uma figura que transcende as fronteiras do universo vermelho – Eusébio. E, mais adiante, explicarei porque é que não digo «encarnado».
Num almoço que, há muitos anos, por motivos profissionais, tive com o grande musicólogo João de Freitas Branco e com o maestro Ivo Cruz no restaurante Belcanto, no Largo de São Carlos, Freitas Branco contou-me um episódio muito curioso ocorrido durante a vinda a Lisboa do grande violinista ucraniano David Oistrakh, que na altura era considerado o maior executante do mundo, sobretudo de compositores do repertório russo contemporâneo.

Logo após a chegada, a recepção, os cumprimentos, este, chamando Freitas Branco de parte, lhe pediu para lhe arranjar maneira de ir ver o Eusébio jogar. Embora muito surpreendido pelo inusitado pedido, João de Freitas Branco, entrou em contacto com o presidente do Benfica e logo foi disponibilizado um camarote para Oistrakh e Freitas Branco assistirem ao jogo. Diz-se que, no final do concerto, o grande violinista nem sequer veio agradecer pela segunda vez os aplausos do público do São Carlos, para poder chegar rapidamente ao estádio. No final do jogo, em que Eusébio marcou um dos seus magníficos golos, David Oistrakh foi ao balneário cumprimentar o jogador. Sobre este concerto em Lisboa, o grande escritor José Gomes Ferreira escreveu um interessante poema, que vem publicado no 2º volume do seu livro Poeta Militante:

Não, não deixes secar
este fio de água de violino
que nas manhãs de ouro
completa as nossas sombras com flores –
enquanto os pássaros de sementes nos olhos
procuram na espiral dos voos
outro cárcere de recomeço.

A leitura deste belo poema de Gomes Ferreira, leva-nos até a Fernando Namora e a Manuel Alegre. O primeiro, no seu poema «Marketing», alude aos 5-3 do Eusébio à Coreia. Manuel Alegre, sobre o «Pantera Negra» diz:

Havia nele a máxima tensão
Como um clássico ordenava a própria força
Sabia a contenção e era explosão
Não era só instinto era ciência
Magia e teoria já só prática
Havia nele a arte e a inteligência
Do puro e sua matemática
Buscava o golo mais que golo – só palavra
Abstracção ponto no espaço teorema
Despido do supérfluo rematava
E então não era golo – era poema.

Houve e há outros grandes jogadores, nomes míticos como Pinga, Peyroteo, Luís Figo . Mas Eusébio foi, numa época em que o nosso futebol era pouco conhecido além-fronteiras um caso aparte. Ele faz parte da face positiva e inspiradora do futebol.

Falemos agora do vermelho e do maldito encarnado. Nas primeiras décadas da sua existência sempre se chamou aos jogadores do Benfica, os «vermelhos». Em 1936, o fascismo internacional desencadeou a Guerra Civil de Espanha. O governo de Salazar, sem ser de forma oficial, apoiou desde a invasão o exército rebelde nacionalista. E forneceu o apoio logístico que podia – por exemplo as antenas do Rádio Clube Português foram postas ao serviço dos insurrectos emitindo da Parede para toda a Península.

O embaixador do Governo espanhol, Claudio Sánchez Albornoz, apresentou protestos formais, mas indignados. Salazar fez orelhas moucas. Em 20 de Janeiro de 1937, o RCP foi alvo de um atentado com uma bomba-relógio, mas o major Jorge Botelho Moniz, responsável pela emissora, com o apoio do ditador, lá prosseguiu a sua campanha contra os «Vermelhos».

«Vermelhos» foi a designação pejorativa que os fascistas deram às forças leais à República. Os benfiquistas foram proibidos de usar essa expressão que sempre tinham usado para se auto designar e os jornalistas idem. Por isso, não alinho na mariquice do «encarnado» (que até a Benfica TV usa). É VERMELHO, raios os parta!

Viram? Isto estava tudo a correr bem, até podia ter sido acompanhado por um dos diversos concertos para violino do Chopin (os tais que o Santana Lopes descobriu enquanto secretário de Estado da Cultura), mas já está a azedar. O futebol, mesmo sendo uma fonte de inspiração, tem este efeito absolutamente contrário ao do Prozac.

A GNR prendeu os bombeiros

Nós temos um país com muitos problemas mas se estivermos atentos divertimo-nos imenso.

Há uma técnica de combater os incêndios em campo aberto que se chama “contra-fogo”, que consiste em atear um fogo controlado, por forma que o incêndio quando ali chegar, já não tem matéria para arder e assim morre ou é combatido, mais facilmente, nesse local.

Foi o que fizeram os bombeiros numa região do centro-norte do país, devidamente autorizados pela autoridade que coordena as acções dos bombeiros, quando em acção.

Então não é que a GNR viu e não só impediu que os bombeiros ateassem o fogo, como identificou o sub-comandante da corporação e fez a participação ao Ministério Público!

A GNR estava ali para ajudar os bombeiros, controlando os populares, coordenando o trânsito, identificando algum factor que colocasse o trabalho dos bombeiros em perigo. Mas não, mandou-os prender e impediu-os de executar uma técnica eficaz, praticada inúmeras vezes e com resultados.

Agora digam se temos razões para andarmos tristonhos!

Memórias do Reviralho (II)

continuação daqui

II – DO 28 DE MAIO ÀS PRIMEIRAS MOVIMENTAÇÕES ANTIDITATORIAIS. O INÍCIO DO REVIRALHO.

Finalmente, a 28 de Maio de 1926, com a sublevação inicial do Regimento de Infantaria 8, de Braga, e em nome de “um governo nacional militar, rodeado das melhores competências para instituir, na Administração do Estado, a disciplina e a honradez que há muito perdeu” (como se lê na proclamação ao País de Gomes da Costa), inicia-se o movimento militar que rapidamente se estendeu às Divisões militares de Vila Real, Coimbra, Viseu, Tomar e Évora.
O General Adalberto Gastão de Sousa Dias, que, desde 1925, comandava a 3 ª Divisão do Exército, no Porto, assumiu então – após recusar o convite que, a partir de Penafiel, lhe fez o General Gomes da Costa, de se juntar ao levantamento militar, reiterando a obediência devida ao Ministro da Guerra – o comando das operações de resistência, organizando um Grupo de Destacamentos para contra atacar os revoltosos, que nesse mesmo dia marchou em direcção a Braga, ocupando posições em Famalicão e Nine.
Contudo, apenas dois dias depois, dada a clara superioridade das forças revoltosas, por um lado, a neutralização dos reforços enviados de Lisboa, pelo Governo, entretanto demissionário, juntamente com Bernardino Machado, por outro, e por fim a adesão à revolta de várias das unidades sob o seu comando, e após reunião com os comandantes dos vários corpos militares aquartelados no Porto, ao mesmo tempo que pedia a exoneração do cargo que exercia, acabaria por dar, em nome da 3ª Divisão do Exército, a adesão ao movimento.
Face à enorme instabilidade política da agónica 1ª República, à agitação social, e à crise económica e financeira em que o país se encontrava mergulhado, o regime ditatorial obteve senão o apoio, pelo menos a aceitação tácita de uma parte substancial da população.
No entanto ao contrário do que a historiografia do Estado Novo quis fazer crer, não foi nada fácil consolidar o regime que durante quase meio século Oliveira Salazar dirigiu. Com Fernando Rosas podemos mesmo concluir que entre 1926 e 1931, período em que o reviralhismo foi mais activo, o país viveu um período de “guerra civil intermitente”.
O reviralhismo ainda é, muitas vezes, encarado como uma página esquecida da nossa história, porque a história feita pelos vencedores aponta, em especial, no sentido da força hegemónica do Partido Comunista Português, que foi, como se sabe o principal foco de resistência organizada ao Estado Novo.
Segundo Luís Farinha (8), dentro do reviralhismo era possível encontrar dois tipos de facções republicanas: os conservadores ou moderados e os revolucionários ou radicais. Estes republicanos revolucionários estabeleceram uma estreita rede de contactos, em particular com Espanha. Outro dos aspectos a salientar é que quase todos estes homens, pelo menos os que apareceram a liderar os processos de revolta, tinham ligações maçónicas.

(8) Luís Manuel do Carmo Farinha, O Reviralho: revoltas republicanas contra a ditadura e o Estado Novo (1926-1940). Editorial Estampa, colecção Histórias de Portugal, Lisboa, 1998. O 26 de Agosto de 1931 foi o verdadeiro canto do cisne do reviralhismo insurreccional, já que a partir daí o espaço de manobra para a acção revolucionária foi drasticamente reduzido, pouco mais restando do que vagas movimentações que acabam por desaparecer com o rebentar da Segunda Guerra Mundial.

poema frásico

Se deres a uma mulher o teu esperma ela pode transformá-lo em prazer

Aos homens burros

Se deres a uma mulher o teu esperma ela o transforma num bébé.

Se lhe deres uma casa ela a transforma num lar.

Se lhe deres produtos de mercearia ela os transforma numa refeição.

Se lhes deres uma flor ela dá-te o coração.

Não sejas burro olha que se a tratares mal ela dá-te de volta uma camioneta do que tu mereces!

Manipulação, outra vez

amigo3

Fotografia retocada com o fim de modificar a aparência corporal de uma pessoa.” Se tudo correr como previsto, e se a lei proposta for aprovada, é esta a frase que vai aparecer junto das imagens retocadas digitalmente.

Provavelmente, alguém no estrangeiro andou a ler umas coisas aqui no Aventar sobre a manipulação de imagem. Vai daí, querem estabelecer regras sobre o uso de imagens manipuladas. Não me admira nada que sejam deputadas europeias que queiram regulamentar estas imagens! Fico satisfeito por alguém reconhecer que há um efeito pernicioso latente quando alguém pega numa imagem e a altera completamente, mostrando algo que não é real.

Ainda assim, nem todos precisam de recorrer à manipulação digital. Munidos apenas com um pouco de imaginação há quem chegue a resultados igualmente surpreendentes.

sem photoshop

Mais uma sugestão livre de manipulações digitais.

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Cavaco seria capaz de ir aos Gatos?

Alguns amigos meus insistem para que eu, aqui no Aventar, avance com esta proposta. Uma espécie de leilão para saber se somos capazes de levar Cavaco aos Gatos Fedorentos. Uma onda de apoio à proposta e Cavaco teria dificuldade em dizer que não.

É, claro, que isto não tem pernas para andar. Desde logo porque Cavaco não tem razão nenhuma para aceitar. Não anda em campanha, é Presidente da Republica e não está à vontade num programa de humor. Mas que seria um furo, lá isso seria.

Parece que a prestação de Soares entusiasmou muitos dos seus apoiantes, mas a verdade é que Soares é capaz de dizer que “Deus não é Deus” com o mesmo à vontade com que depois vai ao Vaticano prestar juras de fidelidade eterna. Gostaria mais que se intranquilisasse com a situação do país que não lhe tira o sono, como já teve ocasião de dizer quando da crise de há vinte anos. Nada lhe tira o sono, e o pobre do Ministro das Finanças acordou-o às três da manhã, para lhe dizer que o país estava à beira da bancarrota e Soares mandou-o à vida, dizendo que na hora do expediente tratariam do assunto.

São duas pessoas completamente diferentes e o que sobra de à vontade em Soares falta a Cavaco numa grande dimensão.

Mas aqui fica, que aqui no Aventar não temos razões para ter medo de propostas tipo “Gato Fedorento”!